segunda-feira, 11 de julho de 2011

Se Aurélio Buarque de Holanda Ferreira soubesse!

Demos nomes aos bois, ou – se preferirem – aos leões, aos gansos, aos rouxinóis!
Refiro-me... aos fatos!
O povo, ao usar a expressão “dar nomes aos bois”, entende personagens implicados em fatos.
Os homens, portanto, e os fatos são os verdadeiros bois da expressão popular!
Quero, agora, referir-me a um fato, que envolve um personagem notável: na recente liquidação de livros da Ábaco, comprei por cinco reais, uma seleta em prosa e verso do autor do Novo Dicionário da Língua Portuguesa, do qual tenho a edição mais recente, com o título de  Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa.
Não preciso elogiar tão monumental repositório vocabular, talvez o mais útil amansa-burros do país.
Informo que nem o Aurelião, nem o Dicionário de Usos do Português do Brasil, de Francisco Borba, registram o verbete: amansa-burros.
Entendo a delicadeza dos dicionaristas!
Nenhum deles admite, nem por hipótese, que os consulentes possam ser burros, em sentido metafórico, é claro!
Não seria elegante.
Eu me assumo como consulente, digno de figurar no coletivo relativo aos burros, no coletivo dos assim ditos: - quadrúpedes solípedes, menos corpulentos que os cavalos e do mesmo gênero deste, com orelhas muito grandes, um tope de pelo na extremidade da cauda e crina curta (é essa a definição de burro, extraída de um de meus dicionários).
Obviamente, sou um quadrúpede solípede metafórico!
Autorizo que me incluam num lote de burros, ou - de acordo com o lexicógrafo Francisco Fernandes - numa burricada: porção de burros, jericada.
Nessa altura
- una lacrima spunta nei miei occhi...
Sou um sentimental em relação a dicionários! 
Quantas vezes já estive a pique de adquirir um Moraes,não evidentemente um exemplar da primeira edição, mas um exemplar de edições posteriores, sabendo que Manuel Bandeira cantou, em prosa e verso o velho Moraes!
Sempre desisti no último momento - por uma sorte de escrúpulo.
Podia eu, modesto professor da UFRGS, adquirir um dicionário de tão alto prestígio, prestígio, por assim dizer, heráldico, por um preço incomum, para satisfazer um desejo de erotismo lexicológico?
Imaginava-me chegando a casa, e minha mulher, compreensiva em relação a despesas dessa natureza, perguntando:
- Querido, outro dicionário?
- Mas este é o clássico!
- Como clássico?!
- Sim,o dicionário do Manuel Bandeira...
-  Não tens o Figueiredo, o Aulete, o Aurélião, três outros do Francisco Fernandes,, mais um, grandalhão, cujo autor é um tal de...
- Mesquita de Carvalho – intervenho, socorrendo-a.
- Não achas exagero?
- Mas este é o do Manuel Bandeira, o classicão! O melhor de todos...
- Vais realmente utilizá-lo?
Era aí que eu vinha abaixo!
Caía do cavalo como São Paulo em Damasco!
Devido a isso, deixei de comprar o Moraes!
Morrerei, portanto, com duas frustrações.A primeira: não ter conseguido tocar violão clássico; a segunda: não ter conseguido comprar o Dicionário Moraes!!
Volto a Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.
Contista, ensaísta, crítico literário, memorialista, dicionarista, tradutor: há muito que admirar no autor do Aurelião!
Comentarei, agora, uma análise que Aurélio fez de um poema de Manuel Bandeira.
Reproduzo-o, para delícia do leitor:

Rondó dos Cavalinhos

Os cavalinhos correndo.
E nós, cavalões comendo...
Tua beleza, Esmeralda,
Acabou me enlouquecendo.

Os cavalinhos correndo,
E nós. cavalões, comendo...
O sol tão claro, lá fora,
E em minh’alma anoitecendo!

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões comendo...
Alfonso Reyes, partindo,
E tanta gente ficando...

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
A Itália falando grosso,
A Europa se avacalhando...

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O Brasil politicando,
Nossa! A poesia morrendo...
O sol tão claro, lá fora,
O sol tão claro, Esmeralda,
E em minha alma anoitecendo!

(Extraído do livro de Manuelk Bandeira: Estrela da Manhã).

Aurélio diz, a respeito desse poema, que ele não queria que o poema acabasse como acaba.
Explicando-se, acrescenta:
- (O leitor) pode até não querer que o poeta haja sentido ou pensando assim como pensou ou sentiu.
Aurélio explica que, ao ler o poema de Bandeira, pensou nos cavalinhos de carrossel: - aqueles cavalinhos de pau, firmemente presos, e em que, no entanto a gente realizava as mais prodigiosas viagens, imensas viagens circulares obrigadas a música de harmônica, e com paisagens humanas – pessoas que em redor nos fitavam, encantadas, talvez invejosas.
Qual não foi a decepção de Aurélio quando o próprio Manuel Bandeira lhe disse que o poema não tinha nada a ver com os cavalinhos de carrossel. Explicou-lhe que compusera o poema após um almoço de despedida a Alfonso Reyes no restaurante do Hipódromo da Gávea:
- Enquanto se banqueteavam, os cavalões assistiam à corrida dos cavalos de carne e osso, a alguma distância. Naturalmente a distância, aliada à ternura pelos bichos que se matavam para gozo ou proveito dos homens, apequenava-os poeticamente em “cavalinhos”. E, vendo aquilo, Bandeira teria começado a ver também o mundo correr, girar, como giravam os animais na pista. Assim, ou mais ou menos assim, se formou o poema na fantasia de Bandeira. São estes os seus cavalinhos.
Aurélio não se resignou à experiência do poeta. Segundo ele, os cavalinhos do poema deviam ser os do carrosssel.
Conclui:
- Como os freqüentadores de cinema (por vezes) não queriam que a fita “acabasse assim”, também eu não quero que o “Rondó dos Cavalinhos” Seja assim como Bandeira pensou.Para mim eles são o que eu senti, e sinto.
É justamente sobre isso que desejo refletir.
Sou também poeta, e gostaria de opinar sobre a pretensão de Aurélio.
Dou-lhe razão.
O poema tem duas existências: uma na alma do poeta; outra na consciência do leitor.
A experiência do poeta é só dele.
Um poema pode nascer de um episódio qualquer, inclusive de um episódio sem importância. O estado psíquico do poeta é uma lente de aumento que chega a conferir importância a uma ação trivial.
Ou antes: pode descobrir, numa ação trivial, uma dimensão metafísica, humanista, social, erótica.
Porém o poema não é só a experiência anímica do poeta: é também o trabalho do poeta, sua capacidade memorativa e imaginativa de transfiguração da experiência, que vai se concretizar num artefato verbal, o poema.
Existem, pois, no poeta: duas realidades: a de uma pessoa, de um eu único, que possui impressões digitais que o podem salvar ou incriminar perante a polícia; e a de um faber, isto é, um artesão especializado, que produz (poietès quer dizer: fazedor; produtor), ou seja, autor.
O ofício do poeta não é transmitir impressões pessoais, nem emoções sigilosas.
Estas são o gatilho do poema.
A função específica do poeta é criar um poema, um conjunto de palavras que sugira no leitor uma experiência análoga à que o poeta sentiu dentro de si.
Análoga - não igual.
Aurélio tem razão: o leitor pode fazer do poema o que lhe apetecer, ou antes, o que ele for capaz de fazer. Um mau leitor pode pôr a perder um poema de Camões ou Dante.
Um bom leitor salva o pior dos poemas!
Um leitor excepcional, nem põe a perder, nem salva.
Um leitor excepcional é uma humilhação para o poeta: ele cria um poema maravilhoso para si, a partir do pior ou do melhor dos poemas!
É isso que explica por que certas pessoas também se encantam com poemas medíocres.
Quanto a mim, prefiro leitores normais de poesia, nem obtusos, nem excepcionais.
Os primeiros não merecem poema algum; os segundos, deveriam compor seus próprios poemas, e não pendurar-se à galharia torta, ou às ramagens vergadas de frutos, dos poetas verdadeiros.
Aurélio pode ler o Rondó dos Cavalinhos de acordo com suas experiências da infância. A leitura é correta.
Qualquer leitura poética que esteja a favor do poema é meritória. Só não o é a leitura que pretenda impor ao poeta as experiências emotivas do leitor.
Poeta e leitor, cada um deve ficar no seu devido lugar. O poeta, fiel às emoções secretas de sua alma, o leitor, fiel às emoções secretas de sua alma (e, possivelmente, às emoções advindas de outros poemas e leituras).
Não deve fazer-se um mix de emoções confusas. Cada qual, poeta e leitor respeite seu próprio mundo.
No que me diz respeito, leio o Rondó dos Cavalinhos à maneira de Aurélio, mas também adiro a um fundo existencial que tem a ver com Manuel Bandeira.
Porque o poema de Bandeira estrutura-se em dois planos:
I.           O da saudade vivida antes do tempo;
II.         O da crítica implacável a um mundo, que se torna cada vez mais (e continua a tornar-se!) chato, velhaco, canalha.

No plano da saudade antes do tempo, Bandeira celebra as boas coisas da existência: Esmeralda (uma amante,uma cortesã, um sonho erótico?),o sol, as doçuras da Natureza, o mexicano Alfonso Reyes (que Borges considerava o melhor estilista contemporâneo da língua espanhola!).
No plano da crítica implacável, Bandeira recorda a Itália de Mussolini, a que falava grosso, a covardia da Europa curvando-se a Hitler, a politicagem brasileira.
O poema de Bandeira é uma gangorra, um vaivém que se apóia num eixo de esperança, como tudo o que escreveu o autor de Libertinagem.
Que o leitor de poesia se sinta à vontade diante de um poema!
O poeta, talvez, espere um pouco mais dele, ou seja, três coisas:
a) Abertura de alma e coração, de inteligência e de sensibilidade;
b)Um mínimo de criatividade neuronal.      
c) Um mínimo de “acolheramento” lírico.
Acolherar: atrelar ou ajoujar (animais) por meio de colhera. T.e p. Unir, juntar.
(Cf. ,Glossário, de autoria do próprio Aurélio Buarque de Hollanda, publicado como apêndice a: Contos Gauchescos e Lendas do Sul.Edição crítica aos cuidados de Aurélio Buarque de Hollanda; Prefácio e nota de Augusto Meyer; Posfácio de Carlos Reverbel. 2 ed. Quarta impressão. Porto Alegre, Editora Globo, 1961. p. 362).
Entendo por acolherar a capacidade que o leitor tem de juntar o poema que está a ler a todos os poemas que j

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