quarta-feira, 20 de julho de 2011

Meditação Sobre o Pecado.

      O filósofo francês Merleau-Ponty admirava-se de que, na atualidade, ninguém mostrasse interesse em provar a existência de Deus.
Hoje há muitas pessoas que se admiram do pouco interesse que os católicos têm em refletir sobre o pecado.
      Pertenço a uma geração sobre a qual se despejaram “pseudo-informações” sobre o mistério da maldade humana.
      Para dizer a verdade, os mestres do Catecismo, e até de Teologia do século XIX, pareciam ser excessivamente peritos sobre essa tragédia humana.
Lembramo-nos de que, numa época relativamente recente, se dizia, quase sorrindo, que os homens nascem em estado de pecado. A realidade “Pecado Original” era admitida, não como algo dramático para cada ser humano, mas como uma espécie de assépticaverdade matemática.
      No dia em que, menino, me apercebi da tristeza que envolvia a Semana Santa, com suas cerimônias em tom lastimoso, descobri que a morte de Jesus era atribuída “aos pecados dos homens”.
      Como assim? – questionava-me.
      Então, fora o Pecado que entretecera uma coroa de espinhos para a cabeça de Jesus, e lhe trespassara o peito? Fora esse monstro que decretara seu suplício?
      O pior veio mais tarde, num dia em que me arrepiei de verdade, mais do que aquele dia, em de repente vi no mato uma cobra coral! Tinham-me dito que uma picada dessa cobra podia matar uma pessoa.
      Refiro-me, ainda, aos sacerdotes que nos pregavam o Inferno, com poder de imaginação maior do que se o tivessem visitado pessoalmente.  
      Deixemos claro uma coisa: não proponho simplesmente que se negue o Inferno.
      Proponho que se aplique ao Inferno o critério proposto por Santo Agostinho no século IV e, mais tarde, por Santo Anselmo, no século XII:
      - Crê primeiramente. Depois, pensa no que acreditaste.
      Qualquer cristão luta, à maneira de Jacó, com um anjo: ou seja, deseja compreender o Pecado.
      Não há dúvida de que o primeiro pecado foi o de Adão e Eva. A Bíblia dá uma versão mítica dele. Não se trata de algo falso, mas de algo enigmático.
      A revelação diz-nos que ocorreu um grave acontecimento na história da Humanidade. E que esse acontecimento foi uma rebelião de nossos primeiros pais.
      Mais explicitamente: eles quiseram ser como Deus. Se dependesse deles visto que não pode haver mais do que um Criador - dispunham-se, imaginativamente, a eliminá-lO.
      Foi algo semelhante ao que aconteceu a Lúcifer e a seus anjos rebeldes.
Seria ridículo imaginar Adão e Eva dispondo-se a matar... Deus! Como poderia a criatura dispor desse poder? Não se trata de um assassinato real, mas de um assassinato imaginário.
      Perguntemo-nos: toda vez que um ateu convicto nega Deus, não está ele incidindo no mesmo pecado?
      O ateu, na sua condição de ateu,eleva às alturas seu EU. Se tivesse de aceitar outro Ser acima dele, ao qual devesse submissão (Islã significa precisamente submissão), dispor-se-ia a eliminá-lo.
      Referi-me à palavra Islã para acentuar a radicalidade do monoteísmo muçulmano.Os muçulmanos não admitem que uma criatura possa ser atéia. Segundo eles, esse é o maior pecado.
      O episódio da Serpente e da Maçã não passa de um poema. Como, também, são alegóricos os dias da semana,no Livro do Gênesis, em que o escritor sagrado dispôs as diferentes fases da Criação.
Após tal tragédia inicial, os homens prosseguiram na sua série de rebeliões, ao longo da História.
      A escolha do Povo Israelita, para preparar a vinda do Messias (Jesus significa Salvador) representa um fato histórico de imensas conseqüências, só superado pela chegada efetiva a este mundo do próprio Filho de Deus.
O Cristianismo é a aceitação dessa Revelação. É a aceitação, também, de que a rebelião inicial foi extinta com a obediência de Jesus ao Pai, e com seu sacrifício na Cruz em favor dos homens.
      O Pecado, portanto, deixou de existir depois da vinda de Jesus e de sua Morte Redentora.
      Deixou de existir?
      Mas como?
Deixou de existir o pecado anterior a Jesus, que foi aniquilado. Ficou a possibilidade concreta de pecado dos homens atuais, que consiste em aceitar ou não a Encarnação de Cristo.
      O pecado original da Nova Criação é a recusa ou aceitação de Jesus.

      II. Estou impressionado com uma descoberta: entre meus amigos, que puseram entre parênteses sua Fé, a maioria deles deixou de ser católica por uma razão: não suportam carregar sobre os ombros complexos-de-culpa!
      Dizem-me que guardam da infância, ou da adolescência, recordações pavorosas. Quando lhes indagamos sobre tais recordações pavorosas relatam-me suas angústias sobre masturbações, roubos de goiabas, surripiação de dinheiro esquecideo pelo pai ou pela mãe sobre uma mesa, e outros episódios similares.
      Que pensar sobre isso?
      Nossa geração foi a dessas pessoas sobrecarregadas com esse tipo de culpabilidade.
      Naqueles tempos havia uma insistência obsessiva em torno de pecados contra a castidade! O próprio poeta Cabral de Melo Neto contou como, nos seus tempos de aluno de um Colégio Marista do Recife, ficou marcado marcou com ferro em brasa devido aos tormentos infernais que os Irmãos faziam desabar sobre as almas dos adolescentes.
      O poeta só regressou ao Catolicismo aos 80 anos, graças à sua segunda mulher, Marly de Oliveira, que lhe deu nova visão sobre o Catolicismo.
 Se alguém deseja saber como morreu esse gênio brasileiro, leia o texto que inserimos neste blog, há algum tempo.
      Convém refletir responsavelmente sobre o Pecado, talvez o primeiro bicho-papão dos ex-católicos contemporâneos, seguido de perto por outro bicho-papão, o Inferno.
      Recentemente, numa igreja de Porto Alegre, ouvimos um sacerdote empregar expressões inadmissíveis num anunciador da Boa Nova.Expressões como:
      - O indivíduo vai torrar no inferno...
      Não é assim que se expõem os dogmas profundos – e dramáticos - do Catolicismo! Essas verdades merecem reflexões mais humanas e mais cristãs.
Cada católico é intimado a realizar o que Santo Agostinho propunha: refletir sobre sua Fé!
      Refletir não é preparar sanduíches dogmáticos.
      A realidade do Pecado – que São Paulo denominou o Mistério do Mal - merece abordagem, compatível com a evolução do Catolicismo. Não se trata de abolir nenhuma verdade essencial. Trata-se de desoxidar certas expressões, expor uma teologia bíblica mais fundamentada sobre tal realidade.
      Como Jesus tratava os pecadores?
Tomemos dois exemplos o da Samaritana e o da Mulher Adúltera.
      A Samarita declarou a Jesus:

      - Não tenho marido”...
      Pressionada por Jesus, admitiu que tivera cinco, e que o último não era seu marido. (Evangelho de São João, cap. 4).
      Jesus tratou essa mulher com delicadeza. Falou-lhe sobre a sua missão na terra, e confiou-lhe – oh privilégio! - a revelação impressionante sobre sua condição de Messias, isto é, de Salvador do Mundo.
      Não lhe martelou os pecados, nem lhe solicitou esclarecimentos sobre suas perfomances sexuais. Anunciou-lhe, apenas, a Graça Sobrenatural de Deus de que era portador.
      Vejamos o caso da Adúltera.
      Jesus nem sequer lhe disse, como o dissera à Samaritana, o que sabia a respeito dela. Limitou-se a ouvir o que seus acusadores diziam, e a escrever com o dedo no chão...
      Que escreveu ali?
Ninguém o sabe. Alguns imaginam que fossem os nomes de acusadores da mulher. Depois, quando eles terminaram de acusá-la, levantou-se e disse à adúltera, que acabara ficando sozinha diante dele:

      - Ninguém te condenou? Nem eu te condeno. Vai em paz, e não tornes a pecar!

      Não a ameaçou com o Inferno, nem lhe jogou sobre os ombros o peso de sua culpabilidade.

      A estas alturas, é oportuno estabelecer uma distinção clara entre Complexo-de-Culpa e Memória do Pecado.

O Catecismo Católico diz que, para existir pecado, é preciso haver matéria grave, deliberação perfeita, e consentimento total.
Três condições portanto: a existência de um mandamento revelado por Deus, a consciência plena a respeito desse mandamento, e o assentimento lúcido e total.
      Objetará alguém:
      - Jesus não disse que, se alguém vir uma mulher, e a cobiçar, é adúltero desde esse momento, mesmo sem ir para a cama com ela?
Reflexionemos: Jesus falou em cobiçar, em consentir na atração, em dizer dentro de si:
      - Quero ter relações com essa mulher, se tiver a possibilidade de me relacionar com ela.
      Não basta, portanto, sentir! É preciso consentir: isto é, querer de fato.
      A maioria das pessoas confunde o impulso erótico, que se deflagra à revelia do indivíduo, devido ao instinto, com o pecado propriamente dito.
      
José Lins do Rego:
      
- O sexo impunha-me essa escravidão abominável.
(Menino de Engenho. Cap. 36).
      
O sacramento da Confissão, que o sacerdote exerce em nome de Cristo, perdoa o pecado. Aniquila-o. É o poder de Deus, que faz com que um ato mau seja literalmente destruído, como se não tivesse acontecido.
O que fica, porém, a memória do pecado, é um estado psicológico, que deve ser neutralizado pelo penitente, para não virar complexo-de-culpa. A memória é uma espécie de resíduo do pecado, que é preciso tratar com antibióticos espirituais. Se se transforma em complexo-de-culpa, compromete a Fé Cristã.
Uma coisa é lembrar o passado, outra sofrer sua compulsão.

       III. A Igreja Católica declarou Doutoras da Igreja a duas Mulheres: Teresa de Ávila e Teresa de Lisieux.
      São duas Doutoras, que se igualam aos maiores Doutores da Igreja, como Santo Anselmo e Tomás de Aquino. Elas têm muito a ensinar-nos.
      A primeira, Teresa de Ávila é uma médica maravilhosa para os que sofrem de complexos-de-culpa, e também de escrúpulos. Realista, ela sabe que nenhum homem pode viver sem ser importunado, e até assediado por maus pensamentos, contrários à Boa Nova de Jesus. Pensamentos de inveja, de luxúria, de vanglória. Teresa conhece tudo isso. Ela recomenda que não se dê especial importância a tais assaltos imaginários, mas que simplesmente que eles sejam desprezados.
     
Citemos alguns de seus conselhos:
     
- Não faça caso de maus pensamentos, olhe que também os representava o demônio a São Jerônimo no deserto. (Obras Completas. 2 ed. Aveiro, Edições Carmelo, 1978. p. 79).
       E ainda:
      
- Assim é que esta borboletazinha importuna da memória, quando se lhe queimam as asas, já não pode mais esvoaçar.(Ibid.p. 137).
      
Em carta a Dom Teotônio de Bragança, a Santa escrevia-lhe:
      
- A melancolia sente-se contrariada de que dêem mostras de a aliviar, por isso, procure algumas vezes, V. Senhoria – quando se vir oprimido – ir onde veja céu e passear, que isso não lhe tirará a oração e é mister levar esta nossa fraqueza de forma que não se oprima o natural.Tudo é buscar a Deus, pois andamos a buscar meios para isso, e é mister levar a alma com suavidade. (Ibid. p. 1308).
      
Santa Teresa de Lisieux deixou-nos um conselho extraordinário:
     
- A palavra de Jó: “Ainda que Deus me matasse, Nele sempre poria minha esperança”, encantou-me desde a infância. Não obstante, levei muito tempo até me colocar nesse grau de abandono. Agora, estou nele. O Bom Deus pôs-me dentro, tomou-me aos braços, e lá me largou...
      (Santa Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face. História de uma Alma. Manuscritos Autobiográficos. 6 edição. São Paulo, Edições Paulinas, 1986. p.272).
      Teresa de Lisieux é a verdadeira Doutora da misericórdia de Deus.Foi ela quem disse:
      - Se eu tivesse cometido todos os crimes possíveis, teria, mesmo assim, confiança em Deus; sinto que toda essa multidão de ofensas seria como uma gota d’água atirada num braseiro. (Cit.por C. de Meester. Les Mains Vides. Lêe Message de Therèse de Lisieux. Paris, Lês Éditions du Cerf, 1978. p. 151).
      A Doutora da Igreja Santa Teresa de Lisiex tem um papel importante na atualidade: persuadir os homens de hopje que o Deus de Jesus é um Deus Misericordioso, sempre disposto a acolher seus filhos, por mais que estes cometam loucuras. Talvez o poeta Heine tivesse razão quando disse, com sua típica ironia:
      - Deus há de me perdoar! É dever Dele!
      Obviamente, o poeta exagerava, e dava até provas de ser um mal-educado, e um mal-agradecido. O Pai do Filho Pródigo está mais para a gravura famosa de Rembrandt do que para os desaforos de Heine!
É conveniente, pois, que - do mais famoso teólogo ao mais anônimo cristão – aprendamos todos a falar sobre o pecado com menos auto-suficiência, com menos auto-confiança, e sobretudo com mais proximidade ao Mistério.
      Que é o pecado?
      A rigor, só podemos ter uma idéia confusa dele, isto é, uma imagem desbotada. Jamais o compreenderemos na sua totalidade.
Para o saber o que ele é, concretamente, em toda a suaimensa maldade, teríamos de não ter crucificado Jesus.        Atribuir tal crucifixão aos outros, escusando-nos de qualquer responsabilidade, é não entender nada do Cristianismo. Acusar-nos indiscriminadamente, de pecado, sobrecarregando-nos de complexos-de-culpa, é também nada entendermos.
A sabedoria cristã consiste em crermos (trata-se de um ato de fé) que ele existe, e às vezes existe em nós, e que só podemos libertar-nos dele por meio da graça de Jesus.
       A calúnia, que se atribui a Lutero: “Peca fortemente, mas crê mais fortemente!”, não serve de desculpa. A questão não está em alijar dos ombros a culpa que, em certos momentos da vida, nos faz preferir o prazer, o orgulho, e a cobiça, aos mandamentos de Deus.A questão está em perscrutar nosso coração e, diante desse espelho, vermos se nossa imagem e semelhança divina sofreu deformação, ou não,  
      Dante dizia que a vontade de Deus é nossa felicidade.
      Agradeçamos,então, àquela moça gentil que, na Divina Comédia, depois de se auto-definir:

      - Io fui nel mondo vergine sorella:
      e se la mente tua ben sé riguarda,
      non ti celerá l’esser più bella

      ma riconoscerai ch’io son Piccarda
      che, posta qui com questi altri beati,
      beata sono in la spera più tarda

      ajunta-lhe:

      Lo maggior don che Dio per sua larghezza
      fosse creando, ed a sua bontate
      più conformato e quel ch’e`più aprezza

      fu de la volontà la libertate;
      di che le creature intelligenti,
      e tutte e sole, fuoro e son dotate.

      (Divina Commedia. Paradiso, Canto V, 19-24).

Por causa dessa libertate, anunciada pela gentil Piccarda, é que temos a possibilidade de pecar...Mas é também por causa dessa libertate que podemos realizar o que o altíssimo Poeta nos comunicou no Canto III do Paraíso:

- E la sua volontate è nostra pace:
ell’è quel mare al qual tutto si move
ciò ch’ella cria e che natura face.

(Divina Commedia. Paradiso. Canto III, 85—90).

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