quarta-feira, 20 de julho de 2011

José Castello: uma biografia excepcional de Vinícius de Moraes.

Uma das boas coisas da vida é descobrir livros certos, em certas horas, principalmente em horas certas.
Não é bom descobrir um livro antes de se estar maduro para ele. Nem descobrir um livro em época tão tardia que, nesse momento, o livro já esteja apodrecido para o leitor.
Surge a questão:
- Será que os livros também apodrecem?
Os grandes livros não apodrecem nunca!
Grandes livros são os livros que retratam experiências humanas fundamentais. Livros há que são como prontos-socorros: valem para determinado momento. Pincelada a arranhadura, colado o band-aid, não se tem mais necessidade deles.
Para dizer a verdade, não sei se somos nós que escolhemos os livros, ou se eles nos escolhem.
É lógico que um livro sempre é encontrado por um leitor. Mas o fato de o leitor ser tocado por ele, é outra coisa.
Um livro supõe um estado de espírito.
Existem pessoas que nunca passam de um estado de espírito para o outro. Tais pessoas não podem ler nenhum livro com proveito.
Ler é preencher vazios que trouxemos do berço, e que precisam ser preenchidos. Somos, na verdade, um campo onde é preciso semear, cultivar, colher.
Expliquei, noutro texto deste blog, como vim a descobrir o gênio de Victor Hugo.
Ansioso por saber algo mais sobre a biografia do grande poeta e romancista francês, fui à procura de tais subsídios.
Esbarrei num autor, para mim, desconhecido: Matthew Josephson, cuja obra: Victor Hugo. Uma Biografia Realística do Grande Romântico (Tradução de Vinícius de Morais. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1947) me interessou.
Resolvi ler essa biografia por dois motivos:
O autor qualificava sua biografia de realística.
Os editores publicavam com certo destaque o nome do tradutor: Vinícius de Morais.
Pensei:
- Vinícius tem qualquer coisa de Victor Hugo, tanto por sua poesia, de ressonâncias românticas, como por sua vida de poeta de sucesso popular. Ambos, Victor Hugo e Vinícius, foram dois faunos, dois sátiros, dois espantosos sedutores de mulheres!  
Quis a sorte que, noutro sebo, encontrássemos um exemplar praticamente intocado de uma biografia recente de Vinícius, de autoria de José Castello: Vinícius de Moraes, O Poeta da Paixão.(2 edição; 3 reimpressão. São Paulo, Companhia das Letras, 1997).
Chamo a atenção dos leitores sobre um fenômeno: a melhor hora de se ler um grande livro é fora de hora.
Estou, aparentemente, me contradizendo. Caso o leitor tiver certeza disso, aceite tal contradição!
Quero dizer o seguinte – e esta nova formulação de meu pensamento, ajudará o leitor a perdoar-me a aparente contradição: é melhor ler um livro quando está fora de moda.
Ler um livro é uma aventura, quando ninguém está interessado nele, quando parece que o encontramos tresmalhado, solto no mundo, à disposição de quem quiser abordá-o. É uma espécie de milagre ler um livro por ele mesmo, porque deu na gente, de repente, vontade irresistível de descobrir-lhe o conteúdo.
Ler um livro como quem foi ajuntar um moeda na rua, e – subitamente - topa numa safira ou numa esmeralda.
Nos últimos tempos, topei em cinco safiras (ou, se quiserem) em cinco esmeraldas.
Cinco biografias, tão bem elaboradas que parecem romances.
Ei-las:
Gerald Clarke: Truman Capote, Uma biografia.(Dediquei a esse livro um texto neste blog).
Matthew Josephson: Victor Hugo (já mencionada).
Fernando Morais: Chatô, o Rei do Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 1994.
Ruy Castro. O Anjo Pornográfico. São Paulo, Companhia das Letras, 2011.
José Castello: Vinícius, o Poeta da Paixão.2 ed. São Paulo, Companhia das Letras, 1997.

Convém frisar: ler essas biografias é extrapolar o biografado. É conhecer um povo, uma cultura. Ou, pelo menos, o habitat desse povo.
A vida de Chateaubriand, a rigor, é uma epopéia da canalhice, da chantagem e do arrivismo nacional, um painel do que já houve (e ainda há) de pior na política e nos meios de comunicação de nosso país.
Não desejo, porém, satanizar Chateaubriand.
Pelo contrário.
Como ser humano, ele sempre nos interessou por sua incorrigível infelicidade. Se pudéssemos ajudá-lo, ajudá-lo-íamos;
 Na verdade, podemos ajudá-lo. A fé cristã garante que se pode orar por qualquer indivíduo humano morto.
Afinal, os cristãos oram a Deus, que vive na Eternidade, que é um perpétuo presente. Ele aceita a prece feita após a morte de qualquer indivíduo, uma vez que não há antes, nem depois – categorias de tempo e de espaço – para o Criador. Por isso, oremos por Chateaubriand, e por todos os jornalistas e empresários do seu gênero, infelizes, que nunca abdicaram de sua desimportância.
O mesmo diremos de Victor Hugo, cuja biografia nos deixou encantado, aturdido,e entristecido!
Que diremos da biografia de Truman Capote? Já escrevemos neste blog a respeito.
Diremos algo sobre Vinícius de Moraes, não sem antes agradecer a José Castello ter-nos brindado com uma obra-prima no gênero. Seu livro é documentadíssimo. Delicia-nos, também, seu estilo límpido, flexível, saboroso.
Depois de ler essa biografia, senti-me mais brasileiro, um pouco mais culto, mais solidário, e...também mais infeliz!
Algum dos leitores objetará:
- Vinícius foi, no início de sua vida católico convicto! Pertenceu ao Centro Dom Vital,no Rio de Janeiro, privou com pensadores e escritores católicos, seu primeiro confessor foi uma figura de jesuíta que se pode ser considerada um Santo: o Padre Leonel Franca!
É relativamente fácil tirar a pele a um corpo humano. Difícil é tirar a pele a uma alma!
Não estou convencido de que Vinícius tenha conhecido um catolicismo autêntico. Conheceu determinada experiência católica.
A fé evangélica é mais do que isso. É uma adesão, de natureza pessoal, a um Ser, o Verbo que se fez homem.
Não parece ser esse o caso de Vinícius.
Não consigo descobrir, na biografia de Castello, a dimensão misteriosa da vida católica.
Procedamos com calma porque o terrenos parece minado.
Que nos diz José Castello sobre a iniciação de Vinícius à Fé Católica?
Não nos diz muita coisa.
Informa-nos: que Vinícius, certa vez, disse com grande lucidez a respeito de si próprio: “Sou um labirinto em busca de uma saída” (Ibid. p. 13); que teve uma bisavó que escreveu uma apaixonada vida de Cristo, e uma História da Santa Virgem (1869); que teve outra avó, esta paterna, com idéias tão libertárias que ousou compor um poema: A Lei do Divórcio; que o marido dessa avó era cético; que o pai de Vinícius, doutor em latim, deu ao Poeta o nome de Vinícius em razão do romance Quo Vadis, de Henryk Sinkiewicz, adaptado, pela primeira vez ao cinema em 1912; que Vinícius, quando menino, teria referido a dois gêmeos da Ilha do Governador uma pretensa aparição da Virgem Maria (Ib. p. 36-37); que, ao entrar, aos 11 anos,  para o Colégio Santo Inácio, dos Padres Jesuítas do Rio de Janeiro, se apresentou “crédulo, feliz, vulnerável”, e que a religião, “para aqueles padres cinzentos, habituados a tecer a fé com o fio do medo” se impunha pela intimidação (Ib. p. 47); que a fé “não é uma questão de persuasão, mas de medo: “deve-se temer a Deus para, só depois, amá-lo”(Ib. p. 48); que o primeiro confessor de Vinicius foi o Padre Leonel Franca, então com 30 anos, que não poupava seus discípulos com lições de autodisciplina e transcendência” (Ib. p. 48); que, aos 17 anos incompletos, Vinicius era um rapaz “preso de um modo quase infantil à formação espiritual aplicada pelos jesuítas” (Ibid. p. 59); que foi então que Vinicius travou amizade com Octavio de Faria, cinco anos mais velho que ele, “rapaz feio e inflamado” que tinha o prazer “de seduzir seus colegas pela alma”(Ib. p. 67); que o problema religioso de Vinicius parece ter-se agravado na companhia de Octavio de Faria, “figura-chave na formação de Vinicius” (Ib. p. 69).
Prefiro remeter os leitores ao livro de José Castello, a fim de que leiam o que o autor diz nas páginas 69-74, onde relata episódios de natureza mais ou menos complexa, mais ou menos enigmática. O biógrafo atribui excepcional importância a uma carta, de 15 de dezembro de 1932, escrita por Octavio de Faria a Vinicius, “seu objeto de adoração preferido” (Ib. p. 84).
Consultar, ainda, o que o biógrafo escreve nas páginas 89-95.
Na página 99 da biografia, José Castello anota:
- Contrariando o destino trágico vaticinado por Octavio de Faria em “Mundos Mortos”, Vinicius de Moraes desce, finalmente, ao chão para praticar, em sua plenitude, sua doce vida de serpente. Anos mais tarde, relembrando esse desfecho, dirá: Fui salvo pela mulher. (Ibid. p. 99).
Que inferir de tudo isso?
Que Vinicius teve uma educação católica repressora. Dito de outra maneira: uma iniciação tortuosa, apesar de o Poeta mais tarde ter tido contatos frequentes com intelectuais católicos de renome, inclusive Jayme Ovalle e Augusto Frederico Schmidt. O primeiro foi autor de uma sentença que todo brasileiro teria orgulho em endossar:
- O mundo sem os chatos seria insuportável (Ibid. p. 122).
O segundo tornou-se poeta católico, apesar de, fisicamente, ser gordíssimo! Uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas mesmo assim vale a pena indicar tal pormenor, aliás, pormaior...
Não é nossa intenção esmiuçar a vida amorosa do Poetinha, como lhe chamavam,o qual teve “nove mulheres oficiais”, cujo Curriculum Vitae José Castello descreve com objetividade e delicadeza.
Diria que José Castello merece um prêmio nacional por não não incidir jamais na grosseria.
Castello  não se excede. Também não trapaceia,ou seja, não camufla episódios que possam esclarecer o tipo de relacionamento, não só das parceiras em relação a Vinicius, como de Vinicius em relação às parceiras.
Um bom resumo desse cipoal, o leitor poderá encontrá-lo nas primeiras páginas da biografia: p.17-21.
Se me fosse permitido sugerir um reparo a Castello, sugerir-lhe-ia que suprimisses as referências desairosas – não dele, mas dos amigos de Vinicius - a uma mulher que cativa a simpatia do leitor: Regina Pederneiras. Com essa mulher, por pressão dos pais dela, o Poeta casou no religioso, numa pequena igreja de Petrópolis.
Não entendi a razão do deboche dos amigos do Poeta! A moça era nove anos mais nova que Vinicius. O Poeta seduziu-a “presenteando-a, quase diariamente, com pequenos versos”, “iscas de palavras que a arquivista devorava com avidez”. (Ibid. p.133; p. 134-135)). Um ano depois de conhecer Vinicius, a moça abandonou-o.
Seria impróprio, para o fim que nos propusemos, descrever os rodízios eróticos de Vinicius.
Talvez um único amigo do Poeta foi capaz de levantar-lhe uma objeção, realmente essencial, à sua conduta de Dom Juan: o empresário paulista, Zequinha Marques da Costa. Este não teve receio de dizer ao Poeta, quando este se separou de Cristina Gurjão, para ir viver com Gesse Gessy:
- Não acredito tanto assim nas coisas que você escreve sobre o amor, Vinicius.
Vinicius ficou chocado:
- Como não? Eu vivo para amar!
Zequinha continuou:
- É verdade. Mas não sei se devemos chamar isso de amor. Quem troca tanto de mulher, é porque não pode amar nenhuma. Você tem paixão, entusiasmo. Amor, não sei se tem. (Ibid. p. 296).
Para termos uma idéia mais exata dos alicerces psicológicos do Poeta, vejamos o que ocorreu no ano de 1953,quando ele passou a assinar, durante meses, com o pseudônimo de Helenice, uma coluna, denominada “Abra o Seu Coração” no semanário Flan de Samuel Wainer. A rigor, Vinicius podia ter-se auto-medicado com a  sua “psicologia pesada e frontal”, como a qualifica o seu biógrafo, psicologia que distribuía generosamente aos seus leitores.
A psicologia de Helenice, seu pseudônimo jornalístico, era desoladoramente machista.
Vinicius, às vezes, proporcionava a seus consulentes receitas radicais, como a seguinte,dada em resposta a uma questão formulada por um tal de João Batista, que reclamava das escapadas de sua companheira, ameaçando assassiná-la, e depois suicidar-se.
Do alto de seu terceiro casamento, informa José Castello, o Poeta deu ao missivista esta surpreendente sugestão:
- Faça o seguinte: se, para poupar seus filhos, é necessário que o senhor continue com ela, da primeira vez que ela lhe pregar alguma peça, pegue-a a jeito e dê-lhe uma boa surra, para ensiná-la a ficar pelo menos bem- comportada.
Dona Helenice foi até ao fim da receita, acrescentando que a surra não devia ser vista como um fim em si mesmo, mas como um esquentamento para o diálogo:
- Depois tenha uma conversa com ela nesse sentido, na ocasião de fazer-lhe os curativos.(Ibid. p. 168).
Os conselhos de Vinicius (era generoso no seu consultório sentimental: fornecia até fórmulas mágicas para a queda de cabelos dos carecas!) atingiram tal nível de veemência, que o diretor da publicação, Joel da Silveira, decidiu chama-lo “para uma conversa de homem para homem”.
Vinicius deixou perplexo Joel da Silveira:
- Mas, meu querido, o que afinal te incomoda?
Joel da Silveira resolveu abrir o jogo, exagerando sem dúvida:
- Estão reclamando que atua coluna tem pornografia demais. Eu concordo. Parece até que não se chama “Abra o Seu Coração”, e sim: “Abra as Suas pernas”. Assim não dá. (Cit. Ibid. p. 168).
Tenho sincera admiração pelo Poeta Vinicius (que conheci pessoalmente num show que no anfiteatro da UFRGS).
Não considero que sua explosiva auto-definição, proferida numa madrugada de desespero em Paris, quando pretendia jogar-se ao Rio Sena:
- Eu sou um filho da puta! (Ibid. p. 173) deve ser considerada “definição” do homem Vinicius, e muito menos, do Poeta Vinicius!
Tal frase, proferida num momento de descontrole, não define um homem, define um caos.
Vinicius (tenhamos a coragem de sugerir) foi uma criatura infeliz.
Quanto a mim, sempre tive pena desse homem desestabilizado, homem-esponja – como o qualificou Sergio Buarque de Holanda. (Ibid. p. 163).
Mas é preciso, também, compreender que Vinicius, por vezes, quase pagou com a vida seu caos.
Cristina Gurjão,uma de suas nove mulheres - que na ocasião do incidente estava  grávida - quebrou na cabeça do Poeta um castiçal de estanho, e lhe teria quebrado o castiçal sobrante, se o Poeta não se tivesse abrigado sob um vão de escada de serviço e, logo que lhe foi possível, apanhado um táxi para a Clínica São Vicente. (Ibid. p. 307).
Foi esse homem que renovou, ou melhor, recriou a poesia e a música da MPB, e nos legou incomparáveis composições e poemas, (vários deles dedicados às suas nove mulheres oficiais).
Suas derradeiras palavras: Vou tomar um longo banho (Ibid. p. 421), além da intenção higiênica ou terapêutica que podem revelar, talvez mereçam ser interpretadas como um desejo de purificação.
Dizia Sartre que a Cultura não salva ninguém. Acrescentamos: nem a Poesia.
Acredito, porém, que a Poesia pode ajudar a salvar.
Todos somos salvos graças a um portento de que poucos de apercebem: a misteriosa gota de sangue, que Blaise Pascal fazia escorrer da face de Cristo, no Gólgota, em favor de cada ser humano.
Au demeurant rendamos homenagens, vibrantes e carinhosas, a esse grande Poeta, que nos legou jóias de lirismo em:
Soneto de Fidelidade,
Soneto de Despedida,
O Dia da Criação,
Soneto da Separação,
O Operário em Construção,

e em quase todas as letras que compôs para canções, como Felicidade, e em suas deliciosas cantigas-bonbons para as crianças, da Arca de Noé!

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