quarta-feira, 20 de julho de 2011

Estariam os Estados Unidos à Beira da Inadimplência?

      
Lembro-me dos Anos Setenta-Oitenta!
      O sonho do brasileiro era emigrar para os Estados Unidos, país confundido na época com o Eldorado.
      Anos mais tarde, li uma impressionante reportagem sobre um gaúcho, que mordeu a isca do sonho americano, e depois ficou fisgado num monstruoso anzol monstruoso de dívidas, em razão das quais foi obrigado a desistir de sua Churrascaria-Modelo, tendo sido obrigado a desfazer-se de tudo, e a retornar aos pagos – já que os pagamentos de lá simplesmente lhe exauriram as reservas.
      O fato aterrorizador, neste momento é o de uma possível insolvência do Nabucodonosor financeiro do Mundo Globalizado, sua eventual humilhação (se a desdita se efetivar) de ter de dar a mão à Grécia e a Portugal, duas nações que foram obrigadas a cair de joelhos ante os donos do Poder.
      Nunca fui entusiasta da arrogância americana, nem tão alérgico a essa prepotência que menosprezasse os valores de sua gente.
      Tive meus momentos de admiração pela cultura dessa nação, em especial, por seu cinema de vanguarda e constante renovação, por sua literatura agressiva e formalmente inovadora, e principalmente por sua produção poética, entre as mais refinadas do século XIX e XX. Se o leitor me intimar a nomes, não receio dar-lhos. Menciono,a esmo Edgar Alan Poe, cujo poema Nevermore foi traduzido por dois gênios da literatura de língua portuguesa,  Machado de Assis e Fernando Pessoa, Walt Whitman (que Jorge Luis Borges valorizava muitíssimo, com um toque de inegável sinceridade) e, no que concerne ao meu próprio gosto: Emily Dickinson, Marianne Moore, E.E. Cummings, Theodore Roetke, Robert Lowell, Wallace Stevens, William Carlos Williams.
      Não há, pois, necessidade de enfeixar, num buquê perfumado pelas Ciências ou adornado pelas galas da Tecnologia, descobertas, invenções e inovações, que são devidas a esse povo.
      Embora não seja bebedor compulsivo de Coca Cola, ou de Pepsi Cola, jamais desprezei esses refrigerantes sacralizados.
      É verdade que minha visita aos USA em 1992, ao sul do país, não me entusiasmou. Em parte, por minha culpa, por ignorar a língua de Shakespeare.
      Não obstante, meus olhos, por terem nascido multilíngües, encantaram-se com uma opulenta coleção de obras-primas de artistas americanos, em especial, Hoepper, Pollock e Rothko.
      Ah, antes que me esqueça: só existe algo, na culinária americana, que detesto: o ketchup! Como, todavia, tenho amigos leais que o adoram, saio da área da culinária, e prefiro respirar os ares amplos e estimulantes das criações de Orson Wells, e de outros autores de cativantes filmes de faroeste.
      Voltemos à crise americana.
      O que vejo nela é um repeteco da decadência romana do século IV e V d.C. Se alguém quiser saber onde se acham as semelhanças entre um império e outro, procure ler o inglês Edward Gibbon (existe uma edição abreviada em português de seu livro Declínio e Queda do Império Romano. São Paulo, Companhia das Letras, 1989), e outros autores,como Montesquieu (Considerações sobre as Causas da Grandeza dos Romanos e de sua Decadência.Rio de Janeiro, Contraponto, 2002. p. 71-79).
      No fundo, a atual degringolagem ianque pode ser relacionada com o famoso ditado: Corruptio optimi, péssima.
      Em miúdos: quando uma boa coisa, por exemplo, a Democracia, e a própria Economia Livre - inicialmente a das oportunidades para todos - se convertem em opressão fantasiada de democracia, e em economia de exploração, em cuja crista se assentam, não o trabalho e a criação, mas a usura – sim, a usura, deplorada por Ezra Pound - nesse momento vislumbra-se uma débâcle: o do Colosso atingido por um dardo mortífero.
      A grandeza da América consistiu, em grande parte de sua história, em ter ajudado a derrotar os Totalitarismos, o Nazismo, o Fascismo, e outros ismos produzidos pela Europa.
      Seu fracasso consistiu em renunciar aos ideais dos primórdios, para transformar-se, após a Segunda Guerra Mundial, numa nação arrogante e belicosa, gabando-se de exercer, à frente de sua riqueza e de seu poderio militar, o xerifado planetário.
      Aconteceu o que sempre acontece na História: quem pretendia ocupar o primeiro ligar, pode ser obrigado (evidentemente a longo prazo) a sentar-se noutro lugar.
      Noutras palavras: caso ocorra uma insolvência financeira nos Estados Unidos, deveremos – não só os americanos! - aprender a baixar a cabeça.

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