quarta-feira, 20 de julho de 2011

Escândalo na Igreja: o Dinheiro.

Uma Reflexão Ingênua sobre o Vaticano.
Um jornalista espanhol, dias atrás, tentava explicar aos leitores as relações (na sua opinião), incestuosas que, na Itália, relacionam o poder civil às autoridades religiosas ou, mais claramente, as relações não transparentes entre o Governo italiano e o Estado do Vaticano.
Os católicos do mundo inteiro sentem, neste momento, profundo mal-estar.
Todos nós professamos imenso respeito ao sucessor de Pedro. Noutras palavras, nenhum católico contesta o Papa, nem sua primazia entre os Bispos; nem lhe contestamos a infalibilidade em matéria religiosa, quando preenchidas as condições para um pronunciamento “ex cátedra”.
Em síntese, não é o Papa que está sendo questionado. Confundir o Vaticano com o Papa é afirmar que a água, por ser líquida, é a mesma coisa que o vinho, que também é líquido.
Qual, então, o constrangimento que aflige os católicos?
É não ter convicção de que o Vaticano, na sua condição de poder civil, herdado dos velhos tempos quando Constantino Magno e, depois dele, os ancestrais de Carlos Magno concederam ao Pontífice vastas propriedades fundiárias na Itália, seja conveniente à Igreja, nas atuais condições. Tais propriedades foram, na época, a maior fonte de riqueza.
Foi assim que o poder espiritual do Papa começou a criar, ao redor de si, uma auréola de poder político e econômico, que com o passar dos séculos, se tornou excessivo. O apogeu desse poder ocorreu no Renascimento, quando os Pontífices eram, ao mesmo tempo, Sacerdotes e Monarcas. Talvez Gregório VII e, após ele, Inocêncio III, tenham experimentado, mais que todos, o que significava ter nas mãos, não só as chaves do Reino dos Céus, mas também as chaves dos Reinos deste mundo.
Deixemos a descrição dos fatos históricos aos historiadores, e expressemos, unicamente, as angústias dos fiéis do século XXI.
Qual o católico culto que não ouviu falar na Questão Romana, que surgiu após a anexação dos Estados Pontifícios à Itália, quando esta, no século XIX, se reunificou? Quem ignora que o Ditador Musssolini foi quem assinou a Concordata, que encerrou muitos anos de conflito, e terminou por reconhecer ao Papa um Estado, com todos os direitos inerentes a um Estado Moderno, inclusive o de ter embaixadores?
Para todos os efeitos, os católicos afirmam não ter à sua frente nem um Rei, nem um Imperador. Têm um Papa (palavra que deriva do grego Abbas, que significa Pai – daí a expressão Abade!). Papa quer dizer Pontífice eleito por outros Bispos, sucessores dos Doze Apóstolos, que foram escolhidos por Jesus. inicialmente, o Papa era eleito pela comunidade dos fiéis, mais tarde, a eleição passou a ser uma escolha de sacerdotes; posteriormente, uma designação de outros Bispos; e finalmente, uma eleição de Cardeais, que eram relativamente poucos, pequeno grupo, com o tempo – como na época atual - um grande grupo. Esses Cardeais são Bispos que administram patriarcados, arcebispados e bispados em todo o orbe, e alguns deles presidem organismos que auxiliam o Papa nos seus negócios eclesiásticos e diplomáticos.
Digamos mais claramente: o Papa é chefe religioso – Servo dos Servos de Deus, segundo a expressão consagrada pela tradição – e, ao mesmo tempo, soberano que não pode prescindir de Relações Exteriores. Eis a razão por que o Vaticano tem uma espécie de Ministro das Relações Exteriores, e outros Ministros que exercem funções semelhantes às dos seus colegas nos governos civis. São ministros da economia, da educação, e alguns, até, Diretores de Bancos.
Até aí, nada a-normal.
O problema não está na organização em si. O problema está na tendência de o dinheiro infiltrar-se onde não deve. Antigamente, chamava-se a isso de Simonia. Quantos danos trouxeram à Igreja eclesiásticos que se deixaram infectar pelos vírus do vil metal!
Vil metal?
Deixemo-nos de hipocrisias.
Todo o mundo considera o vil metal a coisa mais linda do mundo!
Todo o mundo sabe que uma das tentações que o Diabo insinuou a Cristo foi a de transformar as pedras em pães. O dinheiro faz isso: chega a transformar as pedras em pães e, às vezes, transforma o Pão Vivo em pedra.
O que os católicos pedem, atualmente, é que o Vaticano e o Papado tenham atribuições específicas.
Está sendo difícil para um católico ler o Evangelho, onde se diz: Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus, ou uma frase como: O meu Reino não é deste mundo, e associá-las aos negócios financeiros do mundo contemporâneo, que implicam investimentos em indústrias bélicas, e modalidades de investimentos incompatíveis com o Evangelho.
Deixemos claro:os católicos não votam pela extinção de financistas, de economistas, de banqueiros católicos, como não votam pela extinção de oncologistas arquitetos, e vendedores ambulantes católicos.
Os católicos pedem, apenas, que as realidades espirituais e sacramentais tenham seu âmbito definido, e que as atividades ligadas aos negócios mundanos sejam exercidas em outros âmbitos.
Os católicos querem, noutras palavras, que uma virtude evangélica, negligenciada sistematicamente durante séculos, seja também valorizada: a pobreza de Cristo, que afirmava não ter um travesseiro onde reclinar a cabeça.
Nas atuais conjunturas, não é preciso ser herdeiro espiritual de Lutero, nem um gladiador feroz da Teologia da Libertação para ver que tais requisitos não são visíveis no Vaticano. Lutero, no século XV, por ter visitado pessoalmente Roma, e ter visto o que viu na corte papal, provocou um confronto e uma separação ainda não resolvida entre irmãos.
Também é verdade que, antes de Lutero, Francisco de Assis esteve em Roma, onde viu coisas semelhantes às que foram vistas por Lutero. Nem por isso revoltou-se. Ao contrário, fundou uma Ordem, a dos Franciscanos, cujo ideal deveria consistir em anunciar, sempre de novo, a pobreza de Jesus.
Dizem-nos que a pobreza dos Franciscanos modificou-se ao sabor das circunstâncias.
Reconheço que não estou está fácil para um franciscano de hoje atualizar-se na prática da pobreza. Deverá andar de tamancos numa rua asfaltada de New York? Montará num jumento no meio de vistosos Lamborghinis e BMWs? Alguém cobrará aos frades o fato de circularem, nas suas andanças em busca de filhos pródigos, num Fiat Siena utilitário?
O problema não é o Fiat Siena!
O que é, então?
Gostaria de sabê-lo.
Como católico estou perplexo.
Não adiro nem aos mordazes censores da Igreja, que desejariam vê-la vestida como um indígena do Amazonas, nem adiro aos que estão satisfeitos com o status quo, e se olvidam de Francisco de Assis, até mesmo do São Francisco de Assis de Franco Zeffirelli, cujo filme sobre O Irmão Sol e a irmã Lua ainda comove o grande público!
Por onde andará o coração de cada católico nestes momentos de Murdochs e escutas telefônicas, de Primeiros Ministros peninsulares, cujos executivos se dão um tiro na cabeça, de financistas que deixam caudas-de-cometas de um bilhão de euros em hospitais dirigidos por eclesiásticos?
Não lhes lancemos nem a primeira, nem a última pedra!
Perguntemos, como católicos, se existe solução para tal estado de coisas.
Ou se devemos resignar-nos a ver a Túnica Inconsútil de Cristo retalhada em mil tiras pelas tesouras dos que se recusam a admitir a Taxa Tobin, e não querem, de jeito nenhum, que o dinheiro excedente gere apenas excedentes de miséria e abjeção.
Estamos, quem sabe, à espera de um fenômeno, isto é, que os Miseráveis de Victor Hugo e os Humilhados e Ofendidos de Dostoievsky tenham uma chance de serem católicos, e possam viver dignamente como cidadãos, onde quer que tenham nascido.

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