segunda-feira, 11 de julho de 2011

DSK: é possível que Ele se Torne Presidente da França?

       Um dia desses, ocorreu-me que o processo contra Dreyfus (1859-1935) podia apresentar afinidades com o atual processo contra Dominique Strauss-Khan.
Não basta, naturalmente, que os dois protagonistas sejam judeus.
Dreyfus era um judeu inatacável, um marido e pai de família exemplar.
Já o ex-Diretor do FMI possui, além de seu currículo de político respeitável, outro currículo que inclui nebulosas transgressões pessoais.
A maior afinidade pareceria ser a de uma acusação pública, com fulminante e avassaladora repercussão nos meios de comunicação.
Tal fato leva-nos a propor nova meditação sobre o Affaire.
Tenho a impressão de que a humanidade, no estado em que se encontra, está sofrendo de uma obsessão, só até certo ponto inédita: a punição das celebridades!
Os gregos, em época anterior à de Cristo, criaram um generoso mito a propósito de Aristides. Deixaram-nos, como legado histórico, a suposição de que ele foi condenado - não por ter cometido um delito contra a cidade de Atenas - mas por ter sido excessivamente famoso.
Ficou a estória – ou história? - de um cidadão ateniense que, interpelado sobre as razões da inclusão de Aristides no óstraco, teria dito:
- Estou cansado de ouvir falar na bondade desse homem!
Noutras palavras: os homens célebres merecem punição!
Quem os mandou se distinguirem da massa comum?
Por que estão sempre em evidência?
Digamos claramente: o pretenso homem comum só é comum por sua mediocridade. Em termos de ambição, ele é incomum como a maior celebridade, ou o maior cabotino.
Dito de outro modo: no íntimo de todos nós, lateja um sonho, mais ou menos reprimido: o de sermos famosos.
Desejamos uma ribalta - ou, ao menos, uma tribuna. Não havendo isso, serve um tijolo para que nossos pés, apoiados nele, possam elevar-se acima do comum dos mortais.
Ponham um microfone diante de um matuto. Ele pode, até, ser mudo. Com o microfone na mão, começa a falar. Desde o momento em que tem a possibilidade de contar com um auditório, o animal racional (do século XXI) se converte num animal retórico.
Um gaúcho da fronteira diria:
- O tipo vira bahiano!
O caso de DSK tem qualquer coisa de uma punição.
Primeiramente, uma constatação: DSK era – e agora o é multiplicadamente – famoso.
Em segundo lugar: era uma espécie de todo-poderoso na área das finanças internacionais.
Em terceiro lugar: já estava praticamente eleito como o sucessor do Presidente Sarkozy.
Que lhe faltava?
Uma punição.
A punição da hybris, isto é, da desmesura.
Era demais.
DSK estava chegando à estratosfera. Influente, culto, rico, um Don Juan alvo de atenções, não já das costureirinhas de Paris que existiam no tempo de Eugène Sue, mas das top-models, e remanescentes burguesas, herdeiras de fortunas de aquém e além-mar.
Era necessário que a espada do Anjo o atingisse.
Naturalmente, tal espécie de vingança sobrenada à mídia, não se materializa em nenhum remorso pessoal, não compromete indivíduo algum com carteira de identidade. É o tipo de vingança que se assemelha ao Saci nacional, à cata de vítimas para suas marotices.
Essa vingança parece ter sido corroborada por um detalhe: a síndrome do assédio sexual.
Síndrome?
Chamem-lhe como quiserem.
Depois que se institucionalizou, com sobradas razões, a denúncia jurídica do assédio sexual, que apavorava as mulheres que voejavam nas cercanias dos monstros-sagrados; depois que os monstros-sagrados começaram a tomar precauções para não ser apanhados em flagrante delito; depois que se legislou a respeito sobre esse crime, com tal severidade que o próprio Presidente Sarkozy, consoante referiram jornais, teria advertido DSK a não ficar jamais a sós com uma americana dentro de um ascensor, depois de tudo isso faltava apenas uma ratoeira - e o queijo para torná-la operacional.
Foi o que ocorreu no escândalo de New York.
A questão do assédio sexual, pois, deverá ser cuidadosamente pesada nos pratos de uma balança de joalheiro, ou se quiserem, de uma balança a salvo - se possível - dos pesos-pesados da advocacia americana, que aprenderam a exercitar-se em ringues de boxeadores.
Onde há fumaça, há fogo.
As celebridades inflacionaram.
Viraram nuvens bíblicas de gafanhotos.
No passado era preciso incendiar a melhor das bibliotecas do mundo, a de Alexandria, para ganhar celebridade. Hoje basta meter uma bomba no bagageiro de um Airbus, ou de um Boeing.
Nem isso: basta jogar uma maçã podre na cara de um primeiro-ministro da Eurozona, ou cuspir no nariz de um líder de uma nação endividada, da América Latina.
O pior é que nós amamos as celebridades! Babamos de gozo diante delas!
Sem elas... que seria de nosso lazer? 
Teriamos fins-de-semana tediosos, nos quais nem o uísque, nem o chimarrão, descarregariam nossos nervos tensionados.
Sem as celebridades, nossos amores murchos não se renovariam, não seriam reforçados com novas pilhas alcalinas, nem sua fogueira erótica se reacenderia – porque saber que Mel Gibson pagou 900 milhões de dólares para voltar a ser solteiro, incendeia os gravetos de qualquer amor, e despeja um galão de gasolina no sex-appeal das mais assanhadas solteiras, ou ex-casadas do mundo.
Triste mundo, o nosso!
Triste mundo, o da fama virtual, o do prestígio, o do mundo cara-de-pau, o do exibicionismo esticado até à última corda do arco!
Temos a impressão de que DSK foi vítima, não só de sua impulsividade (mas também da oportuna legislação sobre o assédio) e, principalmente, do puritanismo americano, e do desejo secreto, que palpita na intimidade do Coração Imenso e Invisível do universo planetário, que sente satisfação em punir os que se destacam.
Leiamos uma parábola de autoria de um dos maiores sábios chineses, Chuang Tzu (IV a.C.), o mais brilhante discípulo de Lao-Tsé, de cuja obra Thomas Merton publicou no Brasil uma seleção de textos, de refinado nível literário.
Reproduzo a parábola, remetendo os leitores ao delicioso livro: A Via de Chuang Tzu (Petrópolis, Editora Vozes, 1974):
O título da parábola é A Montanha dos Macacos. Poderia ser: O Macaco Exibido:
O Príncipe de Wu foi de barco à Montanha dos Macacos. Logo que os macacos o viram, fugiram em pânico, e esconderam-se nos topos das árvores.
Um macaco, porém, estava inteiramente despreocupado, pulando de galho em galho – uma extraordinária demonstração.
O Príncipe atirou uma flecha no macaco, mas este, como hábil malabarista, pegou a flecha no ar.
Com isso, o Príncipe ordenou a seus companheiros que o atacassem em conjunto.
Num instante o macaco foi atingido por várias flechadas e caiu morto.
Em seguida, o Príncipe voltou-se para o seu companheiro Yen Pu’i, e disse-lhe: ”Viu o que aconteceu? Este animal exibiu a sua esperteza. Confiou em sua própria habilidade. Pensava que ninguém fosse pegá-lo. Lembre-se disto! Não confie no valor nem no talento quando lidar com os homens!”
Quando retornaram a casa, Yen Pu’i tornou-se discípulo de um sábio, para libertar-se de tudo que o fizesse se destacar. Renunciou a todos os prazeres. Aprendeu a esconder toda diferença.
Em breve ninguém no Reino sabia o que pensar dele.
E assim, passaram a reverenciá-lo com temor. (Ibidem. p. 181-182).
À luz do ensinamento de Chuang Tzu, é possível que DSK se eleja Presidente da França!
Até agora, nenhuma flechada conseguiu abatê-lo...

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