segunda-feira, 11 de julho de 2011

Ana Norogrando: uma experiência sensorial no MAC.

      Não me referirei, hoje, propriamente à artista, que possui um Curriculum Vitae suficientemente divulgado, mas a uma produção específica da artista.
Desejo comentar sua instalação Sobre as Águas, inaugurada no dia 09 de julho pp., no Museu de Arte Contemporânea de Porto Alegre.
 Se alguém não está informado sobre onde fica a sede desse Museu, dirigido atualmente por André Venzon, convido-o a ir conhecê-lo no sexto andar da Casa de Cultura Mario Quintana.
Tudo que Ana faz é feito com planejamento e minúcia. Isso faz com sua instalação seja um encantamento para os visitantes da instalação.
Trata-se, com efeito, de uma instalação, e ela faz jus à designação, pois não é apenas mais uma instalação. É uma instalação no melhor sentido da expressão.
Noutras palavras:como ser instalação senão juntando numa mesma exposição várias modalidades de expressão plástica?
O indivíduo, que pretender compreende-la, deverá estar preparado para uma sorte de vivência. Tem de dispor-se a uma experiência mais ampla que a de se postar, atenta ou displicentemente, diante de um quadro.
A intenção estética é outra.
Ana solicita algo mais ao espectador ou contemplador. Ela quer que este, de algum modo, leve consigo uma lição de coisas, um jeito novo de sentir.
Explico-me.
Ou antes: prefiro dar a palavra a um curador, que está contribuindo ao prestígio dessa função que, às vezes, não tem sido mais que uma bijuteria com aparência de jóia.
Marcelo Gobatto proporciona-nos um exemplo de adequação à função.
 O seu texto de apresentação impressiona, primeiramente, por sua liquidez intelectual e sua substancialidade estética. É um texto linear.  
Leiamos-lhe o início:
- Durante mais de um ano, Ana Norogrando habituou-se a deslocar-se ao entardecer para um ponto próximo de onde mora, na Ilha Grande dos Marinheiros, fixando sua câmera às margens do Rio Guaíba (“rio de todas as águas” em lingua tupi). Cotidianamente, repetindo o procedimento, a artista registrou séries de imagens que constituem verdadeira taxonomia da paisagem local.
      Parabéns, Sr. Curador!
Antes de tudo, é necessário esclarecer o projeto da artista, como o caro amigo fez.
Ana quis entender as águas do Guaíba. Quis – como artista – mergulhar mental e sensorialmente em suas águas, compreende-las, não como fenômeno líquido, mas como fenômeno vital e estético.
O curador abre-nos mais o leque das possibilidades de Ana:
       - Na superfície da água, a artista percebeu a incidência da luz e dos ventos, que provocavam as variações das cores e linhas, desenhando formas e ritmos em constante mutação. Pequenas vibrações e ondulações que encontraram a resistência da máquina (de filmar) e quando projetadas, nosso corpo. O cinema se faz assim: imagem- movimento, experiência de fluxo, movimento contínuos.
       O Diretor do MAC, André Venzon, no texto que acompanha o do curador, registra com agudeza:
       - Ao nos fazer contemplar as águas da nossa existência,Ana restabelece a relação do museu e do público com as águas do Guaíba, lugares pelos quais, apesar de nutrirmos um sentimento forte e duradouro, a maioria da população ainda desconhece.(...) Frente a essa paisagem cultural e natural, torna-se inevitável tomar de empréstimo o pensamento do filósofo Heráclito para o qualtudo flui”.
       Talvez fosse mais interessante citar o dito atribuído a de Heráclito:
       - A água não passa duas vezes debaixo da mesma ponte.
       Será que, no fundo desse projeto, não está escondida uma pérola dolorosa - a de nosso destino?
Não é nossa vida, também, um fluir permanente, e irreversível?
 Nem o Guaíba permanece o mesmo, apesar de parecer que fica, quando o deixamos passar, por mais que nos agarremos aos remos de nossa canoa...
       Se Ana pensou nisso, ou não, isso não faz diferença. A água continuará a ser nosso embalo físico (nascemos dentro dela), e nosso embalo psíquico (não podemos fugir ao seu simbolismo - tão caro, de resto, ao grande filósofo oriental, Lao-Tsè, caro, também, ao Mestre de nossa Fé, que nos obriga a renascer pela água, a quantos nos prezamos de ser cristãos.
       Não voemos, porém, tão alto!
Nem tão longe.
Ana quis, prosaicamente, isto é, poeticamente, ater-se às águas concretas do Guaíba (por isso, as documentou através de seus vídeos). Não quis prender-se a águas ficcionais. A artista interpôs, entre a sua memória e a sua imaginação, um aparelho. Inseriu ali uma – a da filmadora - e lá dentro, a mão invisível do tato digital.
Fez um vídeo. Não se contentou com um dos sentidos, o da a visão. Associou-lhe outro sentido, o da audição.
Para colaborar no seu projeto, chamou o Fábio Mentz, arquiteto, que lhe criou um acompanhamento sonoro, graças a um equipamento de alta resolução,uma projeção sonora em cinco canais. Graças a tal sistema, o indivíduo, que, por assim dizer, se introduz na instalação (sem essa inserção, qualquer instalação seria um blefe!), poderá captar sons da água, sons do cotidiano do entorno: latidos de cães, o vento na copa das árvores, gorjeios de pássaros, ruído de turbinas dos Boeings que sobrevoam o local, sons de rádios ao fundo...
       Dirá alguém:
- Mas essa instalação não tem qualquer coisa de uma experiência zen-budista?
       Sem dúvida.
Alguém poderá, por exemplo, evocar os jardins dos mosteiros zen-budistas do Japão, em especial o de Kyoto, onde o indivíduo encontra um pátio, com seixos na areia, sulcos na superfície do areal, uma árvore ou duas por aí, o ar circundantes, e... nenhum ser humano ou animal no jardim.
O espectador, contudo,não deverá intrometer-se no jardim. Deve continuar dono de seus olhos e dos demais sentidos, pronto para a refeição que lhe é servida pelos materiais impalpáveis das sensações visuais e acústicas, e até aromáticas.
O mundo está cansado de artes que se masturbam no veículo expressivo, na forma sem conteúdo. O público quer reinventar uma arte que o atinja. Uma arte que principie pelos sentidos, sem intelectualizá-los. Isto é, sem desencarná-los.
O que está faltando à Arte, após o Impressionismo, o Expressionismo, e dezenas de outros Ismos que se lhes pegam aos calcanhares, é um ismo antiquíssimo: realismo!
A instalação de Ana Norogrando é uma oportunidade de o indivíduo regressar aos seus sentidos, dizendo ao cartesianismo histórico, ou virtual de nossos dias:
- Estamos fartos de tanto intelectualismo! Queremos a matéria, queremos o sensual, queremos o que possa ser visto, ouvido, tocado, cheirado, mesmo que isso seja – paradoxalmente – através da memória e da imaginação!
Um sujeito, no tempo de Aristóteles, dizia ao filósofo que tinham descoberto um cidadão que imitava um rouxinol.
Aristóteles teria esnobado seu interlocutor, respondendo-lhe:
- Não me interesso em conhecer esse indivíduo. Eu conheço o próprio rouxinol...
Como vedes, os filósofos, por vezes, não são unicamente pretensiosos, são também chatos...
Se eliminássemos a mímesis, cuja primeira formulação teórica vem do próprio Aristóteles, o que restaria à Arte?
Segundo seus melhores intérpretes, Aristóteles teria querido dizer com imitação (mímesis) que a Arte deve imitar o modo como a natureza age, e não o que ela faz.
Perfeito.
O homem, que imitava o rouxinal, imitava o que a natureza inventara na garganta do um rouxinol. Só que quem cantava era um homem, e não uma ave, e por isso todo o mundo ia vê-lo – exceto o orgulhoso flósofo.
       Quando um pintor pinta, ou um escultor esculpe, ou um poeta compõe um poema, todos esses artistas se servem de coisas, de objetos naturais. A mímesis (a imitação da natureza) consiste em metamorfosear a matéria.
 A geologia produz diamantes, mas nenhum Baruch Spinoza para lapidá-los, nem nenhum diamante natural figurou, como diamante não polido, em nenhuma coroa de  Rainha, seja da Inglaterra, seja de outros países.
A arte é o que o homem faz, mediante sua memória e sua imaginação, a partir de uma matéria preexistente, que a Natureza tem o privilégio de produzir.
       Ana Norogrando convida as pessoas a saírem de seus calabouços sensoriais, a se expatriarem de seus exílios sentimentais, a se tornarem mais humanas, isto é, menos civilizadas.
Há um aspecto da civilização que é negativo: a sua tendência a esquecer que o sábado foi feito para o homem, e não este para o sábado. Que a arte, no fim das contas, é algo que deve atiçar a chama da vida, e não contribuir para
diminuí-la;
       A instalação de Ana Norogrando Sobre as Águas vem lembrar a uma sociedade que, por estar sonhando, pensa que está vivendo. Vem lembrar-lhe que é preciso sonhar menos, e viver mais.
Água é água, e só se pode captar a água – como água - tocando-a.
- Sim, dirá alguém, por que então a artista não nos convida a irmos ao Guaíba, não só para vê-lo, para escutá-lo, mas para que o toquemos na sua mornidão ou frialdade?
Que pensam vocês que a Ana Norogrando deseja com sua arte?
No dia em que alguém, após visitar a Instalação Sobre as Águas resolver dar um mergulho no Guaíba – contanto que este, com a ajuda do Governador Tarso Genro e do Prefeito da capital, esteja despoluído! – ou, mais modestamente, chegar em casa, abrir uma torneira, ou fizer jorrar uma ducha, e exclamar:
- Meu Deus, que coisa maravilhosa é a água!
E, em seguida, disser como Francisco de Assis:
- Louvado sejas meu Senhor, prela irmã Água, que é muito útil, humilde, preciosa e casta!”
E, depois, lavar as mãos devagarinho, acariciando a água, amando-a...
 Então, meus amigos, nesse dia começarei a crer de novo na Arte, a pensar que Giotto, com seu personagem sedento, reclinado, com os lábios na fonte (Il Miracolo della Sorgente), como aparece num dos seus afrescos da Basílica Superior de Assis, voltou a ser gênio!

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