quarta-feira, 20 de julho de 2011

Ainda É Tempo de Descobrir o Gênio de Victor Hugo.

I. Introdução.
      Nos meus tempos de ingenuidade literária, imaginava que os críticos e os historiadores da literatura fossem pontífices da literatura, e que seus julgamentos merecessem total credibilidade.
      Foi preciso que o colírio da lucidez me lavasse os olhos para que eu viesse a descobrir que a realidade é infinitamente mais complexa.
      Primeiramente, não há crítico imparcial.
O crítico, em geral, é um leitor, mais informado do que os outros leitores; por vezes, pode ser bem informado, porém malévolo; outras vezes, nem é bem informado, nem malévolo, é simplesmente obtuso.
Em casos excepcionais, – e, neste caso, demos graças a Deus – apresenta-se informado e perspicaz, capaz de apreciar talentos alheios, e também de expressar o que leu com concisão e finesse.
      Até mesmo esse crítico competente não é imparcial.
      Sua inteligência pode ser imparcial, porém sua sensibilidade não o é.
      Todos sabemos que quem manda em casa, não é a inteligência, mas a sensibilidade. A primeira palavra pode ser da inteligência, mas, em se tratando de literatura e de arte, a última palavra pertence à sensibilidade. Daí procedem os elogios desmesurados, e as críticas injustas.
      Tenhamos bom senso: somos obrigados a admitir-nos como leitores datados e, além disso, como leitores condicionados. Condicionados por resenhas jornalísticas, por ciúmes e picuinhas de capelas literárias, e até mesmo pela esperteza dos marqueteiros editoriais.
      Somos, ainda, leitores que pagamos pedágio a leituras de outras épocas, as quais, por sua vez, dependem de momentos pessoais, a leituras em tempo de depressão ou de euforia.
      Padecemos, finalmente, de influências e, sobretudo, de confluências (como dizia Mario Quintana).

O leitor ingênuo está para nascer.
O leitor imparcial provavelmente nunca nascerá.

      Nos meus tempos de ingenuidade literária eu não me apercebia disso. Eis porque desconfio de críticos e historiadores da literatura.
      Já dei, no meu blog, exemplos de erros e lacunas de uns e outros. Leia-se, por exemplo, o que escrevi, num dos primeiros textos, sobre Gustavo Corção (fevereiro de 2011).
     A regra é não desprezar críticos e historiadores da literatura. É saber o lugar que eles ocupam, ou devem ocupar.

      II. Meus Contatos com a Poesia e a Ficção de Victor Hugo.
    Deve-se dizer o mesmo a respeito de escritores que opinam sobre outros escritores.
      Vou dar um exemplo.
      No ano de 1956 descobri, casualmente, Victor Hugo.
      Na época, eu não conhecia praticamentre nada sobre sua pessoa e obra.
Comprei, simplesmente, uma antologia de poemas do mundo inteiro (preciosidade literária que ainda conservo comigo). De quando em quando a releio. Intitula-se: Obras-Primas da Poesia Universal.
      Meu exemplar era o de número 508, da segunda edição ampliada, de 1955, da Livraria Martins Editora, sediada em São Paulo
      O autor da antologia era, para mim – naquela ocasião - um escritor desconhecido: Sérgio Milliet!
       Vim a saber tratar-se de um poeta e crítico de arte,nascido em São Paulo, em 1898. Manuel Bandeira, na sua Poesia do Brasil (seleção e estudos da melhor poesia brasileira de todos os tempos, com a colaboração de José Guilherme Merquior na fase moderna) inclui Milliet nessa coletânea. A mesma coletânea em que, que, por pasmoso e indesculpável engano de um crítico, justamente um dos críticos que mais respeito, já falecido, José Guilherme Merquior, autor de Razão do Poema, não consta o nome de Mario Quintana! O poeta gaúcho mostrou-me a carta em que Manuel Bandeira se justificava com o nosso Poeta-Mor da ausência de seu nome na citada antologia.
      Dizia Manuel Bandeira que insistira com Merquior para que incluísse Quintana na seleção, mas que o crítico carioca teimara em excluir o autor de A Rua dos Cataventos.
      Voltemos à antologia: Obras-Primas da Poesia Universal.
Foi aí que descobri, atônito e fascinado, um dos maiores poemas da poesia universal de todos os tempos, o Booz Adormecido, de Victor Hugo, traduzido para o português pelo poeta gaúcho Eduardo Guimarães. Fiquei atônito com tanta beleza!
      Naquela altura, eu sabia pouco de História da Literatura, e menos ainda de Crítica Literária.
      Tinha seguido unicamente meu instinto!
     À medida que ia conhecendo a literatura, e me aproximava dos profissionais de ambos os campos, descobria que, até entre eles, os critérios de avaliação eram precários.
      Um belo dia, lendo não sei que revista literária, deparei com uma opinião maldosa de Jean Cocteau (1891-1963) sobre Victor Hugo, precisamente desse poeta e cineasta, que figurava, ao lado de Vitor Hugo, na mesma antologia de Sérgio Milliet.
      Nunca minimizei Jean Cocteau, do qual guardo um quarteto, que, ainda hoje me agrada:

Versos de Circunstância.

Grava teu nome em troncos de árvore
que frondosa se tornará.
Mais vale o tronco do que o mármore
pois nele o nome crescerá. (Trad. de Sérgio Milliet).

      Cocteau dizia sobre Vitor Hugo a seguinte graçola, que possivelmente foi dita para alfinetar a suposta insuportável vaidade do autor de Os Miseráveis, graçola que foi transcrita em inúmeros dicionários de citações, inclusive no conceituado Dicionário Universal de Citações, de Paulo Rónai (São Paulo, Círculo do livro, 1985):

- Victor Hugo era um louco que se julgava Victor Hugo. (Ibid. p. 460).

      É verdade que, no mesmo verbete, Paulo Rónai enfileira uma porção de elogiosas referências ao gênio francês.
Por exemplo:
      Joseph-Ernest Renan(1823-1892).: “Parece que (Victor Hugo) foi criado por um decreto especial e denominativo do Eterno”. (Ib. p. 459).
      Jules Renard (1864-1910):(...) se eu abro um livro de Victor Hugo, ao acaso, pois não se pode escolher, não sei mais. Aí ele é uma montanha, um mar, o que se queira, salvo qualquer coisa a que se possam comparar as demais pessoas”.(Ib. p.459-460).
      Paul Valéry (1871-1945): Victor Hugo é um bilionário, Não é um príncipe.(Ib. p. 460).
      Charles Baudelaire (1821-1867): Nenhum artista foi mais universal do que Victor Hugo, mais apto a se pôr em contato com as forças da vida universal, mais disposto a tomar, incessantemente, um banho da natureza. Não somente ele se exprime nitidamente, mas também exprime com a obscuridade indispensável o que é obscuro e confusamente revelado  (Cit in: Dictionnaire Universel des Lettres.Paris, Société d’Édition de Dictionnaires et Encyclopédies.1961. p.412).
      A despeito disso, a opinião – ou opiniãozinha - de Cocteau me fez muito mal na época em que a li.
      Torno a bater na mesma tecla: eu era ingênuo!
      Fiquei impressionado com a indelicadeza de Cocteau!
Refiro-lhes o que ocorreu comigo, para que ninguém se deixe empulhar por críticos e historiadores da literatura. (Aurelião: Pulha: gracejo escarninho; mentira, dito pouco decoroso; ação de pulha; vergonha, ignomínia, etc.).
Li, relativamente, bom número de poemas de Victor Hugo.
      Até recentemente, porém, não tinha lido nenhum de seus romances. Neste ano de 2011, resolvi ler Os Trabalhadores do Mar, em tradução de Machado de Assis.
      Tenho uma sugestão a vocês: corram, amigas e amigos, adquiram essa tradução de Machado, antes que ela desapareça das prateleiras!
      Vocês encontrarão, numa só obra, duas obras-primas da literatura mundial. O livro foi publicado no Brasil na coleção: Os Imortais da Literatura Universal.
      Não estou querendo favorecer as vendas de nenhum editor! Seria humilhar a Abril Cultural.
      Estou recomendando a todos os brasileiros que abram mais os olhos para a leitura silenciosa, e os fechem um pouco à leitura, soi-disant, dinâmica da televisão.
      Temos excesso de leitores audiovisuais. Precisamos aumentar o número de leitores mentais e imaginativos, capazes (eles mesmos!) de serem uma Central Globo de Produções .
      O romance Os Trabalhadores do Mar é inesquecível.
     Regurgita de episódios imprevistos, de reflexões que valem tomos de filosofia. Creio que Machado de Assis aproveitou determinados pontos-de-vista de Victor Hugo.
      Por exemplo, comparem o seguinte trecho de Victor Hugo com determinado trecho do Bruxo de Cosme Velho:
      - Caminhava com desembaraço e viveza; e pelo andar, que mostrava não lhe ter ainda pesado a vida, conhecia-se que era moça. Tinha aquela graça fugitiva que indica a mais delicada transição, a adolescência, a mistura de dois crepúsculos: o princípio de uma mulher e o fim de uma menina. (Ibid. p. 20).
      Os parágrafos de Victor Hugo em Os Trabalhadores do Mar sobre o Diabo mereceriam ser meditados pelos psicólogos e sacerdotes de hoje. E até pelos cronistas de nossos jornais, que teriam no escritor francês lições de humor e malícia:
      - Fosse como fosse, essa aparição possível do demônio durante a noite, quando reina a escuridão e todos dormem, inquietava muitas mulheres ortodoxas. Dar nascimento a um Voltaire não é coisa agradável. Uma delas, assustada, foi consultar o confessor sobre a maneira de desfazer em tempo o qüiproquó. O confessor respondeu: ”Para saber se está com o diabo ou com o marido, apalpe-lhe a cabeça e, se encontrar pontas, pode estar certa. – “De quê” – perguntou a mulher.(Ib. p. 23; ver também: p.84).
Victor Hugo nunca fatiga!
      - Em certos pontos, a certas horas, contemplar o mar é sorver um veneno. É o que acontece, às vezes, olhando para uma mulher. (Ib. p. 45).
      A descrição da moça Déruchette é um primor.(p.59-61; p.73-78; p.86-87; p. 94-95
      Da página 132 à página 139: Victor Hugo oferece-nos um retrato da miséria daquela época, que vale para a nossa: (as espeluncas, a ratonice): todos os vícios, todas as abjeções, todas as suposições, todas as misérias, o mesmo sono de prostração, no mesmo leito de lodo”, os cansaços, as borracheiras incubadas, as marchas e contramarchas de um dia sem um pedaço de pão e sem um bom pensamento, as noites lívidas e sonolentas, remorsos, cobiças, cabelos imundos, rostos com o olhar da morte, beijos, talvez, das bocas das trevas. A podridão humana fermentava naquela tina” (Ib. p. 134).
      Vale a pena, igualmente, ler a descrição do naufrágio de um navio a vapor. (Ib. p. 175-178).
      Que dizer, então, da descrição de um perfeito cara-de-pau- ou descarado, como lhe chama Machado de Assis - nas páginas 179-185? Não conheço descrição mais precisa do tal velhaco comprimido, isto é, de um hipócrita e de um impostor.
      Eis um fragmento:
      - A hipocrisia pesou àquele homem durante trinta anos. Era o mal, e consorciou-se com a probidade. Odiava a virtude com um ódio de mal casado. (...) Era um monstro internamente; vivia em uma pele de homem de bem, com um coração de bandido. Era o pirata ameno. (...) tinha nas costas asas de anjo, esmagadoras para um velhaco. Pesava-lhe demais a estima pública. Passar por homem honrado é duro! Manter constante equilíbrio, pensar mal e falar bem, que labutação!(...) Era preciso mostrar ares apresentáveis, escumar por baixo do nível, sorrir em vez de ranger. A virtude, para ele, era coisa que esmagava. Passou a vida a ter vontade de morder aquela mão que lhe tapava a boca. E querendo mordê-la foi obrigado a beijá-la. Ter mentido é ter sofrido. O hipócrita é um paciente na dupla acepção da palavra: calcula um triunfo e sofre um suplício. (...) A meiguice com que a astúcia disfarça a malvadez repugna ao malvado, continuamente obrigado a trazer essa mistura na boca, e há momentos de enjôo em que o hipócrita vomita quase o pensamento. Engolir essa saliva é coisa horrível. Ajuntai a isso o profundo orgulho. Existem horas em que o hipócrita se estima. Há um eu escondido no impostor. O verme resvala como o dragão e como ele retesa-se e levanta-se. O traidor não é mais que um déspota tolhido que não pode fazer a sua vontade senão resignando-se ao segundo papel. É a mesquinhez capaz da enormidade. O hipócrita é um titã-anão”. (Ibid. p.180-181.Ler o restante: p.182-185).
      Trechos, também, recomendáveis: a descrição dos tufões no mar (Ib. p. 228 ss.), a descrição dos ventos (p.298-306), as observações do autor sobre a água rabugenta (Ib. p. 250).
      Na minha opinião, a descrição de Gilliat e sua luta com o polvo , a “pieuvre”, essa gelatina animada, que só é vulnerável na cabeça, é um ponto altíssimo da ficção mundial (Ib. p. 393-404).
      Segundo a opinião dos melhores estudiosos de Victor Hugo, Notre-Dame de Paris e Os Miseráveis, são romances de qualidade superior a Os Trabalhadores do Mar.
      Poderão ser melhores?- indago.
      Penso que, nesta altura, é possível entender porque Flaubert escreveu a respeito de Victor Hugo, desinteressando-se de sua fama de vaidoso:
      - Encontrei um homem charmoso (escreveu ele a George Sand em 1872). Não tinha nada de grande homem, muito menos de pontífice. Foi uma descoberta, que me surpreendeu, que me fez bem. (Cit. In: Dictionnaire Universel des Lettres. p. 411).
      Há poucas semanas, reli a coletânea de poemas de Victor Hugo: Hugonianas, traduzida por poetas brasileiros, entre os quais Gonçalves Dias, Castro Alves, Casimiro de Abreu, Artur Azevedo, Raimundo Correia, Múcio Teixeira,Vicente de Carvalho, João Ribeiro.
      O volume foi reunido por Múcio Teixeira, um gaúcho de Porto Alegre. A primeira edição foi patrocinada pelo Imperador Dom Pedro II, quando da morte de Victor Hugo em 1885 .
      Hugonianas (Poesias de Victor Hugo Traduzidas por Poetas Brasileiros) foi reeditada, em 2003, pela Academia Brasileira de Letras, com introdução de Sérgio Paulo Rouanet. Constituiu uma homenagem da Academia ao Poeta no Segundo Centenário do seu nascimento.
      Reproduzo, a seguir, dois poemas de Victor Hugo,verdadeiras obras-primas de sua altíssima poesia:

1. Booz Adormecido.

Deitara-se Booz, à fadiga prostrado,
na eira; ao labor da ceifa andara todo o dia;
fez o leito depois no sítio costumado.
Dos alqueires de trigo ao pé Booz dormia.

Possuía o ancião a mais farta cultura
de cevada e trigais, uma riqueza enorme;
e contudo a sua alma era simples e pura,
e a sua consciência à justiça conforme.

Lembrava a sua barba um argentado arroio
de abril. Não sendo avaro o bom velho, se via,
acaso uma infeliz a respigar no joio:
- “Deixem cair, um pouco, as espigas...” dizia.

Nunca esse homem trilhou por oblíquos caminhos.
E era consigo sempre a cândida pureza.
Vestiam-no de branco a probidade e os linhos.
E os seus sacos de grãos abria-os à pobreza.

Booz era o bom chefe a quem os demais louvavam.
Dava a mancheias os bens que uma alma terna expande
E as mulheres, Booz mais do que a um moço, olhavam.
Pode o jovem ser belo: é belo o velho, e grande.

Pois o velho, que ao berço originário tende,
Deixa o que passa aqui pelo que eterno dura.
Se uma chama no olhar da mocidade esplende,
nos olhos do ancião a luz é que fulgura.

Ora, entre os seus, Booz nessa noite dormia.
Das medas, como junto a algum escombro estranho,
perto, um ceifeiro de outro lado se estendia.
Deitavam-se. E isto foi pelos tempos de antanho.

Por chefe, os de Israel a um sábio veneravam.
E a terra, onde surpreso o homem a jornada finda,
tremia ao ver os pés de monstros que a marcavam;
Aquosa do dilúvio estava, e mole ainda.     

Tal qual Jacó dormiu, como Judite, outrora,
sob as folhas Booz jazia. De repente,
sobre a sua cabeça abriu o céu, a essa hora;
e eis que um sonho baixou, então, à sua frente.

E esse sonho foi tal, que um carvalho gigante
viu Booz do seu ventre erguer-se – e o azul tocava.
Por ele ia uma raça, a escalá-lo, anelante:
cantava embaixo um rei, no alto um deus expirava,

E Booz murmurou com a voz de sua alma:
“-Poderá ser, Senhor, se há tanto que me abstenho?
Por oitenta anos conto uma existência calma,
não possuo um só filho, e já mulher não tenho.

“Aquela que dormiu comigo nesta vida,
pelo vosso trocou, ó Senhor, o meu leito;
sinto que lhe pertenço, e tenho-a mim unida
sempre, ela semiviva e eu a meio desfeito.

“Pois vai nascer de mim uma raça? Ó virtude!
Posso eu gerar, e ter de uma tal prole a glória?
Triunfa, ao despertar da aurora a juventude
E sai da noite o sol, como de uma vitória.

“Mas velho, tremo assim como a bétula ao vento.
Sou viúvo, sozinho:e o céu já se fez turvo.
Para a cova, meu Deus, como um boi que, sedento,
Para a água a testa pende, eu a minha alma curvo”.

Assim falou num sonho extasiadamente
a Deus volvendo o olhar que o sonho escurecia;
e como o cedro à base uma rosa não sente,
Booz uma mulher a seus pés não sentia.

Viera ter ali Rute, uma moabita,
e reclinada junto a Booz, tendo o seio
nu, quedou-se, a esperar daquele que dormita
E há de acordar, o ardor de um breve bruxoleio.

Não sabia Booz que uma mulher estava
ali perto. Nem Rute o que Deus lhe queria...
Das abróteas aflante o eflúvio se evolava
e a aura da noite no ar de Galgalá fluía.

Nupcial era a sombra augusta e majestosa.
Voavam anjos entre o céu e a gleba rasa,
pois que às vezes se via a errar na noite umbrosa
qualquer coisa de azul que parecia uma asa.

Surdas, ao respirar de Booz como fosse
igual o ritmo, na erva as fontes mal se ouviam.
Passava então o mês em que a Natura é doce,
das colinas ao cimo os lírios se erigiam.

Rute cismava, e Booz dormia: a campainha
dos rebanhos vibrava: a relva, toda escura.
Do firmamento,imensa, uma bondade vinha.
Iam beber, nessa hora, os leões à planura.

Ur e Jerimadé ao longe repousavam.
Profundo e negro, o céu. Brilhando no ocidente,
Entre as flores da treva – os astros que apontavam –
Rute olhava, a subir fino e claro o Crescente:

E imaginava, o rosto entre os seus véus sombrio,
que deuses, que segador do sideral tesouro
abandonara assim, à luz do eterno estio,
sobre o estrelado campo, aquela foice de ouro.
(Tradução de Eduardo Guimarães).

      Observações sobre a tradução de Eduardo Guimarães:
     1. Não se pode exigir, mesmo de um grande poeta como Eduardo Guimarães, que recrie completamente a coloquialidade de Victor Hugo. Ela é inimitável.
      2. Penso que seria viável modificar o ultimo verso do primeiro quarteto.
No original de Victor Hugo soa assim:
      Booz dormait auprès de boisseaux pleins de blé.
      A frase do poeta seria, nesse caso, mais  preservada na sua fluência.
Em vez do verso de Eduardo Guimarães:
      Dos alqueires de trigo ao pé Booz dormia
      sugeriria:
      Ao pé dos alqueires de trigo Booz dormia.
     O verso, que propomos em substituição ao de Guimarães, é menos melodioso, porém não introduz uma espécie de coágulo na circulação sanguínea do ritmo. Em Victo Hugo tal verso pode parecer “prosaico”. Não é.
      3. Não estou diminuindo Eduardo Guimarães, por favor! Apenas chamo a atenção do leitor para os versos finais do segundo quarteto, que no original de Victor Hugo soam:

Il n’avait pás de fange em l’eau de son moulin;
Il n’avait pás d’enfer dans le feu de sa forge.

      Quem podia exigir de Eduardo Guimarães a transposição desses dois versos? Suponho que o leitor compreenda o original francês.
      4. Não me deterei em outros pormenores. Passo, imediatamente às estrofes 17 e 18.
      Na estrofe 17: julgo impossível verter para o português a magia dos seguintes versos:

Um frais parfum sortait des touffes d’asphodèle;
les soufles de la nuit flotaient sur Galgala.

      Pelo amor de Deus: deixem Eduardo Guimarães em paz! Ele já fez muito ao encontrar a seguinte transposição:

Das abróteas, aflante, o eflúvio se evolava
e a aura da noite no ar de Galgalá fluía.

      Quase chegou ao milagre!
      O mesmo se diga do verso inicial da seguinte estrofe:
      da estrofe
      L’ombre etait nuptiale, auguste et solemnelle

      que Eduardo Guimarães traduziu:

      Nupcial era a sombra augusta e majestosa.

      Em português, o verso ficou, talvez, solene demais, porém guardou o aroma liturgico do verso hugoniano.
      Até aqui, minhas restrições.
      Mas que dizer dos achados de Eduardo Guimarães?
      Achados?
      Não: prodígios!
      Eduardo Guimarães conseguiu ser Victor Hugo em português na maioria dos versos:
      Lembrava a sua barba um argentado arroio de abril;
      Que dizer da tradução de Guimarães dos versos da oitava estrofe:

E a terra, onde surpreso o homem a jornada finda,
tremia ao ver os pés dos monstros que a marcavam,
aquosa do dilúvio estava, e mole ainda.  ?

      Outros versos maravilhosamente vertidos por Guimarães, são os da décima estrofe:

Por ele uma raça, a escalá-lo anelante:
cantava embaixo um rei, no alto um deus expirava.

      Para concluir:
     Eduardo Guimarães conseguiu algo que poeta algum do Brasil teria conseguido, a não ser (quem sabe?) Manuel Bandeira, se este resolvesse traduzir o poema de Victor Hugo; ou seja: manter as rimas cantantes e simples do original!
      Acrescento que as últimas disposições testamentárias de Victor Hugo foram:

(...) Dou cinqüenta mil francos aos pobres de Paris.
Desejo ser conduzido ao cemitério no mesmo carro em que eles o são
Recuso a oração de todas as igrejas, peço uma prece a todas as almas.
Creio em Deus.

     Victor Hugo preferiu não receber os sacramentos da Igreja, que o Arcebispo de Paris se dispôs, cortesmente, a a administrar-lhe.

2. OH! Não Insulteis...

Oh! Não insulteis nunca uma mulher perdida!
Quem sabe qual o transe em que ela foi vencida?
Quem sabe se foi longo o seu combate rude,
entre as mil privações que assaltam a virtude?
Se o vento das paixões soprou com violência,
quem já viu a mulher, que prendia a inocência
nas pequeninas mãos cruzadas sobre o seio,
não ir no turbilhão, gritando com receio?...
Tal a gota de chuva – a pérola da rama: -
brilha ao passar do vento, oscila e cai na lama!

A culpa é nossa; é tua, ó rico! é do teu ouro!
Mas, no lodo é que o mar esconde o seu tesouro...
Para que o pingo d’água erga-se da poeira,
com o vivo esplendor e a limpidez primeira,
já que as transformações se operam pra melhor,
daí-lhe um raio de sol! daí-lhe um raio de amor! 
(Tradução de Múcio Teixeira. In: Hugonianas.3 ed. Rio de Janeiro,Academia Brasileira de Letras, 2003. p.280).

III. Subsídios para o Conhecimento da Vida e da Obra de Victor Hugo.

      Victor Maria Hugo nasceu a 26 de fevereiro de 1802, na cidade de Besançon, em cujo quartel seu pai, o General José Leopoldo Segisberto Hugo - mais tarde Conde de Hugo - um dos maiores heróis da República e do Império - comandava uma das guarnições.
      Sua mãe era uma jovem da Vendéia, Sofia Francisca Trébuchet. O casal teve três filhos, Abel, Eugênio e Victor.
      Aos 12 anos, o menino, que tinha acompanhado o pai nas suas andanças, demorando-se especialmente em Madrid, onde o pai foi governador militar, conhecia a Itália e a Espanha.  Em Madrid, Victor Hugo freqüentou o Seminário dos Nobres, tendo sido pajem do Rei José Bonaparte.
      Regressou à França em 1813.
     Infelizmente, pouco depois dessa data, os pais de Victor Hugo se separaram.
      Em Paris, Victor Hugo estudou num excelente, o Louis-le-Grand.
      O poeta começou a tornar-se conhecido nas letras muito cedo. Aos 20 anos, ele seguia um figurino poético: eram os versos do poeta mais moderno da época, Voltaire (1694-1778), que falecera 40 anos antes do nascimento de Victor Hugo. Victor Hugo já então possuía leitores, e podia gloriar-se, ao menos, de duas distinções, uma Menção Honrosa da Academia Francesa de Letras, e um Prêmio da Academia dos Jogos Florais de Toulouse.  
      Em 1822, Victor Hugo casou-se com Adèle Foucher, filha de um amigo de seu pai. Do casamento com Adèle nasceram-lhes, entre 1824 e 1830, quatro filhos: Léopoldine, Charles, François-Victor e Adèle.
      A partir de 1833, Victor Hugo relacionou-se com uma jovem atriz, chamada Juliette Drouet, ligação que iria prolongar-se por 50 anos.
      O poeta, como nota um seu biógrafo, teve, daí por diante, duas vidas: uma oficial e decorativa junto de sua esposa; outra real e efetiva junto de sua amante, a quem via todos os dias, e com quem empreendeu longas viagens.
      Em 1843, Victor Hugo sofreu a sua primeira tragédia: a filha mais velha, Léopoldine, e seu genro morreram afogados em Villequier-sur-Seine.
      “À Villequier” é o título de uma de suas meditações líricas mais impressionantes!
      Foi eleito deputado em 1848.
      Em junho de 1822 publicou sua primeira coletânea poética, Odes e Poesias Diversas, uma edição em papel barato de 1500 exemplares, que teve, no mesmo ano, segunda edição. No ano seguinte, editou um romance Yan (ou Han) de Islândia, inspirado no autor dominante da literatura mundial de então, Walter Scott, cujos romances históricos eram lidos em todas as regiões do planeta.
      Seguiram-se-lhes as seguintes publicações:

      Obras Poéticas:
     Orientais (1827), poemas sobre Corinto, Esparta e Creta; sobre os turcos que massacravam os gregos, que lutavam pela independência de sua pátria; sobre Ali Paxá que lutava pela liberdade na Argélia; e sobre outros temas.
      Folhas de Outono (1831).
     Comentando esse lançamento, um historiador da época, Jules Janin, registrou: “Paris não falou de outra coisa durante seis meses!” (Cit. Por Matthew Josephson.Victor Hugo. Ibid. p. 88).
      Cantos do Crepúsculo (1835).
      Vozes Interiores (1837).
      As Luzes e as Sombras (1840).
      Em 1853: Chatiments, isto é: (Punições ou Castigos): sátiras contra o Papa, os Bispos, os generais e os magistrados que tinham aceito o Golpe de Estado de 1848. Uma metade do livro, porém, continha poemas de outro estilo, como por exemplo, a poesia Expiação e a poesia Lux (alta meditação filosófica).
      Contemplações (1856), como diz Philippe Van Tieghem, constitui “o supra-sumo do lirismo de Hugo”, uma de suas obras-primas em poesia.m (História Ilustrada das Grandes Literaturas. Literatura Francesa. Tradução de Jacinto do Prado Colho. Lisboa, Estúdios Cor, 1956. p.279).
      Canções das Ruas e dos Bosques é de 1865: contém exemplos de lirismo folgazão, de uma graças às vezes crua. Esses poemas são “o mais acabado exemplo de modernidade na obra poética do autor”, diz Philipp Van Thieghem. (Ibid. p. 280).
      A Legenda dos Séculos (1877-1883), constituída de três séries: a primeira é de 1859; a nova Série é 1873; a última série, de 1883. Nessa obra o Poeta oferece magníficos exemplos de poesia épica. Durante seus 18 anos de exílio, na Ilha de Jersey, e posteriormente na Ilha de Guernesey, Victor Hugo produziu uma série de poemas absolutamente inesquecíveis.
      Castigos, Contemplações, e Legenda dos Séculos formam uma sorte de Trilogia.
      O Ano Terrível, Os Anos Funestos e A Arte de Ser Avô (esta última coletânea, 1877): são livros que não se aos anteriores, no tocante à técnica, mas que se destacam pela simplicidade dos temas, e pela emoção acessível aos leitores.
      Uma observação de Philippe Van Thieghem resume a influência da obra poética de Victor Hugo nas gerações posteriores: todas as correntes que vieram depois,  o Parnasianismo,o Simbolismo e até o Surrealismo,  devem-lhe alguma coisa.(Ibid. p. 282).

       II. Obras Teatrais (de 1827 a 1843: 16 anos).
     Cromwell (1827): o “Prefácio” da peça “vale por uma demonstração teórica” (Philippe Van Thieghem. Ibid. p. 295). O autor propõe a abolição da exigência de unidade de estilo, da distinção de gêneros, etc. Na peça valoriza-se, de modo peculiar, o indivíduo.
      Marion de Lorme (1829;1831): é o tema da cortesã regenerada pelo amor. O maior valor da peça consiste em ser “um melodrama com belos versos”. Victor Hugo leu o original dessa peça diante de Balzac, Merimée, do pintor Eugène Delacroix, Alexandre Dumas e de Alfred de Musset. (Ibid. p. 295).
      Hernani: foi levada à cena no dia 25 de fevereiro de 1830. Victor Hugo tinha apenas 27 anos! Apresenta belos diálogos líricos, esplêndidas tiradas de filosofia política, e um estilo fogoso, colorido, nervoso. Antecipa a Filosofia e a Psicologia do Absurdo. (Philippe Van Thieghem. Ibid. p. 296). A estréia dessa peça foi, literalmente, “uma loucura”. Durante os 45 dias, em que esteve em cartaz, classicistas e românticos digladiaram-se no interior do teatro. A claque, que apoiava Victor Hugo, era comandada por dois rapazes, Théophile Gautier, de 18 anos, que usava os cabelos pelos ombros, e vestia um colete vermelho e calças de seda verde, e por Gerard de Nerval, que chefiava outro grupo. Hector Berlioz, também, participava da brigada romântica. Balzac e Stendhal compareceram à estréia, mas ficaram de lado, observando as rixas. Acendeu-se o palco às 19 horas. A platéia ficou às escuras. Entre a assistência, o Duque de Saxe-Coburg, Chateaubriand, Madame de Récamier, Benjamin Constant. A peça provocou um fogo cruzado entre cavalheiros de certa idade e jovens furibundos. Um dos “classicistas”, logo no início da peça explodiu: A orgia já começa com o primeiro verso, que não tem rima”...Seguiram-se dezenas de interrupções. A platéia, em peso,m porém, deixou-se emocionar, e emudeceu no Quinto Ato do drama, no delicioso diálogo de amor entre Dona Sol e Hernani: Vinde ver como a noite está linda!” O público, isto é, os jovens, partidários de Victor Hugo, aplaudiram no final a peça pelo espaço de uma hora!
      No dia seguinte, Chateaubriand escreveu a Victor Hugo: “Estou indo, e vós estais vindo”. (Matthew Josephson. Victor Hugo.p. 127). Pode-se dizer que, aos 30 anos, sob o ponto de vista financeiro, Victor Hugo passou a ser um dos mais ricos homens de letras da França. (M. Josephson. Ibid. p. 128).Entre 1830 e 1833, o Poeta ganhou 47.000 francos. Victor Hugo pôde esquecer os tempos em que vivia “com dois francos por dia”. Sobre a fortuna de Victor Hugo (Cf. Ibid. p. 223)
      O Rei Diverte-se, de 1832, tem o mérito, entre outros, de ter fornecido o libreto da Ópera Rigoletto, de Giuseppe Verdi.
      Lucrécia Bórgia é 1833: é a peça na qual a amante de Victor Hugo, Juliette Drouet, representou o papel da Princesa Negroni, jovem sedutora de Ferrara, que recepcionou, para um banquete, os inimigos de Lucrécia, que durante o festim foram envenenados. A partir daí, o Poeta apaixona-se pela jovem atriz Juliette, “acintosamente coquete” – como a descreve um biógrafo. (M. Josephson. Ibid. p. 171. Sobre sua futura Juju, ex-amante do escultor Pradier e do Príncipe Demidoff, Victor |Hugo escreveu, num de seus diários íntimos: Como ela é linda! Que corpo, que ombros, que perfil encantador!(Cit. Ibid. p. 173).
      Maria Tudor,de 1833, foi um fracasso do ponto de vista financeiro. Juliette, que aparecia nas últimas cenas do terceiro ato, como Miss Jane, foi clamosamente vaiada.
      A Esmeralda (1836);
      Ruy Blas, de 1838, constituiu um grande sucesso popular desde a estréia no dia 28 de abril de 1835. Trata-se de um lacaio que se torna primeiro ministro e amante da Rainha de Espanha, ou seja, um verme da terra que se enamora de uma estrela! As cenas remetem ao século XVII. Na estréia dessa peça, compareceram muitos membros da Família Real.
      Os Burgraves (1843);
      Torquemada (1882).

       III. Romances:
      Han de Islândia (1823);
      Bug-Jargal (1826);
      Último Dia de um Condenado (1829).
      Notre-Dame de Paris (1831)foi o primeiro romance de grande envergadura de Victor Hugo. Nascido, sem dúvida, sob a influência de Walter Scott.(Cf. Ph. Van Thieghem. Ib. p. 304).Convém destacar nele o trabalho de documentação do autor sobre a Paris do século XV. Pode-se afirmar que Notre-Dame de Paris foi o primeiro grande romance histórico da literatura francesa. Antes disso, já outros haviam escrito narrativas históricas: Alfred de Vigny abordara a personagem de Richelieu em Cinq Mars, Prosper Merimée, futuro autor futuro de Carmen, escrevera sobre Charles IX. Ninguém, porém, consegue hoje em dia ler tais narrativas. Victor Hugo resiste, traduzido para mais de 20 idiomas. Sem falar nas versões cinematográficas que o romance inspirou...Desde Chateaubriand, nunca se vira tal abundância de cor e estilo numa prosa de ficção. O livro lançou uma moda, que arrastou atrás de si Alexandre Dumas, Théophile Gautier, e o próprio Flaubert. A unidade de ação de Victor Hugo acabou conferindo grande prestígio ao romance francês, estimulando em especial Balzac.
      Claudia Gueux (1834);
      O Reno (1842)
     Os Miseráveis (1862). Foi a obra de ficção romanesca que o tornou milionário (Cf. Hugonianas. p. LXI). Um painel grandioso “de exatidão no realismo moral e de espantoso acerto nas grandes cenas psicológicas” – escreveu Ph. Van Tieghem. (Ib. p. 305). O romance constitui: o poema épico duma França já lendária, em que a realidade se transpõe constantemente para o plano poético e simbólico. (Ibid. p. 305).G. Lanson e P. Tuffrau, em seu Manuel d’Histoire de la Littérature Français apresentam um sumário notável do enredo da história:
      Graças à influência de um Bispo, humilde e pobre, Dom Myriel, Jean Valjean, um forçado, que fora libertado após longos anos de cativeiro, e que no fundo não era senão um infeliz, volta a uma vida normal de bons costumes. Devido, porém, a um menino que o importunava, e que foge, largando-lhe aos pés uma moeda de ouro, tornam a prende-lo. Sob o nome de Monsieur Madeleine, Valjean reabilita-se, e acaba tornando-se um homem de negócios bem sucedido, dono até de uma fábrica. Interessa-se, então, por todos os miseráveis da cidadezinha em que habita, entre os quais Fantine, uma moça explorada, mãe de uma criança submetida a uma espécie de escravidão numa pensão. Um único homem, contudo, fanático da ordem, Monsieur Javert, segue-o de perto. Um belo dia, Monsieur Madeleine, o empresário, é preso,, e condenado a 8 anos de cárcere. Monsieur Madeleine prefere deixar-se incriminar, para salvar um inocente, ao qual atribuem um de seus crimes do passado. Consegue, no entanto, evadir-se, e toma conta da filha de Fantine. Com ela vai a Paris, onde se estabelece. O policial Javert,contudo, não o perde de vista. Monseur Madeleine, isto é, Jean Valjean e Cosette, a menina de Fantine,fogem dele abrigando-se num convento - ele na qualidade de jardineiro. Cosette, a menina, é educada pelas freiras, e, torna-se adolescente. Um rapaz, filho de uma família burguesa, enamora-se dela, às ocultas. Um dia, Valjean surpreende um bilhete do namorado de Cosette, Marius, e vai procurá-lo numa das barricadas de Paris, onde o rapaz lutava na companhia de seus amigos, pertencentes a uma sociedade secreta. Encontra-o ferido, e o transporta nos ombros para sua casa, escondendo-o nos esgotos de Paris. Uma vez curado, Marius casa com Cosette, recebendo um dote generoso de Valjean. Este revela, então, a Marius sua verdadeira identidade, e sua resolução de viver, doravante, à parte. Morre lentamente, entristecido por não ter mais Cosette perto dele.     
      São 2800 páginas de texto, entre as quais 900, (segundo o cálculo de um comentarista) constituídas de digressões. Mas que digressões! O romance mereceu rasgados elogios dos maiores escritores da época, entre os quais dois ingleses, George Meredith e o poeta Tennyson, que dedicou a Victor Hugo um soneto, no qual o chamou de senhor das lágrimas humanas.(Cit. Por M. Josephspon. Ib. p. 401).
      A esse romance de Victor Hugo podem-se aplicar as seguintes palavras de Harold Bloom:
      Victor Hugo talvez tenha sido:
      - o último dos autores universais na linha de Cervantes, Shakespeare e Dickens. Não encontro similar no século XX e duvido que surja algum no século XXI.
       (Gênio.Os 100 Autores Mais Criativos da História da Literatura.Tradução de José Roberto O’Shea. São Paulo, Editora Objetiva, 2003. p. 471).
      Referindo-se a um crítico francês que lhe dizia, na Universidade de Princeton, que, “na França, Victor Hugo era um poeta lido apenas por colegiais”, Harold Blomm contestou:
      - Parece segura a previsão de que Victor Hugo, a exemplo de Shelley, sempre há de enterrar os seus agentes funerários. (Ibid. p. 475).
      OsTrabalhadores do Mar (1866),
      O Homem Que Ri (1869): outro romance histórico, passado no século XVIII.
      Noventa e Três (1872).
      Além de poeta e romancista, Victor Hugo foi historiador: Napoleão, o Pequeno (1852) e História de um Crime (1877; filósofo: Literatura e Filosofia (1834); William Shakespeare (1864); memorialista: Antes do Exílio (1841-1851); Durante o Exílio (1852-1870); Depois do Exílio (1870-7876).
Entrou para a Academia Francesa em 1841.
      Depois da Revolução de 1848, tornou-se o mais eloqüente defensor da liberdade em seu pais, e o mais intransigente adversário de Napoleão III, o que o levou a ser desterrado logo após o Golpe de Estado de 2 de dezembro daquele ano.
      Victor Hugo instalou-se, inicialmente em Jersey, e depois de 1855, em Guernesey, onde aquiriu uma mansão.
      Regressou do exílio 18 anos após, quando da queda do Império.
      Nesse entremeio, em 1863, sua filha Adèle enlouqueceu (faleceria em 1915). Sua esposa legítima, Adèle, também faleceu, em 1868.
      Em 1871, morreu seu filho Charles, e 1873, e seu outro filho, François-Victor.
       O velho poeta consolou-se com seus dois netos, Georges e Jeanne (que lhe inspiram as líricas de A Arte de Ser Avô (1877).
       Um ano antes, fora eleito senador em 1876.
       Em 1883 faleceu Juliette Drouet.
     Dois anos após, em 1885, morre o Poeta, que teve funerais concorridíssimos. Mais de um milhão de pessoas acompanharam seu corpo até ao Panthéon, onde foi sepultado. (Cit. in Hugonianas. p. LIX).
Talvez os leitores não saibam que, segundo Múcio Teixeira, Victor Hugo foi “o poeta que mais influiu sobre a poesia brasileira”. (Hugonianas. 3 ed. Rio de Janeiro, Rdições de Academia Brasileira de Letras, 2003. p. XXXVII).
Diz Múcio: “A não ser A Luva e O Sino de Schiller, fragmentos do Fausto de Goethe, e algumas poesias de Musset só para Victor Hugo se têm voltado os poetas brasileiros (o autor se referia a uma data: até 1855). (Ibid. p. XXXVIII).
      Entre outros poetas nacionais, buscaram inspiração em Victor Hugo, Gonçalves Dias (por exemplo, a poesia Rosa do Mar, inspirada em Sara la Baigneuse de Hugo); Álvares de Azevedo (que se orgulhava de ter na sua sala, entre seus três retratos prediletos, o de Victor Hugo, “O Poeta de Deus e dos amores puros”; Castro Alves cita Victor Hugo na sua poesia “As Duas Ilhas”, onde chama Victor Hugo de gigante, ao lado de Napoleão; em seus versos diz:

Diz o céu astros chorando:
- E Hugo? – E o mundo pasmado
Diz: Hugo!...Napoleão!...;
      Casimiro de Abreu, que era tão afeiçoado a Lamartine, não deixou de pagar seu tributo ao grande autor de Contemplações, embora não lhe tenha traduzido verso algum. (Ibid. p. XLII).
      No dia 22 de maio de 1878, o Imperador Dom Pedro II fez questão de visitar Victor Hugo na sua casa em Paris. O grande Poeta deu ao Imperador dois livros, um exemplar de Orientales, e um exemplar de Notre-Dame de Paris, no qual escreveu a seguinte dedicatória de uma simplicidade exemplar:
      A D. Pedro de Alcântara
      Victor Hugo. (Cit.in: Hugonianas.p. L).  

      Augusto Meyer, o grande poeta e crítico gaúcho, deixou-nos breve, porém belo, ensaio sobre Victor Hugo, onde declara que sua geração, a dos pós-simbolistas, desrespeitou, inicialmente, o grande Poeta, porque era moda – e esta moda provinha de falta de assunto e da mais dinâmica das ignorâncias.
Mais tarde, alertado por Eduardo Guimarães, descobriu o gênio de Victor Hugo, embora Meyer tenha tido consciência de certos excessos desse mesmo gênio:
      - (...) uma serrania de antíteses, uma torrente fragorosa e às vezes impura de (versos) alexandrinos (em cujo seio apareciam) rasgões de abismo e momentos de pura melodia astral...
      Meyer revela como, aos poucos, “talvez pela reação de cansaço ou saturação hipercrítica”, Victor Hugo começou a ser revalorizado, e como o romance Os Miseráveis chamou a atenção de todos para seu autor, tudo culminando em 1952, quando se terminou de lançar em Paris a grande edição de suas Oeuvres Complètes.
      Conclui seu ensaio com fino senso crítico:
      - A verdade é que só agora começou a ressaltar a verdadeira fisionomia do poeta, em termos de verdade poética ou estilística. O mago, o profeta, o vidente, o exilado político, o campeão das liberdades populares, o fauno de inatacável dentadura e glândulas perfeitas, Olympio e a sua legenda, afinal de contas, não bastam a explicar a magia de um ritmo. (Textos Críticos.(Org. de João Alexandre Barbosa). São Paulo, Editora Perspectiva- INL-Fundação Nacional Pró-Memória/MINC, 1986. p. 451-453).
      Também em Portugal, Victor Hugo exerceu influências profundas. Citemos alguns autores: Garrett (em O Arco de Sant’Ana) e, em termos de poesia, em Tomás Ribeiro, Teófilo Braga, Antero de Quental, Gomes Leal, Guerra Junqueiro, Teixeira de Pascoaes.
      Eça de Queirós dizia: “Eu admiro Victor Hugo, meu amigo” (...) Eu aprendi quase a ler nas obras de Hugo...”(Cf. Philippe Van Tieghem. História Ilustrada das Grandes Literaturas. História da Literatura Francesa. Tradução, prefácio e notas de Jacinto do Prado Coelho. Lisboa, Estúdios Cor, 1955. Nota de Jacinto do Prado Coelho. p. 282).

      IV. Tradução do Poema Famoso que Victor Hugo dedicou à M emória de sua Filha Léopoldine.

Em Villequier

Agora que Paris, seu chão e seus mármores,
sua bruma e seus tetos, estão bem longe de meus olhos;
agora que estou sob os galhos das árvores,
e posso pensar na beleza do céu;

agora que, do luto que obscureceu minha alma,
saio - embora pálido - vencedor,
e que me envolve a paz da grande natureza,
a qual me impregna o coração;

agora que eu posso, sentado à orla das ondas,
comovido por esse soberbo e tranqüilo horizonte,
examinar em mim as verdades profundas,
e olhar para as flores que vicejam na relva;

agora, meu Deus, que estou nesta calma sombria
de poder, novamente,
ver com meus olhos a pedra onde eu sei que à sua sombra
ela dorme para sempre;

agora que enternecido por esses divinos espetáculos,
planícies, florestas, rochedos, vales, arroios prateados,
vejo minha pequenez, e vendo tais milagres
recupero minha razão diante da imensidade:

venho a vós, Senhor, ó Pai, no qual se deve crer;
trago-Vos, apaziguado, o coração,
os pedaços deste coração inundado de vossa glória,
que Vós quebrantastes;

venho a vós, Senhor, confessando que  sois
bom, clemente, indulgente e doce, oh Deus vivo!
Admito que vós somente Vós sabeis o que fazeis,
e que o homem não é senão um junco a tremer ao vento;

digo que o túmulo, que se fecha sobre os mortos,
abre as portas do firmamento;
e que aqui, onde estamos, tomamos por fim
o que é o começo;

admito, de joelhos, que somente Vós, augusto Pai,
possuís o infinito, o real, e o absoluto.
Admito que isso é bom, admito que isso é justo,
que meu coração sangrou, pois vós assim o quisestes!

Não resisto mais a tudo o que me acontece
por vossa vontade.
A alma, além dos lutos, o homem, de margem em margem,
desliza para a eternidade.

Nós não vemos senão um lado das coisas;
o outro lado mergulha na noite de um mistério assustador.
O homem sofre o seu destino sem conhecer suas causas.
Tudo que ele vê é breve, inútil, e fugitivo.

Vós fazeis que a solidão regresse constantemente
à volta de todos os seus passos.
Não quisestes que ele tivesse aqui certezas,
nem, neste mundo, a alegria que sacia.

No momento em que ele goza de um bem, a sorte lho retira,
nada lhe é concedido para sempre nos seus velozes dias,
de modo que possa construir uma mansão, e dizer:
é aqui minha morada, meu campo, meus amores!

O homem deve ver durante pouco tempo o que seus olhos vêem;
envelhece sem poder voltar atrás.
Já que essas coisas são o que elas devem ser:
consinto nelas, sim, eu as aceito.

O mundo é sombrio, ó Senhor! A imutável harmonia
compõe-se não só de lágrimas, mas também de cânticos;
o homem não é senão um átomo nessa sombra infinita,
nessa noite onde os bons se elevam, e os maus naufragam.

Eu sei que tendes muito mais a fazer
do que lastimar nossa sorte,
e que um filho que morre, desespero de sua mãe,
não Vos impressiona.

sei que o fruto tomba ao vento que o sacode;
que o pássaro perde sua plumagem, e a flor seu aroma;
que a criação é uma espécie de grande roda
que não pode girar sem esmagar alguém.

Os meses, os dias, as vagas do mar, os olhos que choram,
passam debaixo do céu azul;
é preciso que a erva cresça, e que as crianças morram;
bem o sei, meu Deus!

Nos vossos céus, além da esfera das nuvens,
No fundo desse azul imóvel e adormecido,
talvez operais coisas desconhecidas,
nas quais a dor humana se entreteça como um dos elementos.

Pode ser que seja útil a vossos desígnios indizíveis
que algumas criaturas encantadoras
sejam arrastadas pelo turbilhão sombrio
de tétricos acontecimentos.

Nossos destinos tenebrosos são para vós leis imensas
que nada desconcerta, que nada suaviza;
Vós não podeis ter súbitas clemências
que desarranjem o mundo, pois sois um Espírito tranqüilo.

Considerai, ainda que eu trabalhei desde a aurora,
que trabalhei, combati, pensei, caminhei, lutei,
tentando explicar a natureza ao homem que a ignora,
esclarecendo as coisas com a vossa claridade;

que eu enfrentei a raiva e a cólera,
que procurei fazer minha tarefa aqui,
que eu não podia esperar tal salário
que não era capaz de esperá-lo.

Prever que, vós também, sobre minha cabeça que se curva,
iríeis deixar tombar vosso braço triunfante,
e que, como vós vedes, a mim que gozo de poucas alegrias,
me tomaríeis tão cedo essa filha!

Que uma alma assim ferida não deixe de se queixar,
que ela possa até blasfemar,
e vos lançar gritos, à maneira de uma criança que joga
pedras ao mar!

Considerai que se possa duvidar, ó Deus, quando se sofre,
que a pupila que lacrimeja termine por ficar cega,
que um ser, que o luto afunda no mais escuro abismo,
não possa vos contemplar quando não vos possa mais ver,

e que não é possível ao homem,
quando mergulha nas aflições,
ter presente ao espírito a serenidade límpida
das constelações!

Hoje eu, eu que fui frágil como uma mãe,
me inclino a vossos pés, diante de vossos céus abertos,
e me sinto iluminado, em minha dor amarga;
por um olhar mais puro sobre o Universo.

Reconheço, Senhor, que o homem delira
quando ousa murmurar;
cesso de acusar, cesso de maldizer,
mas permiti-me chorar!

Deixai que minhas lágrimas corram de minhas pálpebras,
já que fizestes os homens para isso!
Permiti que eu me incline sobre esse frio jazigo,
e diga à minha filha: sabes, por acaso, que eu estou aqui?

Permiti que eu lhe fale, curvado sobre seus restos,
quando o sol se põe, e tudo silencia,
como se, de dentro de sua noite, ela abrindo os olhos,
oh, esse anjo me pudesse escutar!

Para minha desdita, deixai que eu olhe para o passado,
sem que nele nada me possa consolar,
e veja tal momento de minha existência,
quando a vi abrir suas asas, e voar!

Verei esse momento, sempre, até quando eu morra,
esse instante... ó lágrimas supérfluas!
Quando eu gritava: A filha que estava comigo até há pouco,
que loucura! já não está!

Não vos irriteis que eu seja assim,
Deus meu! Esta ferida já sangrou demais!
A angústia em minha alma é cada vez mais intensa,
e o meu coração se submete, mas não resignado.

Não vos irriteis! Nossas frontes, que o luto oprime,
são mortais, e sujeitas aos prantos!
É para nós quase impossível retirar nossa alma
de tão grandes padecimentos.

Vede, Senhor, nossos filhos nos são necessários!
quando, certa manhã, nós os vemos,
no meio de nossas preocupações, mágoas, e mistérios.
no meio de nossos tédios, e de nossas misérias,
e das sombras que sobre nós faz cair o destino:

oh, quando aparece um filho, sua cabecinha querida e sagrada,
essa pequena jóia viva,
tão bela que ao vê-lo, parece que se abre
uma porta no céu;

quando se viveu durante dezesseis anos, com esse outro eu mesmo,
quando se viu crescer  a graça amável de sua doce razão,
quando se reconheceu que essa filha nos ama,
que ela reside em nossa alma, e em nossa casa,

como não ver que essa é a única alegria que persiste,
neste mundo, de tudo que se sonhou?
Considerai que é uma coisa tristíssima
ver, de repente, essa criatura desaparecer!

Villequier, 4 de setembro de 1847.

(Georges Pompidou (ex-Presidente da França) Anthologie de la Poesia Française. Nouvelle édition suivie d’um post-scriptum. Paris, Librairie Hachette, 1974. p.298-303. Trad. Amindo Trevisan).