terça-feira, 28 de junho de 2011

Vale a Pena Ser Escritor?

      - Ser escritor é bom dos 15 aos 50 anos!
Nesse período temos amáveis certezas. Achamo-nos campeões, criticamos Machado de Assis, ou Graciliano Ramos e - dependendo de nosso estado psíquico - somos capazes de meter defeito em Homero e Shakespeare.
Principalmente em Shakespeare.
Homero, afinal, permanece nas brumas da História! Criticar o velho bardo seria exibir a própria nudez intelectual, isto é, a comum realidade de uma parte dos leitores atuais que não lêem senão orelhas de livros, embora façam questão de ler.
Para dizer a verdade, já principia a haver gente que desconfia, até, dos críticos literários, e dos historiadores da literatura.
Afirmam tais céticos que essa espécie de eruditos lêem autores como Homero, mas os lêem como se eles, os críticos, fossem os autores da Ilíada e da Odisséia, e de outras obras-primas.
São eruditos que pairam sobre as obras, particularmente as de Homero. Uma vez que não se sabe, ao certo, quem foi Homero, dizem que é possível atribuir-se a si próprio a autoria de ambas as epopéias. Conseqüentemente, de toda a exegese dessas obras.
       Reitero: é bom ser escritor entre os 15 e os 50 anos.
Minha sorte foi ter nascido num lar cristão.
Fui batizado.
Adquiri a certeza de que tudo, neste mundo, é vaidade, e que a literatura, nas mais das vezes, não se faz nem com bons sentimentos, nem com maus sentimentos.
A literatura se faz com talento, pertinácia, auto-crítica, e amor à humanidade.
Querer ser mau fazendo literatura, ou querer ser bom, é um equívoco. Seria como preparar churrasco, ou bobó de camarão, estando a meditar sobre a Bíblia, ou no momento em que se ajuda um ceguinho a passar a rua.
Quando se faz literatura é preciso fazê-la, isto é, levar a linguagem ao seu estado de ignição, para, nesse estado, obter-se o máximo de isenção autobiográfica. A não ser que se queira compor uma autobiografia, a mais impura das ficções.
No lugar do alicerce autobiográfico, o escritor deve pôr o que existe nele de menos subjetivo.
Uma autobiografia é boa quando o seu autor fala de si próprio como se falasse de toda a humanidade. É melhor ainda, quando o autor se refere a si mesmo como se tivesse nascido noutro século, digamos no século de Júlio César.
Não há dúvida de que substituir a literatura pela vida, ou seja, deixar de ser poeta, romancista ou ensaísta, para se tentar viver como São Francisco de Assis ou a Irmã Dulce da Bahia, é melhor que ser autor. Melhor, até, que ser o melhor dos Prêmios-Nobel.
Nem todos, porém, nascem para ser Francisco de Assis ou a Irmã Dulce!
Posto Deus nunca faça rascunhos para suas obras, em especial, para suas imagens e semelhanças - os homens -, os quais nascem obras-primas por suas almas, alguns, não podendo conservar-se originais, conseguem pelo próprio esforço, regredir à condição de rascunhos. Outros vão mais longe: rasgam-se, esfarrapam-se, queimam-se.
A questão dos bons e maus sentimentos é um legítimo problema que tropeçou, e quebrou o pé. Antes de mais nada, convém engessar o pé, para que volte à posição normal. Depois, poder-se-á caminhar, e formular o problema relativo aos aspectos éticos do ato de escrever.
Em termos gerais, a ética do escrever identifica-se com a comentadíssima regra de Wittgentein: “Quando não se tem nada a dizer (ou escrever) é melhor não dizer (ou escrever) nada”.
A única justificativa do escrever mal é o escritor jurar que escreveu o que não queria escrever.
Ferdinand Céline, por exemplo, não tem desculpas: ele escrevia bem. É, para nós, indesculpável.
Nietzsche escrevia bem?
Quem o negará? É, também, indesculpável.
Quanto mais um escritor é escritor, mais indesculpável ele é.
Dizer que escritor mata com bala perdida é dizer um absurdo. Só um escritor sem estilo pode matar com bala perdida.Um escritor que tem consciência do que é escrever, arrancará, se for possível, os cabelos, mas tentará ser o melhor escritor do mundo. No mínimo, escreverá tão bem quanto lhe é dado pela Natureza e, na medida do imaginável,também por Salamanca.
Existe, porém, um problema gravíssimo para qualquer escritor: saber se possui talento.
Possuir talento é fatalidade. Não possuí-lo,e ter vontade de escrever, é um utópico ato de bondade, porém inútil.
O que dissemos vale para qualquer tipo de arte, não apenas para a arte verbal.
Teresa Stratas (nas décadas de sessenta,setenta e oitenta) foi uma cantora lírica excepcional. No auge de seus sucessos, resolveu interromper sua trajetória artística, e ir para Calcutá, a fim de tornar-se auxiliar da Madre Teresa, hoje canonizada. Ficou com a Santa uns três anos.
Após esse estágio, Madre  Teresa disse-lhe:

- Volta aos palcos, Teresa! O teu lugar é lá, a cantar óperas. Se queres ser cristã, e anunciar a Boa Nova, continua a cantar!
No fundo, o que Santa Teresa de Calcutá fez foi convencer os sabiás a serem sabiás, e os peixes a serem peixes.
Se todo os escritores imitassem Teresa Stratas, a literatura seria mais bela, e mais útil à humanidade. Seria dez vezes mais genial.
Eis porque reitero a cantilena:

- Era bom ser escritor nos velhos tempos, entre os 15 anos e os 50! Quando se chega aos 50, escrever torna-se um peso. Dizia um dos Sete Sábios da Grécia: “A Vida é um peso”. Peso, de verdade é escrever bem...Perdemos a auto-estima, a lucidez inflaciona-se,e temos consciência de que o que escrevemos não passa de um feixe de espigas sem grãos..
Para piorar a situação, atiramo-nos à leitura das Obras em Prosa de Fernando Pessoa, e de súbito, um fantasma aparece-nos – novo Adamastor, porém em terra firme, e arreremessa-nos às barbas:

- Em arte tudo é lícito, desde que seja superior. (...) O homem de gênio é prodiuzido por um conjunto complexo de circunstâncias, começandop pelas hereditárias, passando pelas do ambiente, e acabando em episódios mínimos da sorte.
(Obras em prosa.Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1995. p.268).
Pessoa não se contenta com isso. Prossegue nas suas exigências:

- O artista como artista sente menos do que os outros homens porque ou produz ao mesmo tempo que sente, e nesse caso há uma dualidade de espírito compatível com o estar entregue a um sentimento; ou então depois, mas, para o poder fazer, deve poder lembrar-se e o lembrar-se indica o ter sentido realmente, ainda que sem consciência disso.
(Ibid. p. 269)
E remata:

- O poeta superior diz o que efetivamente sente. O poeta médio diz o que decide sentir. O poeta inferior diz o que julga que deve sentir. (Ibid. p. 269).

Conto isso aos leitores porque é dificílimo ser humilde!
Por enquanto só sei de um poeta – e grande – que teve coragem de escrever:

-Eu não tenho vaidade nenhuma, de espécie nenhuma.
(Ibid. p. 73).

Foi Fernando Pessoa. Como ele escreveu isso, mas não chegou a publicar em vida, é razoável acreditar no que Pessoa escreveu.
Como atenuante de tão dolorosa lacuna, digo que ninguém encoraja um escritor a ser humilde. Os únicos que nos dão força para isso, são os Santos. Mas os Santos, raramente, são escritores e, quando o são, declaram que são escrevinhadores,ou no  máximo, que são escreventes.
Até o presente, não surgiu uma academia, nem um personnal-trainer disposto a ensinar um escritor a baixar a cabeça.
É verdade que existe uma alternativa à situação: ser ingênuo.
Uma vez instalado nesse estado psicológico, o escritor pode imitar, com a máxima elegância possível, o poeta Antônio Botto (1897-1959, português).
Botto,quando chegou ao Brasil, foi interrogado por um repórter  que desejava saber quais eram os maiores poetas da língua
Botto respondeu:

 São três: Camões e Fernando Pessoa.
       - Dr. Botto, o Sr. Falou de três, e só citou dois...
       - Amigo, todo o mundo sabe que o terceiro sou eu!
      
Não tendo tal persuasão, resta ao escritor a terrível lucidez (não recomendável) de Miguel de Unamuno.
Ao receber um Prêmio Literário das mãos do rei Afonso XIII, Unamuno surpreendeu o monarca:
       -Majestade, agradeço-lhe o Prêmio que acaba de me entrega! Esse prêmio,eu o mereço!
O Rei,mais do que perplexo, teve a idéia de comentar na hora:
       -Professor Unamuno, todos os que até agora receberam este Premio, disseram que não o mereciam?
       Unamuno foi taxativo:
- E eles, também, tinham razão, Majestade!
       

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