terça-feira, 28 de junho de 2011

Sou do tempo em que existiam Avós!

Talvez eu esteja equivocado!
Talvez seja outra a realidade de nossos tempos tormentosos!
Talvez vivamos uma época de avós carinhosos!
Talvez nossos avós sejam idolatrados, como o é nossa Pátria, em nosso retumbante Hino Nacional.
Talvez eles estejam vivendo numa digna clandestinidade e por isso não sejam nem tão visíveis, nem celebrados em prosa e verso!
Talvez o Papa Bento XVI, até, se digne, no seio das turbulências psíquicas que nos assediam, beatificar, ou santificar, não só eclesiásticos e religiosos, mas também avós remanescentes!
Ah! Agora me lembro: um dos Papas elevou aos altares os pais de Santa Teresinha de Lisieux!
Mas os pais da cativante Santa das Rosas – só tiveram filhas religiosas... Portanto, não foram avós!
Tudo é possível em nosso mundo agitado, em nossa paulicéia desvairada!
Permitam-me, amáveis leitores, dizer-lhes, com absoluta singeleza, que tive avós maternos, e avós paternos exemplares.
Exemplares?
Não me chamem de ingênuo, por favor!
Meus avós foram pessoas excepcionais, mas unicamente por não terem sido excepcionais. Foram avós normais, dentro do figurino da tradição.
Profissionalmente, eram agricultores, isto é, colonos. Mais tarde, tornaram-se comerciantes.
Contaram-me (tal pioneirismo não me dá orgulho) que meu avô paterno foi o primeiro a adquirir um automóvel na Vila de Silveira Martins, hoje cidade e município gaúcho.
Lembro-me de ter viajado, algumas vezes, no seu automóvel. Chamemos-lhe como se chamava antigamente: automóvel.
Pelo visto, meu avô não dava muita importância ao veículo. Para ele, era uma carroça aperfeiçoada.
É que meu avô Domenico tinha - suponho que por pura dádiva de Deus - cara e estofo de intelectual.Quanto aos óculos, não os usava para parecer intelectual, mas por ser míope.
Era italiano de nascimento. Filho de camponeses. Camponês também ele.
Consultavam-no como a um oráculo, não só os párocos do lugar, mas também os maioriais do vilarejo (emprego a expressão que o tradutor clássico da Bíblia, João Ferreira de Almeida usou na sua tradução, aplicando o termos aos indivíduos importantes da sociedade judaica).
Confiavam-lhe tarefas de líder, em especial na presidência dos fabriqueiros (visto ser muito católico). Era um dos membros da Fabbrica da Paróquia, uma sorte de Conselho de Leigos, que assessorava o pároco nas funções administrativas.
Guardo de meu avô a imagem de um católico devoto, porém discretíssimo.
Minha avó paterna possuía outro temperamento. Era uma Menapace do Tirol, austríaca (nunca admitiu ser italiana:), já que o Tirol, na época de seu nascimento fazia parte da Áustria. Eu teria preferido que ela que fosse mais italiana. Mas era austríaca! Eu tenho admiração pelos austríacos, sobretudo por um deles, Wolfgang Amadeus Mozart.
Era uma mulher positiva, decidida, pão-pão, queijo-queijo.
Não se sensibilizava com facilidade, ao contrário das italianas que eu conheci, esfuziantes, derramadas, às vezes fatigantes. Quando, nós os netos, a visitávamos, interessava-se, antes de tudo, em que comêssemos algum doce, uma cuca... e pronto.
Era uma falsa durona.
Num dia em que chovera, fui buscá-la para vir tomar mate – chimarrão doce, em nossa casa. Só freqüentava a casa de meus pais. As demais noras, tão gentis e afetuosas como minha mãe, deviam visitá-la na sua casa.
Naquele dia chovera. Objetou-me que não iría porque tinha chovido.
Respondi-lhe – do alto de meus dez anos – que isso não era motivo para deixar de nos visitar-nos. Tornou a argumentar que, na sua idade, os resfriados, as gripes, não lhe permitiam sair de casa sem arriscar-se a ficar doente.
Desanimado, deixei-a quieta.
Fui ao armazém de meu pai, que o tinha em sociedade com dois irmãos, e fora fundado em Santa Maria em 1928. Pedi aos empregados que me conseguissem serragem. Em seguida, com o saco na mão, espalhei a serragem, da entrada da casa de minha avó à entrada da casa de meus pais, aproximadamente meia quadra além.
Feito isso, retornei à casa de minha avó, e disse:
-Vó, agora a Sra. não vai molhar os pés, nem pegar gripe...
Minha avó capitulou.
Penso ter visto duas lágrimas penduradas em seus olhos!
Minha avó materna era outro tipo: uma ítala-brasileira, da Família Parzianello, com rosto um tanto severo de Madonna Napolitana. Quieta, taciturna. Mas era como as cerejas de além-mar: deliciosa!
Quando das visitas, mexia-se como um passarinho. Não sabia como atender a toda gente. Com o bule numa das mãos, as cucas na outra, os gróstoli na outra – três mãos? Por que não? Quem Foi o Quintana quem inventou essa possibilidade. Sendo do Mario, acredito mais nas suas verdades do que nas de Einstein!
Vó Teresa está, sem dúvida, no Céu, provavelmente num recanto, ao serviço de Santa Ana, a mãe da Virgem Maria. Se Maria era escrava do Senhor, por que não seria ela escrava da Mãe de Deus?
Meu avô, tão devoto como ela, saía de casa todas as manhãs, chovesse ou não chovesse, trovejasse ou não trovejasse, houvesse aroma de glicínias no ar, ou cheiro de estrume nas ruas – (desde a madrugada, os carroceiros traziam à cidade seus produtos coloniais). Calçava seus rudes sapatos, envolvia-os com as saudosas galochas de um pretérito perfeito que nem somos mais capazes de imaginar, e enfrentava, impávido, a lama que tornava a rua resvalosa...
 Lá se ia meu avô à igreja, porque, nas mais das vezes, cabia-lhe tocar o sino, encher de vinho e água as galhetas da credencia, acender as velas do altar e, não havendo coroinha, acolitar o sacerdote.
Aos domingos, depois de atender os genros e noras, arranjava tempo para visitar os pobres da Vila Leste, e de outras vilas das periferias. Mantinha um fichário de cada casal carente, cuja prática cristã (batizados, regularização religiosa de casamentos, etc) ocupava-lhe boa parte do tempo. Outra parte era ocupada em levar-lhes alimentos, roupas, o que pudesse obter com os amigos comerciantes.
Às sextas-feiras, à noite, após a Bênção do Santíssimo na Igreja Paroquial, meu avô reunia-se, numa das sacristias desativada, com seus coirmãos da Associação dos Vicentinos, fundada na França pelo escritor Fréderic Ozanan. Ali pesava os quilos de arroz, feijão, açúcar, café,  destinados às famílias sem recursos – provisões coletadas durante a semana. Eram apenas cinco ou seis pessoas que se dispunham a essa benemerência, entre elas um tio do ex-Senador José Paulo Bisol, criatura tão virtuosa que me disporia a ir a Roma testemunhar suas virtudes diante de Sua Santidade, O Papa Bento XVI.
Esse tio do ex-Senador Bisol casou com uma tia minha, de nome Amábile.
Um dos vicentinos, companheiro de meu avô, o Sr.João Pozzobon, provavelmente tornar-se-á Santo Oficial. A biografia desse santo, que ainda não foi canonizado, foi escrita por um sacerdote argentino, Esteban Uriburu.Tive a honra e o prazer de traduzi-la para o português.
Mais tarde, quando voltei da Europa, e me tornei Professor da UFSM, passei a freqüentar, regularmente, a modesta residência de meu avô.
Ia vê-lo, à noitinha, após as aulas na Universidade. Levava-lhe livros espirituais, ou biografias de Santos, que ele adorava ler. Antes que isso ocorresse, meu avô, graças às sólidas conferências do P. Gabriel Bolzan, tinha-se familiarizado com as Encíclicas Rerum Novarum e Quadragésimo Ano. Incentivado pelo Padre Bolzan, meu avô começou a ler as obras de Fernando Calage, e de outros autores católicos da época, como o Padre Ascânio Brandão, sobre temas sociais à luz do Evangelho.
Enfim, um semi-analfabeto,como era meu avô, possuía talento inventivo. Gostava de levar a cabo experiências “tecnológicas”, servindo-se de mecanismos capazes de fazerem tombar em suas mãos os ovos que as galinhas punham no interior das gaiolas... De quando em quando, mostrava-me outras “invenções” do mesmo gênero.
Esqueci-me de dizer que competia a ele, ajudado por um outro meu tio, de nome José, recolher as esmolas na igreja, aos domingos e dias santos. Meu avô era tão compreensivo em relação à esperteza humana que, se alguém botasse na sacola das esmolas uma determinada cédula, e de lá tirasse outra maior, não denunciava a ladinice do pseudo-devoto. Naquela época isso era possível: deitar esmola, e tirar troco. Creio que as pessoas faziam isso para não comprometer as minguadas finanças domésticas...
Uma das recordações mais agradáveis que retenho de meu convívio infantil com meu avô refere-se à festa do Natal. O pároco incumbia meu avô de preparar o Presépio. Bela ocasião que me dava oportunidade de ir com meu avô catar barbas-de-pau pelos matos próximos, especialmente na Chácara dos Irmãos Maristas. Apreciava muito auxiliá-lo nessa tarefa. Tinha ensejo de pegar nas mãos as imagens da Virgem, do Menino, de São José, dos Pastores, das ovelhas, e principalmente, de mirar e remirar as imagens dos camelos dos Reis Magos!
Por vezes, minha fantasia infantil sugeria a meu avô soluções cenográficas bizarras, que ele não aprovava. Outras, vezes, permitia-nos fazê-las, por exemplo, montar um moinhozinho ou um catavento nos fundos da paisagem...
Meu avô morreu aos 76 anos, depois de confessar-se (e comungar).
Nunca soube de quê.
Ao seu enterro compareceu tal multidão, que ainda hoje me assombro com sua lembrança. Gente importante e gente humilde.
Tenho saudades desse homem bom.
Às vezes, assalta-me um remorso: por que não aproveitei mais  de sua companhia?
Esqueci de referir-lhes um detalhe: sou, por puro capricho do destino, o membro da família materna mais parecido com ele. Nenhum de seus filhos e filhas possui tanta semelhança fisionômica com ele como eu. Quantas vezes, suas filhas, isto é, minhas tias, algumas vivas, choraram diante de mim, lembrando-se do velho pai!
Lastimo apenas uma coisa: não lhe ter herdado o coração.
Explico-me: não lhe ter herdade ao menos meio coração!
Um coração, como o dele, era para se manter dentro de um relicário de ouro, como o do grande Santo de nossas Missões Jesuítico-Guaranis, Roque González de Santa Cruz.
Em tempo:
Existem, sim, avós maravilhosos!
Minha esposa Cleuza, modéstia à parte, é uma avó dedicadíssima. Não fica a dever nada às avós festejadas pela História, como a célebre Madame Sévigné, que se tornou uma autora clássica com as suas elogiadíssimas Cartas!

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