segunda-feira, 20 de junho de 2011

Requiem pelos Livreiros? Não: Aleluia para Eles!

Anos atrás, nos tempos em que se publicava em Porto Alegre o Diário do Sul, escrevi uma crônica intitulada A Primavera das Livrarias.
Foi nos anos 80!
Naquela época (atrevo-me a pedir emprestado ao nosso clássico, João Simões Lopes Neto, uma sua expressão inimitável: as livrarias surgiam em nossa Capital “como um fantástico algodoal em explosão de casulos”...
Parecia que os gaúchos tinham aprendido a ler!
Parecia que a metrópole gaúcha conseguiria, como, de fato ocorreu, guindar-se a um novo status intelectual, libertando-se da doce, porém irritante opressão dos gênios e gurus de São Paulo, ou do Rio de Janeiro.
Esse estranho servilismo mental foi denunciado, ultimamente, com invulgar valentia, pelo competente, e combativo, Professor Luís Augusto Fischer.
Já que estou com a mão na massa, aproveito a ocasião para recomendar o seu Dicionário de Palavras e Expressões Estrangeiras (Porto Alegre, LPM, 2004),do qual me tenho servido constantemente. É um dicionário utilíssimo, com explicações claras e completas, modelo de alto didatismo.
Livrarias?
Lembro-me de quando descobri Machado de Assis, numa aula de português do P. Artur Soldera, no Seminário de Vale Vêneto.
O dedicado mestre desejava introduzir-nos no estilo simples – o mais simples que já houve neste país – e também no mais clássico, do genial mestiço carioca, que teve continuidade no estilo de outro mestiço, Lima Barreto. Este, para completar meu elogio, escrevia bem, escrevia otimamente, porém, não dava atenção às minúcias do texto. Não me refiro às suas repetições, porque repetir é uma necessidade; refiro-me aos seus deslizes.
Aproveito para confessar, igualmente, que um de meus estalos-de-Vieira se deu no dia, em que, apaixonado pelo velho Bruxo do Cosme Velho, me pus a estudá-lo acuradamente, como as velhas sinhás do Império espiolhavam os filhos de seus senhores. Descobri, atônito, que Machado de Assis gostava de repetições. Repetia incrivelmente, desde que a repetição o ajudasse a ser claro.
Comecei a marcar suas repetições de verbos, substantivos, adjetivos.Creio que a primeira vez em que reparei nisso foi quando o professor nos leu, em voz alta, o capítulo XVIII do Quincas Borba, o da famosa fórmula: Ao vencedor, as batatas
-Era, então, permitido repetir palavras, umas próximas às outras?
Nosso professor dizia que não era conveniente repeti-las, que deveríamos usar sinônimos, paráfrases, esticamentos verbais. Ora, o professor cometia uma incoerência: apresentava-nos como exemplo quem o desmentia: Machado de Assis.
No breve capítulo de Machado, que recém-mencionei, contei nove repetições do substantivo batatas. Como adoro batatas, preparadas de qualquer jeito: fritas, não fritas, cozidas na água, temperadas apenas com sal e azeite de oliva, ou mesmo cruas (são comestíveis, embora o fogo, é óbvio, lhes acrescente charme especial!), teria, se fosse hoje, aplaudido o autor de Quincas Borba.Na ocasião, limitei-me a ficar intrigado, ou antes, chocado:
- Machado repetia?
Foi um descobrimento estilístico!
Mandei às favas a regra da não repetição.Comecei (reparem na repetição) a repetir, desde que a clareza ficasse salva. A partir desse dia, adotei, como critério de bom estilo três preocupações: clareza; agilidade; elegância.
Descobri que a elegância consiste em dizer o máximo com o mínimo de perda de radiotividade vocabular. Isso significa que, de vez em quando, conforme as circunstâncias,- para sermos econômicos - devemos gastar um pouco mais do que o necessário.
Não repetir é bom, repetir é melhor, mas repetir com inteligência e sentido de oportunidade, é o máximo. É aproximar-se de Machado de Assis. Nada, portanto, de sovinice vocabular, mas também, nada de esbanjamento.
Quando chegou a época das férias, e nós, os internados, fomos devolvidos às nossas famílias, no meu caso a uma família urbana, tão logo meus pais me deram um dinheiro-extra, dirigi-me à Livraria do Globo, em Santa Maria, e com tal ou qual gravidade, pedi ao vendedor se tinham à venda obras de Machado de Assis.
No momento só tinham Histórias Sem Data. Comprei o volume, editado pela Jackson do Rio de Janeiro, e pus-me a ler as histórias de Machado.
Fiquei fascinado. À medida que lia, o livro diminuía. Resolvi ler mais devagar, poupando páginas, para que a leitura se prolongasse. É claro que o livro acabou. E dizer que, em Santa Maria, naquela ocasião, não havia outro livro de Machado de Assis à venda.
Algumas décadas depois, ao voltar para casa de um de meus cursos na UFRGS, num fim de tarde, recebi uma amável censura de minha mulher, que me viu chegar com exemplares de obras de Machado:
-Já não tens esses romances de Machado de Assis?
Respondi, encabulado como cão que reentra de um aguaceiro, depois de ter fugido de casa:
-Tenho sim! É que não agüento ver nas bancas livros tão bonitos de Machado de Assis, ao preço de três reais...
Tratava-se de uma coleção popular que, na época, se vendia mais ou menos, a esse preço. Lembrei-me dos meus tempos de guri, do livro Histórias Sem Data! Machado de Assis saboreado como se saboreia um bombom!
Vocês perguntarão:
- Mas que tem a ver Machado de Assis com o título desse blog?
È que estou fazendo uma espécie de lamentação pela iminente morte da Livraria Ábaco!
Refiro-me à livraria que até agora estava na Osvaldo Aranha 426, praticamente em frente do Instituto de Educação da UFRGS e do Colégio de Aplicação.
Essa livraria vai morrer nos braços mimosos de dois estabelecimentos de ensino!
Durante sua agonia, a Ábaco está espalhando um volante em que propõe:

LIQUIDAÇÃO TOTAL DE ESTOQUE:
50.000 livros. Preços imperdíveis. Livros por 1 real, 3, 5, 10 reais.
Cinquenta porcento de desconto! Fone: 30723034.

Diante de tal realidade, começo a admitir, humilhado, que a Era do Livro está findando.
O livro terá de refugiar-se nas Catacumbas, como os cristãos no tempo de Nero.
Não acompanhemos, porém, essa agonia com um concerto de ais e lamentos. Não nos sobejam Beethovens nem Haydns. Haydn ainda nos serviria, com sua Sinfonia N. 45, a do Adeus, sobre a qual Antonio Victorino d’ Almeida escreveu:

- (...) em boa verdade (é) a primeira greve da História da Música, urdida pela capacidade um pouco manhosa do campônio confrontado com a prepotência senhorial”. (Música e Variações.História Ocidental da Música. Vol. I.Lisboa, Editorial Caminho, 1987.p.267).

Não simpatizo com essa pseudo-intimidade póstuma do autor com o compositor!
Haydn, enquanto campônio não interessa à humanidade. Interessa-lhe seu gênio musical.
No mesmo erro incorreu Mario de Andrade que, a respeito do mesmo compositor, perpetrou a seguinte grosseria:
- A vida dele foi a dum bocó. (Pequena História da Música. São Paulo, Livrasria Martins, 1942. p.101).
Tal observação mereceu severa crítica de Manuel Bandeira. Onde se viu chamar de bocó a um dos maiores músicos da humanidade?
Não se fala assim de alguém que a gente admira. Que interessa a um melômano saber que Haydn foi um “bobo”, como insiste Mario de Andrade? Oxalá todos os bobos fossem como ele! Preferiria, nesse caso, que o Brasil, pródigo em tal espécie de gente, tivesse bobos como Haydn. Os bobos nativos são, em geral, melhor remunerados que o velho compositor,alguns ocupam cargos oficiais, raramente são artistas, e nunca até ao presente, foram gênios musicais.
Declaro que admiro Mario de Andrade, mas por outras razões. Parece que nem os lúcidos escapam ao assédio da tolice humana.
Volto à agonia da Livraria Ábaco!
Uma livraria de Porto Alegre está fechando as portas. Outras fecharão em breve.
De quem a culpa?
Não inventemos fantasmas, que já existem em abundância no mundo. Nem choremos sobre o papel impresso. Tenhamos a coragem de nos olhar na cara. A realidade é que somos um povo de alfabetizados, não somos, porém, um povo de alfabetizados culturais.
Ler não basta para provar a alfabetização.Nem escrever a própria assinatura.
Ler é atividade neuronal. É preciso compreender que a leitura, num livro ou numa tela de computador, jamais será acessível aos animais irracionais.
Ler é pensar:
-Penso, logo existo.!
Logo existo como ser humano, isto é, sou responsável por minha cidadania e, como indivíduo, tenho o direito de fruir dos bens que a sociedade me oferece, entre os quais o alfabeto, a cultura, a economia, a energia elétrica, a água encanada, a televisão, as vacinas contra as epidemias, a quimioterapia, os medicamentos contra o câncer e a aids, etc. Tenho, portanto, também o dever de devolver à sociedade alguma coisa do que recebi.
Se o cidadão, por acaso, for cristão, “pior” para ele: tem um dever acrescido. Precisa devolver mais, visto que o Verbo se fez Carne.
Sob esse aspecto, nenhum homem poderá pagar a Cristo o que lhe deve. A nossa sorte é que Deus não se assemelha em nada aos Bancos.
A questão das livrarias explica-se por uma questão de evolução tecnológica.
Li uma reportagem sobre a reunião recente que realizaram na Europa Duzentos Editores, dos mais importantes do mundo. Chegaram à conclusão de que o momento é de altíssimos riscos para as editoras e livrarias, e que não há nada a fazer no sentido de se manter o livro no estado em que está.
O livro eletrônico acabará impondo-se, e os livros tradicionais ficarão em segundo ou terceiro plano, como alternativa para quem quiser sentir o cheiro da impressão, e acariciar o papel como se acaricia um rosto de criança, ou a pele de uma mulher.
O que temos a fazer é aprender a ler em laptops, adaptando-nos às circunstâncias, aligeirando as prateleiras de nossas bibliotecas.
O livro não morrerá.
Ele é como a Poesia.
Todo o mundo tem anunciado, a cada novo ano, a Morte da Poesia. A Poesia ri no seu canto da insolência humana. E torna a nascer nos olhos de cada bebê, na boca de cada bebê, no riso de cada bebê.
Porque a linguagem não tem a ver com o mundo exterior. A linguagem tem a ver com o mundo psíquico do bebê.
Só tardiamente o bebê começa a querer saber como se nomeia o que está fora dele. No início, o bebê quer comunicar-se, quer dizer algo.
Esse dizer algo está relacionado com a Palavra, que, antes de todos os tempos, estava viva em Deus, e era Deus.
Mais tarde, o Verbo manifestou-se na História, e falou por Si, depois de ter falado através dos Profetas (ao Povo Eleito), e através dos visionários da Índia, da China, bem como do Egito e da Babilônia, a todos os homens.
Por essa razão, o livro resistirá.
Morrerá a Era do Livro, considerado como instrumento hegemônico de transmissão da Poesia, da Ficção, das Ciências, e do Pensamento em geral.
Nesta altura, caros amigos das Livrarias de Porto Alegre, permiti-me um recado.
Falo a vocês, Gustavo,Fernando, Zeca Poli, André e Vitor, e sócios da Nova Roma; gente da Livraria Cultura, da Livraria Saraiva, Zé e funcionários da Vozes, Prior da Paulus, Irmãs das Paulinas, Guilherme da Mosaico, Ivo da Martins, Denise da Érico, Veríssimo, Vanderley do tradicional Sebo, Rui da Palmarinca, Pessoal da Câmara Rio-Grandense do Livro, Pieter e filhos do Beco, Mayra e sócio, Mara e Fernando da Estação Cultura,gente das livrarias do campus da UFRGS e da PUC,Iara e Gilberto do Bric e da calçada da Osvaldo Aranha, Fonini das Feiras Municipais, Miguel da Calle Corrientes, André Vargas, Carmen da Traça, Mauro e Ana da Ladeira, pessoal da Dante,    
Eu lhes afirmo, com absoluta convicção, como se um Anjo mo tivesse revelado): o livro não morrerá!

Se morrer (o Anjo também mo disse) resuscitará!
Tereis que bracejar para manter o livro como sobrevivente.
Que Deus lhes inspire o que fazer!
Creio que tereis de suportar a indiferença dos leitores, mais e mais interessados em audiovisuais.
Ficai firmes nas vossas atalaias.
Se possível, implementai a venda de e-books
Aproveitai, inteligentemente, a situação econômica para fazer uma dieta razoável - não à custa de vossos filhos e esposas - mas à custa de vós mesmos, diminuindo as pseudo-necessidades, apertando um pouco o cinto, prescindindo de pequenos luxos incompatíveis com a redução de lucros na vossa área, e com a cobrança permanente de vossas balanças!
Epicuro, o mestre do Prazer, aconselhava seus discípulos a jejuar uma vez por semana, para não esquecerem que o pão e a água são alimentos deliciosos para quem está com fome.
Ora, Mestre Epicuro era pagão!
Que dizer de cristãos, ou ex-cristãos, a quem se pregou a pobreza, a moderação no uso dos bens e prazeres, e jamais a exploração do homem pelo homem?
Onde há riqueza, há sempre o perigo de se encontrar uma ponta de chifre do Diabo!
Escrevo isso sem complexo de culpa.
Sou, também, como vocês, doido por um churrasco, uma bacalhoada à Gomes de Sá, um bobó de camarão. E (já que sou diabético), chego a sonhar (com a permissão de minha esposa) com as tortas de maçã da Carmen Taffarel!
Pingo o ponto final a esse texto, enviando a todos grande e afetuoso abraço.

Um comentário:

  1. Também acredito que o livro não morrerá. Recomendo um bom livro sobre esse tema: Não contem com o fim do livro, Umberto Eco e Jean-Claude Carrière. Um livro de entrevistas. Aproveito e convido-o a uma visita ao meu espaço literário Poesia Diversa. Sua presença será uma honra. www.poesiadivesidade.blogspot.com

    ResponderExcluir