terça-feira, 14 de junho de 2011

A Queda dos Ídolos e dos Gurus

       O público já não sabe se existem quatro pontos cardeais, sete, ou trinta.
O público, isto é, nós que assistimos a programas de televisão, e lemos jornais e revistas, transformamo-nos em testemunhas oculares de um fenômeno histórico, sob certo sentido, insólito: a queda dos ídolos da política e da mídia.
Cai um Diretor do FMI, não de qualquer jeito: mas rumorosamente.
Cai um primeiro ministro da Itália que fez e desfez o que lhe apetecia, na terra de Dante, por ser dono de emissoras de televisão, de cadeias de jornais, de editoras importantíssimas como a Mondadori, e de propriedades imobiliárias que poderiam atiçar, por sua extensão territorial, a sede de conquista de um recém-nascido Alexandre da Macedônia.
Cai um ministro da França, acusado de pedófilo.
Caem bispos e sacerdotes, como o mexicano que distribuía aos dignatários da Cúria Romana envelopes natalinos de milhares de dólares.
Cai – isto é, quase caiu, o Presidente da Fifa, suspeito de ter agenciado a seu proveito, ou de seus apaniguados, Copas Mundiais de Futebol.
Está caindo Gadhafi, o herói da Líbia, após 40 anos de tirânico domínio.
Caem atores e atrizes, envolvidos em drogas e amores rotativos.
Cai, agora, neste preciso momento, uma rede de ex-jogadores-astros da Itália, por terem manipulado resultados da loteca peninsular, inclusive apelando para soníferos que misturavam às bebidas dos jogadores, antes dos jogos decisivos.
Casca il mondo (ou seja: o mundo vem abaixo!), escrevia  Machado nas suas crônicas, citando um purpurado romano.
Leiam sua crônica publicada no dia primeiro de julho de 1876.
Principia assim:

- Dou começo à crônica no momento em que o Oriente se esboroa e a poesia parece expirar às mãos grossas do vulgacho. Pobre Oriente! Mísera poesia! (Obra Completa. Volume III. Rio de Janeiro, Editora José Aguilar, 1959. p.369)

No remate, Machado escrevia:
- Vão-se os deuses e com eles as instituições. Dá vontade de exclamar com certo cardeal: “Il mondo casca”! (Ibid. p. 370).

Tenhamos a coragem de admitir: caímos, também nós, seduzidos por essa inflação incontrolável de deuses.
Devido a um erro de dimensões metafísicas, tivemos a loucura de acreditar em deuses manufaturados por nós mesmos. Inventamos divindades para nossas necessidades de sonhos vãos. Já não temos nichos onde instalá-los. Os nichos da mídia tornaram-se exíguos para tantas divas e divos, Hoje, nós os chamamos de ícones!
Um horror!
Abusa-se de um nome sagrado que, nos romances de Dostoievsky, sempre significou uma imagem da Virgem Mãe de Deus, ou de um Santo.
E olhem lá: não nos têm faltado tempo e experiência para desenganar-nos!
Primeiramente, estivemos prostrados ao pé dos deuses do Nazismo, do Fascismo, do Sovietismo: Hitler, Mussolini, Stalin. Depois, diante dos deuses menores do Franquismo, do Salazarismo, e de outros ismos relacionados, principalmente, com as Ditaduras que, nós, habitantes da América Latina, bem conhecemos.
A seguir, cultuamos os deuses do cinema, do rock, dos beatles, de mil e uma modas canoras, coreográficas, plásticas, etc. que povoaram nosso imaginário no último século.
Por fim, à falta de outros deuses de cabeça e mãos, recorremos a deuses de pés privilegiados – a bípedes especializados, os craques do futebol.
Chegamos ao fim de um ciclo, o ciclo de uma descristianização sistemática que se inaugurou pomposamento com Friedrich Nietzsche. Essa descristianização está chegando ao seu auge. Foi Nietzsche o primeiro a falar nesta aberração: “A Morte de Deus”.
A Sagrada Escritura já nos tinha premunido num Salmo famoso, o Salmo 14 (antigo 13):

- Diz o insensato no seu coração: “Deus não existe!”
- Na versão latina:
Dixit insipiens.

Um dicionário clássico, como o de L. Quicherat: Dictionnaire Français-Latin – Revisé, corrigé et augmenté. Paris, Librairie Hachette1891 registra, na página 752:

- Insensé (que é como os franceses traduzem insipiens):
Aquele que perdeu o juízo, o insano, o insensato, o que não age conforme à razão, o estulto, o demente, o fátuo, o estólido (néscio, tolo).

Estão corretos os lexicólogos.
Tudo o que eles dizem sobre um indivíduo insensato pode ser dito sobre uma Cultura Insensata, que se tornou tão arrogante a ponto de tomar uma dúzia de neurônios como razão de ser do Cosmos.   
Seria sensato – isto sim – se o homem se colocasse no seu devido lugar de criatura, e começasse a interrogar-se – pois é seu direito – sobre a existência de Deus, como ele se interroga, respeitosamente, sobre a existência de qualquer “misteriozinho” da Natureza, sobre o átomo, ou sobre uma bactéria enterohemorrágica, como o E.coli, cuja virulência desconcertou os cientistas que erraram ao afirmar que ela tinha-se infiltrado nos pepinos espanhóis, causando a morte de várias pessoas na Alemanha, e em outros países.
Se os homens começassem por perguntar-se, humildemente:
- Se existo porque penso, e porque busco as causas dos seres que me cercam, e descubro, progressivamente, uma ordem maravilhosa nas coisas, embora nem sempre veja bem para onde se dirige essa ordem.
E, se então, o homem desse um passo à frente, e continuasse – sempre humildemente – a perguntar-se:
- Quem me explica, se eu mesmo não me explico? Outro homem? Meus pais?
Poderia ir subindo, degrau por degrau, até formular a pergunta máxima que uma criatura pode fazer:

- Não existirá um Ser, que sempre existiu, Fonte Inesgotável de todo Ser, de toda Inteligibilidade, de todo Bem, de todo Amor, de toda Beleza?

Certa vez, Merleau-Ponty, numa aula inaugural no Collège de France, admirou-se de que no mundo contemporâneo ninguém mais se interesse em demonstrar Deus.
O fenomenólogo tinha razão – ele, que se declarava, com paradoxal humildade, ateu.
O que, pessoalmente, me causa assombro não é que Merleau-Ponty se admirasse de que ninguém mais tente provar a existência de Deus, mas que ninguém mais tenha razão suficiente para formular a questão.
Chegamos a uma arrogância tal que pretendemos defini-lo. Pretendemos, inclusive, dizer O que Ele deveria Ser.
Por que admirar-nos que nossos deuses e deusas tenham pés de barro, como o insensato Nabucodonsor, rival de Iahweh?
Se alguém não tiver paciência para ler os grandes pensadores, que, na pior das hipóteses, quando pensam em Deus, assumem uma atitude como a de Heidegger, que dizia mais ou menos isto: “A humanidade não tem, na atualidade, condições de formular o Problema de Deus”, trate de assistir a um vídeo da Ópera Nabucco de Verdi. Lá encontrará o personagem Nabuco, fulminado diante do Sumo Sacerdote do povo israelita, quando ousou declarar-se Divindade a ser adorada, inclusive por sua filha.
A existência de Deus só pode ser revelada ao homem, não pode ser objeto de análise racional, a não ser para inteligências privilegiadas.
Eis a razão por que, certa vez, disse Henri Bérgson:
- Se o Deus dos Filósofos aparecesse, alguma vez, a um homem, este não o reconheceria.
Neste momento de queda dos deuses, de auto-destruição da idolatria, podemos começar a renunciar à insensatez, buscando resposta à Vida  à revelia da insensatez.

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