terça-feira, 14 de junho de 2011

Que Fazer com Tantos Escândalos?

A sensação geral, que parece estar contagiando os leitores e telespectadores, é de cansaço.
Alguns dizem que se enojam. Outros disfarçam sua indignação com maquiagens. Uns terceiros afirmam que se desinteressam de pormenores manipulados.
Tais episódios são tórridos para os cínicos, são chatos para os blasés e - para bom número de cristãos - motivo de indignação.
Um fato é constatável: as pessoas estão ansiosas por encontrar critérios.
Por exemplo: em termos de privacidade: até onde pode-se pretender um código de salvaguarda?
Em termos de funções públicas: onde termina a atuação pública do indivíduo, e onde principia a defesa de esposas e filhos, arrastados no turbilhão por tais celebrações à custa do dinheiro público?
Os nomes são de grandes personalidades.
Um deles é o atual Rei da Suécia, que se tornou conhecido entre nós por ter-se casado com uma brasileira, da qual os jornais nos confiam um detalhe: deixou de usar aliança. É incrível como as manchetes conseguem ser tão minuciosas!
Outro dos nomes famosos é o do ex-Diretor do FMI, cuja segunda esposa é uma apresentadora da Televisão Francesa, que deu provas de solidariedade, apresentando-se ao lado do marido.
Outro ilustre nome é o de um Ministro do Governo de Sarkozy, nome tão insigne que ninguém mais recorda.
Por aí vamos, numa sorte de gangorra, que ora sobe pela esquerda, ora desce pela direita. Se lhes parecer conveniente, transponham as duas posições físicas para o plano ideológico. Parece-nos que, neste planeta,nunca se realizará a profecia de Jesus, segundo a qual, no Juízo Final, os cordeiros estarão à direita, e os cabritos à esquerda. Por enquanto, cordeiros e cabritos se entreveram numa promiscuidade nada invejável.
Um cristão – e é o ponto de vista que nos faz refletir - tem dificuldade em posicionar-se diante de fatos tão graves.
A sociedade descristianizou-se de tal modo, que parece, não só politicamente incorreto, como religiosamente inócuo, apelar para padrões éticos.
A questão é: o que pensar sobre isso, em termos evangélicos, numa sociedade que faz questão de dar a César o que é de César, e aos ídolos da sociedade de consumo o que era dado a Deus?
Não estamos pensando em nenhum Dictatus Papae, nem em nenhum Syllabus, como soluções para nossas perplexidades.
Estamos pensando se é possível viabilizar, dentro de uma mentalidade cristã autêntica, tal ou qual imunização das mentes e dos corações, face a esse voyeurismo mundial.
Alguém dirá:
- De acordo com São Paulo, os cristãos devem estar imersos no mundo. Teriam que sair desse mundo se quisessem praticar um Cristianismo Puro.
Admitimos a objeção.
Sempre nos impressionou um texto do Apóstolo Paulo, da Primeira Carta aos Coríntios, capítulo 5, versículos 9-13:
- Eu vos escrevi em minha carta que não tivésseis relações com impudicos. Não me referia, de modo geral, aos impudicos deste mundo, ou aos avarentos, ou aos ladrões, ou aos idólatras, pois então teríeis que sair deste mundo. Não! Eu vos escrevi que não vos associeis com alguém que traga o nome de irmão e, não obstante, seja impudico ou avarento, ou idólatra ou injurioso, ou beberrão ou ladrão. Com tal homem não deveis nem tomar refeição. Acaso compete a mim julgar os que estão fora? Não são os de dentro que vós tendes de julgar? Os de fora, Deus julgá-los-á. Afastai o mau do meio de vós. (Tradução da Bíblia de Jerusalém).
Consideramos esse texto complicadíssimo para um cristão do século XXI!
Como não ter relações com os impudicos?.
Estamos num mundo globalizado! O que entendia o Apóstolo por relações?
É verdade que ele se dirigia aos cristãos de uma das cidades mais “globalizadas” do século I d.C.: Corinto, metrópole famosa por sua vida licenciosa.
Poderíamos entender São Paulo hoje?
São Paulo dizia, na mesma Carta, que os apóstolos, os anunciadores oficiais da Boa Nova de Cristo, se tinham tornado espetáculo para o mundo.
Carregando um pouco as tintas, acrescentava:
- Somos amaldiçoados, e bendizemos; somos perseguidos, e suportamos; somos caluniados, e consolamos. Até o presente, somos considerados o lixo do mundo, a escória do universo. (1 Cor cap. 4, 121-14).
A Carta de São Paulo aos Coríntios podia ser intitulada: Carta aos Cristãos de Paris, New York, Roma, e Outras Capitais..
Cada vez que lemos esse texto básico do Cristianismo, similar a tantos outros, reportamo-nos aos cristãos do passado, que tentaram aggiornare o Cristianismo, isto é, que tentaram ler o Novo Testamento,não como exegetas entendidos em línguas orientais, mas como viventes das Alagoas, como personagens xilográficos de Graciliano Ramos.
Que atitude tomar diante das advertências de São Paulo?
Diremos que o Apóstolo escrevia para gente do século primeiro depois de Cristo, e que, de lá para cá, as coisas se tornaram muito mais permissíveis, eletrônicas, e informatizadas?
Diremos que São Paulo se tornou obsoleto?
Quando São Francisco de Assis, no século XIII, teve a coragem de propor uma leitura sine glossa, isto é, -sem comentários,das palavras de Jesus, alguns de seus coirmãos empenharam-se por convencê-lo de que sua pretensão era insana.
E era: literalmente uma santa loucura!
A “loucura” que o Espírito Santo inspira aos grandes crentes da humanidade.
O Santo morreu entristecido. Até ao fim de sua vida, insistia em que seus frades deveriam praticar a pobreza total.
Além do apoio de alguns fanáticos, como Frei Egídio e Frei Leão, o Santo só encontrou apoio na realista e encantadora Santa Clara, e em suas companheiras de convento. Estas, sim, ficaram até ao fim fiéis ao Pobrezinho, cujos ossos provavelmente murmuram aos milhares de peregrinos e turistas que o visitam em Assis:
-Sine glossa,sine glossa, sine glossa.      O que significa:
-Deixem de lado os comentários. Se quiserem me seguir, façam o que eu fiz!
Longe de nós a insolência de criticar os amigos franciscanos, que nos merecem admiração, e até veneração!
Um dia desses, um deles, me deu a honra de jantar em meu apto. Durante nosso encontro, o frade, de grande nível cultural, nos confidenciou:
- Minha angústia, e a de meus confrades em geral, é a não sabermos como viver a pobreza de São Francisco na sociedade em que vivemos, com supermercados, shoppings, cartões de crédito...e uma parafernália de ritos de liturgia profana.
Indaguei-lhe:
- É possível,ainda,concretizar o ideal de São Francisco,ou seja, viver o Evangelho ao pé da letra?
O frade franciscano, bom e modesto, olhou-me, com pupilas tão acesas, tão caninas (no melhor sentido do termo, quando aplicado a um cãozinho yorkshire) que desviei os olhos, dirigindo-os ao teto, em busca de um Anjo de Deus...
Não vi nenhum Anjo!
Nem merecia vê-lo!
Por uma razão: - a época das aparições cessou.
Estamos na época da Fé, na época de bem-aventurados, porque crêem, e não vêem.
Com certa freqüência, vemo-nos na mesma situação do frade franciscano:
- Como reagir aos tsunamis da mídia, que nos soterram com escândalos sobre escândalos, escândalos financeiros, escândalos sexuais?
Como reagir à impostura e à hipocrisia?
Chegaremos à insensibilidade dos indivíduos estuporados da Segunda Guerra Mundial, que não se tornaram cegos, e surdos-mudos diante das toneladas de bombas lançadas contra eles, como as do famoso bombardeio de Dresden, em 1945, de que nos falam cientistas, como Freeman Dyson (Cf. Perturbando o Universo.Brasília, Editora da Universidade de Brasília,1981. p.33), os quais eram, então, pilotos a serviço dos Aliados?
Ou preferiremos manter-nos no interior de uma bolha de imunização, como se manteve, até certo ponto, a população da Alemanha nos anos finais da Segunda Guerra, apesar de já circularem vozes insistentes sobre os genocídios de Birkenau e Auschwitz?
O mundo de hoje permite maior informação do que naqueles tempos!
Basta ver o que ocorre nas nações islamizadas do norte da África, na Líbia e na Síria.
Uma coisa é certa: não há anestesia possível para os olhos e o coração de um cristão, que queira ler o Evangelho - como o lia Francisco de Assis - o qual, já cego, compôs o Cântico do Irmão Sol, para deixar aos coirmãos o testemunho de que a luz do morto (e também a luz da Fé)- não se apaga nunca.

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