segunda-feira, 20 de junho de 2011

Por que me Tornei Blogueiro

Quando alguém se torna mais ou menos conhecido, ou – se preferirem menos desconhecido – como escritor, sempre há alguém que lhe indaga:
- Por que o Sr. escreve? Como escreve? A que horas do dia ou da noite? Existe inspiração?
Graças a Deus que existem esses gentis indiscretos! Naturalmente, desde que não enxameiem...
Imaginem um escritor que não se comunica, que não se interessa em chegar ao leitor, que não consegue, nem mesmo, chateá-lo!
Respondo, pois, a quem teve a idéia de me perguntar:

- Por que o Sr. se tornou blogueiro?

Primeiramente, agradeço ao leitor ter-me chamado “Sr”. Não que eu faça questão de ser chamado assim. Para dizer a verdade, hoje já nem se usa. São poucos os que empregam tal fórmula.
Senhor vem de Senior, ao contrário de Dona, que vem de Domina, vocábulo latino de certa imponência. São duas palavras: Senior significa mais velho, ou em termos gerais, idoso, expressão que implica um gesto de cortesia de quem está na crista dos seus 15, 30, ou 50 anos, e imagina que vai dobrar a curva dos 120...
Evidentemente que isso é possível!
Com ajuda, é claro, de um DNA soberbo, e dos afagos da Gerontologia.
A não ser que nos lembremos daquela crônica do Nelson Rodrigues, tão esplendidamente escrita, tão metafísica (ou, dito com mais precisão, tão existencialista!),que não me furto ao prazer de citar-lhe um fragmento:

-Lembro-me de que no sábado, véspera da morte, fui à casa do Helio Pelegrino. E tivemos uma conversa obsessiva sobre o Grande Sertão e seu autor. O Hélio disse: - “Falo com o Calado para promover um almoço com o Guimarães Rosa. Você topa?” Claro, claro. E assim combinamos o almoço com o morto do dia seguinte. (O Óbvio Ululante. Rio de Janeiro, Livraria Eldorado Editora, 1968. p. 13).

Todos estamos na iminência de partir. A diferença é que uns partem já, outros daqui uns meses, outros daqui cinco décadas.Mas todos partimos. Já disse o Padre Vieira: uns são pó levantado, outros pó caído, os vivos são pó que anda, os mortos são pó que jaz... (Sermão das Cinzas; Pronunciado em Roma em1672. Cit. Por Mario Gonçalves Viana.Antologia de Sermões.Porto, Editora Educação Nacional, 1939.p.249

Por essa breve amostra,os leitores vêem que  não há escritor brasileiro que não tenha dentro de si vocação de cronista. Acho que nascemos todos cronistas, e nos tornamos escritores, após um estágio na crônica.
A rigor, fui uma não louvável exceção: primeiro me tornei escritor, depois blogueiro. E dizer que não estou para chufas – Chufas?Foi o substantivo que Machado de Assis usou na sua tradução de Os Trabalhadores do Mar, romance de Victor Hugo, onde ele conseguiu ser mais Machado de Assis do que nos próprios romances.
A frase de Victor Hugo traduzida por Machado soa assim:

- Costumava dizer chufas muito descabidas.

Consultei um dicionarista do passado, o benemérito mineiro e gaúcho, Francisco Fernandes,que nasceu em Formiga, Minas Gerais em 1900. Foi um cidadão fiel às suas raízes municipais. Tornou-se uma formiga maravilhosa, que nos mimoseou com obras como seu insubstituível Dicionário de Verbos e Regimes.Foi autor, igualmente, de um Dicionário Brasileiro Contemporâneo, que tenho sempre à mão, pois sou dos que pensam que comida caseira é melhor que comida de restaurante.
Salvo honrosas exceções.
Fernandes consigna no verbete chufa:-

- Remoque, dito picante, zombaria, mofa, gracejo impertinente, chocarrice.

Já que me referi ao romance de Victor Hugo, aproveito uma dica do velho monstro-sagrado para defender meu direito a ser blogueiro.
A certa altura, o grande poeta de Booz Adormecido, falando de Mess Lethierry, diz:

Sentia-se útil, era a satisfação dele; ser popular comovia-o menos que ser necessário.

Na atual conjuntura, nós, escritores gabamo-nos mais de ser populares que ser úteis...
Vou responder à curiosidade do leitor.
Tornei-me blogueiro porque:

I. Ser blogueiro, atualmente, é o máximo. Já está deixando de ser, já que a evolução é como Ringo: não perdoa!
II. Ser blogueiro permite driblar os jornais e as revistas, que, obviamente, não estão interessados em literatura, mas em dólares, e euros; e algumas vezes, também em reais. Raramente em fatos reais.
III. Ser blogueiro oferece uma vantagem suplementar: põe-nos em contato com as pessoas mais variadas do planeta.
IV. Ser blogueiro diverte, não tanto os leitores do blog, como seus autores.
V. Ser blogueiro permite manter um mínimo de contato com amigos que estão longe, em outros Continentes, por exemplo, com a a Susanne e o Jens em Bremen, o Avogadri, a Anna Lisa e mais gente em Firenze, o Guilherme Paz em Amsterdam, o Brunello e a Aida em Perugia, o Bonifazio em Genova, a Iracema em Roma, minha prima Carmen em Oslo, o Elim e a Ilza no Egito, a Maria Catarina Ricci de Homs na Ciudad de México, a Dora em Sevilha, o Élvio Vargas, na Rua Santo Antônio, o Sérgio Faraco na Zona Sul (que, para mim, é quase  tão inacessível como Madagáscar), a Véronique e o Flávio Masi que, por força da profissão, girovagam pelo planeta, o generoso e talentoso Flávio Oliveira, que habita em Novo Hamburgo, onde compõe música erudita, e ouve os sabiás de Gonçalves Dias, minha querida irmã Teo, que hoje está em São Paulo, e amanhã nas Ilhas Galápagos, minha sobrinha Júlia que estuda turismo em Usuhaia, o sábio P. João Quaini em Santa Maria, a turma da revista Poesia em Valencia, o Reynaldo Pérez-Só (extraordinário Poeta!), também na Venezuela, a Carla, em Rio Grande, o Percy e a Maria Thereza em Goiânia, o Ricardo em Caxias, a Márcia e o Luís nesse Continente que é Porto Alegre, que a bandidagem converteu num deserto tão inóspito como qualquer dos Desertos da Namíbia...

Perdoai-me!

É impossível mencionar tanta gente que entrou no Facebook!
Desconfio que não sou bom amigo! A Bíblia diz: Quem encontrou um amigo encontrou um tesouro!
VI. Ser blogueiro permitiu-me reencontrar, nas asas da Internet, ex-alunos da Faculdade de Arquitetura e do Instituto de Artes, alunos dos velhos tempos quando se tinha lazer para tomar cafezinho, e conversar sobre livros e filmes, entre outras coisas...E também sobre assuntos muito mais importantes!

Confesso que minhas razões de ser blogueiro não ratificam a nobre insolência gaúcha, a qual se referiu Nelson Rodrigues que, por sua vez fazia menção do Senador Pinheiro Machado:

- Pinheiro Machado está na tribuna.(...) Mais adiante está Rui Barbosa, “o maior dos brasileiros vivos”. De repente Pinheiro Machado diz: “Se eu me manter”... Rui cortou, com triunfante crueldade: “Decerto Vossa Excelência quer dizer mantiver”. A lambada doeu na carne e no brio do caudilho. Vacila, ou nem isso; deu a resposta fulminante: “Vossa Excelência pode-me corrigir; e é bom que o faça. Pois enquanto Vossa Excelência aprendia a falar certo e bonito, eu matava e morria na Guerra do Paraguai”. (O Óbvio Ululante. p.12-13).

Um comentário:

  1. Olá Sr. Armindo Trevisan,
    Adorei seu texto, me faz pensar um pouco por que eu também resolvi ser blogueiro.
    Seu modo de escrever aqui no blog me lembra as suas aulas de Estudos de Artes na Faculdade de Arquitetura, que me ajudaram muito a me interessar pela arte, tanto que acabei me formando em Artes Plásticas anos depois.
    Um abraço,
    Raul

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