terça-feira, 14 de junho de 2011

Paulo Flavio Ledur, e Seus Cursos De Português

        Devemos agradecer a César Braga-Pinto, Professor de Literatura Brasileira e Comparada na Universidade de New Jersey, nos Estados Unidos, ter publicado uma seleção de “Escritos da Juventude” (1919-1924) do escritor paraibano, José Lins do Rego, sob o título de Ligeiros Traços (Rio de Janeiro, Editora José Olympio, 2007).
Espero, em outra ocasião, abordar especificamente esse livro,que nos esclarece sobre a evolução intelectual de um dos mais originais ficcionistas do país.
Limito-me, hoje, a extrair de suas páginas uma frase do grande romancista, que não me pareceu totalmente correta:
- Os grandes escritores têm sua língua e os medíocres, a sua gramática. (Ibid. p. 247).
Sou de opinião que a boa gramática é compatível com um grande – e até excepcional - estilo de língua.
Por que opor gramática a estilo?
Talvez, valha a pena explicar donde procede – ou procedia – a ojeriza contra os gramáticos.
Fui educado num seminário católico, dirigido por Padres Palotinos, que possuíam sólida e ampla cultura humanística. Além disso, interessavam-se por uma prática correta da língua.Havia entre eles escritores, como P. Pedro Luís Bottari , o P. Casimiro Tronco, o P. Gabriel Bolzan, e o P. Artur Soldera, aos quais rendo carinhosa homenagem porque foram meus iniciadores no amor ao idioma, e orientadores de meus primeiros exercícios literários.
Naquela época, apreciava-se muito a gramática. Diria, até: apreciava-se excessivamente.
Não se esqueçam de que os ecos da Semana de Arte Moderna de São Paulo não tinham atropelado os cursos interioranos de português. A despeito disso, nas aulas de História da Literatura já figuravam nomes insignes da renovação modernista.
Em termos de correção lingüística, meus professores eram severíssimos. Cobravam-nos a mínima incorreção.
O compêndio, adotado nas aulas de português, era a Gramática Expositiva (Curso Superior) de Eduardo Carlos Pereira, cuja edição original remontava a 1907, obra elogiada inclusive por Mario Barreto.
Permitam-me uma efusão afetiva: a Gramática Expositiva de Eduardo Carlos Pereira foi a gramática da minha vida!    
Associei-lhe, posteriormente, outras não menos memoráveis gramáticas:
1.  Lições de Português, de Sousa da Silveira;
2.  Gramática Secundária da Língua Portuguesa;
3.  Gramática Histórica da Língua Portuguesa;
4.  Dificuldades da Língua Portuguesa, todas de Manuel Said Ali;
5.  Elementos de Gramática Portuguesa, de Ernesto   Carneiro Ribeiro;
6.  IV.Gramática Fundamental da Língua Portuguesa de Gladstone Chaves de Melo;
7.  V. Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Luís F. Lindley Cintra.

Quantas vezes recorri a elas!
Às vezes, folheio-as por puro deleite!
Considero o aprendizado da gramática uma pré-condição da escrita literária.
A moda contemporânea de minimizar a gramática, de a desprezar como se fosse produção descartável de caturras do idioma, elaboradas por Dom-Casmurros do vernáculo, revela falta de imaginação, e se me permitem uma censura, boa dose de presunção.
A Gramática tem a mesma função na língua que as regras de futebol nos estádios: os jogadores são obrigados a observá-las, sob pena de sofrerem sanções. Feito isso, a imaginação goza, nos gramados, de liberdade total, tanto por parte da cabeça, como por parte dos pés. Os Pelés, os Garrinchas, e demais craques talentosos que endoidecem os torcedores, estão autorizados a realizarem prodígios.
O escritor precisa, primeiramente, saber que a literatura, é um produto do Homo Ludens, de Johan Huizinga. Por isso, deve saber que todo jogo tem regras. A gramática compendia as regras do jogo lingüístico. A gramática não ensina a cabecear com talento, nem a armar lances de folha-seca, como os armava Didi.
A gramática não produz nenhum Machado de Assis, nenhum Érico Veríssimo. A gramática só esteve a serviço de Machado de Assis e de Erico Verissimo.
Por isso, toda demagogia contra a gramática é um desserviço à língua e à literatura nacionais. Ensinar a falar mal o português, ou mesmo, deixar que se fale mal, é um atentado à cidadania.
É um ato de humilhação a um indivíduo nascido no Brasil. Que fale mal por não ter aprendido, compreende-se. Respeita-se o que é feito com dignidade, inclusive a ignorância. Mas favorecer a ignorância sob pretexto de que ela é indígena, ou rousseauniana, é conspirar contra a sanidade mental.
O Rio Grande do Sul sempre teve luminares nessa área. Um de seus mais recentes representantes foi o saudoso Celso Pedro Luft. Grande, admirável gramático, cujas obras sempre consulto. Em especial, seus dois dicionários: o Dicionário prático de Regência Nominal e o Dicionário Prático de Regência Verbal.
Temos outros bons profissionais na área, entre eles o Jorge Campos, da PUC, o Luís Augusto Fischer, da UFRGS, e o Cláudio Moreno, que ultimamente tem feito, em favor da divulgação dos conhecimentos gramaticais e lexicológicos junto ao grande público, o que antigamente fazia o Prof. Celso Pedro Luft.
Quero referir-me, agora, de maneira especial, a uma verdadeira vocação de gramático, o Professor Paulo Flávio Ledur.
Posso dizer que assisti ao nascimento de sua vocação de gramático.
Ledur começou como revisor da famosa Tipografia do
Centro, da Família Metzler. Foi um pupilo do “poeta dos livros”, Henry Saatkamp.
No início de sua carreira, cheguei a emprestar-lhe livros. Ledur simplesmente os devorava. E sobretudo, os ruminava. De 1974 a 1977 manteve a coluna “Em Dia com a Revisão” no Informativo Gutenberg, editado pela Associação Brasileira de Indústria Gráfica. Creio que seus livros mais populares são Português Prático e Os Pecados da Língua (Pequeno Repertório de Grandes Erros de Linguagem. 2 volumes, com ilustrações  de Sampaulo.
Com o tempo, o jovem apaixonado por gramática, foi-se abalizando, adquirindo estatura, até virar isso que ele hoje é: um dos gramáticos mais sólidos, mais atualizados, e mais didáticos do Rio Grande do Sul.
Um dia desses, assisti a uma aula do Ledur sobre a Nova Ortografia. Embora eu abomine os malabarismos oficiais, que se empenham por meter-nos no curral dos ortógrafos, principalmente dos ortógrafos maniáticos, fiquei pasmado da maneira como Ledur conseguiu dourar-nos a pílula. Fiquei mais pasmado ainda com a racionalidade relativa, que ele conseguiu tirar do bojo das acrobacias lexicológicas dos autores da reforma.
Parabéns, Professor Ledur!
Quando não é possível reconduzir o louco à sua racionalidade, pelo menos vamos persuadi-lo de que sua loucura pode ser vantajosa, na medida em que o louco aceita determinados limites de pessoas consideradas menos loucas.
A essas alturas, desconfio - à maneira de meu Mestre, Mario Quintana - de que estamos, todos, num só hospício: o não-louco existe apenas em estado de promessa.
Voltemos ao Ledur: aproveitem, caros amigos, as lições desse Mestre!
Ele resolveu, em boa hora, institucionalizar seus cursos, reservados, até meses atrás, a algumas classes privilegiadas. Ledur democratizou-os.
Na sede de sua Editora AGE, arquitetos de bom gosto fizeram adaptações espaciais nas salas, de modo que os Cursos, oferecidos atualmente pelo Professor Ledur, podem ser ministrados dentro das melhores condições pedagógicas, e em ambientes climatizados.
Os cursos em andamento são:
1. Curso de revisão editorial,
2. Curso de português nos meios eletrônicos,
3. Curso de português para estrangeiros,
4. Curso de português para concursos,
5. Curso de análise sintática aplicada,
6. Curso de nova ortografia.

Chamo a atenção dos interessados para um pormenor: ninguém se chateará nas aulas do professor Ledur!
Ele adquiriu uma tarimba tal com sua prática de magistério, um savoir-faire de causar inveja a outros professores - como eu, que tenho ciúmes de sua capacidade de encantar os alunos!
Ah, pudessem as dedicadas mães de outrora, do meu tempo de infância, ter tido aulas com o prof. Ledur! Aprenderiam a nos fazer lamber os beiços após uma dose de óleo de rícino.

Um comentário:

  1. Caríssimo Trevisan:
    Sinceramente, não esperava nem mereço os comentários tão elogiosos que fazes a meu respeito. Atribuo-os, pelo menos em grande parte, à amizade que nos une e à generosidade do amigo, apesar de saber que não costumas fazer elogios gratuitos. Só de saber que me atribuis boas qualidades de professor já me faz sentir um orgulho motivador para a atividade do magistério, que tanto me satisfaz.
    Muito obrigado.

    Afetuoso abraço do
    Ledur.

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