quinta-feira, 9 de junho de 2011

Obrigado, Professor Arakén: Que Lição de Vida!

Muitas pessoas, que sobreviveram a graves perigos, tinham-me falado sobre a sensação de quase de ressurreição, que experimentavam ao saírem da neblina do choque psicológico. Elas, então, viam que estavam vivíssimas, inclusive no mesmo mundo em que estavam antes.
Alguns desses sobreviventes garantiram-me que o recurso final era apalpar-se, para verificar se estavam vivos de verdade, ou se tudo não se resumia a um sonho.
Para ser sincero, também passei por uma situação dessas.
Retornava de Lajeado, no final dos anos oitenta, aonde fora pronunciar uma conferência, num enorme anfiteatro, no qual fui acolhido por um número assustador de estudantes de segundo grau, uma parte dos quais não tardaram a impacientar-se com minhas “Reflexões sobre a Arte”, e mais especificamente, “Sobre a Importância da Poesia no Mundo Dominado pela Publicidade”.
Naquela época fiquei desanimado - para não dizer chateado, com o que me parecia um acinte.
Tinham-me convidado para quê?
Não me tinham proposto temas de reflexão literária?
É preciso, amigos, chegar à idade a que cheguei, para um autor se aperceber de que ser autor é uma coisa, e ser apreciado, outra.
Naquela época eu queria ser apreciado, noutras palavras, eu queria ser mimado. Dirá alguém:
- Quanta vaidade!
 Concordo.
Mas, se me tivessem dito isso, eu teria ficado magoado.
Vaidoso?
Caros amigos, a vaidade é irmã da esperança, e por isso, como ela, é também a última que morre!
Morrem juntas?
Não sei.
Talvez a vaidade morra alguns segundos antes da Esperança, que aliás (sei hoje pela Fé) não morre nunca.
Pobre vaidade!
Irmã de uma moça tão linda, tão atraente, tão fascinante como a Esperança!
Pobre vaidade que não larga do pé dos escritores, e em geral dos artistas.
Quem for modesto, entre os escritores e artistas, mande de lá aquele abraço Não acredito que exista um autor que seja humilde.
Devem, porém, existir escritores e artistas modestos.
Exemplifiquemos com um gênio: Guimarães Rosa     
Contaram-me que Guimarães Rosa deixou um álbum curiosíssimo de recortes de jornais, onde os artigos a favor dele estavam bem paginados, e à vista; os artigos contra, todos de pernas para o ar...
Teria sido humilde... Machado de Assis?
Modesto, sem dúvida.
Se Machado de Assis foi humilde, a resposta podem dá-la seus colegas da Academia Brasileira de Letras.
Quem mais? Algum outro gênio como Tolstoi e Dostoievsky?
De Tolstoi, quase nada sei, porque nunca consegui ler Guerra e Paz até ao fim.
Como vêem, estou dando uma demonstração de modéstia!
Talvez de burrice.
No fundo, insinuo que a multidão de personagens de Tolstoi me aborreceu. Memorizo poucos personagens.
Na única vez, em que tentei escrever uma obra de ficção, tive de empregar tantos expedientes para me lembrar dos nomes dos personagens de minha “estória”, que acabei abandonando minha “vocação” de romancista ou contista.
Quanto à minha opinião sobre Tolstoi – e aqui “me estoy luciendo de humilde”- é quando digo aos devotos dele:
- Grande Tolstoi! Genial Tolstoi! Quem foi maior, entre os russos que esse romancista fluvial, ele, obviamente, e seus companheiros de ofício nas estepes russas, entre outros Dostoievsky – a ponto de uns engraçadinhos inventarem  um autor chamado: Tolstoievsky?!
Refere-se a isso Anna Grigorievna Dostoeivskaya, a segunda mulher do romancista, 25 anos mais nova que ele, apaixonada por ele, “a verdadeira companheira de sua vida, já que a primeira mulher, a louca e tuberculosa Maria Dimitrievna, apesar de ter inspirado paixão, só lhe trouxera sofrimentos e aborrecimentos”.
(Anna Grigorievna Dostoievskaya. Meu Marido Dostoievsky. Trad. de Zoia Ribeiro Prestes. Rio de -Janeiro, Editora Mauad, 1999. Ler: “Prefácio” de Cecília Costa,.p. 11. Troquei o “i” final de Dostoievski por um “y”, porque meu Professor I.M. Bochenski, na Univedridade de Fribourg, na Suíça, que era polonês, me corrigiu, certa vez, quando lhe escrevi o nome com “y”:
-Os nomes que se escrevem com y final são russos, e não poloneses!
Ora, o Prof. Bochenski  entendia de idiomas, pois falava correntemente oito línguas)

Voltemos a Dostoievsky.
 Segundo sua segunda esposa, o escritor não possuía boa memória, em se tratando de seus personagens.
Anna Grigorievna relata que declarou ao escritor que adorava certos heróis do seu romance, Humilhados e Ofendidos, (o velho Ikhmenev), e que detestava outros (como o Conde Valkovsky, ou Natacha).
Dostoievsky interrompeu-a:
- Não me lembro deles - e do conteúdo do livro me lembro vagamente...
- Não pode ser! Esqueceu?  protestou Anna. (Ibid. p. 72).
Talvez Dostoievsky tivesse sido humilde.
 Imaginem: esquecia até seus personagens... Se não foi humilde de fato, foi humilde ao confessar isso!
Fiquemos por aqui, pois na fogueira de vaidades dos autores não entra quem quer, mas quem pode. Penso que São Francisco poderia entrar nessa fogueira, sem correr o risco de chamuscar os pés...
Depois de digressão tão quilométrica... abordemos o caso do Professor Araken.
Ele foi Professor da Faculdade de Veterinária da UFRGS. Conheci-o graças a um amigo. Por intermédio deste, fui informado de que ele tivera câncer de pulmão, e que o cirurgião que o salvara fora o genial  gaúcho,Dr. José Camargo, que  topou um desafio que outros não o tinham querido enfrentar.
Araken emergiu das águas tumultuosas que o queriam afogar. Está, atualmente, lépido e animado.
Numa tarde dessas, sorvendo um cafezinho na sua companhia, no simpático e rumoroso ambiente do Mercado Público, começamos a desfiar reminiscências.
 De repente, invadimos o universo nebuloso das reações das pessoas perante os grandes problemas da vida, em especial, perante as “situações-limite” evidenciadas, particularmente, pelos Filósofos Existencialistas do Pós-Guerra.
Referimos confidências deste ou daquele sobrevivente, deste ou daquele vencedor de moléstias graves, como leucemia, e outras enfermidades.
Subitamente, Araken, como se estivesse a conversar com seres de outro planeta, surpreendeu-nos com a seguinte confissão:
- Caro amigo, ao te referires, a alguém que te deu uma lição de vida, vou dar-te um depoimento. Depois que saí da minha situação de risco, depois que recobrei a lucidez, na tarde em que saí da Santa Casa, pus-me a olhar ao derredor... na praça em frente. Que prodígio! Não acreditava no que via! Eu estava vendo o azul do céu, um azul sublime e afetuoso? Eu estava diante de árvores, de cachorros, de gente! Que é isso, meu Deus! E dizer que não sou religioso...
À guisa de comentário - comentário talvez descortês descortês, até certo ponto, tratando-se de um não-crente, disse-lhe:
- Gilbert Keith Chesterton escreveu que “o pior momento de um ateu é quando ele quer agradecer, e não sabe a quem...”
Araken ficou silencioso.
Depois disse:
- Na verdade, não sou ateu. Acho até que nem pode haver ateus convictos.
Tornei a dizer-lhe:
- Eu acho que, ao me contares a tua impressão, fizeste uma homenagem Àquele que tu não conheces...
Que me respondeu o ex-abalizado professor da UFRGS?
Respondeu-me:
- Pode ser que eu não O conheça! Mas Ele me conhece!
Amigos: que lição à Blau Nunes!
Remato este texto, contando outra “revelação” desse professor.
Araken disse-me na mesma ocasião:
- Compreendi, com essa experiência dramática que eu era um privilegiado! Quantos minutos de vida tive até hoje? Milhões... Quantas vezes pude contemplar o céu estrelado, os pássaros, a lua? Tudo o que vier é excesso...
Posso ter transcrito nosso diálogo com outras palavras, mas o Araken disse exatamente o que lhes estou referindo. 
Palavras, palavras?
Pobrezinhas! Imagino só o que levais sobre vosso dorso, à maneira dos burros de outrora.... Às vezes, um relicário! Às vezes, o próprio Jesus, que continua a reentrar em Jerusalém, no Rio de Janeiro, em Trípoli ou Pequim.
Outras vezes, trata-se, realmente, de um burro montado sobre outro burro...
Perdoem-me: por que não identificar-me com o burro montado sobre outro burro?
Eis um exemplo de pseudo-humildade...

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