terça-feira, 28 de junho de 2011

O Diálogo de Jesus com a Samaritana: página atualíssima do Evangelho!

Toda vez que leio os Evangelhos, surpreendo-me com o fato de seus autores não terem guardado alguns nomes de personagens, sobretudo mulheres, que eu gostaria de conhecer.
A tradição eclesiástica privilegiou algumas mulheres da vida de Jesus. Tornou-as Santas, dedicando-lhes Basílicas.A Basílica de Vézelay que visitei em 2010, um dos mais belos monumentos românicos do mundo, é dedicada a Santa Maria Madalena, a Pecadora. Sei que existem outras igrejas dedicadas a Santa Marta, irmã de Lázaro.
Não conheço nenhuma igreja do mundo que seja dedicada às mulheres anônimas da vida de Jesus, às que tiveram importância para o Salvador, pois Ele mesmo reservou-lhes confidências que até então não reservara sequer aos discípulos.
Uma delas é a Samaritana.
Eu gostaria de saber o nome desta mulher, para poder invocá-la, diretamente.
Sempre me impressionou sua sinceridade, sua desenvoltura, diria quase? Seu aprumo, ao falar com Jesus!
Não se mostrou intimidada com Ele, quando este lhe pediu água. Lembrou-lhe que ele era judeu, e ela samaritana, e que entre os dois povos havia um desentendimento radical, um ódio profundo.
A cena do encontro de Jesus com a Samaritana está descrita no Evangelho de São João, no capítulo 4, versículos 4 a 42.
Sou vidrado nessa página do Evangelho!
Primeiramente, observem o realismo do evangelista São João.
Jesus chega a Sicar, talvez a atual Askar, ao pé do Monte Ebal, a uns mil metros do Poço de Jacó, que continua a saciar a sede dos habitantes da região.
O fundador da Escola Bíblica de Jerusalém, Joseph-Marie Lagrange, nota que essa aldeia ficava não muito longe da atual cidade de Nablus, onde, em anos recentes, ocorreram graves conflitos.
Jesus chegou a Sicar “por volta da hora sexta”, isto é, ao meio-dia. Chegou cansado do caminho, e sentou-se junto à fonte!
Pormenor interessante. Os dois pormenores menciondos, o cansaço, e o fato de Jesus sentar-se à borda do poço, sublinham que o Verbo Encarnado, ou como diz São Paulo, Aquele no qual habitava corporalmente a Divindade, era homem.
Como homem, sentia sede, e tinha necessidade de sentar-se.
São detalhes triviais, mas para aquém crê, são de uma importância decisiva.
É preciso tomar a Jesus como Ele é: Verdadeiro Homem  e Verdadeiro Deus.
O homem está aí: tem sede, senta-se.
O Deus, que nele habitava corporalmente, logo se manifestará, quando falar à auto-confiante Samaritana.
Reparem como essa mulher reage – modernissimamente – ao pedido de Jesus!
Jesus lhe diz:
       - Dá-me de beber!
Imagino que Jesus lhe tenha dito :
- Podes dar-me de beber?
A mulher, que estava longe de ser uma oriental submissa (já vereis por que!), responde-lhe, provavelmente de mau humor:
-Como me pedes para beber, a mim, que sou mulher samaritana, tu que és judeu?
São João, como bom “repórter” explica aos leitores (a nota deve ter sido acrescentada posteriormente), tornando mais clara a agressividade da mulher:
- Os judeus não se dão com os samaritanos
(Tradução da Bíblia de Jerusalém. O tradutor clássico João Ferreira de Almeida traduziu de outro modo: “porque os judeus não se comunicam com os samaritanos).
Lagrange observa:
- É preciso não esquecer a história das disputas dos samaritanos com os judeus.
Jesus não responde à mulher no mesmo tom (Pudera!). Diz-lhe:
- Se tu conhecesses o dom de Deus, e quem é que te fala: dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva.
A Samaritana replica imediatamente, “con una sonrisa burlona” (é assim que o tradutor espanol verteu o original francês, que desconheço).
 Talvez a melhor tradução em português seja : a samaritana respondeu-lhe em tom de troça:
- Não tens com que tirar água do poço, e ele é fundo. Como vais tirar essa água viva?
É uma pena que não se podia filmar,nem gravar em vídeo na época de Jesus!
Adoraria ver sua reação.
A mulher– desculpem minha interpretação –estava, no fundo, debochando de Jesus! Era uma mulher sabida!
Olhem como prossegue:
- És tu maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu, assim como seus filhos, e seu gado?
Quase não dá para acreditar que uma mulher daquela época fosse tão senhora de si!
Uma reação assim tem algo de uma petulância parisiense!
      Jesus responde-lhe -sem alterar a voz:
- Quem beber desta água voltará a ter sede! Quem beber da água que eu lhe der, não terá mais sede. Porque a água que eu lhe der se tornará nessa pessoa uma fonte que jorrará para a vida eterna.
Neste instante, a mulher tem um sobressalto.
Fica eufórica! Sem perder o ar caçoísta, apressa-se:
- Senhor, dá-me dessa água para que eu não tenha mais sede, e nem precise vir aqui para tirá-la..
Era demais!
Jesus viu que com uma mulher desse tipo não dava para conversar.
 Disse-lhe:
- Vai chamar teu marido, e volta!
A Samaritana não se impressiona:
- Não tenho marido!
       - Falaste bem: Não tenho marido, replicou Jesus.Tiveste cinco maridos, e o que agora tens, não é teu marido.Nisto falaste a verdade!
       Como vêem os leitores, estamos em pleno 2011.
Talvez nesse átimo a Samaritana tenha perdido um pouco sua auto-estima e, sobretudo, sua auto-confiança.
Sentiu-se sem jeito. Habituada a safar-se das piores situações, acrescentou:
       - Senhor, vejo que és um profeta!
              Noutras palavras: a Samaritana prefere não insistir num assunto tão resvaladiço, que pode comprometê-la. Melhor apelar para uma discussão teórica, que talvez distraia e encante o Profeta:
       - Nossos pais adoraram nesta montanha, mas vocês, que são judeus, dizem que o lugar onde se deve adorar é em Jerusalém!
       Jesus respondeu-lhe(e aqui eu desejaria ver, outra vez, num vídeo o olhar de Jesus!):
       - Ó mulher, acredita-me, vem a hora em que nem sobre esta montanha, nem em Jerusalém se adorará o Pai! Vós adorais  o que não conheceis, nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas já é hora – e é agora – em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade, porque o Pai procura tais adoradores. Deus é espírito, e aqueles que O adoram, o devem adorar em espírito e verdade.
       A mulher deve ter ficado abalada.
Mesmo assim, sua auto-confiança não a desamparou.
Resolveu mostrar a Jesus que sabia do que ele estava falando:
       - Eu sei que deve vir um Messias (que se chama Cristo), e quando ele vier, nos anunciará tudo!
       Jesus acrescentou, delicadamente:
       - Sou eu,  quem fala contigo!
       Novamente, gostaria de ver no vídeo este instante!
O da primeira revelação clara da sua condição de Messias, de Salvador dos Homens. Jesus ainda não dissera nada disso aos discípulos, para não suscitar neles falsas esperanças num Messias político, capaz de derrubar a dominação estrangeira, e conferir liderança aos judeus.
       Como observa o Fundador da Escola Bíblica de Jerusalém:
Neste momento, Jesus começou a levar a Samaritana:
habituada aos jogos de palavras, ao horizonte limitado das comadrices, aos papos furados (“a una conversación sin finalidad”), à descoberta e ao desejo da Graça de Deus.
O mesmo autor afirma: não se percebe em Jesus nenhuma ironia socrática.
Jesus estava interessado apenas em salvar uma mulher...
É uma pena que São João nada acrescenteSão João sobre o destino dessa mulher!
Sumiu-se...
Leitores amigos, digo-lhes que, nos meus momentos de vida cristã interior, quando sinto necessidade de Deus (e quem não sente isso a todo o momento?), o Qual se revelou em Jesus -não há outra possibilidade de se entrar em contacto pessoal com O Criador, com a Santíssima Trindade, a não ser por meio de Jesus –nesses momentos lembro-me de Jesus  que se assentou à borda do Poço de Jacó, um poço que, segundo dizem teria entre  23 a 30 metros de profundidade (Franz Michel Willam), ou mesmo 32 metros (sua profundidade atualmente: Giuseppe Ricciotti).
Sim, gostaria imensamente de saber o nome dessa Samaritana, para invocá-la, não me dirigindo, como me dirijo atualmente a uma simples Anônima.
Gostaria de conhecer sua verdadeira identidade de ex-mulher de cinco maridos, fora o da época em que falou com Jesus!
Da mulher concreta. que correu a chamar os samaritanos de sua aldeia, dizendo-lhes:
-     Venham ver um homem que me disse tudo o que fiz. Não será ele o Cristo?
       Seus concidadãos, muitos deles, depois de terem conhecido Jesus, mostraram-se excessivamente eufóricos, quase esnobaram a primeira evangelizadora da história:
- Já não é por tua causa que cremos. Nós próprios o ouvimos, e sabemos que esse é verdadeiramente o salvador do mundo.
Podiam ter-lhe dito:
- Mulher, agradecemos-te a oportunidade que nos deste de conhecer Jesus!
Joseph-Marie Lagrange  adverte-nos que a expressão “salvador do mundo”, usada pelos samaritanos, não tinha o significado que hoje nós lhe atribuímos:
- Aquela população, formada por camadas diversas de etnias, estava mais habituada do que os judeus a dar o nome de salvador a qualquer soberano, mesmo que sua atividade fosse negativa, e até desastrosa. Eles consideravam salvador do mundo ao imperador romano...
Volto a dizer: gostaria de saber o nome dessa mulher, que sem dúvida, se tornou fiel a Jesus, e talvez tão santa como outras, que foram pecadoras como ela, entre as quais Maria Madalena!
De qualquer modo, para mim a Samaritana será sempre uma intercessora predileta.
Uma intercessora sem rosto.
Que importa? Sua voz repercutirá sempre dentro de mim, embora essa mulher de forte personalidade, mas fundamentalmente honesta, tenha sido insolente na presença de Jesus, até Ele revelar-lhe Quem era.
Não somos nós, homens do século XXI tão insolentes como ela?
É só ler nossos jornais!

Nenhum comentário:

Postar um comentário