segunda-feira, 20 de junho de 2011

KAFKA: Por Que Não Citam o Seu Mais Belo Conto?

Cada escritor, e a fortiori cada poeta, para ser autêntico e confiável, precisar revelar, ao menos implicitamente, os limites geográficos de seus interesses em literatura e artes.
Falemos com mais clareza: cada escritor deve mostrar-se como é, sem jamais deixar-se levar pela hipocrisia, que consiste em aparentar o que não  se é. Porque cada escritor, nas suas horas de embate consigo próprio, na sua luta noturna do Anjo com sabe onde está seu calcanhar de Aquiles.
No meu caso, sempre tive dificuldades em relação à ficção.
Explico-me: o poeta,embora seja um ficcionista, é um ficcionista sui-generis. A rigor, prefiro a denominação de Fernando Pessoa: o poeta, na realidade, é um fingidor.
Admito que os dois vocábulos tenham a mesma origem. Procedem de fingir, que inicialmente era modelar uma figura em argila ou noutra matéria plástica.
A palavra figura, aliás, vem também de ficção. Uma figura é uma imitação da realidade, produzida pela memória e pela imaginação.
Desde os primórdios, o ser humano sentiu a necessidade de pegar nas mãos o que os olhos também pegavam, porém em mãos invisíveis. Não me lembro se foi Bergson, ou outro autor, quem compreendeu que o tato foi sempre o primeiro e universal sentido. Dele derivaram os demais sentidos. A visão, no fundo, é um tato à distância. A audição, idem. O olfato, de certa forma, é uma forma de posse de uma impressão sensorial que só pode ser apreendida pelas narinas. A suprema tactilidade, ou tangibilidade, a do amor, é a conjunção de dois corpos num só, que culmina no orgasmo, quando tanto um como o outro parceiros são “abduzidos” pela sensação corporal, de tal modo que cada um deles perde sua identidade, confluindo num nós, mediante um êxtase, isto é, uma vivência quase à parte do próprio corpo, mas no interior do próprio corpo. O orgasmo é o tato conduzido ao seu extremo, à sua forma pura de ser matéria – ao contrário das formas platônicas, que se definem por sua alienação da matéria.
O Cristianismo, no fundo, é anti-platônico. Tornou-se platônico, nos inícios de sua história, por oportunismo. Era fácil, escorando-se em Platão e Plotino, salvar a existência da alma. Com isso, o Cristianismo fez perigar a realidade da Encarnação do Verbo. Todas as heresias possuem um fundo de platonismo: querem sair do corpo, querem espiritualizar-se – isto é, renegar a matéria. Em última análise, o platonismo é a tentativa mais sutil e mais traiçoeira, em termos cristãos, de negar a humanidade de Cristo, e sua Ressurreição.
Um cristão não pode pactuar com nenhuma dessas tentativas. Necessita imunizar-se contra o Platonismo. Diria, valendo-me de um paradoxo: é melhor ser materialista do que platônico. Ser platônico dá status, permite que a inteligência se alcandore, se sublime em suas abstrações matemáticas, científicas, filosóficas.
Como é grande essa tentação diabólica de ser espírito! Essa pseudo-espiritualização, que é a negação da humildade cristã.
Para ser verdadeiro, o cristão necessita confessar que possui uma alma imaterial, imortal, mas que esta alma está unida a um corpo indissoluvelmente.
Também valem aqui as palavras de Jesus: Serão dois numa só carne, isto é, um espírito e um corpo numa só entidade carnal.Fugir da carne é abdicar do Cristianismo, é ser mentiroso, e ser mentiroso, é ser demoníaco. O Diabo é o Pai da mentira.
O filósofo Descartes tornou-se um ponto de referência de todos os platônicos. No fundo, ele é um platônico disfarçado. Sua divisa emblemática: Eu penso, logo existo é uma falácia. Teria sido melhor que ele tivesse dito: eu sinto frio, eu me alimento, eu tenho relações com uma mulher, e por isso existo.
Não nos iludamos: a esperteza de Descartes foi esconder-se na matemática – que é pura abstração. – Para não deixar de ser o que ele sempre foi, um cristão convicto, declarou que Deus estava por trás de tudo.
O mundo moderno e contemporâneo paga um pedágio oneroso a Descartes. E,- obviamente, – a Kant e a Hegel, que valorizaram o “Espírito”, o espírito desencarnado.Kant merece mais nossa simpatia porque, afinal, com seus a-priori, e suas afirmações anti-lógicas, salvou a Ética, e com a Ética, também a Estética.
É melhor, como ele faz, afirmar uma certa irracionalidade da razão, a tornar esta detentora das explicações finais do destino humano.
A confusão entre inteligência e razão, persistente na cultura ocidental, é uma calamidade.Torna os homens auto-suficientes, orgulhosos, de uma pretensão que nos faz rir.São preferíveis as afirmações obscenas - quase grosseiras - de Ludwig Feuerbach (1804-1872), que sustentava que o homem é o que come, à pseudo-pureza, à rarefação mental dos filósofos que escrevem suas obras como se estivessem no interior de balões de oxigênio, ou como se fossem escanfandristas ou praticantes da pesca submarina.
Um filósofo deve pensar somente após certificar-se de que está com os pés fincados na terra. Bem plantados na terra!
Noutras palavras, só se deve filosofar, não depois de viver, mas vivendo, isto é, enquanto se pode comer,dormir e, naturalmente, fazer amor.
Eis a razão porque nunca apreciei – embora sempre as tenha admirado – as ficções de Kafka.Não tenho a menor dúvida sobre seu talento de escritor. Ele escreve bem, benissimo ate. Mas, no que me concerne, um escritor deve ir além disso. Deve ter o que dizer. Kafka, a rigor, embora sempre ande à procura do que dizer, tem o que dizer. Mas não a mim. Ele o diz a outras pessoas que se identificam com ele.
Para mim ler Kafka é como viajar num filme contemporâneo de efeitos especiais! Ou num desses cinemas com óculos especiais, como os que pude conhecer em Poitiers, na cidade do Futuroscope.
A leitura do penetrante ensaio de Gérard-Georges Lemaire, publicado em livro de bolso pela LPM,veio confirmar minha posição inicial.
Que posição inicial?
Explico-me: descobri Kafka , por volta de 1960, porque alguém me falou nele. Eu estava na Europa, a braços com minha tese de doutoramento sobre Henri Bergson: “O Problema da Criação em Henri Bergson”, que apresentei à Universidade de Fribourg, na Suíça. Fui aprovado, e me tornei– oh céus!- “docteur ès-lettres”, que na terminologia brasileira engloba o doutorado em filosofia.
Serei um filósofo?
Não.o sou. Faço minhas as palavras de Paul Valéry:
-Não sou filósofo, absolutamente (...)  (O Pensamento Vivo de Descartes.Trad. de Maria de Lourdes Teixeira. São Paulo, Livraria Martins, 1961. p.20).
Sou um indivíduo que tem gosto em matutar.
O Dicionário Aurélio define: matutar: refletir em algo, cismar, ruminar. Em linguagem mais elevada, matutar é pensar Talvez eu seja, na verdade,um ruminador, um teimoso aprendiz-de-pensador.
Reajo contra Platão (por quem sou apaixonado até certo ponto) e seus discípulos, que nunca deixaram de ser a maioria entre os filósofos. Um de meus professores, I. M, Bochenski, o qual, antes de ser frade dominicano, foi muitas outras coisas, inclusive oficial do exército polonês, tornando-se – mais tarde célebre analista e crítico do marxismo-leninismo-estalinismo soviético, e, na sua última fase, uma sumidade internacional em Lógica Matemática, que teve importância, também, no surgimento do nosso mundo informático. Bochenski dizia-nos, em aula, que a maioria dos filósofos, e dos cientistas, do século XX, eram platônicos!
Salvei-me, felizmente, do platonismo graças a uma vacina anti-ofídica chamada Poesia!
Por que anti-ofídica?
Por uma razão: deve-se ter respeito à Serpente do Paraíso que perverteu nossos primeiros Pais, Adão e Eva, os quais nos deixaram como herança a maior novidade daqueles tempos: Querer ser como Deus. Acho que essa novidade continua a ser a novidade maior de nosso tempo.
Para opor-se à novidade de Adão e Eva: Querer ser como Deus, o Verbo Unigênito veio a este homem, e se fez  Homem, em tudo igual a qualquer indivíduo, exceto na pretensão de ser como Deus, justamente porque o Verbo de Deus existia desde sempre, e era Deus. Por ser de natureza divina, pôde aniquilar-se (a famosa kénosis dos teólogos protestantes) isto é, fez-se nada, para vacinar-nos contra o orgulho, e contra a tendência de exilar-nos do corpo, como se a alma pudesse existir fora de um corpo. Jesus é a divindade que se torna humana, para que nela o homem possa encontrar Deus à sua altura, isto é, à altura da humanidade.
O homem nunca se resignou a isso. Quis sempre encontrar Deus à altura de Deus.
Mas que tem isso a ver com Kafka?
Muito.
Kafka nunca se resignou a ser o que ele era. Dá pena ver o pobre gênio, principalmente quando tentou amar uma mulher.
Foi, sem dúvida, amado por elas, mas como podiam as mulheres amar um homem que sempre estava noutra parte, numa ubiqüidade imaginária?
Ao ler as cartas de Kafka – ah, esqueci-me de dizer-lhes que comecei lendo seus Diários, em italiano, por volta de 1962 – fico com uma pena louca do genial judeu tcheco.
Mas tenham a santa paciência: devemos ter pena também de todas as mulheres de Kafka, que Gérard-Georges Lemaire menciona no seu ensaio.
Eis o buquê dessas criaturas: Felice Bauer (1912), da qual o escritor se separou em 1914, e com quem reatou em 1916.Voltou a noivar com Felice nesse mesmo ano. Em 1913, Kafka conhecerá Hedwig Weiler. Grete Bloch serviu de intermediária entre Franz Kafka e Felice Bauer. De 1917 é a última carta de Kafka a Felice. Surge, então, na vida do escritor Milena Jesenká, que provoca o rompimento de Kafka com Julie Wohrizek. A última visita de Milena a Kafka é a de 1922. Nessa data o escritor oferece-lhe o manuscrito de O Desaparecido.
Em 1923, Kafka conhece Dora Diamant. Instala-se com ela em Berlim, no Bairro-de Steglitz. Mudam-se, logo depois, para o Bairro de Zehlendorf. A saúde de Kafka deteriora-se. É internado num sanatório da Baixa Áustria, depois noutro, no Sanatório de Kierling, perto de Viena, sempre acompanhado pela fiel Dora.
O pai de Dora recusa que sua filha case com o escritor. Em primeiro de junho de 1924, Kafka morre no Sanatório de Kierling. É enterrado no novo Cemitério Judaico de Praga.
Simpatizei com todas as mulheres da vida de Kafka, especialmente com Dora Diamant!
Em homenagem a essa mulher, reproduzo para os leitores a mais bela estória de Kafka - na minha opinião.
O escritor infelizmente a escreveu para uma única pessoa, ou antes, para uma pessoinha, cujo nome parece não ter chegado à posteridade.
Transcrevo o texto de Gérad-Georges Lemaire:

Nos meses passados em Berlim, em meio ao mais completo despojamento, mas também na antecâmara da felicidade, enquanto lentamente toma consciência da iminência de sua morte, Kafka vive uma belíssima história que Dora Diamant conservou preciosamente como uma espécie de conto maravilhoso, tão revelador do universo desse homem que ela amou com paixão e devoção. Durante uma de suas freqüentes caminhadas no Parque Steglitz, eles encontraram uma menininha que chora. Eles perguntam o que a faz chorar tanto, e ela responde que perdera sua boneca. “Para explicar seu desaparecimento, Kafka inventa imediatamente uma história totalmente verossímil: “A boneca só estava fazendo uma pequena viagem; eu sei porque ela me enviou uma carta”. A menininha olha-o com um ar desconfiado: “Tens contigo essa carta?” ela pergunta. “Não, deixei em casa, mas a trarei amanhã”, ele responde. Assim que chega em casa, Kafka começa a escrevera famosa carta. No dia seguinte, ele a leva para a menininha: “A boneca explicava que tinha cansado de viver na mesma família, dizia que queria trocar de ares, em uma palavra, queria se separar por algum tempo da menininha, que no entanto amava muito”, conta Dora em suas memórias. A história não termina assim... A boneca escreve então todos os dias, para contar sobre a nova vida fascinante que ela tem...
- Alguns dias depois (continua Dora), a criança esquecera a perda de seu brinquedo e só pensava na ficção que ele lhe oferecera como compensação. Franz escreveu cada frase do romance com tanta precisão e humor que a situação da boneca ficara fácil de entender: a boneca crescera, fora para a escola, encontrara outras pessoas. Ela sempre assegurava seu amor à criança (...). (Ibid. p.226-227).
Gerard-Georges Lemaire conclui:

Com essa história, Kafka conhece a leitora ideal, uma leitora que, como ele, prefere “a verdadeira vida” da ficção à vida real. Ele só tem mais alguns meses de vida. (Ibid. p. 227).

Divirjo da conclusão de Gérard-Georges Lemaire: não é a ficção que leva a palma à realidade, é a realidade que se sobrepõe à ficção. Para a criança, a boneca era a realidade.
Sob certo sentido, vejo-me obrigado a completar minhas reflexões com uma de Erico Veríssimo, que ele me enviou numa de suas cartas pessoais:
- (...) o serrano que há em mim não pode deixar de pensar que a inteligência, quando em grau excessivo, é uma espécie de doença que nos impede de aceitar o mundo. E então eu bendigo uma certa e saudável dose de burrice à Sancho Pança com que fui “dotado”, e que me faz aceitar tão bem a vida – sem conformismo é claro, mas com uma certa paciência franciscana. Creio que São Francisco não era muito inteligente” (Ler por Dentro. Porto Alegre, Editora Pradense, 2010. p.57).

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