terça-feira, 28 de junho de 2011

José Lins do Rego: “gênio de um só livro”?

           Vivemos uma época de desmemória.
Não porque sejamos desagradecidos aos nossos antepassados, aos nossos avós, ou aos gênios que nos precederam na longa marcha da Cultura Universal, mas pela razão de que a aceleração da história não deixa tempo à ruminação intelectual.
Tudo é engolido a uma velocidade supersônica (Oxalá fosse verdade!).
Tudo é lido enquanto o diabo esfrega um olho.
Que resulta de tudo isso?
Que não somos, nem temos, a memória que devíamos ser e ter.
Um homem sem memória, que já não sabe quem é, ou melhor, quem foi: oh que apocalipe!   
Devido à invenção tenebrosa (emprego a palavra invenção como sinônimo de descoberta) do Mal de Alzheimer,ocorre-me conhecer pessoas que, de repente, depois de terem sido nossas íntimas, nos surpreendem:
 - O Sr., quem é? Tenho a impressão de tê-lo visto nalgum lugar...
A velha senhora, que me dizia isso, era a mãe de uma querida amiga, em cuja casa tínhamos jantado no dia anterior, na companhia da velha (e amável) senhora!
 Como me doeu verificar tal anormalidade!
Pensei no verso célebre de Cecília Meireles:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?
 (Obra Poética. Rio de Janeiro, Companha José Aguilar Editora, 1967. p. 107. O poema intitula-se Retrato, e foi publicado em Viagem (1929-1937).   
Pode-se sustentar que a situação cultural contemporânea é tal que, pela primeira vez na história, estamos perdendo nossas referências.
Antigamente - vinte anos atrás; ponhamos,por precaução: quarenta anos! - existia uma sorte de fundo comum de cultura, que as pessoas faziam questão de preservar. Era  quase o que  é hoje a poupança bancária, transposta ao plano artístico e literário. Ouso, até, dizer que, nessa época, os grandes gênios, os clássicos, rendiam juros altíssimos, sofriam correção monetária (de fama e prestígio).
 Agora, o que sucede?
 Não me admirarei se, amanhã ou depois de amanhã, o Presidente da França (ou o Primeiro Ministro da Rússia), ao ser interrogado por um indiscretíssimo repórter sobre suas admirações em termos de Arte,responder à pergunta do repórter:
- o Sr. aprecia Miguel Ângelo?
- Bem lembrado! Bem lembrado!  É um querido empresário italiano de Turim,com quem costumo jantar.
As respostas, é verdade, costumam ser mais criativas do que as perguntas!
Se o repórter, por exemplo,quiser sabe se a personalidade , que está diante dele, conhece – Rothko, ou um dinossauro da História da Arte  Moderna, como Edouard Manet (não o Claude Monet), o grande homem, assumindo ares de um oráculo de Delfos, talvez lhe replique:
- O Sr.Manet? Acaba de ser transferido das suas funções na UNESCO, para o Ministério das Relações Exteriores. É um indivíduo de grande competência técnica, de altíssima cultura, de descortino político!
Caçoadas à parte, o tema está mais para velório, do que para banquetes de núpcias reais inglesas.
Falemos da prata de casa: José Lins do Rego.
Li seus romances relativamente tarde.
Custei a aperceber-me que não é preciso dar a volta ao mundo para chegar ao centro do mundo
Às vezes, esse centro está no fundo do nosso quintal.
Afinal, em qualquer lugar do mundo podemos morrer!
Deu-se o caso que, um dia, num sebo, topei com vários livros do chamado Zé Lins, a preços de ocasião. Aproveitei a oportunidade para adquirir todos esses tristes enjeitados literários, e descobri, ao chegar a casa, que tinha encontrado, ao menos, um grande tesouro.
O Ciclo da Cana de Açúcar não me impressionou muito, talvez porque eu tenha lido esses romances longe das datas em que foram publicados. Não os considerei excepcionais, embora algumas de suas páginas o sejam.
O lúcido Afonso Arinos de Melo Franco, em crônica publicada em 1944, distinguia três fases na obra de Lins do Rego: a primeira: a do já mencionado Ciclo da Cana de Açúcar, com Menino de Engenho, Doidinho e Usina.
Fora desse grupo, o autor indicava Moleque Ricardo e Pedra Bonita. Não entendi bem se os considerava avulsos, ou de temática paralela, porém não na mesma linha de abordagem.
A seguir, Arinos falava de um grupo de romances, que compreendia Bangüê, Pureza, Riacho Doce e Água-Mãe, aos quais atribuía “um cunho predominantemente humano e passional”.
Li, ainda, Ligeiros Traços (Escritos da Juventude).
Foi uma sorte.
Sou de opinião, porém, que se devem ler apenas os romances dos gênios.
Estes são relativamente poucos.
Será um gênio José Lins do Rego?
Na minha opinião, é um gênio, mas de um único romance: Fogo Morto.
Será um gênio Erico Veríssimo?
Sim, ele é o gênio de uma trilogia: O Tempo e o Vento.
Não existirão gênios de Obras Completas?
São raríssimos!
São alguns clássicos que a humanidade resolveu canonizar.
O critério para aferi-los é o seguinte: ficam cada vez maiores à medida que o tempo passa. São como as sombras produzidas pelo sol nos objetos: quanto mais o sol declina, mais as sombras dos objetos se alongam.
Longe de mim zombar dos gênios da humanidade!
Longe de mim erigir-me em crítico desses gênios!
Posso, porém, dizer o que penso sobre eles,com o necessário respeito.
Com a máxima, e secreta, veneração interior.
O que não admito é que se erijam altares aos Autores, Conhecidos ou  Desconhecidos.
Os primeiros têm que ser avaliados a cada século.
Os segundos precisam ser melhor avaliados em vida, e avaliados acuradamente depois de mortos.
Em se tratando de gênios, toda pressa é fatal.
Deixemos ao tempo a responsabilidade de no-los apresentar, e tornar a apresentar, de tempos a tempos.
Gênios, na verdade, só existem à distância, depois que um Diógenes, o Cínico, lhes possa jogar na cara uma dúzia de ovos, e no mínimo vinte e quatro tomates ultra-amadurecidos.
Gênio que não passou por uma Paixão e Morte, e não ressuscitou, ao fim de um século, não é gênio.
Com a mão na consciência, cartesianamente, deixo de aderir à genialidade de alguém sem longa reflexão. Também não a nego sumariamente.
É preciso submeter-nos, antes de mais nada, a uma temporada de perplexidade.
Precisamos chegar ao culto interno dos gênios antes de lhe rendermos culto público.
Além disso, devemos ter um mínimo de consideração pelos gênios cultuados pelos nossos amigos, por mais que os estranhemos, ou até os reneguemos.
Na minha opinião, existem gênios de um só livro, gênios de dois ou três livros, e gênios de Obras Completas.
Os de Obras Completas (quando existem! Vão lá saber se Homero não escreveu outras obras, ou se Shakespeare não nos reservará, para o futuro, a surpresa de mais um drama ou de mais uma comédia)!
Na minha opinião, José Lins do Rego é gênio de um só livro: Fogo Morto.
Valeu a pena descobri-lo quando ninguém quase faz referências a ele, pelo menos nos círculos que freqüento.
Descobrir Fogo Morto foi para mim um encantamento!
Foi como descobrir o romancista italiano do século XIX-XX, Giovanni Verga (1840-1922).
Subscrevo o que se diz por aí: José Amaro e, principalmente, Vitorino Carneiro da Cunha, são personagens de ficção Urbe et Orbi, da Paraíba e do Mundo, dignos de leitores dos quatro pontos cardeais do planeta.
Talvez, no nosso mundo contemporâneo, seja preciso afunilar mais a História da Literatura.
Ninguém já tem tempo para ler tantos autores!
É preciso, portanto, convencer essa raça em extinção (opinião que não partilho!)– a dos verdadeiros leitores - a reler.
Uma única leitura não revela a grandeza de um gênio. Revela o dedo do gigante, o que já é muita coisa. Outras leituras darão a verdadeira dimensão do gênio.
Sejamos humildes.
Desconfiemos, também, de nossas leituras. Leiamos uma, duas vezes, se possível três vezes.
Comecemos pela Bíblia, reunião de gênios, e de autores medíocres, embora todos inspirados por Deus.
Inspiração não é ditado!
Há gênios que, pessoalmente, jamais compreenderemos. Sua obra é reservada a privilegiados. Não nos julguemos excluídos do banquete; digamos .tão somente:
- Não é pra meu bico!
Existem outros que toda a gente pode compreender,pode saborear. Por exemplo: creio que qualquer leitor pode saborear, se tiver um pouco de paciência,as Mil e Uma Noites e o Dom Quixote, de Cervantes.
Há gênios que nasceram para serem lidos por duas ou três pessoas. Felizes deles se as acharem!
Há gênios, talvez, que tenham nascido só para serem lidos por uma única pessoa: eles próprios!
Há gênios bem educados, há os mal-educados, os selvagens, os iracundos, os vaidosíssimos, os pseudo-humildes, os chatos (numerosos!) como é (salvo engano!) o maior prosador da língua portuguesa (segundo Fernando Pessoa) o Padre Vieira.
Só Fernando Pessoa, creio eu, seria capaz de ler Vieira admirando-o – e amando-o, isto é, babando-se com o seu estilo.Talvez Machado de Assis pudesse acompanhar Fernando Pessoa!
Felizes de nós se encontrarmos nossos gênios pessoais, aqueles escritores– e também artistas plásticos, compositores musicais, cineastas, etc. – que nos deixam embevecidos para sempre, que nos dizem algo que nunca mais será dito por outra pessoa, sobre realidades como Deus, a Vida, o Amor, a natureza, a Morte, e pode ser também, sobre um boi como Simões Lopes Neto, ou  sobre uma cachorra, como Graciliano Ramos!
São esses gênios que fazem crescer em nós a Esperança, e nos acenam com a possibilidade de os reencontrarmos na Outra Vida.
Refiro-me a Mozart, a Dante, a Machado de Assis, a Cabral de Melo Neto, a Mario Quintana, além dos já citados.
Como estarão, nas Terras do Bom de Deus, Pascal, Agostinho de Hipona, Baudelaire, Rilke, Alessandro Manzoni, Dostoievsky, Tchekov, Wallace Stevens, Clarice Lispector, Guimarães Rosa?
Que os leitores não nos julguem apressadamente!
Existem mais gênios que a nossa vã sabedoria imagina!
Se eu fosse obrigado a acender uma vela a cada gênio da humanidade (isto é, a cada gênio que o é para mim) este mundo estaria mais iluminado do que a Broadway de New York, ou a Pirâmide do Louvre.
Por falar nisso, li, pela primeira vez na década de 80, e continuo a lê-lo, um incrível gênio chinês, quase totalmente ignorado pelo Ocidente: o autor de Diário de um Louco, o chinês cujo nome os franceses escrevem Luxun, e os portugueses Lu Xun (1881-1936), do qual tenho uma tradução de Ervas Silvestres (Lisboa, Edições Cotovia- Fundação Oriente, 1997).
Em francês existe: La Mauvaise Herbe (Paris, Christian Bourgois, 1975), e Cris (Nouvelles. Paris, Albin Michel, 1995).
Na tradução portuguesa estão incluídas as célebres novelas Diário de um louco (p.27-44) e Era uma Vez Q (p.45-106).
Caros amigos, procurem-no, ainda mais agora, em que a China está na moda!
Procurem-no como Manuel Bandeira procurava a Estrela da Manhã. Lu Xun pode não ser uma estrela, mas é mais que um vagalume.
É uma espécie de lua solitária chinesa!

2 comentários:

  1. Prezado professor Trevisan, gostei muito de seu artigo sobre Gustavo Corção. Um grande escritor negligenciado pela mentalidade marxista e iluminista que ideologicamente predomina em nosso país. Se tiver artigos de escritores como Mauriac, Bernanos, León Bloy, Claudel...posso publicar em meu blog. Seria uma honra. Deixo meu email. Um abraço. hilton.dv@hotmail.com

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  2. Sobre seu artigo, lembrei de um texto de Borges...simbólicamente o papel da memória:

    "As coisas duplicam-se em Tlön; propendem simultaneamente a apagar-se e a perder as particularidades, quando se as esquece. É clássico o exemplo do umbral que perdurou enquanto o visitava um mendigo e que se perdeu de vista com sua morte. Às vezes alguns pássaros , um cavalo, salvaram as ruínas de um anfiteatro."
    (Jorge Luis Borges, Ficções. Ed. Globo)

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