quinta-feira, 9 de junho de 2011

Gerald Clarke, Truman Capote, e os Sebos.

      Sou um razoável freqüentador de sebos.
Se alguém não sabe o que é um sebo (vivemos numa terra onde o sebo outrora imperou devido às charqueadas), o Dicionário Aurélio no-lo informa:
- (...) livraria onde se vendem livros usados.
A definição não exclui outro significado tradicional:
- substância graxa e consistente, que se encontra nas vísceras abdominais de alguns quadrúpedes.
Penso que uma das grandes vantagens de zanzar pelas estantes de livros usados é prescindirmos de resenhas bibliográficas, e não dependermos de artigos de crítica, nem mesmo d crítica acadêmica.
Quero esclarecer um ponto: respeito os críticos literários.
O crítico, em nossa opinião, para ser crítico, tem de ser como o Publicano da Parábola do Evangelho: deve postar-se no fundo do templo (da literatura) e lá murmurar, ao menos de quando em vez:
- Meu Deus, tende piedade de mim que errei...
A verdadeira tentação diabólica- a que pode transtornar os críticos - é eles se julgarem capazes de distinguirem o bom do ruim, o medíocre do genial. Não existe tal espécie de crítico. O crítico é um leitor mais entusiasmado, ou menos entusiasmado do que os restantes leitores.
O crítico é um indivíduo que, às vezes, vê mais longe do que o leitor, e outras vezes, vê menos longe. É um indivíduo, que se habitua tanto a sentar-se na cadeira de juiz que, de repente, pelo uso da cadeira, pensa ter a competência de quem se senta nela, adquirida mediante muitos erros, ou porque o obrigaram a sentar-se nela, ou porque a sociedade precisa de alguém que erre no seu lugar.
Ninguém se escandalize com tal pessimismo!
Julgar não é tarefa humana: é direito divino (eventualmente delegado aos homens).
 Por isso, o julgamento, quando feito por um homem, deve ser sempre reformulável. Condenar um homem à morte é usurpação de direito divino. Um cristão consciente não pode admitir a pena-de-morte.
Voltemos aos sebos:- quando entramos neles, nos exilamos da atualidade.
Penetramos em outro mundo. O indivíduo passa de um século a outro século com a maior facilidade.
Encontra na sua frente Eugène Sue, e ao lado, Homero, Virgílio, ou Dante.
Sejamos mais atuais: ao lado de Paulo Coelho encontramos o velho Machado, Bocaccio, ou Flaubert, o genial romancista que levou cinco anos para escrever Madame Bovary.
Flaubert era um homem sem pressa. Apesar disso, seus amigos queridos, que  eram também críticos - Máxime du Camp e Louis Bouillet -não lhe perdoavam um suspiro. Espinafraram seu livro A Tentação de Santo Antônio, que Flaubert lhes tinha lido, pessoalmente, ao longo de quatro dias, ao ritmo de oito horas por dia. Segundo tais amigos, Flaubert deveria lançar ao fogo o romance.
É verdade que Flaubert era uma raridade naquele tempo, como o seria hoje. Era um escritor humilde.
 Ao longo da elaboração de Madame Bovary ia expondo, em cartas, suas preocupações.Em 1851 escrevia:
- Comecei ontem à noite meu romance. Entrevejo agora dificuldades de estilo que me assustam. Não é pouca coisa ser simples. Tenho medo de cair em Paul Kock ou de fazer um Balzac chateaubrianizado.
No ano seguinte comentava:
- Há em mim, literalmente falando, dois homens distintos: um apaixonado por falação, por lirismo, por grandes vôos de águia, por todas as sonoridades da frase e por todos os cumes da idéia; e outro que escava e procura quanto pode a verdade, que gosta de revelar o pequeno fato como o grande, que gostaria de fazer sentir quase materialmente o que reproduz.
Aos leitores, que andam à procura de uma sugestão, disponho-me a dar-lha:a leitura de Madame Bovary,de cuja versão foram extraídas as citações anteriores, na tradução inimitável de Fúlvia Moretto,gaúcha que foi por longos anos docente de Literatura Francesa na USP.
Qual a temática de Madame Bovary?
Ouçamos Fúlvia:
- (...) nesta triste e miserável história de adultério e de tragédia sem grandeza, neste pequeno mundo de indiferença e de enfado, um único personagem se destaca por sua grandeza e sua generosidade: o adolescente Justin, uma criança que descobre cedo demais o amor e a morte. (Madame Bovary. São Paulo, Nova Alexandria, 2007. p.10).
O leitor, mergulhado num turbilhão de intrigas e bisbilhotices sobre adultérios, como o escândalo atual do ex-Diretor do FMI, tem no romance de Flaubert uma alternativa para seu lazer: uma obra-prima, que lhe inspirará salutares reflexões.
Falemos, porém, de Gerald Clarke, o autor da biografia sobre Capote.
É um americano. Nasceu na Califórnia, graduou-se em inglês e literatura norte-americana. Como na orelha da referida biografia, não se registra a data de nascimento do tradutor, quase cheguei a supor que ele era uma mulher. Pois foi este scholar que escreveu uma das biografias mais estupendas que já li em minha vida, sobre um tema parecido ao de Madame Bovary: a deprimente existência de Truman Capote.
Topei, por acaso, com esse livro. Sabia quem era o autor de A Sangue Frio. Já havia encontrado (igualmente num sebo) os Ensaios de Capote.
O comprador, provavelmente, enfarou-se com a leitura dos Ensaios,e talvez apavorou-se com o tamanho do tijolo: 606 páginas!
Na sua maioria admiráveis, os Ensaios de Capote possuem fluência e verve.Eis uma amostra, um tanto cáustica, é verdade:
No meu bairro havia um certo café que não devia ter nada de divertido, porque era o café mais vazio de toda Nova York, um verdadeiro funeral. Porém, a proprietária, a Sra. Morris Otto Kunze não parecia se incomodar com isso; ela passava o dia todo sentada atrás do balcão refrescando-se com um leque e raramente se mexia, exceto para espantar as moscas. Colados sobre um velho espelho rachado no fundo do bar havia sete cartazes iguais: “Não se Preocupe Com a Vida... Você não vai sair dela vivo”. (Truman Capote. Ensaios. Tradução de Débora Isidoro. São Paulo, Editora Leya, 2010. p. 13).
Não apreciei os últimos ensaios:um tanto degringolados, visto repercutirem a vida de alcoolismo e drogas de autor.
Voltemos a Gerald Clarke!
Gostaria que esse homem se convertesse ao Catolicismo. E em vez de escrever sobre Truman Capote (nada contra, é lógico; a biografia de Clarke, ensinou-me a conhecer um homossexual assumido. Aprendi mil coisas sobre o ser humano. Principalmente aprendi a ser mais católico, isto é, mais compreensivo e solidário com o mundo dos homoeróticos. (Capote, uma Biografia. 2 ed. Tradução de Lya Luft. São Paulo, Editora Globo, 2006).
Mas, se Clarke fosse católico, poderia escrever, com idêntica seriedade, compreensão, humildade, lucidez, e até ternura lunar, a vida de santos do Catolicismo, como João XXIII, a Irmã Dulce da Bahia, ou o Padre de Foucauld.
O que encontramos nas biografias dos Santos Católicos?
Uma documentação cuidadosa, uma acumulação irrepreensível de fatos e dados, porém, em geral, um estilo descuidado, sem atração para o leitor.
Desejaria que Clarke abordasse um Santo Católico e pudesse escrever desse Santo o que ele escreveu, por exemplo, logo no início da biografia do escritor, na página 11, a respeito da futura mãe do escritor, Lillie Mãe:
- (...) Arch, que pensava conhecer todas as moças bonitas do lugar, parou para olhar a mais linda de todas: era pequena, pouco mais de um metro e meio, tinha cabelos de um loiro escuro e olhos da cor do melhor uísque.
Como vêem, não basta ser biógrafo, é preciso também ser escritor talentoso.
Ousaria dizer – de Gerald Clarke - o que Truman Capote escreveu a respeito da mulher que ele mais amou, Bárbara Paley, a Babe, a mulher mais bonita do século XX:
- A Sra. Paley tem um só defeito: ser perfeita. Fora isso, é perfeita.
Clarke empreendeu uma investigação extremamente acurada sobre a vida de Capote, tão acurada como a que o próprio biografado realizou sobre os dois assassinos de A Sangue Frio. Não omitiu nada. Não amontoou fatos banais.
Quando Clarke cita fatos banais, é porque eles deixaram de ser banais no contesto em que são inseridos.
Vejamos um exemplo: referindo-se a um dos amantes de Truman Capote, o biógrafo conta o episódio de um gatinho:
Numa manhã, dois garotos brincavam com um gatinho e o atiraram ao mar. Jack saiu correndo descalço pelas pedras e jogou-se na água para salvá-lo. “Quando o alcancei”, escreveu ele a Gloria, “o mundo sofredor subiu na palma da minha mão direita e começou a emitir miados desesperados e agônicos. Nadei até à praia amaldiçoando o garoto; estava furioso por ele me ter dito que o gato entrara na água por livre e espontânea vontade. Joguei água nele para que desaparecesse de minha frente, mas aquela cara de assassino, a total incapacidade de entender minha preocupação, até hoje estão comigo, assim como o gatinho. Enrolei na camisa o bichinho que estava com a cabeça ensangüentada, a pata meio comida, e tinha mais pulgas que pelos, todo arranhado, cortado, machucado. Mas estava vivo. Comecei a chorar pela crueldade do mundo, por minha própria crueldade. (Ibid. p. 293-294).
O episódio ocorreu numa das famosas Ilhas Gregas, a de Paros, aonde os turistas costumam afluir aos enxames. Uma semana antes de saírem de Paros, Truman comemorou seu aniversário.
Pela manhã, ao se levantar, olhou-se ao espelho e percebeu a mudança. Já não aparentava ter dez anos a menos. ”É meu aniversário”, anotou no diário. “Faço 34 – e pareço mesmo ter essa idade; tenho rugas em torno dos olhos”. (Ibid. p. 294).
Isso é Clarke!
Entendam-me: não estou fazendo a apologia da Biografia de Truman Capote; mas a apologia do biógrafo do escritor.
Quem quiser ler a biografia de Capote, pode lê-la, mas advirto que a deve ler com madureza.
Repito: é deprimente.
Melhor lê-la com pausas, deter-se, cá e lá, um bom tempo, o suficiente para refletir sobre a seguinte advertência de Santo Agostinho:
A eternidade tornou-se nosso refúgio para que, permanecendo nela, aí nos refugiemos, fugindo da instabilidade do tempo presente. Mas como estamos na terra, vivemos no meio de muitas e grandes tentações, e é de temer que elas nos afastem desse refúgio. (...) Por nossa única vontade e sem o auxílio de Deus, não podemos superar as tentações desta vida.
Daí-nos, por isso (Senhor!) o que mandastes, ouvi a prece de quem Vos suplica, e ajudai a fé daquele que deseja.
Impressionou-me, na biografia de Capote, o que o autor narra a respeito dos pais do romancista: o pai, um instável, um fantasista, e, no frigir dos ovos, um trambiqueiro. A mãe, uma mulher bela, porém criada num regime opressor. Quando mãe, ela sempre esteve ausente da vida do filho, e recusou-se, até à morte (aos 49 anos) a admitir-lhe a homossexualidade.
Truman Capote frequentou a Trinity School, um colégio presbiteriano, no qual foi submetido a infindáveis orações e ladainhas. Nesse colégio, um dos professore praticava pedofilia.
Capote era o nome do segundo marido da mãe, filho de um coronel do exército espanhol que se estabelecera em Cuba durante certo tempo, regressando mais tarde ao seu país natal. Joe Capote, seu filho mais velho, apaixonou-se pela mãe de Truman, que então tinha 20 anos.
Truman teve a sorte (ou o azar) de ser famoso aos 21 anos.Foi sempre um escritor original, de poderosa imaginação. Indispôs-se, às vezes, com os colegas, como William Faulkner, de quem disse (após esse escritor ter recebido o Prêmio Nobel, em 1949):
- Alegra-me que Faulkner tenha sido laureado, mas não gosto de seu “Collected Stories”.Com exceção de três contos, acho os outros mal escritos, quase ilegíveis, uma fraude completa. Soube que na Suécia ele disse que era fazendeiro? Pois eu não duvido que seja mesmo.
Com Kerouac (1922-1969), o escritor da Beat generation, Capote não foi mais benevolente. Num programa de televisão, falou, a respeito da produção do escritor:
- O que ele faz não é literatura, é dactilografia. (Ibid. p.296).
O maior mérito de Truman Capote foi inventar um tipo de ficção, o romance de não-ficção, A Sangue Frio.
Eis sua declaração de princípios:
- Gosto que a verdade seja verdade e eu não possa modificá-la. (Ibid. p. 298).
Segundo Clarke, Capote queria viver “cercado pelo arame farpado dos fatos”.
Essa expressão de Clarke é magnífica! (Ibid. p. 337).
Aos 41 anos, Truman Capote tornou-se mundialmente célebre.
Contudo, não se conservaria sempre na crista da onda.
Seu “enterro social” deu-se com La Côte Basque, uma obra de ficção em que o romancista satirizou a maioria de seus amigos, e sobretudo amigas, gente da Society.
Todos eles e todas elas afastaram-se do escritor.
A partir de então, sua infelicidade acentuou-se. Álcool, drogas, e outros desvarios conduziram-no a uma desairosa solidão.
Morreu, no umbral dos 60 anos, de uma doença de fígado complicada por flebite e intoxicação múltipla, pronunciando o nome de sua mãe, e o de sua melhor amiga, Babe... que nunca mais quis saber do escritor, após o escândalo de La Côte Basque.
Para ser mais preciso, as derradeiras palavras de Truman Capote foram:
- Estou com frio. (Ibid. p. 511).

Um comentário:

  1. Devemos julgar um homem mais pelas suas perguntas que pelas respostas! Bela resenha!

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