terça-feira, 28 de junho de 2011

É Verdade que os Jornais Vão Acabar?

Jamais teria pensado nisso, ao menos até 2010!
Agora começo a pensar seriamente nessa extinção anunciada.
       O The Guardian, diário londrino, informou que confiará à edição digital o noticiário internacional e nacional, que até o momento presente pintava e bordava nas suas primeiras páginas impressas.
Parabéns aos ingleses!
Sendo fleugmáticos por natureza, acabam, à imitação da tartaruga de Zenon de Eléia, chegando primeiro que o melhor dos corredores olímpicos, ou seja, o Todo Poderoso Chefão da Imprensa Internacional,o australiano Murdoch!
Antigamente, quando éramos guris, nossa pior maldição era gritar:
- Bem feito! Bem feito!
Bem feito o quê?
Mal feito! – é que devíamos dizer!
Mal feito os jornais terem derivado, desde há alguns anos, para o sensacionalismo de mau gosto, que consiste, entre outras coisas, em antepor as pernas (essas, sim, bem feitas, mas para outros locais, por exemplo, nas alcovas dos respectivos maridos!), de qualquer top-model ou atriz pornô, às maiores notícias sociais, aos maiores eventos da comunidade, às realizações mais nobres da mente e do coração humano, como seriam, entre outras, as da Irmã Dulce na Bahia.
Houve tempos em que eu lia o Corriere della Será, de Milão, com respeito. Diria até: com reverência, e certo deleite. Sabia que o tradicional diário gozava de respeitabilidade profissional.
De um ano para cá, somente o leio parcial e apressadamente.
Por que?
Porque me cansei de encontrar nas suas manchetes notícias caudalosas e fúteis sobre as Mademoiselles Nicolle. Minetti, Patrícia d’Addario e Ruby, sobre o Cavaliere da Triste Figura e suas aventuras de Casanova de terceira categoria, sobre a Camorra, sobre o lixo acumulado por ela nas ruas de Nápoles, sobre personagens que se repetem visual e verbalmente com a obsessão de um ritornello enjoativo, e até sobre Vittorio Sgarbi,o “Fátuo Mágico”, historiador e crítico de arte de gabarito, que tinha tudo para ombrear com seu mestre  Federico Zeri, mas que vive, nas manchetes dos jornais e nas telinhas de televisão,maculando o perfil luminoso  de um sábio como Roberto Longhi, fazendo furores com suas tiradas de Homem-Show “in uno sgargiante gilè”, a desmerecer a tradição, entre outros, de Adolfo Venturi (1856-1941: o fundador da moderna História da Arte na Itália!) de,Lionello Venturi, Pietro Toesca, Matteo Marangoni, Giulio Carlo Argan (genial como Longhi), Cesare Brandi, Mario Praz...e dezenas de outros!
Em 2008, Vittorio Sgarbi cometeu, inclusive, um ato de indignidade profissional, plagiando um estudo de Mina Bacci sobre Botticelli.
The Guardian noticiou que, em breve, suas páginas impressas serão consagradas exclusivamente a comentários das notícias do dia, e a ensaios sobre a situação política, racial, religiosa, cultural, etc contemporânea.
Retornaremos aos bons tempos em que as notícias não eram engolidas por mentes anestesiadas, mas submetidas a análises reflexivas, dessas que conseguem dar honorablidade à razão, como o pretendia Paul Valéry? Voltará a ser respeitada –senão venerada – la sainte raison?
 Honra seja rendida à terra de Cervantes: - dentre os jornais da Internet, que eu posso acessar, e que me são legíveis nos idiomas que penso “dominar”, o português, o espanhol, o italiano e o francês , o matutino que mais prezo, por sua amplitude e veracidade e o critério das suas avaliações, é o madrilenho El Pais! Seja, porém, dito, de passagem, que leio também La Vanguardia, de Barcelona.
Apreciava, há algum tempo, La Repubblica, de Roma. Com o advento do borrascoso berlusconismo, deixei de lê-la. Leio-a de quando em quando, visto que a fixação desse jornal no “Pseudo-Duce Democrático” e no bilionário da Villa Certosa, não é mais possível deter-se nas páginas de um diário, de tão longa e fértil tradição.
Adorava Le Monde (era meu preferido!). Refiro-me ao jornal que se mantinha fiel à orientação de seu fundador, Hubert Beuve-Méry, de digníssima memória. Depois evoluiu tanto, passou por tantas mãos, que acabou se transformando num jornal sem rosto, ou com rosto de um personagem da Branca de Neve, o Anão Zangado.

Meu Deus, quantas saudades!

Digamos a todas elas:
- Ciao, belle, ciao!

Saudades fazem mal quando começam a doer mais do que a dor persistente, que as caracteriza, dor mansa e humilde de coração!
Fico a aguardar o toque de finados para esse tipo de jornais, que têm aporrinhado o público inteligente nos últimos anos.
Mesmo no Brasil: em que se converteu a agilíssima e criteriosa Folha de São Paulo?
Não é bom prantear, também, o Jornal do Brasil, que tantas horas de leitura cultural nos deu, nos velhos tempos de Mario Faustino e Ferreira Gullar...A estas alturas, o Jornal da Condessa, que mereceu comentários protocolares inclusive do irreverente Nélson Rodrigues, está sepultado às margens plácidas da Baía do Rio de Janeiro.
O fato é que de nada serve chorar leite derramado!
É preciso pensar na substituição das sete vacas magras da atualidade por sete vacas gordas (de preferência holandesas) para os Faraós da imprensa nacional.
Que eles se lembrem de nos proporcionar leite verdadeiro, não leite semi-desnatado, que é água com reminiscências de úberes de vacas-de-presépio, ou de vacas eventualmente concretas,cujas ossadas são beijadas, em noites de minuano atroz, pelos  luares cor de limão do pampa gaúcho...
Repito: enalteçamos a lucidez do The Guardian!
Que o jornal britânico seja um Abridor-de-Caminhos, um puxador de terço nordestino, alguém, enfim, que de repente, se lembre de berrar:

- Ei, turma! É preciso valorizar a inteligência! É preciso deixar de promover subliminalmente o analfabetismo! A televisão já cumpriu sua histórica função de ser uma máquina de...  Socorro,ó Stanislaw Ponte-Preta, com tua Máquininha de Fazer Doido!

A tanto não me atrevo!

Uma máquina, talvez, de fazer embasbacados, que repetem o que ouviram, ou pensaram estar ouvindo nos oráculos da telinha...
Crie-se uma nova televisão, que não seja a de Hugo Chávez na Venezuela, mas que também não seja o divertissement dos Potentes romanos, revividos em escritórios climatizados de New York, ou do Rio de Janeiro e São Paulo.
Haverá tal esperança?
Parece-me ver alguém no fundo do túnel,agitando um raminho verde...

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