terça-feira, 28 de junho de 2011

Corpus Christi: Uma Festa Especial.

Muitos católicos estranham a denominação latina dessa festa.
Recorramos a um respeitável Dicionário Litúrgico:
- Festa soleníssima, de dúplice de primeira classe, com oitavário privilegiado de segunda ordem, a celebrar-se, como dia santo de guarda, na quinta-feira depois do domingo da Santíssima Trindade, em comemoração e ação de graças da Sagrada Eucaristia. Foi celebrada primeiro em Liège, na Bélgica, em 1247, devido a uma visão que teve Santa Juliana da Ordem de Santo Agostinho, e prescrita para a Igreja Universal pelo Papa Urbano IV, em 1264, e mais uma vez por Clemente V, depois do Concílio de Viena, pelo ano de 1314. Desde fins do século XIII, foi-se introduzindo pelo costume, e é permitido expor o Santíssimo na Missa principal durante todo o oitavário para solene adoração. (Frei Basílio Röwer. Dicionário Litúrgico.3 ed. edição. Petrópolis, Editora Vozes, 1947. p.78).
Sobre a Procissão, que ocorre nessa solenidade, o mesmo dicionário informa: “é a mais solene das procissões litúrgicas”. (Ibid. p. 190).
O dicionário não informa uma coisa importantíssima, a saber: que os textos dessa festa foram compostos pelo maior teólogo da Igreja Católica, São Tomás de Aquino, e estão entre os mais belos de toda a liturgia católica ocidental.
Um deles, o Adoro Te, nós o comentamos neste blog, tempos atrás, quando consagramos dois estudos à pessoa e à obra de Tomás de Aquino.
Começo, pois, por expressar certa saudade dos tempos em que a vida social permitia que o Calendário Litúrgico da Igreja Católica fizesse uma espécie de rima religiosa ao Calendário da Sociedade Leiga. Numa palavra: era uma rima aos eventos que marcavam a vida das pessoas, tanto do ponto de vista sócio-econômico, como do ponto de vista dos ritos de convivência coletiva.
Hoje não temos mais esse acordo.
A vida religiosa ocorre num plano, e a vida simbólico-social noutro. As festas tomaram rumos diferentes. No plano religioso, as festas, por assim dizer, interiorizaram-se. No plano profano, as festas cada vez mais tendem a ser momentos de lazer, quando não de dissipação e excessos.
Já havia, para nós católicos de outro hemisfério, um descompasso em relação às festas européias. O calendário litúrgico universal fora estabelecido quando a América não era nem sequer um sonho de navegador, e o próprio nome América deveria esperar pelo nascimento de Amerigo Vespucci (1454-1512), o qual legaria seu nome a dois Continentes. Notemos que o nome América não foi dado pelo detentor desse nome, mas pelo geógrafo alemão, Martin Waldseemüller, em 1507. Vespucci, além de ter sido um agente comercial do Banco Médici de Florença, que o enviou como representante a Sevilha, foi um apaixonado pelas navegações marítimas. Realizou duas expedições, uma que o levou à embocadura do Rio Amazonas, outra até à Baía do Rio de Janeiro e ao estuário do Rio da Prata, desta vez com a convicção de que realmente estava descobrindo um Novo Mundo.
As estações no Novo Mundo não correspondem às da Europa. Mesmo assim, a comunidade católica sempre se regeu por um único e mesmo calendário.
Foi no século XIX, com a Revolução Industrial, e no final do século XX, com a Globalização, que as festas católicas sofreram o seu primeiro abalo. De repente, passou a não haver mais domingos e dias santos, primeiramente para a indústria, depois para o comércio. A vida sócio-econômica profanizou-se. A Igreja tentou adatar-se à nova conjuntura. Chegou ao máximo das concessões: modificou o ritual da Semana Santa que se reduziu a um esqueleto simbólico, antecipou-se a assistência à missa dominical para o sábado,para facilitar às pessoas o cumprimento de um mandamento: “assistir à missa nos domingos de dias de guarda”. Aboliu grande parte dos dias-santos, que humildemente cederam seu lugar de honra aos feriados e feriadões, e foram ocupar os últimos lugares no banquete das festas, com a resignação de convidados despretensiosos.
Em algum sentido, ficamos órfãos de festas religiosas.Será que é ainda possível detectar o carácter festivo da liturgia católica?
Tenho saudades dos tempos em que a Páscoa era celebrada com ornamentos vegetais até dentro das casas. Os ovos era pintados pelas avós e pelas tias. O recheio era de amendoim e nozes. Algumas igrejas ensaiavam solenes alegorias visuais – de uma delicada singeleza, inspiradas nas medievais que deram origem ao teatro moderno. Os cantos ressoavam nos templos, não graças às invenções de Marconi e Edison, mas graças às vozes dos fiéis, que se dispunham a dar parte do seu tempo à preparação dos cantos “a várias vozes”,
Não estou propondo um regresso aos tempos do Aleijadinho, embora, numa de minhas viagens, tenha estado em Tiradentes, e tenha ouvido, numa de suas igrejas, missas e cantos polifônicos compostos por discípulos de Mozart e Haydn, no silêncio das Gerais! É preciso ir a Tiradentes para se respirar um pouco o ar que respirou o mulato genial. Ouro Preto e São João d’el-Rei, onde estive não faz muito, parece recordarem mais o ouro da região do que a piedade do velho Alphonsus de Guimarães, que morreu tão prematuro em 1921, (aos 51 anos!), e cujos poemas continuam fazendo vibrar certas cordas poéticas e místicas dos corações brasileiros:
Não sei que vento mau turvou de todo o lago.
Como a capa de luz da Senhora das Dores,
Ele era azul e tinha estrelas... e o tom vago
dos olhos cheios de celestes resplendores.

Ele era todo azul como o sonho de um Mago,
como a capa de luz da Senhora das Dores.
Em tempo algum, que alguém soubesse, escurecera
ali: se o ocaso vinha, o luar, logo estendia
toalhas de neve e celestiais mantos de cera...
Tudo era branco de um alvor de eucaristia.
(...)
Não sei que vento mau turvou toda a minha alma.
(Obra Completa. Org. e preparo do texto por Alphonsus de Guimarães Filho. Rio de janeiro, Editora Nova Aguilar, 1960. p.56-57).

Choraremos os tempos que passaram e, com eles, os hábitos, os encontros, a liturgia católica?
Podemos, sem dúvida, recordar à Igreja que nossos tempos não são nem melhores, nem piores...
Tenho receio, ao escrever: nem piores!
São outros tempos!
Talvez a expressão mais correta seja esta. E por que não insistir com a Igreja que se adate ao mundo globalizado, arranjando-nos outro ritual, outras formas de liturgia que venham ajudar nossos corações entristecidos a pronunciar um Sursum Corda renovado?
Será que não existe outro tipo de liturgia, outro calendário, que nos ajude a reencontrar um pouco mais o suave perfume da liturgia antiga?
Não precisamos abraçar-nos desesperadamente ao latim, podemos ficar com suas filhas, nem todas tão expressivas e belas como a mãe, a língua latina, embora a língua portuguesa, a caçula das línguas românicas, possua uma beleza até certo ponto exuberante, e exiba uma sensualidade que não desmerece a de uma Vênus dos velhos tempos, ainda que a flama da língua portuguesa seja mais secreta, e queime com mais doçura! Guardem-se as galas da mãe, e explorem-se mais as louçanias da filha!

Corpus Christi!
Nem tudo está perdido!
Oh não! Por que... perdido!
As palavras de Cristo ressoam sempre: “
- Estarei convosco até à consumação dos séculos!
Às vezes, quando passo pela Igreja da Conceição, junto ao túnel, e entro para uma breve visita ao Santíssimo Sacramento, lembro-me, com emoção, de Edith Stein, cuja vida li recentemente. Refiro-me à judia, discípula do filósofo Husserl, que se converteu ao catolicismo, e se tornou monja carmelita. Acabou vítima do antisemitismo hitleriano. Morreu no campo de concentração de Auschwitz, na companhia de milhões de membros de sua etnia.
Li na sua biografia que ela tinha o hábito de ficar horas inteiras, em silêncio, diante do Sacrário. Em contemplação!
E eu, pobre católico globalizado, que me detenho durante alguns magros minutos... Peço sempre à Beata – isto é, à feliz Edith – que me ajude, que nos ajude, a compreender que as palavras de Jesus não foram feitas para passar como as nossas, mas para ficar.
Jesus disse:

-Eu sou o pão da vida.
Quem vem a mim, nunca mais terá fome,
E o que crê em mim nunca mais terá sede.
(...)
Eu sou o pão da vida.
Vossos pais no deserto comeram o maná e morreram.
Este pão é o que desce do céu
para que não pereça quem dele comer.
Eu sou o pão vivo descido do céu.
Quem comer deste pão viverá eternamente.
O pão que eu darei
É a minha carne para a vida do mundo.
(João 6,34-58).

A expressão Corpus Christi, em latim, terá sido usada para não chocar quem entende o português, e lê simplesmente: o Corpo de Cristo?
Não! Porque hoje, quando dá a comunhão, o sacerdote diz ao fiel: Eis o Corpo de Cristo!
Não sou dos que pensam que devemos chocar os não-cristãos. São nossos irmãos, e temos o dever da cortesia para com eles. Mas do mesmo modo que Jesus não ofendeu seus coirmãos judeus ao proclamar a verdade de sua presença corporal no meio dos homens, embora sob uma forma sacramental, isto é, não visível, e de certo modo também simbólica – ainda que realíssima – penso que não devemos ter receio de magoar ninguém ao afirmar o que cremos no íntimo de nós.
A procissão solene pelas nossas ruas é legítima. Já participei de algumas delas. Não sei se deve ser feita como sempre foi feita, com um certo aparato, ou se é melhor fazê-la simplesmente dentro de nossos templos, sem exposição pública. Talvez a Eucaristia deva ser re-descoberta!
Re-descoberta?
Como: se ela constitui o essencial de nossa fé? Nós dependemos de dois pilares que jamais serão abalados: I. a crença num Deus Único e Trino em Pessoas; II. a Encarnação do Filho de Deus (para que pudéssemos recuperar nossa filiação divina, e termos um penhor de nossa Ressurreição).
Não será por isso que as duas festas, a da SSma. Trindade e a de Corpus Christi estão tão próximas uma da outra?
Não é ser carola afirmar a Fé!
É ser carola prender-se a bijuterias e balangandãs pseudo-espirituais!
Ser católico é enfrentar a descrença.
É dizer simplesmente, como o disse o grande romancista José Lins do Rego, na hora da morte, quando um monge beneditino “lembrou ao romancista católico, já quase impossibilitado de falar que Nosso Senhor reservava um amparo especial para os que morrem na entrega dócil de sua vida”:
-Acredito!
Foi a última palavra do Balzac de nosso patriarcalismo moribundo, o autor de Fogo Morto.
(Referido por Tristão de Athayde (Alceu Amoroso Lima). Ver Zé Lins. Originalmente em Companheiros de Viagem.Rio de Janeiro, Editora José Olympio, 1971. Reproduzido como prefácio a Menino de Engenho.33 edição. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984. p. 28).

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