terça-feira, 28 de junho de 2011

José Lins do Rego: “gênio de um só livro”?

           Vivemos uma época de desmemória.
Não porque sejamos desagradecidos aos nossos antepassados, aos nossos avós, ou aos gênios que nos precederam na longa marcha da Cultura Universal, mas pela razão de que a aceleração da história não deixa tempo à ruminação intelectual.
Tudo é engolido a uma velocidade supersônica (Oxalá fosse verdade!).
Tudo é lido enquanto o diabo esfrega um olho.
Que resulta de tudo isso?
Que não somos, nem temos, a memória que devíamos ser e ter.
Um homem sem memória, que já não sabe quem é, ou melhor, quem foi: oh que apocalipe!   
Devido à invenção tenebrosa (emprego a palavra invenção como sinônimo de descoberta) do Mal de Alzheimer,ocorre-me conhecer pessoas que, de repente, depois de terem sido nossas íntimas, nos surpreendem:
 - O Sr., quem é? Tenho a impressão de tê-lo visto nalgum lugar...
A velha senhora, que me dizia isso, era a mãe de uma querida amiga, em cuja casa tínhamos jantado no dia anterior, na companhia da velha (e amável) senhora!
 Como me doeu verificar tal anormalidade!
Pensei no verso célebre de Cecília Meireles:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?
 (Obra Poética. Rio de Janeiro, Companha José Aguilar Editora, 1967. p. 107. O poema intitula-se Retrato, e foi publicado em Viagem (1929-1937).   
Pode-se sustentar que a situação cultural contemporânea é tal que, pela primeira vez na história, estamos perdendo nossas referências.
Antigamente - vinte anos atrás; ponhamos,por precaução: quarenta anos! - existia uma sorte de fundo comum de cultura, que as pessoas faziam questão de preservar. Era  quase o que  é hoje a poupança bancária, transposta ao plano artístico e literário. Ouso, até, dizer que, nessa época, os grandes gênios, os clássicos, rendiam juros altíssimos, sofriam correção monetária (de fama e prestígio).
 Agora, o que sucede?
 Não me admirarei se, amanhã ou depois de amanhã, o Presidente da França (ou o Primeiro Ministro da Rússia), ao ser interrogado por um indiscretíssimo repórter sobre suas admirações em termos de Arte,responder à pergunta do repórter:
- o Sr. aprecia Miguel Ângelo?
- Bem lembrado! Bem lembrado!  É um querido empresário italiano de Turim,com quem costumo jantar.
As respostas, é verdade, costumam ser mais criativas do que as perguntas!
Se o repórter, por exemplo,quiser sabe se a personalidade , que está diante dele, conhece – Rothko, ou um dinossauro da História da Arte  Moderna, como Edouard Manet (não o Claude Monet), o grande homem, assumindo ares de um oráculo de Delfos, talvez lhe replique:
- O Sr.Manet? Acaba de ser transferido das suas funções na UNESCO, para o Ministério das Relações Exteriores. É um indivíduo de grande competência técnica, de altíssima cultura, de descortino político!
Caçoadas à parte, o tema está mais para velório, do que para banquetes de núpcias reais inglesas.
Falemos da prata de casa: José Lins do Rego.
Li seus romances relativamente tarde.
Custei a aperceber-me que não é preciso dar a volta ao mundo para chegar ao centro do mundo
Às vezes, esse centro está no fundo do nosso quintal.
Afinal, em qualquer lugar do mundo podemos morrer!
Deu-se o caso que, um dia, num sebo, topei com vários livros do chamado Zé Lins, a preços de ocasião. Aproveitei a oportunidade para adquirir todos esses tristes enjeitados literários, e descobri, ao chegar a casa, que tinha encontrado, ao menos, um grande tesouro.
O Ciclo da Cana de Açúcar não me impressionou muito, talvez porque eu tenha lido esses romances longe das datas em que foram publicados. Não os considerei excepcionais, embora algumas de suas páginas o sejam.
O lúcido Afonso Arinos de Melo Franco, em crônica publicada em 1944, distinguia três fases na obra de Lins do Rego: a primeira: a do já mencionado Ciclo da Cana de Açúcar, com Menino de Engenho, Doidinho e Usina.
Fora desse grupo, o autor indicava Moleque Ricardo e Pedra Bonita. Não entendi bem se os considerava avulsos, ou de temática paralela, porém não na mesma linha de abordagem.
A seguir, Arinos falava de um grupo de romances, que compreendia Bangüê, Pureza, Riacho Doce e Água-Mãe, aos quais atribuía “um cunho predominantemente humano e passional”.
Li, ainda, Ligeiros Traços (Escritos da Juventude).
Foi uma sorte.
Sou de opinião, porém, que se devem ler apenas os romances dos gênios.
Estes são relativamente poucos.
Será um gênio José Lins do Rego?
Na minha opinião, é um gênio, mas de um único romance: Fogo Morto.
Será um gênio Erico Veríssimo?
Sim, ele é o gênio de uma trilogia: O Tempo e o Vento.
Não existirão gênios de Obras Completas?
São raríssimos!
São alguns clássicos que a humanidade resolveu canonizar.
O critério para aferi-los é o seguinte: ficam cada vez maiores à medida que o tempo passa. São como as sombras produzidas pelo sol nos objetos: quanto mais o sol declina, mais as sombras dos objetos se alongam.
Longe de mim zombar dos gênios da humanidade!
Longe de mim erigir-me em crítico desses gênios!
Posso, porém, dizer o que penso sobre eles,com o necessário respeito.
Com a máxima, e secreta, veneração interior.
O que não admito é que se erijam altares aos Autores, Conhecidos ou  Desconhecidos.
Os primeiros têm que ser avaliados a cada século.
Os segundos precisam ser melhor avaliados em vida, e avaliados acuradamente depois de mortos.
Em se tratando de gênios, toda pressa é fatal.
Deixemos ao tempo a responsabilidade de no-los apresentar, e tornar a apresentar, de tempos a tempos.
Gênios, na verdade, só existem à distância, depois que um Diógenes, o Cínico, lhes possa jogar na cara uma dúzia de ovos, e no mínimo vinte e quatro tomates ultra-amadurecidos.
Gênio que não passou por uma Paixão e Morte, e não ressuscitou, ao fim de um século, não é gênio.
Com a mão na consciência, cartesianamente, deixo de aderir à genialidade de alguém sem longa reflexão. Também não a nego sumariamente.
É preciso submeter-nos, antes de mais nada, a uma temporada de perplexidade.
Precisamos chegar ao culto interno dos gênios antes de lhe rendermos culto público.
Além disso, devemos ter um mínimo de consideração pelos gênios cultuados pelos nossos amigos, por mais que os estranhemos, ou até os reneguemos.
Na minha opinião, existem gênios de um só livro, gênios de dois ou três livros, e gênios de Obras Completas.
Os de Obras Completas (quando existem! Vão lá saber se Homero não escreveu outras obras, ou se Shakespeare não nos reservará, para o futuro, a surpresa de mais um drama ou de mais uma comédia)!
Na minha opinião, José Lins do Rego é gênio de um só livro: Fogo Morto.
Valeu a pena descobri-lo quando ninguém quase faz referências a ele, pelo menos nos círculos que freqüento.
Descobrir Fogo Morto foi para mim um encantamento!
Foi como descobrir o romancista italiano do século XIX-XX, Giovanni Verga (1840-1922).
Subscrevo o que se diz por aí: José Amaro e, principalmente, Vitorino Carneiro da Cunha, são personagens de ficção Urbe et Orbi, da Paraíba e do Mundo, dignos de leitores dos quatro pontos cardeais do planeta.
Talvez, no nosso mundo contemporâneo, seja preciso afunilar mais a História da Literatura.
Ninguém já tem tempo para ler tantos autores!
É preciso, portanto, convencer essa raça em extinção (opinião que não partilho!)– a dos verdadeiros leitores - a reler.
Uma única leitura não revela a grandeza de um gênio. Revela o dedo do gigante, o que já é muita coisa. Outras leituras darão a verdadeira dimensão do gênio.
Sejamos humildes.
Desconfiemos, também, de nossas leituras. Leiamos uma, duas vezes, se possível três vezes.
Comecemos pela Bíblia, reunião de gênios, e de autores medíocres, embora todos inspirados por Deus.
Inspiração não é ditado!
Há gênios que, pessoalmente, jamais compreenderemos. Sua obra é reservada a privilegiados. Não nos julguemos excluídos do banquete; digamos .tão somente:
- Não é pra meu bico!
Existem outros que toda a gente pode compreender,pode saborear. Por exemplo: creio que qualquer leitor pode saborear, se tiver um pouco de paciência,as Mil e Uma Noites e o Dom Quixote, de Cervantes.
Há gênios que nasceram para serem lidos por duas ou três pessoas. Felizes deles se as acharem!
Há gênios, talvez, que tenham nascido só para serem lidos por uma única pessoa: eles próprios!
Há gênios bem educados, há os mal-educados, os selvagens, os iracundos, os vaidosíssimos, os pseudo-humildes, os chatos (numerosos!) como é (salvo engano!) o maior prosador da língua portuguesa (segundo Fernando Pessoa) o Padre Vieira.
Só Fernando Pessoa, creio eu, seria capaz de ler Vieira admirando-o – e amando-o, isto é, babando-se com o seu estilo.Talvez Machado de Assis pudesse acompanhar Fernando Pessoa!
Felizes de nós se encontrarmos nossos gênios pessoais, aqueles escritores– e também artistas plásticos, compositores musicais, cineastas, etc. – que nos deixam embevecidos para sempre, que nos dizem algo que nunca mais será dito por outra pessoa, sobre realidades como Deus, a Vida, o Amor, a natureza, a Morte, e pode ser também, sobre um boi como Simões Lopes Neto, ou  sobre uma cachorra, como Graciliano Ramos!
São esses gênios que fazem crescer em nós a Esperança, e nos acenam com a possibilidade de os reencontrarmos na Outra Vida.
Refiro-me a Mozart, a Dante, a Machado de Assis, a Cabral de Melo Neto, a Mario Quintana, além dos já citados.
Como estarão, nas Terras do Bom de Deus, Pascal, Agostinho de Hipona, Baudelaire, Rilke, Alessandro Manzoni, Dostoievsky, Tchekov, Wallace Stevens, Clarice Lispector, Guimarães Rosa?
Que os leitores não nos julguem apressadamente!
Existem mais gênios que a nossa vã sabedoria imagina!
Se eu fosse obrigado a acender uma vela a cada gênio da humanidade (isto é, a cada gênio que o é para mim) este mundo estaria mais iluminado do que a Broadway de New York, ou a Pirâmide do Louvre.
Por falar nisso, li, pela primeira vez na década de 80, e continuo a lê-lo, um incrível gênio chinês, quase totalmente ignorado pelo Ocidente: o autor de Diário de um Louco, o chinês cujo nome os franceses escrevem Luxun, e os portugueses Lu Xun (1881-1936), do qual tenho uma tradução de Ervas Silvestres (Lisboa, Edições Cotovia- Fundação Oriente, 1997).
Em francês existe: La Mauvaise Herbe (Paris, Christian Bourgois, 1975), e Cris (Nouvelles. Paris, Albin Michel, 1995).
Na tradução portuguesa estão incluídas as célebres novelas Diário de um louco (p.27-44) e Era uma Vez Q (p.45-106).
Caros amigos, procurem-no, ainda mais agora, em que a China está na moda!
Procurem-no como Manuel Bandeira procurava a Estrela da Manhã. Lu Xun pode não ser uma estrela, mas é mais que um vagalume.
É uma espécie de lua solitária chinesa!

É Verdade que os Jornais Vão Acabar?

Jamais teria pensado nisso, ao menos até 2010!
Agora começo a pensar seriamente nessa extinção anunciada.
       O The Guardian, diário londrino, informou que confiará à edição digital o noticiário internacional e nacional, que até o momento presente pintava e bordava nas suas primeiras páginas impressas.
Parabéns aos ingleses!
Sendo fleugmáticos por natureza, acabam, à imitação da tartaruga de Zenon de Eléia, chegando primeiro que o melhor dos corredores olímpicos, ou seja, o Todo Poderoso Chefão da Imprensa Internacional,o australiano Murdoch!
Antigamente, quando éramos guris, nossa pior maldição era gritar:
- Bem feito! Bem feito!
Bem feito o quê?
Mal feito! – é que devíamos dizer!
Mal feito os jornais terem derivado, desde há alguns anos, para o sensacionalismo de mau gosto, que consiste, entre outras coisas, em antepor as pernas (essas, sim, bem feitas, mas para outros locais, por exemplo, nas alcovas dos respectivos maridos!), de qualquer top-model ou atriz pornô, às maiores notícias sociais, aos maiores eventos da comunidade, às realizações mais nobres da mente e do coração humano, como seriam, entre outras, as da Irmã Dulce na Bahia.
Houve tempos em que eu lia o Corriere della Será, de Milão, com respeito. Diria até: com reverência, e certo deleite. Sabia que o tradicional diário gozava de respeitabilidade profissional.
De um ano para cá, somente o leio parcial e apressadamente.
Por que?
Porque me cansei de encontrar nas suas manchetes notícias caudalosas e fúteis sobre as Mademoiselles Nicolle. Minetti, Patrícia d’Addario e Ruby, sobre o Cavaliere da Triste Figura e suas aventuras de Casanova de terceira categoria, sobre a Camorra, sobre o lixo acumulado por ela nas ruas de Nápoles, sobre personagens que se repetem visual e verbalmente com a obsessão de um ritornello enjoativo, e até sobre Vittorio Sgarbi,o “Fátuo Mágico”, historiador e crítico de arte de gabarito, que tinha tudo para ombrear com seu mestre  Federico Zeri, mas que vive, nas manchetes dos jornais e nas telinhas de televisão,maculando o perfil luminoso  de um sábio como Roberto Longhi, fazendo furores com suas tiradas de Homem-Show “in uno sgargiante gilè”, a desmerecer a tradição, entre outros, de Adolfo Venturi (1856-1941: o fundador da moderna História da Arte na Itália!) de,Lionello Venturi, Pietro Toesca, Matteo Marangoni, Giulio Carlo Argan (genial como Longhi), Cesare Brandi, Mario Praz...e dezenas de outros!
Em 2008, Vittorio Sgarbi cometeu, inclusive, um ato de indignidade profissional, plagiando um estudo de Mina Bacci sobre Botticelli.
The Guardian noticiou que, em breve, suas páginas impressas serão consagradas exclusivamente a comentários das notícias do dia, e a ensaios sobre a situação política, racial, religiosa, cultural, etc contemporânea.
Retornaremos aos bons tempos em que as notícias não eram engolidas por mentes anestesiadas, mas submetidas a análises reflexivas, dessas que conseguem dar honorablidade à razão, como o pretendia Paul Valéry? Voltará a ser respeitada –senão venerada – la sainte raison?
 Honra seja rendida à terra de Cervantes: - dentre os jornais da Internet, que eu posso acessar, e que me são legíveis nos idiomas que penso “dominar”, o português, o espanhol, o italiano e o francês , o matutino que mais prezo, por sua amplitude e veracidade e o critério das suas avaliações, é o madrilenho El Pais! Seja, porém, dito, de passagem, que leio também La Vanguardia, de Barcelona.
Apreciava, há algum tempo, La Repubblica, de Roma. Com o advento do borrascoso berlusconismo, deixei de lê-la. Leio-a de quando em quando, visto que a fixação desse jornal no “Pseudo-Duce Democrático” e no bilionário da Villa Certosa, não é mais possível deter-se nas páginas de um diário, de tão longa e fértil tradição.
Adorava Le Monde (era meu preferido!). Refiro-me ao jornal que se mantinha fiel à orientação de seu fundador, Hubert Beuve-Méry, de digníssima memória. Depois evoluiu tanto, passou por tantas mãos, que acabou se transformando num jornal sem rosto, ou com rosto de um personagem da Branca de Neve, o Anão Zangado.

Meu Deus, quantas saudades!

Digamos a todas elas:
- Ciao, belle, ciao!

Saudades fazem mal quando começam a doer mais do que a dor persistente, que as caracteriza, dor mansa e humilde de coração!
Fico a aguardar o toque de finados para esse tipo de jornais, que têm aporrinhado o público inteligente nos últimos anos.
Mesmo no Brasil: em que se converteu a agilíssima e criteriosa Folha de São Paulo?
Não é bom prantear, também, o Jornal do Brasil, que tantas horas de leitura cultural nos deu, nos velhos tempos de Mario Faustino e Ferreira Gullar...A estas alturas, o Jornal da Condessa, que mereceu comentários protocolares inclusive do irreverente Nélson Rodrigues, está sepultado às margens plácidas da Baía do Rio de Janeiro.
O fato é que de nada serve chorar leite derramado!
É preciso pensar na substituição das sete vacas magras da atualidade por sete vacas gordas (de preferência holandesas) para os Faraós da imprensa nacional.
Que eles se lembrem de nos proporcionar leite verdadeiro, não leite semi-desnatado, que é água com reminiscências de úberes de vacas-de-presépio, ou de vacas eventualmente concretas,cujas ossadas são beijadas, em noites de minuano atroz, pelos  luares cor de limão do pampa gaúcho...
Repito: enalteçamos a lucidez do The Guardian!
Que o jornal britânico seja um Abridor-de-Caminhos, um puxador de terço nordestino, alguém, enfim, que de repente, se lembre de berrar:

- Ei, turma! É preciso valorizar a inteligência! É preciso deixar de promover subliminalmente o analfabetismo! A televisão já cumpriu sua histórica função de ser uma máquina de...  Socorro,ó Stanislaw Ponte-Preta, com tua Máquininha de Fazer Doido!

A tanto não me atrevo!

Uma máquina, talvez, de fazer embasbacados, que repetem o que ouviram, ou pensaram estar ouvindo nos oráculos da telinha...
Crie-se uma nova televisão, que não seja a de Hugo Chávez na Venezuela, mas que também não seja o divertissement dos Potentes romanos, revividos em escritórios climatizados de New York, ou do Rio de Janeiro e São Paulo.
Haverá tal esperança?
Parece-me ver alguém no fundo do túnel,agitando um raminho verde...

O Diálogo de Jesus com a Samaritana: página atualíssima do Evangelho!

Toda vez que leio os Evangelhos, surpreendo-me com o fato de seus autores não terem guardado alguns nomes de personagens, sobretudo mulheres, que eu gostaria de conhecer.
A tradição eclesiástica privilegiou algumas mulheres da vida de Jesus. Tornou-as Santas, dedicando-lhes Basílicas.A Basílica de Vézelay que visitei em 2010, um dos mais belos monumentos românicos do mundo, é dedicada a Santa Maria Madalena, a Pecadora. Sei que existem outras igrejas dedicadas a Santa Marta, irmã de Lázaro.
Não conheço nenhuma igreja do mundo que seja dedicada às mulheres anônimas da vida de Jesus, às que tiveram importância para o Salvador, pois Ele mesmo reservou-lhes confidências que até então não reservara sequer aos discípulos.
Uma delas é a Samaritana.
Eu gostaria de saber o nome desta mulher, para poder invocá-la, diretamente.
Sempre me impressionou sua sinceridade, sua desenvoltura, diria quase? Seu aprumo, ao falar com Jesus!
Não se mostrou intimidada com Ele, quando este lhe pediu água. Lembrou-lhe que ele era judeu, e ela samaritana, e que entre os dois povos havia um desentendimento radical, um ódio profundo.
A cena do encontro de Jesus com a Samaritana está descrita no Evangelho de São João, no capítulo 4, versículos 4 a 42.
Sou vidrado nessa página do Evangelho!
Primeiramente, observem o realismo do evangelista São João.
Jesus chega a Sicar, talvez a atual Askar, ao pé do Monte Ebal, a uns mil metros do Poço de Jacó, que continua a saciar a sede dos habitantes da região.
O fundador da Escola Bíblica de Jerusalém, Joseph-Marie Lagrange, nota que essa aldeia ficava não muito longe da atual cidade de Nablus, onde, em anos recentes, ocorreram graves conflitos.
Jesus chegou a Sicar “por volta da hora sexta”, isto é, ao meio-dia. Chegou cansado do caminho, e sentou-se junto à fonte!
Pormenor interessante. Os dois pormenores menciondos, o cansaço, e o fato de Jesus sentar-se à borda do poço, sublinham que o Verbo Encarnado, ou como diz São Paulo, Aquele no qual habitava corporalmente a Divindade, era homem.
Como homem, sentia sede, e tinha necessidade de sentar-se.
São detalhes triviais, mas para aquém crê, são de uma importância decisiva.
É preciso tomar a Jesus como Ele é: Verdadeiro Homem  e Verdadeiro Deus.
O homem está aí: tem sede, senta-se.
O Deus, que nele habitava corporalmente, logo se manifestará, quando falar à auto-confiante Samaritana.
Reparem como essa mulher reage – modernissimamente – ao pedido de Jesus!
Jesus lhe diz:
       - Dá-me de beber!
Imagino que Jesus lhe tenha dito :
- Podes dar-me de beber?
A mulher, que estava longe de ser uma oriental submissa (já vereis por que!), responde-lhe, provavelmente de mau humor:
-Como me pedes para beber, a mim, que sou mulher samaritana, tu que és judeu?
São João, como bom “repórter” explica aos leitores (a nota deve ter sido acrescentada posteriormente), tornando mais clara a agressividade da mulher:
- Os judeus não se dão com os samaritanos
(Tradução da Bíblia de Jerusalém. O tradutor clássico João Ferreira de Almeida traduziu de outro modo: “porque os judeus não se comunicam com os samaritanos).
Lagrange observa:
- É preciso não esquecer a história das disputas dos samaritanos com os judeus.
Jesus não responde à mulher no mesmo tom (Pudera!). Diz-lhe:
- Se tu conhecesses o dom de Deus, e quem é que te fala: dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva.
A Samaritana replica imediatamente, “con una sonrisa burlona” (é assim que o tradutor espanol verteu o original francês, que desconheço).
 Talvez a melhor tradução em português seja : a samaritana respondeu-lhe em tom de troça:
- Não tens com que tirar água do poço, e ele é fundo. Como vais tirar essa água viva?
É uma pena que não se podia filmar,nem gravar em vídeo na época de Jesus!
Adoraria ver sua reação.
A mulher– desculpem minha interpretação –estava, no fundo, debochando de Jesus! Era uma mulher sabida!
Olhem como prossegue:
- És tu maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu, assim como seus filhos, e seu gado?
Quase não dá para acreditar que uma mulher daquela época fosse tão senhora de si!
Uma reação assim tem algo de uma petulância parisiense!
      Jesus responde-lhe -sem alterar a voz:
- Quem beber desta água voltará a ter sede! Quem beber da água que eu lhe der, não terá mais sede. Porque a água que eu lhe der se tornará nessa pessoa uma fonte que jorrará para a vida eterna.
Neste instante, a mulher tem um sobressalto.
Fica eufórica! Sem perder o ar caçoísta, apressa-se:
- Senhor, dá-me dessa água para que eu não tenha mais sede, e nem precise vir aqui para tirá-la..
Era demais!
Jesus viu que com uma mulher desse tipo não dava para conversar.
 Disse-lhe:
- Vai chamar teu marido, e volta!
A Samaritana não se impressiona:
- Não tenho marido!
       - Falaste bem: Não tenho marido, replicou Jesus.Tiveste cinco maridos, e o que agora tens, não é teu marido.Nisto falaste a verdade!
       Como vêem os leitores, estamos em pleno 2011.
Talvez nesse átimo a Samaritana tenha perdido um pouco sua auto-estima e, sobretudo, sua auto-confiança.
Sentiu-se sem jeito. Habituada a safar-se das piores situações, acrescentou:
       - Senhor, vejo que és um profeta!
              Noutras palavras: a Samaritana prefere não insistir num assunto tão resvaladiço, que pode comprometê-la. Melhor apelar para uma discussão teórica, que talvez distraia e encante o Profeta:
       - Nossos pais adoraram nesta montanha, mas vocês, que são judeus, dizem que o lugar onde se deve adorar é em Jerusalém!
       Jesus respondeu-lhe(e aqui eu desejaria ver, outra vez, num vídeo o olhar de Jesus!):
       - Ó mulher, acredita-me, vem a hora em que nem sobre esta montanha, nem em Jerusalém se adorará o Pai! Vós adorais  o que não conheceis, nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas já é hora – e é agora – em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade, porque o Pai procura tais adoradores. Deus é espírito, e aqueles que O adoram, o devem adorar em espírito e verdade.
       A mulher deve ter ficado abalada.
Mesmo assim, sua auto-confiança não a desamparou.
Resolveu mostrar a Jesus que sabia do que ele estava falando:
       - Eu sei que deve vir um Messias (que se chama Cristo), e quando ele vier, nos anunciará tudo!
       Jesus acrescentou, delicadamente:
       - Sou eu,  quem fala contigo!
       Novamente, gostaria de ver no vídeo este instante!
O da primeira revelação clara da sua condição de Messias, de Salvador dos Homens. Jesus ainda não dissera nada disso aos discípulos, para não suscitar neles falsas esperanças num Messias político, capaz de derrubar a dominação estrangeira, e conferir liderança aos judeus.
       Como observa o Fundador da Escola Bíblica de Jerusalém:
Neste momento, Jesus começou a levar a Samaritana:
habituada aos jogos de palavras, ao horizonte limitado das comadrices, aos papos furados (“a una conversación sin finalidad”), à descoberta e ao desejo da Graça de Deus.
O mesmo autor afirma: não se percebe em Jesus nenhuma ironia socrática.
Jesus estava interessado apenas em salvar uma mulher...
É uma pena que São João nada acrescenteSão João sobre o destino dessa mulher!
Sumiu-se...
Leitores amigos, digo-lhes que, nos meus momentos de vida cristã interior, quando sinto necessidade de Deus (e quem não sente isso a todo o momento?), o Qual se revelou em Jesus -não há outra possibilidade de se entrar em contacto pessoal com O Criador, com a Santíssima Trindade, a não ser por meio de Jesus –nesses momentos lembro-me de Jesus  que se assentou à borda do Poço de Jacó, um poço que, segundo dizem teria entre  23 a 30 metros de profundidade (Franz Michel Willam), ou mesmo 32 metros (sua profundidade atualmente: Giuseppe Ricciotti).
Sim, gostaria imensamente de saber o nome dessa Samaritana, para invocá-la, não me dirigindo, como me dirijo atualmente a uma simples Anônima.
Gostaria de conhecer sua verdadeira identidade de ex-mulher de cinco maridos, fora o da época em que falou com Jesus!
Da mulher concreta. que correu a chamar os samaritanos de sua aldeia, dizendo-lhes:
-     Venham ver um homem que me disse tudo o que fiz. Não será ele o Cristo?
       Seus concidadãos, muitos deles, depois de terem conhecido Jesus, mostraram-se excessivamente eufóricos, quase esnobaram a primeira evangelizadora da história:
- Já não é por tua causa que cremos. Nós próprios o ouvimos, e sabemos que esse é verdadeiramente o salvador do mundo.
Podiam ter-lhe dito:
- Mulher, agradecemos-te a oportunidade que nos deste de conhecer Jesus!
Joseph-Marie Lagrange  adverte-nos que a expressão “salvador do mundo”, usada pelos samaritanos, não tinha o significado que hoje nós lhe atribuímos:
- Aquela população, formada por camadas diversas de etnias, estava mais habituada do que os judeus a dar o nome de salvador a qualquer soberano, mesmo que sua atividade fosse negativa, e até desastrosa. Eles consideravam salvador do mundo ao imperador romano...
Volto a dizer: gostaria de saber o nome dessa mulher, que sem dúvida, se tornou fiel a Jesus, e talvez tão santa como outras, que foram pecadoras como ela, entre as quais Maria Madalena!
De qualquer modo, para mim a Samaritana será sempre uma intercessora predileta.
Uma intercessora sem rosto.
Que importa? Sua voz repercutirá sempre dentro de mim, embora essa mulher de forte personalidade, mas fundamentalmente honesta, tenha sido insolente na presença de Jesus, até Ele revelar-lhe Quem era.
Não somos nós, homens do século XXI tão insolentes como ela?
É só ler nossos jornais!

Sou do tempo em que existiam Avós!

Talvez eu esteja equivocado!
Talvez seja outra a realidade de nossos tempos tormentosos!
Talvez vivamos uma época de avós carinhosos!
Talvez nossos avós sejam idolatrados, como o é nossa Pátria, em nosso retumbante Hino Nacional.
Talvez eles estejam vivendo numa digna clandestinidade e por isso não sejam nem tão visíveis, nem celebrados em prosa e verso!
Talvez o Papa Bento XVI, até, se digne, no seio das turbulências psíquicas que nos assediam, beatificar, ou santificar, não só eclesiásticos e religiosos, mas também avós remanescentes!
Ah! Agora me lembro: um dos Papas elevou aos altares os pais de Santa Teresinha de Lisieux!
Mas os pais da cativante Santa das Rosas – só tiveram filhas religiosas... Portanto, não foram avós!
Tudo é possível em nosso mundo agitado, em nossa paulicéia desvairada!
Permitam-me, amáveis leitores, dizer-lhes, com absoluta singeleza, que tive avós maternos, e avós paternos exemplares.
Exemplares?
Não me chamem de ingênuo, por favor!
Meus avós foram pessoas excepcionais, mas unicamente por não terem sido excepcionais. Foram avós normais, dentro do figurino da tradição.
Profissionalmente, eram agricultores, isto é, colonos. Mais tarde, tornaram-se comerciantes.
Contaram-me (tal pioneirismo não me dá orgulho) que meu avô paterno foi o primeiro a adquirir um automóvel na Vila de Silveira Martins, hoje cidade e município gaúcho.
Lembro-me de ter viajado, algumas vezes, no seu automóvel. Chamemos-lhe como se chamava antigamente: automóvel.
Pelo visto, meu avô não dava muita importância ao veículo. Para ele, era uma carroça aperfeiçoada.
É que meu avô Domenico tinha - suponho que por pura dádiva de Deus - cara e estofo de intelectual.Quanto aos óculos, não os usava para parecer intelectual, mas por ser míope.
Era italiano de nascimento. Filho de camponeses. Camponês também ele.
Consultavam-no como a um oráculo, não só os párocos do lugar, mas também os maioriais do vilarejo (emprego a expressão que o tradutor clássico da Bíblia, João Ferreira de Almeida usou na sua tradução, aplicando o termos aos indivíduos importantes da sociedade judaica).
Confiavam-lhe tarefas de líder, em especial na presidência dos fabriqueiros (visto ser muito católico). Era um dos membros da Fabbrica da Paróquia, uma sorte de Conselho de Leigos, que assessorava o pároco nas funções administrativas.
Guardo de meu avô a imagem de um católico devoto, porém discretíssimo.
Minha avó paterna possuía outro temperamento. Era uma Menapace do Tirol, austríaca (nunca admitiu ser italiana:), já que o Tirol, na época de seu nascimento fazia parte da Áustria. Eu teria preferido que ela que fosse mais italiana. Mas era austríaca! Eu tenho admiração pelos austríacos, sobretudo por um deles, Wolfgang Amadeus Mozart.
Era uma mulher positiva, decidida, pão-pão, queijo-queijo.
Não se sensibilizava com facilidade, ao contrário das italianas que eu conheci, esfuziantes, derramadas, às vezes fatigantes. Quando, nós os netos, a visitávamos, interessava-se, antes de tudo, em que comêssemos algum doce, uma cuca... e pronto.
Era uma falsa durona.
Num dia em que chovera, fui buscá-la para vir tomar mate – chimarrão doce, em nossa casa. Só freqüentava a casa de meus pais. As demais noras, tão gentis e afetuosas como minha mãe, deviam visitá-la na sua casa.
Naquele dia chovera. Objetou-me que não iría porque tinha chovido.
Respondi-lhe – do alto de meus dez anos – que isso não era motivo para deixar de nos visitar-nos. Tornou a argumentar que, na sua idade, os resfriados, as gripes, não lhe permitiam sair de casa sem arriscar-se a ficar doente.
Desanimado, deixei-a quieta.
Fui ao armazém de meu pai, que o tinha em sociedade com dois irmãos, e fora fundado em Santa Maria em 1928. Pedi aos empregados que me conseguissem serragem. Em seguida, com o saco na mão, espalhei a serragem, da entrada da casa de minha avó à entrada da casa de meus pais, aproximadamente meia quadra além.
Feito isso, retornei à casa de minha avó, e disse:
-Vó, agora a Sra. não vai molhar os pés, nem pegar gripe...
Minha avó capitulou.
Penso ter visto duas lágrimas penduradas em seus olhos!
Minha avó materna era outro tipo: uma ítala-brasileira, da Família Parzianello, com rosto um tanto severo de Madonna Napolitana. Quieta, taciturna. Mas era como as cerejas de além-mar: deliciosa!
Quando das visitas, mexia-se como um passarinho. Não sabia como atender a toda gente. Com o bule numa das mãos, as cucas na outra, os gróstoli na outra – três mãos? Por que não? Quem Foi o Quintana quem inventou essa possibilidade. Sendo do Mario, acredito mais nas suas verdades do que nas de Einstein!
Vó Teresa está, sem dúvida, no Céu, provavelmente num recanto, ao serviço de Santa Ana, a mãe da Virgem Maria. Se Maria era escrava do Senhor, por que não seria ela escrava da Mãe de Deus?
Meu avô, tão devoto como ela, saía de casa todas as manhãs, chovesse ou não chovesse, trovejasse ou não trovejasse, houvesse aroma de glicínias no ar, ou cheiro de estrume nas ruas – (desde a madrugada, os carroceiros traziam à cidade seus produtos coloniais). Calçava seus rudes sapatos, envolvia-os com as saudosas galochas de um pretérito perfeito que nem somos mais capazes de imaginar, e enfrentava, impávido, a lama que tornava a rua resvalosa...
 Lá se ia meu avô à igreja, porque, nas mais das vezes, cabia-lhe tocar o sino, encher de vinho e água as galhetas da credencia, acender as velas do altar e, não havendo coroinha, acolitar o sacerdote.
Aos domingos, depois de atender os genros e noras, arranjava tempo para visitar os pobres da Vila Leste, e de outras vilas das periferias. Mantinha um fichário de cada casal carente, cuja prática cristã (batizados, regularização religiosa de casamentos, etc) ocupava-lhe boa parte do tempo. Outra parte era ocupada em levar-lhes alimentos, roupas, o que pudesse obter com os amigos comerciantes.
Às sextas-feiras, à noite, após a Bênção do Santíssimo na Igreja Paroquial, meu avô reunia-se, numa das sacristias desativada, com seus coirmãos da Associação dos Vicentinos, fundada na França pelo escritor Fréderic Ozanan. Ali pesava os quilos de arroz, feijão, açúcar, café,  destinados às famílias sem recursos – provisões coletadas durante a semana. Eram apenas cinco ou seis pessoas que se dispunham a essa benemerência, entre elas um tio do ex-Senador José Paulo Bisol, criatura tão virtuosa que me disporia a ir a Roma testemunhar suas virtudes diante de Sua Santidade, O Papa Bento XVI.
Esse tio do ex-Senador Bisol casou com uma tia minha, de nome Amábile.
Um dos vicentinos, companheiro de meu avô, o Sr.João Pozzobon, provavelmente tornar-se-á Santo Oficial. A biografia desse santo, que ainda não foi canonizado, foi escrita por um sacerdote argentino, Esteban Uriburu.Tive a honra e o prazer de traduzi-la para o português.
Mais tarde, quando voltei da Europa, e me tornei Professor da UFSM, passei a freqüentar, regularmente, a modesta residência de meu avô.
Ia vê-lo, à noitinha, após as aulas na Universidade. Levava-lhe livros espirituais, ou biografias de Santos, que ele adorava ler. Antes que isso ocorresse, meu avô, graças às sólidas conferências do P. Gabriel Bolzan, tinha-se familiarizado com as Encíclicas Rerum Novarum e Quadragésimo Ano. Incentivado pelo Padre Bolzan, meu avô começou a ler as obras de Fernando Calage, e de outros autores católicos da época, como o Padre Ascânio Brandão, sobre temas sociais à luz do Evangelho.
Enfim, um semi-analfabeto,como era meu avô, possuía talento inventivo. Gostava de levar a cabo experiências “tecnológicas”, servindo-se de mecanismos capazes de fazerem tombar em suas mãos os ovos que as galinhas punham no interior das gaiolas... De quando em quando, mostrava-me outras “invenções” do mesmo gênero.
Esqueci-me de dizer que competia a ele, ajudado por um outro meu tio, de nome José, recolher as esmolas na igreja, aos domingos e dias santos. Meu avô era tão compreensivo em relação à esperteza humana que, se alguém botasse na sacola das esmolas uma determinada cédula, e de lá tirasse outra maior, não denunciava a ladinice do pseudo-devoto. Naquela época isso era possível: deitar esmola, e tirar troco. Creio que as pessoas faziam isso para não comprometer as minguadas finanças domésticas...
Uma das recordações mais agradáveis que retenho de meu convívio infantil com meu avô refere-se à festa do Natal. O pároco incumbia meu avô de preparar o Presépio. Bela ocasião que me dava oportunidade de ir com meu avô catar barbas-de-pau pelos matos próximos, especialmente na Chácara dos Irmãos Maristas. Apreciava muito auxiliá-lo nessa tarefa. Tinha ensejo de pegar nas mãos as imagens da Virgem, do Menino, de São José, dos Pastores, das ovelhas, e principalmente, de mirar e remirar as imagens dos camelos dos Reis Magos!
Por vezes, minha fantasia infantil sugeria a meu avô soluções cenográficas bizarras, que ele não aprovava. Outras, vezes, permitia-nos fazê-las, por exemplo, montar um moinhozinho ou um catavento nos fundos da paisagem...
Meu avô morreu aos 76 anos, depois de confessar-se (e comungar).
Nunca soube de quê.
Ao seu enterro compareceu tal multidão, que ainda hoje me assombro com sua lembrança. Gente importante e gente humilde.
Tenho saudades desse homem bom.
Às vezes, assalta-me um remorso: por que não aproveitei mais  de sua companhia?
Esqueci de referir-lhes um detalhe: sou, por puro capricho do destino, o membro da família materna mais parecido com ele. Nenhum de seus filhos e filhas possui tanta semelhança fisionômica com ele como eu. Quantas vezes, suas filhas, isto é, minhas tias, algumas vivas, choraram diante de mim, lembrando-se do velho pai!
Lastimo apenas uma coisa: não lhe ter herdado o coração.
Explico-me: não lhe ter herdade ao menos meio coração!
Um coração, como o dele, era para se manter dentro de um relicário de ouro, como o do grande Santo de nossas Missões Jesuítico-Guaranis, Roque González de Santa Cruz.
Em tempo:
Existem, sim, avós maravilhosos!
Minha esposa Cleuza, modéstia à parte, é uma avó dedicadíssima. Não fica a dever nada às avós festejadas pela História, como a célebre Madame Sévigné, que se tornou uma autora clássica com as suas elogiadíssimas Cartas!