segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sobre o livro: Ler por Dentro

Uma leitora pede-me que fale um pouco sobre meu mais recente livro.
Trata-se de uma coletânea de ensaios, publicada por uma editora não muito conhecida: a Pradense.
O editor convidou-me a reunir alguns ensaios dos últimos tempos.
Na primeira parte enfeixei uma série de análises sobre a poesia de Mario Quintana. Na segunda, agrupei três ensaios: o primeiro sobre a dimensão humana de Erico Veríssimo; o segundo, sobre o poema erótico que considero o mais belo da literatura brasileira; e o terceiro sobre Fernando Pessoa (sugerindo, se possível, uma nova maneira de o ler) Na terceira parte, coligi meus estudos sobre a questão da leitura na época da mídia e da informática. São conferências que fiz no México, na Venezuela, e na Itália.
Prefiro discorrer sobre essa última parte.
Meu interesse pela questão da leitura principiou com a minha eleição para Patrono da Feira do Livro de Porto Alegre, em 2001.
De repente, comecei a indagar-me, a mim próprio, por que me tinham eleito como Patrono.
Algum leitor pensará que estou blefando, fazendo de conta que nunca fui autor, que não publiquei uma trintena de livros.
O meu problema é outro.
O meu problema sempre foi o de ser simplesmente poeta: o que significa ser lido por pouquíssimos leitores. E também, o de ser ensaísta: o que significa ser lido por poucos leitores (notem a eliminação do superlativo).
Poucos?
É claro: não estou dando chutes na lua, como diz um sujeito informado em linguagem popular. Estou pensando, apenas, em ter certo número de leitores, que não faça os editores perderem os já poucos fios de cabelos que lhes disfarçam o crânio.
No Brasil, a alfabetização funcionou até certo ponto. O Mobral foi uma grande iniciativa. Paulo Freire contribuiu para que saíssemos de uma sorte de barbárie inocente. Mas não nos iludamos: a alfabetização significou, apenas, para a maioria das pessoas, migalhinhas de cultura. Não chegou a elevar ninguém à noosfera, muito menos à esfera de seio-generoso da Cultura.
Sejamos sinceros: a alfabetização, no Brasil, deu a muita gente a incrível possibilidade de assinar um cheque, poupando-lhes a humilhação da entintação do polegar,atualmente substituído pela leitura eletrônica.Não permitiu – a quase ninguém passar da assinatura pessoal à alfabetização não-estatística.
Continuamos, ainda, com um índice surpreendente de analfabetos de meio corpo. Os analfabetos, que continuam a existir no Brasil, são, via de regra,  analfabetos só de mãe.
A mãe deles é a televisão.
Apresso-me a explicar que não culpo a televisão.
A televisão, em si, é um prodígio,uma espécie de milagre que, com o tempo, se avacalhou, visto que, nos séculos XIII e XIV, ver alguém de longe, um indivíduo que não estivesse espacialmente diante dos olhos, era milagre. Foi por isso que a Igreja declarou Santa Clara, a santa mais pura e cativante que talvez tenha existido depois da Virgem Maria, Padroeira da Televisão. É que Santa Clara teve uma certa visão à distância, no mesmo instante em que o episódio que ela viu se concretizava.Em outras palavras: Santa Clara viu como nós vemos hoje, mediante a televisão, uma cena longínqua, digamos, uma partida entre o Internacional e o Flamengo.
De quem, então, a culpa, ou melhor, a responsabilidade?
Dos indivíduos que, mediante a televisão, patrocinam seus produtos de consumo. A televisão está mais interessada num chute de Ronaldo Cristiano do que numa descoberta de uma vacina contra a AIDS.
Por que?
Porque, durante o jogo em que atua Ronaldo Cristiano se vendem cervejas,refrigerantes, eletrodomésticos, tênis de grifes, e também televisores, ao passo que a vacina contra a AIDS, pesquisada pelos cientistas, interessa só a estes. Passará a interessar todo o mundo quando uma empresa farmacêutica a lançar no mercado, a um preço x. Neste preciso momento, a televisão começará a interessar-se pela vacina, porque ela se tornará objeto de mercado.
Alguém objetará:
- Que visão mesquinha! Como se a vida das pessoas não fosse mais importante que os chutes de Ronaldo Cristiano...
Perfeito! Estou de acordo!
Mas...por que essa conexão entre analfabetismo e televisão?
A conexão é casual. Porque a televisão não nasceu em berço de ouro. Ela não é filha de Bill Gates. Ela precisa de dinheiro para ser televisão.Precisa de publicidade. Precisando de publicidade, ela só pode fazer o que a publicidade deseja.
É claro que há clareiras de alfabetização na televisão.
Quando um  Oscar Niemeyer aparece na telinha, podem saber que ele está tentando alfabetizar alguém. Ou seja: está tentando que o motor, que foi instalado num determinado chassis, isto é, uma pessoa, funcione, desde que as rodas do chassis estejam ligadas ao motor por um eixo cardam, ou de outro jeito qualquer, que, afinal de contas não sou engenheiro.
O problema da alfabetização em massa no Brasil é saber o que fazer com a alfabetização.
 Alfabetizar para poder vender e comprar mais - ou alfabetizar para que as pessoas sejam mais livres, e podem ser mais...Ia dizer “felizes”, mas a felicidade desprestigiou-se tanto, que nem me atrevo a pronunciar seu nome!
Em vez de “felicidade”, digamos:- para que a pessoa possa ser mais livre, mais ela mesma, menos bicho.
Enquanto a alfabetização não passar de uma condecoração nacional, não progrediremos. A alfabetização deverá ser uma responsabilidade, e – se for possível - uma forma de obter um atestado de cidadania.
Pois bem, quando me elegeram patrono da Feira de Porto Alegre, comecei a pensar no imenso privilégio que me fora concedido de saber ler, e de ter o que ler. De poder ler os grandes autores da história da humanidade, de Homero, que não li muito, a Machado de Assis, que leio quase todos os dias.Mas também: Aristóteles, Platão, Epicuro, Demócrito,Cícero, Boécio, Anselmo de Canterbury, Tomás de Aquino, Descartes, Henri Bergson, e milhares de outros, alguns gênios, alguns apenas telentosos, alguns geniais e negativos como Nietzsche, outros problemáticos e fecundos, como Kafka e Freud, outros explosivos e capazes de neuronizar-nos beneficamente como Marx, outros maravilhosos como Cecília Meireles e Sophia de Mello Breyner, outros requintadíssimos (mas com caras de pateta) como Mario Quintana. Outros geniais, talentosos e benéficos como Erico Veríssimo, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, ou Blaise Pascal, talvez o autor que eu mais tenha lido depois da Bíblia.
Na ocasião em que fui Patrono da Feira, o país estrangeiro homenageado era o México.
Ora bem: vieram a Porto Alegre, na ocasião, a embaixadora do México no Brasil, e outras personalidades mexicanas. Essa gente me convidou a representar nossa Feira do Livro na II Feira Internacional do Livro da Ciudad de México.
Lá fui, à terra dos astecas e dos maias,  e também de Cortez, Bartolomé de Las Casas, e de Nossa Senhora de Guadalupe.
Convidaram-me a fazer uma conferência durante a Feira – no Zócalo, isto é, a praça em frente da Catedral, ao lado do Palácio do Governo.
 Pensei – ou antes, matutei (porque também sou matuto, como todo o mundo, um matuto – eis a diferença – alfabetizado, e não absorvido de todo pela Sociedade de Consumo): preciso estudar melhor a questão da leitura.
Naquele entonces, só dispunha de apontamentos para uma conferência. Resolvi que seria mais útil apresentar-me sem uma perna, a ter duas, e não saber dizer nada de útil aos mexicanos, falando-lhes, por exemplo, sobre Clarice Lispector, ou sobre minha modestíssima poesia (como me haviam sugerido).
Falei sobre o declínio da leitura, e suas eventuais causas.
Ainda me lembro daqueles rostos de bronze, à minha frente, poucos intelectuais entre eles, se é que os havia, afora os funcionários da Feira , e muitos populares, indivíduos com jeito e tipo de descendentes de indígenas.
 Prestaram-me uma atenção que me comoveu!
Ou fui eu que me comovi perante rostos tão imóveis, com grandes olhos escancarados, numa atitude extática, que me evocava a das melhores esculturas da Arqueologia Mexicana?
No fim da conferência, que foi num portunhol horrível, de dar caimbras às orelhas de meus gentilíssimos indígenas, crivaram-me de perguntas. Quase me arrependi de ter metido a mão em favos alheios. Havia mel no que eu lhes dizia, mas era mel de favos alheios, que eu não assimilara ainda, de todo.
Respondi como pude, e depois fui tomar um café na companhia deles.
Retornei ao Brasil com uma preocupação; aprimorar meus apontamentos.
Na segunda vez que fui ao México, falei a universitários e intelectuais. Apresentei-lhes o que hoje considero um dos meus melhores ensaios: Existirão clássicos no Século XXI?.
A conferência despertou tanto interesse que, no fim, por um triz não tive de pedir desculpas aos ouvintes por tê-los interessado em algo que não era ouro de minha mina,mas ouro que eu recolhera de muitas minas,desativadas, e sem dono.
Algum tempo depois, fui convidado para um Simpósio na Itália, em Rocca di Papa, na proximidade de Castel Gandolfo. Lá falei a umas quatrocentas pessoas de todas as profissões ligadas à literatura e às Artes.
Se os leitores desejarem realmente entender o que expus nessas ocasiões, leiam meu livrinho, à venda nas principais livrarias de Porto Alegre.
Saltem, se lhes agradar, a primeira e a segunda parte. Vão direto à última parte.
Sobre o valor, ou não, de tais ensaios, deixo isso à responsabilidade do leitor.
Quem quiser me criticar de verdade, no sentido do contra, tem toda aliberdade. Procure fazer algo melhor do que eu fiz. Isto é: chamar a atenção das pessoas para um problema seriíssimo: o que devemos ler? Por que ler? Como ler?
E, principalmente:
- Ainda existe algo clássico para se ler?
Ouso pedir aos meus críticos um favor: se decidirem que já não existem clássicos, fiquem quietos.
Não o digam a ninguém, nem a si mesmos!
É melhor ler um falso clássico, do que desconfiar de que ainda existem clássicos.
Pelos menos: desconfiar de que não existam clássicos não lidos.
Reflitam no que Mario Quintana me disse, um dia, e que eu reproduzo aqui:
- Para quem nunca leu Shakespeare, ele é o último best-seller!

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