quinta-feira, 19 de maio de 2011

Por uma Ecologia Psíquica: Salvemos os Leitores!

       I.

Resolvi consultar o verbete ecologia:

A)  Primeiramente recorri ao “Dicionário Aurélio”:
Parte da biologia que estuda as relações entre os seres vivos e o meio ou ambiente em que vivem, bem como as suas recíprocas influências;
B)    a seguir, apelei para o “Dicionário de Usos do Português do Brasil”, de Francisco S. Borba: ramo da biologia que trata das relações entre os seres vivos e o meio ambiente em que vivem, bem como suas influências recíprocas.
     Se estendermos tal noção ao plano psíquico veremos que, da mesma forma que o organismo físico vive integrado no seu meio ambiente material, assim o organismo psíquico vive integrado no seu meio ambiente psíquico, ou cultural.

     Portanto, se é nossa obrigação salvar as espécies biológicas materiais, como as araras e os azulões, também nos incumbe salvar as espécies biológicas psíquicas, entre as quais se inclui a dos leitores.
     Outras espécies, aliás, a serem salvas seriam: os apreciadores de artes visuais, os entusiastas pelo cinema, os apaixonados por música clássica, etc.
     Cremos que não se prestado suficiente atenção a tais espécies em extinção.
O fato é que, já há algumas décadas, alguém deu o primeiro grito de alerta.
     Em anos sucessivos, tais brados premonitórios se tornaram mais e mais freqüentes. Atualmente, sociólogos e psicólogos juntam-se aos ecologistas para advertir as autoridades de que os leitores podem ser mais importantes do que as araras e os azulões.

     Segundo a opinião de uma parte da sociedade, o Governo Federal deveria instituir um IBAMA PSÍQUICO – ou, quem sabe um IBAMA CULTURAL, cujo objetivo fosse aplicar verbas, previstas no Orçamento da nação, para se preservarem os remanescentes de tais espécies.
     A leitura, em nossos tempos de informática e internet, tornou-se quase uma atividade clandestina que faz corar de – de pudor ou vergonha? - seus praticantes. Ler num ônibus, ou num banco de praça no Brasil, é expor-se à chacota.

Surge uma pergunta:
- Será possível tornar-se civilizado sem ler?
Se dissermos que sim, voltaremos ao analfabetismo endêmico dos tempos do Brasil Colônia.
Por outro lado, convém lembrar, num país majoritariamente católico, que o próprio Jesus aprendeu a ler.
São Lucas, no capítulo quarto de seu Evangelho, versículos 16-19, refere que o mestre, certo dia, foi a Nazaré onde se tinha criado:
- Conforme seu costume, no dia de sábado, dirigiu-se à Sinagoga e levantou-se para fazer a leitura. Deram-lhe o livro do Profeta Isaías. Abrindo o livro, encontrou o lugar onde está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim. Ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Nova aos pobres (...)”
Só recentemente, eu próprio me dei conta de que isso significava que Jesus também foi alfabetizado.
Em seu livro: A Vida Quotidiana na Palestina no Tempo de Jesus (Lisboa, Livros do Brasil, sd.), Daniel Rops informa que havia escolas na Palestina no tempo de Jesus. E acrescenta: “uns trinta anos após a morte de Jesus, no ano 64, o sumo sacerdote Josué ben Gamala promulgou um decreto que pode ser considerado “a primeira lei escolar”: nada faltava nesse decreto, nem a obrigação de os pais mandarem os filhos à escola, nem as sanções contra os alunos dissipados ou muito faltosos, nem a organização dum “segundo grau” para os melhores”. (Ibid. p. 123).
São Paulo, por sua vez, declara que Jesus foi em tudo semelhante aos outros homens, exceto numa coisa: no pecado.
O Salvador do mundo, portanto, não se subtraiu a uma necessidade cultural de seu povo, necessária à compreensão de seu povo. Ele, o Mestre, foi iniciado nos elementos da cultura a que pertencia - cultura que não era somente oral, isto é ágrafa, mas escrita. Foi um menino como os outros meninos judeus da época.
Nos séculos do Cristianismo, devido às controvérsias, principalmente em repulsa à heresia de Ario do século IV, os cristãos se esforçaram por exaltar a dimensão divina de Jesus. Como Filho Unigênito do Pai, Jesus participava de sua natureza eterna. Era, portanto, onisciente. Quando, porém, surgiram novos hereges, contestando a dimensão humana do Verbo Encarnado, os Padres da Igreja reafirmaram solenemente a realidade de sua condição humana, que, de resto, já se revelava no Evangelho de Lucas, nas significativas frases do capítulo dois, versículos 51-52:
-Jesus desceu com seus pais para Nazaré, e era obediente a eles. Sua mãe guardava todas estas coisas no coração. E Jesus ia crescendo em sabedoria, tamanho e graça diante de Deus e dos homens.

Notemos: ia crescendo: isto é, assimilava a cultura do Povo Eleito mediante os meios por meio dos quais, na época, tal cultura se transmitia.

II.
Sou contra as lamúrias contemporâneos pelo descaso da leitura!
Devemos – isto sim - empreender um trabalho de reconquista da leitura.
Os psicólogos afirmam que, se um menino nunca vir seu pai ou sua mãe, ler algum livro, jamais sentirá inclinação para ler. A criança imita os valores que são apregoados, e principalmente, vividos pela família. O problema não está, propriamente nas crianças, mas nos pais.
A fim de que não percamos tempo tentando persuadir os jovens a um eventual sacrifício pela leitura, insistamos num ponto: é imprescindível que eles descubram o prazer de ler, ou – usando uma expressão de Roland Barthes, o prazer do texto.
Nos meus tempos de escola primária, havia um livro intitulado: A Alegria de Ler, organizado pelo Prof. Júlio Cesar de Mello e Silva. A edição que consegui repescar num sebo foi a sexta, revista e melhorada, da saudosa Editora Getúlio Costa. No prefácio dessa antologia (destinada especialmente “para o Curso de Admissão ou para a Primeira Série do Curso Ginasial”), o Prof. Mello e Souza escrevia:
- Finalizando estas ligeiras considerações, diremos que esperamos da crítica bem intencionada o que de proveitoso nos poderá fornecer. Quanto à mal intencionada, seria estulto não esperar por ela. Dir-lhe-emos, de antemão, que fazemos nosso o conselho de Sarmiento, esposado por um dos maiores filólogos e educadores que o Brasil já produziu: “Las cosas hay que hacerlas; mal, pero hacerlas”.

Foi o livro básico de minha infância. Depois de muitas procuras, consegui adquirir um exemplar dessa obra, em péssimo estado de conservação. Guardo-o comigo como um tesouro. Foi nesse livro, que contém episódios interessantes, observações de humor, descrições da natureza, relatos de invenções da humanidade, breves poemas, que me iniciei nos prazeres da leitura. Deparei em suas páginas a estória do Dervixe e o Galo, do Coelho Barbeiro, o Cromo de Renato Gonçalves, cujos versos iniciais eram:

A casa onde mora aquela
menina cor de açucena
é uma casinha pequena,
casa de porta e janela.

Tão pequenina e singela!
Ao vê-la, a idéia me acena
de quebrar o bico à pena
e fazer uma aquarela.

Também, nas páginas de papel jornal desse livro li a poesia A Pátria de Olavo Bilac, e um texto de Axel Munthe: Coragem de um Macaco” Como não comover-se – oh, o coração de uma criança! – com os versos acariciantes de Olegario Mariano, que Manuel Bandeira tanto prezava:

Água corrente! Água corrente!
O teu destino é igual ao destino da gente.
Para onde vais? Tu mesma ignoras tua sorte.
Vais para a vida, para o Sonho ou para a Morte?
Na correnteza levas de mansinho
as paisagens que vês pelo caminho...
Uma árvore infeliz que o vento açula,
a asa de um moinho que gesticula,
um pedaço de céu entre o nevoeiro,
e a aldeia branca a se perder na falda
toda verde de um monte de esmeralda...

Bendigo o Prof. de Mello e Souza por me ter revelado o conto Noite Santa de Selma Lagerlof.
Nesse livro, igualmente, li O Carnaval em Arequipa, de Antenor Nascentes. O curioso é que, mais tarde, quando preparava meu doutorado na cidade de Fribourg, na Suíça, topei com um casal latino-americano a passeio pela Europa que, para meu pasmo, me disse proceder de Arequipa!
Foi na Alegria de Ler que esbarrei no soneto de Machado de Assis: Círculo Vicioso, que termina assim:

- Por que não nasci eu um simples vagalume?...
Fiquemos por aqui.

III.

Orgulho da América Latina são dois leitores excepcionais, mestres do Bom Ler. Leitores que mereceriam ser canonizados, e suas imagens colocadas na Glória de Bernini de uma moderníssima Biblioteca.
O primeiro deles é gaúcho: Augusto Meyer.
O segundo, um argentino, Jorge Luis Borges.

Augusto Meyer, em seu livro Preto e Branco deixou-nos uma iniciação à arte de ler, digna de ser afixada em qualquer escola gaúcha, ou melhor, em qualquer escola brasileira.
É o texto: Os Galos Vão Cantar.
Esse texto deveria ser lido e comentado pelos professores; em seguida, entregue ao aluno, para que este faça seus próprios comentários.

O ensaio de Augusto Meyer principia assim:
- Aquela cousa que ali está, atirada sobre a cama, entre cochichos tristes, é o corpo morto de Machado de Assis. Quatro horas da madrugada. Vem das árvores do Cosme Velho um cheiro de seiva. Os galos vão cantar.

Que escritor de hoje seria capaz de começar um ensaio com tão machadiana elegância?
Sou leitor apaixonado de ensaios, e não considero fácil encontrar, entre meus autores prediletos exórdios desse nível.
Saltemos boa parte do ensaio.
Lá pelas tantas, Meyer volta a Machado de Assis, não ao seu cadáver, mas aos ao seu corpo vivo.
Vejamos:

- E agora que o velho Joaquim Maria saiu pela porta invisível deixando como rastro um pouco de interrogação, Machado de Assis, o outro, o inumerável, o prismático, o genuíno Machado, feito do sopro das palavras gravadas no papel e da magia do espírito concentrado entre páginas, começará realmente a viver. O homem presente e corpóreo, com a sua pele, as suas vísceras, os seus achaques, o mulato macio e polido com o seu ramo de carvalho do Tasso, o acadêmico integrado em seu papel, encalhado em si mesmo, resignado a si mesmo, tem o grava inconveniente de estar vivo. A sua presença é um estorvo inevitável que se levanta entre a obra e o intérprete. Os seus amigos, as suas leitoras são outro estorvo. Um muro de simpatias ou automatismos imitativos, de admirações ou de aceitações vai formando em torno dele esse primeiro clima do renome incipiente, tão precário e tão superficial quase sempre, em que os motivos da exaltação raro assentam numa compreensão profunda do espírito da obra por falta de recuo no tempo e, portanto, de visão objetivada em distância propícia.
(Preto e Branco. 2 ed. Rio de Janeiro, Grifo Edições, 1971. p. 10-11).
Existe outro trecho de Augusto Meyer, especificamente sobre o ato da leitura, que é jóia raríssima em qualquer literatura do mundo.
Ouso dispor esse texto em forma de poema, porque, na realidade, é um poema em prosa:

Ler um livro é desinteressar-se a gente deste mundo
comum e objetivo
para viver noutro mundo.

A janela iluminada noite a dentro
isola o leitor da realidade da rua,
que é o sumidouro da vida subjetiva.

As árvores ramalham. De vez em quando passam passos.

Lá no alto estrelas teimosas namoram inutilmente
a janela iluminada.

O homem prisioneiro do círculo claro da lâmpada,
apenas ligado a este mundo pela fatalidade vegetativa do seu corpo,
está suspenso no ponto ideal de uma outra dimensão,
além do tempo e do espaço.

No tapete voador só há lugar para dois passageiros:
leitor e autor.
(Textos Críticos de Augusto Meyer. Org. de João Alexandre Barbosa. São Paulo, Editora Perspectiva, 1986. p.3.Vale a pena  ler todo o ensaio, que se intitula: “Do Leitor”. p. 23-10).

O segundo grande leitor, que desejo destacar, é Jorge Luis Borges, o aclamadíssimo autor de Ficções, que num de seus poemas escreveu uma metáfora das mais originais que conheço:
- formoso como um leão ao meio-dia.
(Poema: Israel. In: Elogio da Sombra. Trad. de Carlos Nejar e Alfredo Jacques. Porto Alegre, Editora Globo, 1971. p.31)
 Que dizer destes versos de uma significação meridiana e enigmática:

- Eu sou os outros. Eu sou todos aqueles
que teu rigor obstinado resgatou.
sou os que não conheces e os que salvas.
(Poema: “Invocação a Joyce”. Ibid. p. 43).

Pois foi Borges quem teve, um dia, a grandiosa – e inédita humildade – entre todos os autores da História da Literatura Mundial – de declarar:

Que outros se jactem das páginas que escreveram:
a mim me dão orgulho as que tenho lido.

O autor argentino é autor, também, de um poema que não ouso traduzir, nem arranhando um pouco os ouvidos do leitor brasileiro, uma vez que não consegui uma palavra adequada para rimar com noite. No original castelhano, Borges rimou reproche (censura) com noche.
Façam, pois, um esforço e tentem deliciar-se com a versão original:

Nadie rebaje a lágrima o reproche
Esta declaración de la maestria
De Dios, que com magnífica ironia
Me dió a la vez los libros y la noche.
(Poema de los Dones. In: Obra Poética.Madrid, Alianza Editorial,1972. p.153).

Só um homem apaixonado pelos livros como Borges poderia conceber um Paraíso sob a forma de uma Biblioteca!
Gostaria de dizer ao gênio portenho – se eu fosse amigo pessoal dele – que o Paraíso poderia ser, ao mesmo tempo, uma Biblioteca, uma Videoteca com todas as óperas, concertos e sinfonias que foram compostas neste planeta, e também – por que não? – uma Pinacoteca para revivermos, nos momentos (se os houvesse! Que blasfêmia contra a imaginação do Bom Deus!) de tristeza, aborrecimento ou deprê, alguns minutos gloriosos de não-doidice-e-não-canalhice deste Mundo, o qual foi qualificado por Dante (era no século XIV) de Dolce Mondo!

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