quarta-feira, 25 de maio de 2011

A Morte Inútil de Roberto Cidade, Escultor

Escultura de Roberto Cidade
      Estamos – todos! - sob as asas de alçapões malévolos, que aguardam uma ocasião propícia para desabarem sobre nossos corpos sem defesa.
Desta vez, o alçapão caiu sobre a cabeça de Roberto Cidade, artista, autor de peças monumentais, feitas, em geral de sucata, e autor, também, de outras peças menores, que para muitos parecem exóticas, fundidas em bronze.
Roberto diplomou-se na Faculdade de Artes da Universidade de Santa Maria.
Desde o início de sua trajetória, mostrou preferência pelo metal.
Transferindo-se para Porto Alegre, freqüentou durante algum tempo o atelier de Francisco Stockinger. Passou, a partir de então, a interessar-se elos resíduos imponentes de nossos sonhos e pesadelos automobilísticos.
Roberto sempre teve uma queda por motores, e era vidrado pela velocidade. Com o fluir do tempo, essa paixão pela velocidade se atenuou. Talvez tenha influído, em seu retorno à normalidade, uma relação feliz com uma mulher, que ele amou de verdade durante anos.
Com a separação, o artista que no fundo guardava lembranças gratificantes da companheira, começou a buscar o diferente, insólito. A aventura levou-o a percorrer - não estradas ao rés do chão - mas autopistas entre as nuvens e o vento.Comprou um helicóptero, e aprendeu a pilotá-lo.
Infelizmente, os helicópteros também têm seus momentos de mau humor, e acessos de loucura. O do Roberto, um belo dia, mergulhou nas águas do Guaíba. O piloto, e seu acompanhante, um vizinho, que devia ser homem de imensa confiança na perícia aeroespacial de Roberto, acabaram correndo risco de vida. O próprio Roberto referiu-me que já não esperava escapar dessa. Por uma razão em especial o seu acompanhante não sabia nadar! Teve, pois, de mantê-lo por alguns momentos sobre a superfície da água, e estava para desanimar, quando um barco de pescadores, os resgatou, quase náufragos.
Roberto era um homem generoso, amigo canino de seus amigos, excelente carácter, porém, dono de um temperamento impulsivo, violento, e volúvel em seus amores. Pode parecer elogio póstumo, mas nunca notei que suas ex-parceiras lhe tivessem rancor ou ódio. Aceitavam-no como era: um turista amoroso. É claro que esse aspecto de sua personalidade me causava embaraço. Dir-lhes-ei por quê. Sempre fui péssimo fisionomista. Ainda me lembro do sorriso compreensivo com que, num ocasião, me brindou (Oh dia fatídico!), em que me dirigi a uma de suas amadas, pensando tratar-se da última que eu conhecera. Vim a verificar que aquela beldade era a penúltima, e que a atual não se chamava – digamos – Helena – mas Shirley...
Eu o prezava muito, aliás, nós o prezávamos, minha mulher, e meus filhos. Recebia-nos com efusão emotiva. Ele próprio se encarregava de fazer os churrascos, e memoráveis carreteiros, ou outras iguarias.
Meus leitores me perdoarão! Primeiro, uma lágrima que, envergonhada, já voltou ao ninho donde saiu. Depois, esta explosão de raiva, à gaúcha, que peço a Simões Lopes Neto, o inventor de Blau, o vaqueano, seu alter-ego. A explosão encontra-se no conto O Boi Velho, que por ocasião da morte de Roberto, eu estava relendo:
-Cuê-pucha!... É bicho mau, o homem!
A expressão do contista retorna, no fim do conto, depois que um peão, percebendo a magreza do boi, e apoiado pelos companheiros, decide matar o animal. O animal que, outrora, na companhia de outro boi, levava o pessoal da estância a um arroio para o banho da família. O peão puxa da faca, e enterra-a até o cabo, no sangradouro do boi... Pois vancê creia! O boi velho dá uns passos, encosta o corpo ao comprido, no cabeçalho do carretão, e mete a cabeça, certinho, no lugar da canga, entre os dois canzis... e fica arrumado, esperando que o peão feche a brocha e lhe passe a regeira na orelha branca...
Grande Simões Lopes Neto! Era guri quando li, pela primeira vez, li esse conto! Não me pejo de confessar que chorei!
Como choro agora... pelo Roberto trucidado na presença do filho, de oito anos, que dormia no mesmo quarto! Foi este garoto quem descreveu à polícia a reação do pai à tentativa de roubo.
Admito: Roberto não era um boi manso! Era, antes, um touro bravio. Foi isso que o perdeu!
Mas... dois amigos, mortos do mesmo jeito, numa semana?

Senhor Governador, que podemos fazer?

É muita morte para Porto Alegre!
Henri Bergson, filósofo francês, dizia que, se tivesse de matar um inocente para salvar uma cidade, não o mataria...
Oh, sei que não somos inocentes assim!
Mas, a rigor, somos inocentes! A vida é dada por Deus unicamente às crianças.
Matar é que é o pecado maior.

Para mim, matar é simplesmente O PECADO.

3 comentários:

  1. Hoje a Empresa Masys Informática situada em Torres, RS - chorou ao saber que Roberto Cidade não se encontra mais aqui. Era considerado amigo e não cliente. O Mar chora por Roberto Cidade. E todo este texto que descreve sua historicidade, só leva a refletir, sobre a fragilidade que um Homem de Bem, que sonha, que trabalha, que busca situar-se no mundo de forma pacível está sujeito de tanta BARBÁRIE. AMIGO Roberto Cidade, tenha certeza que clamaremos por JUSTIÇA!!!

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  2. Eu Cláudia uma pessoa que teve o privilegio de ter conhecido ROBERTO CIDADE,precisava expressar meus sentimentos por ésta pessoa que foi muito importante na minha vida,não só minha mas de muitos,uma grande perda,um grande artista de tamanha personalidade inteligencia,generosidade,bom pai,uma pessoa integra,que tive o prazer de ter conhecida á uns trinta anos atraz,tinha imenso carinho por seus filhos,se preocupava muito com o REYNALDO certo dia disse que gostaria de viver mais uns dez anos para ver o filho mais adulto e quem sabe na faculdade... assino as palavras de TREVISAN.com o coração muito triste deixo meus pêsames á todos amigos e familhares deste maravilhoso homem que nunca vamos esquecer!!

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  3. Roberto Cidade,
    Conheci Roberto cidade, meu colega de aeroclube, no curso de piloto de helicoptero; ele era conhecido da turma como black city, pois sempre andava de couro preto. O cidade tinha expressão para olhar para aquilo que interessava com olhos arregalados, era um cara muito simples, por diversaas vezes me recebeu em sua casa na vila nova com uma ótima garrafa de vinho, casa esta onde estava quando presenciei sua queda no rio guaiba, dia este que black city nao consegui atingir seu heli ponto em função da falta de combustivel em sua aeronave. Cidade persistiu em voar, estava agora em seu terceiro equipamento. Tivemos juntos dois anos antes de sua passagem, em comemoração ao aniversário do aeroclupe, dia este em que partilhamos emoções e congratulações mutuas com abraços e felicitações amistososas.
    Dizer que trevisan foi emocionalmente impar é depreciar a emoção singular da homenagem postuma; visto que o trecho foi vivivo e ao mesmo mórbido. Chorei? sim.. Por que? Não sei...
    Dario Maristany Junior
    aluno da turma 196 pph do ARGS.

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