segunda-feira, 2 de maio de 2011

Ivan Pinheiro Machado: Pinturas


        Inaugura-se hoje, 03 de maio, na Galeria Gestual (Avenida Cel. Lucas de Oliveira, 21, em Porto Alegre) a mostra de pinturas de Ivan Pinheiro Machado.
        Serão expostos nela 40 quadros, isto é, 40 pinturas.
        São, realmente, pinturas, inventadas a partir de fotografias.
        São pinturas produzidas por um olho-compositor de fotógrafo. 
        São pinturas, inclusive, porque empregam material pictórico: óleo sobre tela, acrílico sobre tela, e às vezes óleo e acrílico sobre tela.
        Se alguém, porém, vendo essas pinturas, discordar, julgando-as fotografias pintadas, lembremos um dito famoso: seu autor as denomina assim, e quando alguém diz que uma coisa é isto, o isto é isto para o autor.
        Alguém já declarou o recém dito com mais radicalidade:  “Arte é o que o artista chama de arte”.
        Aceitaremos tal definição?
         Em nossa opinião (demos, também, uma definição clássica de opinião: “assentimento da razão com medo de errar”): seria melhor falar de Arte admitindo-se duas definições: uma definição genérica , e uma definição estilística de arte: Arte Pré-histórica, Arte Grega, Arte Bizantina, Arte  Gótica, Arte Renascentista, Arte Barroca...
        Uma definição genérica de arte poderia ser a seguinte:
        a) a intenção de produzir,
        b) e a produção efetiva de uma realidade de natureza memorativa ou imaginativa,
        c) inspirada em objetos concretos, ou em seres abstratos do inconsciente e do subconsciente, que se materializa em imagens,
        d) as quais, a rigor, não dependem, em sua significação estética, das realidades em que foram inspiradas.
Correndo o risco de alguma imprecisão, ousamos formular uma aproximação de definição estilística: um ponto-de-vista que os artistas escolhem para produzir sua ficção visual, ponto-de-vista que, em parte é condicionado pela época em que ele vive, e pelos materiais que estão à sua disposição, e em parte pelas culturas reinantes, por suas mitologias e simbologias coletivas, e pela mitologia e simbologia pessoais do artista.
        Voltemos à mostra de Ivan Pinheiro Machado.
        Alguém poderá solicitar as razões de minha valorização dessa mostra.
        Respondo:
        antes de mais nada, porque a mostra de pinturas de Ivan parece-me preencher as condições genéricas da arte, e suas condições estilísticas.
        Preliminarmente, uma advertência: não temos a pretensão de encerrar a arte dentro de critérios subjetivos. Nem temos a insolência de impor-lhe condições específicas.
        Desejamos, apenas, situar-nos em relação às manifestações artísticas com uma sensibilidade alerta, e uma inteligência razoavelmente atenta à evolução dos estilos.
        Segunda observação: em nossa opinião, a pintura do passado continua a ser pintura, embora a pintura contemporânea seja pintura-e-alguma-coisa-mais: colagens, acréscimos matéricos (penso em Tápies), com modalidades de subpintura, sobrepintura,  para-pintura, e até contra-pintura. 
         No caso de Ivan Pinheiro Machado, destaco uma originalidade: trata-se de uma pintura, que é também fotografia; e de e uma fotografia, que não só é fotografia, mas também pintura. Portanto, uma pintura sui-generis.
Em termos gerais, talvez essa pintura possa ser qualificada de para-pintura. Ou seja: uma pintura paralela! Uma pintura que, de certo modo, atraiçoa a fotografia, porém a atraiçoa com vantagem, divertindo-se em exibir-lhe sua nudez.
       Nudez?
Imagino que uma fotografia principia a despir-se quando não satisfaz o contemplador com sua mera objetividade. O contemplador, de repente, irrita-se, e  exclama:
- Isso é fotografia?  
Dado que o artista, na sua condição de artista, não está obrigado a fornecer explicações, ouso responder por ele:
 - A fotografia de Ivan é fotografia que se metamorfoseia em pintura. Uma fotografia que, no fim das contas, ultrapassa a fotografia, adicionando-lhe uma aura de sofisticação agregada, que torna a realidade fotografada, e fotografável, um tanto estranha. A pintura de Ivan produz o que hoje em dia se define como estranhamento, um estranhamento intelectual, e um estranhamento emotivo. Esse ato artístico assemelha-se ao da poesia. O que esta faz pelo arranjo rítmico e sonoro das palavras, o pointor faz mediante o arranjo perpectivista e mediante a iluminação e as cores.
Exemplifiquemos: “No Bar” (óleo s/tela); “Telhados de Paris” (acrílico/s/tela); “Fonte no Boulevard Saint-Michel” (óleo s/tela); “Shakespeare and  Co.(óleo/s/tela); “Deux Magots”(acrílico s/tela); “Voyeur no Louvre” (óleo/tela);  Rue de Buci”( óleo s/tela).
Para apreciar tais pinturas, o contemplador deverá desacelerar o fluxo de sua consciência, e entrar numa sorte de devaneio à Gaston Bachelard. O contemplador, em seguida, dirigirá a si mesmo uma questão: é verdade que a fotografia pode ser subliminal, e que a nudez da fotografia consiste em se vestir de novas alusões? Daí a presença imperativa de uma forma estética extremamente elaborada, que converte as pinturas de Ivan em fetiches de elegância.
Ivan quer ser simultaneamente fotógrafo e pintor. A transmutação artística realiza-se nesse im-previsto, que é paradoxalmente previsto em cada detalhe.
A mim me fascina tal modalidade de fotografia-pintura. Fascina-me sua ambigüidade. É fotografia? Sim, é fotografia. Mas é fotografia que, a cada momento, repele sua objetividade, parecendo dizer ao contemplador: “Sou uma mulher, mas sou mais que fêmea...”
Como assim?
Se o contemplador não viu nada além da epidermicidade das pinturas de Ivan, não viu tudo.
 Se, porém, o contemplador viu algo além da  epidermicidade, então ele há de descobrir, com o tempo, não só um celebrante do design moderno, de suas seduções funcionais, mas até um crítico de nossas fantasias do efêmero.
Ivan é um epicurista, mesmo quando ironiza. Mantém seu invariável savoir-faire. Em outros termos: permite-se gozar do mundo – do próprio consumo e do consumidor – porém sem chatear ninguém. Sem ideologia. Ou com uma ideologia maliciosa!
Se alguém objetar, dizendo: “Mas afinal, onde aparece a imaginação criativa de Ivan?”- pode-se replicar:
 - Hoje todo o mundo possui aparelhos fotográficos digitais. Nem por isso as fotografias criativas, ou simplesmente estéticas, se tornaram comuns.
Cézanne disse de Monet: “Monet é um olho! Mas que olho!”
Não basta, pois, fixar os olhos sobre algum objeto.
Para torná-lo artístico é preciso compor, isto é: selecionar ângulos, tornar tangível (aos olhos) o espaço, fazer emergir texturas, arquitetar planos, rimar as cores, produzir consonâncias óticas.
 Observem a pintura: Cristais (óleo sobre tela).
 O autor nessa tela desfocou a extremidade superior, acentuando, no primeiro plano, uma jarra, à qual adicionou, por contigüidade, duas cores: topázio e vermelho-vinho. O conjunto obedece a um “projeto” que poderia ser formulado assim: que as pessoas sintam e introjetem a cristalinidade desses cristais, sua condição de objetos transparentes e frios, sua magia caleidoscópica que lhe é dada por seus reflexos.
Além disso, Ivan Pinheiro Machado tenta reativar um gênero abandonado: as naturezas-mortas. Ou Naturezas-vivas? Não as qualificaria assim.
O que são, então?
Talvez naturezas funcionais.
Bem, escolhamos o nome que quisermos... Se alguém preferir chamá-las de naturezas-do-bom gosto, naturezas-turísticas, chame-as.
O historiador inglês, Kenneth Clark lembrou, certa vez, que o gosto se manifesta na escolha de uma gravata!
 O que significa que a Arte é, essencialmente, uma experiência acessível a todas as pessoas. É uma experiência carnal. Se alguém não sentir que é assim, desanime de compreender a arte.
A carne é fraca, diz o Evangelho, mas é a única forma de se entender e amar a arte.
Não me referi, até este momento, às pinturas de paisagens do artista. Citei, apenas, de passagem, a tela dos telhados parisienses. Aparentemente, tais pinturas se apresentam quase como cartões-postais.
No que me diz respeito, aprecio particularmente uma pintura de um recanto de Paris, que o artista figurou numa hora de solidão: Deux Magots (acrílico s/tela). Que fascínio tristonho exalam aquelas cadeiras, aquelas mesas de bico calado! Aquele retângulo de objetos com articulações indistintas.
Lá no alto, uma lâmpadazinha espiã!
Se o contemplador não apreciar tais metamorfoses de fotografias, sugiro-lhe que fale em Hiper-realismo, ou em outros ismos, mas desista de compreender a sutileza da produção pictórica de Ivan.   
Em resumo: quando Ivan Pinheiro Machado apanha o pincel, ele desinteressa-se de tudo, menos de poesia.    

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