quarta-feira, 11 de maio de 2011

É Preciso uma Leitura Crítica de Jornais

Martin Lutero
        A comunicação, em nosso mundo contemporâneo, atingiu tais índices de abrangência que nós, anônimos leitores de jornais e revistas - ou aficionados às telinhas da televisão - já não sabemos como distinguir o trigo do joio.
        Ninguém desconhece que as notícias, que chegam até nós vêm embaladas. Isto é, não se apresentam como realmente acontecem, mas como os  jornais, e os financiadores de sua publicidade, querem que aconteçam.
        Se um indivíduo – digamos, para dar uma palhinha a alguém que está sendo demonizado, o Ditador Kadhafi, diz tal coisa, quem poderá dizer que ele realmente a disse? É claro que a televisão está aí para possibilitar-nos dizer aos que dominam as línguas dos  ícones: “Ouvi tal declaração”.
        A locução, sem dúvida, pode ser testemunhada.
         Mas quem garante que suas palavras não foram objeto de estratégias eletrônicas? No cinema as imagens e palavras são, por vezes, tão habilmente dubladas que é difícil saber se se trata de uma fala real, ou coladas aos lábios dos indivíduos que as “proferem”.
        Sem dúvida, as notícias vêm de alguma parte, dependem de alguém  – ou testemunha ocular - ou de outro emissor. A testemunha ocular pode registrar determinado fato, digamos um seqüestro, um roubo. As imagens de seu celular, ou de sua câmera digital, podem apresentar uma versão áudiovisual do ocorrido.
        Quem pode apresentar a versão?
        Uma ocorrência pode ser vista  sob muitos pontos-de-vista. O melhor exemplo é o do futebol: a bola entrou ou não no arco? Os replays sucedem-se para que nos convençamos da realidade. Se isso se dá nos estádios, onde estão milhares de espectadores, e centenas de fotógrafos e cinegrafistas, que se dará numa rua de Trípoli ou Misrata?
        Não estou fazendo a apologia de ninguém, muito menos de um potentado muçulmano que se impôs ao seu povo pela força.  Estou tentando situar-me em relação aos fatos.
Fato, por definição, é o que realmente acontece.
        O problema é a verificação do fato. Noutras palavras: constatar que a ocorrência não só se deu, mas se deu de tal modo.
         Tomemos um caso recente: a invasão da casa de Bin Laden, e a eliminação do terrorista número 1.
        Creio que todos concordam que a invasão ocorreu realmente. O problema é como ela ocorreu. A opinião mundial ainda não está satisfeita com as imagens que lhe foram fornecidas pelo serviço de imprensa da Presidência dos Estados Unidos.
        Mencionei fatos que tiveram interpretações diversas.
        Tentemos um esclarecimento maior.
        A maioria dos leitores já deve ter ouvido falar em Exegese Bíblica.
        Que se entende por isso?
Entende-se que chegaram até nós – restrinjamo-nos ao Novo Testamento – vários escritos sobre Jesus, sua mensagem doutrinal, sua existência histórica. Chegaram até nós, mediante tais textos, relatos de suas atividades, inclusive de seus milagres, fatos inexplicáveis do ponto de vista puramente humano, ou ao menos, do ponto de vista das explicações humanas da época dos milagres.
        Em princípio, há razões para admitir a credibilidade a respeito dos escritos. Ou seja: não existem provas sérias de que tais “repórteres” evangélicos tivessem divulgado invencionices ou mentiras. Mais ainda: a partir desses fatos, os estudiosos bíblicos propuseram uma cronologia dos mesmos. Tais intérpretes autorizados estudaram os textos nas suas versões mais antigas, confrontando-os com outras versões, buscando provas relativas aos costumes da época, e às situações geográficas locais.
        Demos um exemplo: os Evangelhos falam em pescarias no Lago de Genesaré. Primeira pergunta: existia esse lago no tempo de Jesus? Havia peixes no lago? Etc. etc.
        Tenho lido uma bibliografia respeitável a respeito dos Evangelhos. Para mim não existem razões plausíveis para se desconfiar dos seus intérpretes autorizados.
        Já no século XIX, o famoso escritor francês, Joseph Ernest Renan (1823-1892), empreendeu uma viagem à Palestina para certificar-se de detalhes que lhe interessavam: expressões lingüísticas, usos dos camponeses, restos de edifícios citados nos evangelhos... Depois dele, muita gente mais foi à Palestina  em busca das pegadas de Jesus.
        Em 1908, o Padre dominicano Joseph-Marie Lagrange fundou a Escola Bíblica de Jerusalém, que muitas décadas após, publicou a Bíblia de Jerusalém, imponente trabalho de erudição dos experts  católicos. Antes disso, muito antes, Martinho Lutero (1483-1546) preocupara-se em traduzir a Bíblia para a língua alemã. Sua tradução foi tão importante, que ele é considerado o fundador do idioma de Goethe.
        Se os leitores desejam obter informações exatas a respeito,  leiam o livro: Lutero, o Escritor, organizado por Leopoldo Heimann (Volume III, da Coleção “Forum Ulbra de Teologia”. Canoas, Editora da Ulbra, 2005). Nessa coletânea, encontramos um estudo: “Lutero e os Princípios de Tradução”, de Rudi Zimmer, que merece carinhosa atenção. É um estudo documentadíssimo, baseado nos escritos do próprio Lutero. Os escritos de Lutero o leitor os poderá  encontrar no volume 8 de suas Obras Selecionadas (publicadas pela Comissão Interluterana de Literatura, através das Editoras Sinodal e Concórdia).
        É apaixonante verificar o que o grande Reformador fez para traduzir para o alemão os textos sagrados. Rudi Zimmer é um pesquisador brasileiro, Pastor da IELB, doutor e secretário de traduções da Sociedade Bíblica do Brasil. Um profissional, portanto, de alto gabarito. Por ser o que é, estudou outros autores dos últimos 60 anos, especialmente Eugene A. Nida, o conhecido ex-coordenador das traduções das Sociedades Bíblicas Unidas. Só lendo o estudo de Zimmer, podemos dar-nos conta da obra ciclópica de Lutero, de sua fidelidade aos textos.
        Quando Lutero empreendeu o seu trabalho, já existiam em alemão, anteriores ao lançamento de seu Novo Testamento  em 1522, 18 outras versões. “Dessas 18 traduções, precisa  Zimmer, 14 eram em alemão erudito, e quatro em alemão popular”. (Ib. p. 122). Notemos que Lutero não pôs mãos à obra por mero diletantismo.
        O Reformador:
        - acreditava que o Espírito Santo desempenhava um papel vital na obra de tradução.  (Milton L. Watt, citado por Zimmer. Ib. p. 123).
        Não se pense, porém, que Lutero simplesmente se entregava ao Espírito Santo, numa espécie de arrebatamento místico. Lutero orava com humildade, pedindo a Deus luzes, e depois trabalhava duro, com encarniçamento, para chegar à expressão em alemão que lhe parecia mais próxima dos originais gregos.
        Vale a pena deter-se na sua tradução da Carta aos Romanos, de São Paulo, no célebre versículo Rm 3, 28, o da sola fides. Quanta tinta correu de 1522 até hoje sobre essa interpretação de Lutero!
         Lutero admitia:
         ­— É verdade, estas quatro letras de  sola  não constam ali, letras essas que os burros enxergam como uma vaca enxerga uma porteira nova, mas não vêem que, mesmo assim, elas contêm o sentido do texto, e quando se quer traduzir com clareza e contundência, é preciso incluí-las, pois eu quis falar alemão, e não latim, nem grego, uma vez que me propusera traduzir para o alemão. E esse é o estilo do nosso idioma alemão: quando se fala de duas coisas, das quais uma é afirmada, e a outra negada, utiliza-se a palavra solum (“allein”: somente), além da palavra nicht  (“não”) ou  kein (“nenhum”), como quando se diz: o colono traz somente grãos, e nenhum dinheiro; não, agora não tenho dinheiro, mas somente grãos.  (Cf. Carta Aberta. P. 211, 12-25; cit. por Rudi Zimmer. Ib. p. 127-128).
        Todo o estudo de Zimmer é um viveiro de estimulantes reflexões.
        Mas Zimmer  deixa o leitor atônito com sua afirmação, a seguir, de que Lutero continuou revisando sua tradução do Novo Testamento até ao fim da vida. De 1529 a 1541, ele fez revisões. A edição de 1545 é considerada a tradução que contêm as derradeiras  anotações do Mestre. Zimmer mostra como a versão de Lutero do Salmo 23 foi objeto de permanentes aprimoramentos.
        Essa digressão foi inserida, aqui, para que o leitor se aperceba de que devemos empreender esforço contínuos para chegar à verdade. Se isso ocorre em relação aos textos sagrados, como não deveríamos desconfiar do que se difunde em termos de declarações humanas, não são submetidas a crivos lingüísticos, ou se quiserem, a filtros semânticos.
        Na atualidade, até as fotografias e vídeos podem ser... trapaceados!
        Que faremos?
        Não sugerimos que nos tornemos cépticos, ou cartesianos fanáticos; não sugerimos que desconfiemos de nossa existência pessoal: “Eu penso, logo existo”.
Houve, até,  alguém que aventou a idéia de que o próprio Descartes poderia ter sido enganado por um daimon  (um demônio travesso) que lhe sussurrasse a famosa fórmula.
        A maioria do que admitimos – é forçoso reconhecer - nós o admitimos por testemunho. Imaginem se cada um de nós tivesse de verificar os dados históricos de Plutarco e Suetônio, ou passar pelo pente-fino a Carta de Pero Vaz de Caminha, exigindo que os historiadores exibissem um Atestado de Sanidade Mental, emitido pelas autoridades portuguesas da época, sobre o nosso cronista...
        Entre oito e oitenta é possível encontrar um lugar ao sol.
São Tomás de Aquino talvez consiga socorrer-nos nesta altura.
        Buscando demonstrar que a Fé Cristã não é irracional, o grande Doutor propôs a seguinte questão:
        - Alguém poderia objetar: “É insensatez crer no que não se vê. Só se deve crer naquilo que se vê”.
        Explica o Santo:
        - Respondemos a tal objeção com as seguintes razões. Em primeiro lugar, a própria limitação da nossa inteligência afasta semelhante dificuldade. Se o homem pudesse conhecer perfeitamente, por si, as coisas visíveis e invisíveis, seria insensatez crer nas coisas que não vemos. O nosso conhecimento, porém, é tão restrito que nenhum filósofo até hoje conseguiu compreender totalmente a natureza de uma mosca. Conta-se que um filósofo viveu trinta anos no deserto, procurando conhecer a natureza das abelhas. Se nossa inteligência é tão débil, seria muito mais insensato crer, a respeito de Deus, somente naquilo que o homem pode conhecer por si mesmo. Lemos no Livro de Jó, 36,26: “Deus é grande demais para que O possamos conhecer”. (O Credo de São Tomás de Aquino. Trad. de Armindo Trevisan. 2 edição. Petrópolis, Editora Vozes, 2006. p. 17-18).
        Qual a atitude a adotar perante a avalanche de informações que ameaça submergir-nos?
        Prudência! Muita prudência.
        Na atualidade, a pretensa objetividade das comunicações audiovisuais deve ser problematizada.
        Não negada!
        Simplesmente submetida a pressões da inteligência. Como o fazemos com as demais realidades terrestres. Queremos saber se determinada “jóia” é ouro ou bijuteria, submetâmo-la a provas científicas, de natureza química, à água-régia por exemplo.
        Queremos saber se um fato jornalístico é fato ou invencionice, trapaça, manipulação, ou distorção política? Submetamos, na medida do possível, tais noticias a critérios rigorosos de verificação.
        Será possível isso?
        Nem sempre.
        No Salmo 116 (antigo  Salmo 114-115), na versão autorizada da Bíblia de Jerusalém, lemos:
        - Eu tinha fé, mesmo ao dizer:
        “Estou por demais arrasado!”
        Em meu apuro, eu dizia:
       “Os homens são todos mentirosos!”
        (A Bíblia de Jerusalém. Nona edição revista. São Paulo, Edições Paulinas, 1991. p.1080).
        Uma coisa é certa: estamos – todos – por demais arrasados! Estamos – todos – em apuro...
        Será que o Presidente Barak  Obama não se encontra na mesma situação que nós?
       A humanidade está  atravessando uma nova era, a da Informática, cujo Gutenberg são vários inventores do século XX. Todos aproveitaram a invenção do impressor da Bíblia de 42 linhas. Sem Gutenberg, não teríamos os computadores, nem a internet, nem nada.
        Os medievais deixaram nos vitrais das catedrais uma imagem sugestiva: seus artistas puseram os Apóstolos, e os Doutores da Igreja, sobre os ombros dos Profetas de Israel. Queriam significar que os Apóstolos não poderiam ver mais longe se não estivessem sobre ombros de profetas já mortos.
        Tenhamos a humildade de reconhecer que a nossa arrogância atual precisa de antibióticos, como precisam deles nossos corpos varridos por vírus. 
       

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