quarta-feira, 25 de maio de 2011

Dois Assassinatos fizeram-me Descobrir o Pecado Original

      Sempre tive, como cristão, dificuldade em “entender” dois mistérios: o Mistério da Santíssima Trindade e o Mistério do Pecado Original.
O Catecismo ensinava-me que Deus era um só. Se nós, crianças, bem entendíamos, existia um único Deus! Mas a catequista nos explicava que Ele era Três Pessoas.
Como assim: primeiramente Um, depois Três?
Oh ignorância!
Lembro-me de ter lido que quando Graciliano Ramos queria ironizar alguma coisa como absurda, dizia: É como a Santíssima Trindade!
Pobre Graciliano! Ele era, sem dúvida, um escritor genial. Entendia de retirantes, sabia como ninguém o que o que era o Nordeste, melhor do também o genial (sob certo sentido), o sociólogo Gilberto Freyre.
Contudo, no Brasil como na Europa,é conveniente que cada macaco fique no seu galho, principalmente em se tratando de Teologia, e de Teologia altíssima.
Percebo, hoje – apenas percebo, é verdade, – uma realidade: se Deus não fosse Trindade, seria talvez um insuportável Celibatário, sem coração, incapaz de manifestar ternura para com suas criaturas. O fato de Deus ter um Filho é algo, não para se comparar com a paternidade humana, em particular nos tempos atuais de míseras paternidades, mas para condená-la, por ser tão pouco semelhante à divina.
Quando Jesus teve de explicar aos seus ouvintes Quem era o Pai Celeste, contou-lhes a Parábola do Filho Pródigo, que talvez devesse ser renomeada: Parábola de Como Deus É Pai.
O Credo Cristão (católico e protestante) principia com estas assombrosas palavras: Creio em Deus Pai!
Notem: tanto os católicos como os protestantes não confessam apenas Deus. Confessam, também, que Ele é Pai! E que Jesus, seu Filho Unigênito se fez Homem. E que o Espírito Santo é o vínculo de Amor Pessoal que une o Pai ao Filho, e o Filho ao Pai. Embora não se possam atribuir qualidades sexuais a Deus, deve-se considerar o sexo como uma criação de amor, que se revela na sua fecundidade (a criança que procede do homem e da mulher), e na relação entre marido e mulher, que tem como objetivo, não unicamente o deleite da mútua companhia, mas, de modo singular, a reciprocidade na dor e na alegria. O masculino e o feminino, à luz da concepção cristã, só têm sentido neste mundo, cuja figura passa, uma vez que, no estado final de felicidade, o sexo existirá apenas como souvenir comovido de uma relação, não como fator de felicidade.
Minha outra descoberta foi a do Pecado Original. Descobrir é tirar um pano, um véu, algo que cobre alguma coisa, revelar o que estava escondido. Colombo descobriu a América, e Pedro Álvares Cabral, o Brasil. Mas tanto a América como o Brasil existiam há muito tempo! O que os descobridores fizeram foi achar um continente que já estava aí. Só faltava ser achado!
Cada vez que, no Catecismo, me falavam do Pecado Original, eu pensava numa maçã, e numa Serpente super-esperta que havia logrado Adão e Eva, metendo-lhes na cabeça que na fruta estava um segredo maluco: ser como Deus!
Pobre de mim!
Nunca teria imaginado que em ser como Deus é que estava o segredo! Só com os dois assassinatos das duas últimas semanas cheguei, definitivamente a compreender o mistério que a Bíblia ocultava. Descobri o segredo com que a espertíssima cobra tornara infelizes nossos primeiros pais!
Na realidade, a Serpente não pensava numa maçã, dessas que a gente compra nas feiras e nos mercados-públicos, dessas que vêm embaladas em saquinhos plásticos. Nada disso. A Serpente visava mais alto: ela queria que Adão e Eva fossem como Deus!
Ora, para eles serem como Deus, só havia um jeito: assassinar a Deus!
Foi o que eles fizeram mentalmente, quando comeram a fruta. Comeram, é modo de dizer! Na realidade, Adão e Eva cometeram um assassinato de intenção: se dependesse deles, eles teriam liquidado Deus, para ocuparem seu lugar, e depois, naturalmente, tentarem matar um ao outro, para que sobrasse um único Deus!
Jamais os pobres coitados, que saíram com tangas do Paraíso, imaginaram que Deus era Três Pessoas, e que, se tivessem de matá-lo, teriam de matar Três Pessoas!
É verdade que os Filhos de Adão e Eva, isto é, nós todos, fomos dignos deles. Tentamos matar – e o matamos – o Filho de Deus, Jesus!
Até agora, os homens só não tentaram assassinar o Espírito Santo!
Perdoem-me essa linguagem teológica torpe, quase de gíria.
Mas , se alguém meditar os textos da Bíblia e do Novo testamento, chegará a mencionada arqui-assombrosa conclusão a que eu cheguei.
Se um leitor da Bíblia for além da criação de Adão e Eva, prosseguir lendo, deparar-se-á com o primeiro pecado dos homens depois do de Adão e Eva: o de Caim.
Foi também um assassinato – um assassinato humano.
Sigam em frente: vocês toparão com outros pecados, sempre de assassinatos. Por exemplo, o de José do Egito. Os irmãos pensavam inicialmente em assassiná-lo.
Quanto à David, não mandou ele matar o marido de Urias, para ficar com Betsabé, sua mulher?
A maioria absoluta dos pecados bíblicos não são pecados contra a castidade, pecados de volúpia, mas pecados contra a vida. Pecados de assassinato. Se excetuarmos alguns pecados aqui e acolá, de adultério e sem-vergonhice debochada, os demais pecados voltam a ser pecados de ódio e vingança, de criminalidade baixa.
Resumamos – PECADOS CONTRA A VIDA.
A própria guerra do Faraó contra os judeus, que outra coisa foi senão uma cadeia-contínua de assassinatos contra o Povo de Iahweh?
Foram precisos, pois, dois assassinatos, dentro da minha intimidade pessoal, a eliminação de dois amigos queridos, um de verdade, outro só de intenção, para os meus olhos se abrirem!
A verdadeira natureza do Pecado original nada tem a ver com maçã, nem com pecados carnais, nem com outros desvios abjetos da conduta humana. Tem a ver com uma coisa: com assassinatos.
Leiamos São João, o Discípulo Confidente de Jesus.
Ele diz explicitamente no seu Evangelho.
Para que ninguém desconfie de mim, cito duas traduções, a de João Ferreira de Almeida (a mais usada pelos Protestantes) e a da Bíblia de Jerusalém, a mais reputada entre as versões católicas:
I.       Evangelho de São João de João Ferreira de Almeida, capítulo 8, versículo 44:
Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio, e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade.
II.     Evangelho de São João, capítulo 8, versículo 44 do Novo Testamento (da Bíblia de Jerusalém):
Vós sois do diabo, vosso pai, e quereis realizar os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não permaneceu na verdade, porque nela não há verdade...

Homicida?
O demônio é, antes de tudo, um assassino!
Quando Jesus quis caracterizar sua missão neste mundo declarou:
Evangelho de São João, capítulo 6, versículo 35:
Eu sou o pão da vida.

Quem de nós, que tenha ido a algum sepultamento, não ouviu o sacerdote dizer, ao lado do ataúde:
Evangelho de São João, capítulo 11, versículo 25:
Eu sou a ressurreição e a vida.

Concluo:
O verdadeiro pecado original, pai de todos os pecados, dos atuais e futuros, é o assassinato, o homicídio, o atentado contra a vida, e sobretudo, o atentado dos atentados, que é a Guerra, o assassinato indiscriminados de todos que possam ser atingidos!
Se a Igreja quiser ser fiel ao Evangelho de Cristo, só tem um caminho a seguir: o caminho Daquele que disse:
- Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. (Evangelho de São João, capítulo 14, versículo 6).

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