terça-feira, 10 de maio de 2011

Dia das Mães: uma lembrança estimulante.


Madona e o menino, Rafael Sanzio
         Neste ano de 2011, ouvi pela primeira vez uma homilia de pároco sobre o Dia das Mães que me fez refletir sobre a sua condição incrível de mães, um verdadeiro mistério.
        Na maioria absoluta das vezes, aproveita-se essa data para oferecer aos fiéis (e os jornalistas aos leitores) uma verdadeira inundação de lugares-comuns – embora eu adore tais chavões, tantas vezes repetidos, a ponto de já não terem quase nada da cor original que lhes deu origem. Contanto que os oradores não empreguem o adjetivo extremosa, perdôo-lhes tudo! Até a citação do verso arqui-famoso:
        - Ser mãe é padecer num paraíso...
        Talvez o seja, para uma mãe de primeira viagem, mas para a maioria delas, sobreviventes decomplexos convênios de saúde, ou de todos os SUS, e SUS-PIROS, nas mais variadas modalidades de embalagens, sinceramente, ser mãe é ser uma criatura única, disposta a agüentar o insuportável, inclusive maridos machistas, ou de meio-expediente.
        A propósito: tenho o máximo respeito pelas mães solteiras, algumas delas mais maternas que as mães oficiais, uma vez que ser mãe é assumir a tarefa maior confiada a um ser humano: transmitir a vida, cooperar com o Criador para que essa chama insubstituível e venerável jamais se extinga.
       Falando nisso, começo por informar que, no dia oito de maio do corrente ano, não me achava em Porto Alegre, mas, acompanhado de minha mulher (permitam-me, en passant, render-lhe uma homenagem, a ela, mãe de meus filhos, e à minha mãe, ainda viva, no alto de seus 97 anos de primaveras e invernos inclementes: prodigiosas mulheres, mulheres carinhosas, mulheres que fazeis jus às Ana-Terras e Bibianas do Erico Veríssimo!
        Volto ao fio de minha conversa: vi-me obrigado a estar, por motivos profissionais, numa cidade da fronteira.
        Lá fui à missa vespertina, no Dia das Mães, disposto a consumir humildemente, pela enésima vez, um feixe enorme de adjetivos sem brilho - de tanto Bombril que suportaram nas últimas décadas: amorosas mães, dedicadas mães, esforçadas mães, exemplos maravilhosos de maternidade responsável, espelhos da Virgem Mãe Maria, intrépidas heroínas das noites silenciosas, das mamadeiras fora de controle, das insônias milionárias de nossas metrópoles poluídas por decibéis endoidecidos...
        Nada disso!
        Surpreendo-me, no interior de uma comunidade, cujo pastor discreto, de cabelos brancos, rosto quase pergaminhado, nos dirige uma pregação frugal, em termos simples, acessíveis a todos o mundo, baseada fundamentalmente nos seguintes pilares evangélicos:
        I. A vida, em geral, sobretudo a vida humana, é uma coisa tão sagrada e tão bela que só pode ter sido criada por Deus, o Autor de todas as coisas, visíveis e invisíveis.
        II. As mães são a parte mais responsabilizada pela transmissão da vida entre os humanos, dado que elas engravidam, e têm de carregar, dentro de si, durante nove meses, o fruto de seus ventres que, evidentemente, é concebido com sêmen varonil.
        III. As mães, principalmente, mas os pais também devem persuadir-se de que a Família não é uma invenção humana, mas possui seu arquétipo - seu Modelo Eterno - na própria Família Divina, pois Deus é uma Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo.
        IV. O sexo humano é um eco lírico da Comunhão Eterna das Três Pessoas, o Gerador Incriado, que engendra o Pensamento de Deus e o seu Amor, isto é, o Filho e o Espírito Santo.
        V. Portanto, celebrar o Dia das Mães é erguer um Hino ao Amor e ao carácter fecundo da união matrimonial, bem como do carácter deleitável, passional e enternecedor, dessa união, em que não só os corpos se unem (mas as almas também – embora o final desta frase, a evocar um poema de Manuel Bandeira, não seja dele, mas do autor deste blog).
        VI. Daí a conclusão espantosamente luminosa e lógica do discreto pároco: “A mulher, que não considera a vida um dom divino, isto é, não apenas desta terra, mas imortal pela graça de Deus, não deve dar à existência a um ser que ela considera condenado ao sofrimento e à morte. Só quem tem a plena convicção de que a morte não é a última palavra da vida, mas uma palavra interrompida, e no futuro retomada em outro nível de vida, graças à promessa da Ressurreição de Cristo, pode conceber um filho sem acusar-se de ser autora de uma desgraça, ou de ser uma egoísta preocupada em defender-se dos tropeços e cotoveladas da vida.
        VII. No fim, o discreto ministro de Deus, oficiante do culto litúrgico em ação de graças pelo Dia das Mães, convidava a assistência a regozijar-se por ter o Senhor – o Senhor Jesus, que também teve uma Mãe terrena – concedido a todos os homens terem uma mãe e um pai, isto é, uma família, à imagem da Família Divina, Espiritual e Eterna.
        VIII. O sacerdote convidou, finalmente, a assistência a agradecer às Mães Falecidas, porém Vivas na presença de Deus, tudo o que lhes deviam em assistência, dedicação e carinho.
        Convenhamos:
        - não é usual vermos e ouvirmos um sacerdote, no Dia das Mães, subir tão alto, e descer tão perto das suas “ovelhas”, em suas considerações religiosas. Foi, para mim, uma agradável e proveitosa ocasião de refletir sobre tais alicerces profundos de nossa Fé, para não nos deixarmos enredar, ingenuamente, nas tramas do marketing – que, a rigor, não é condenável – desde que os supermercados, shoppings, armazéns e mercearias de bairro, não se concentrem exclusivamente no monstro anônimo do lucro e da ganância, que faz seus proprietários esquecer que eles, também, um dia foram bebês, mamaram nos peitos de uma mulher – ou de uma ama, como o autor deste texto, que aproveita a oportunidade para agradecer àquela anônima mãe negra que permitiu que sua vida – isto é, a vida de cada um de nós – tivesse a chance de se abrir como uma flor, e mais tarde, como um fruto, pois todos nós somos os frutos benditos de um  ventre, semelhante ao da Virgem Maria. 
        Com a anuência benévola dos leitores, permito-me apresentar-lhes um poema de meu livro A Mesa do Silêncio, de 1982:

        Canto X  à Maternidade 

        Dorme, minha mãe, em meus braços
        como a lua na clareira de um bosque.
        Ali estou à tua espera
        desde que teu ventre se aligeirou
        com meu peso. Teu sono é meu sono,
        povoado com os sonhos que esqueceste
        no sangue. Visto-te com as folhas
        dos suspiros que não nasceram.
        Além de mim
        te reconquisto
        em cada flauta de álamo
        ou pluma de chuva. Dorme, senhora,
        neste espaço que já foste em mim
        e hoje sou no alpendre
        de tua boca
        fechada como um favo.

2 comentários:

  1. Tão lindo a tua poesia..
    Derreteu-me
    e me desfiz em lágrimas
    silenciosamente
    já filha, já mãe
    agora avó
    Obrigada
    Terezinha Becker

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  2. Trevisan, é incrível como a sabedoria da Igreja se estende até os lugares mais ocultos deste mundo, não?
    Achei belíssimos esses versos do teu poema:

    "em cada flauta de álamo
    ou pluma de chuva"

    "hoje sou no alpendre
    de tua boca
    fechada como um favo"

    Um abraço, Adriano Wintter

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