quarta-feira, 25 de maio de 2011

Carta a um Amigo Querido

      Marcelo:
nunca teria imaginado – oh nunca! -que tu e eu seríamos aqueles dois discípulos que, imediatamente após a morte de Jesus, sairam de Jerusalém, de regresso às suas casas, uma vez que não havia mais nada a fazer na Cidade Santa, onde Cristo fora crucificado.
Lembras-te do capítulo 24 do Evangelho de São Lucas?
Começa assim:
-Naquele mesmo dia, o primeiro da semana, dois dos discípulos iam para um povoado chamado Emaús, a uns dez quilômetros de Jerusalém. Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido. Enquanto conversavam, Jesus aproximou-se, e começou a caminhar com eles.
Lembro-me bem de quando, pela primeira vez, apareceste em nosso apto. Vocês formavam um grupo de estudantes, de que fazia parte Melissa, que se reuniam para meditar a Bíblia, e se divertirem aos domingos, como qualquer grupo de rapazes sãos de mente e de corpo.
Mais tarde, as obrigações profissionais dispersaram vocês. Alguns casaram, e tiveram filhos. O grupo nunca se desfez. Vocês continuavam a encontrar-se, e eram solidários uns com os outros, celebrando aniversários, auxiliando-se nas atividades profissionais, trocando idéias,
Um belo dia, tu apareceste em nosso apto, convidando-me a fazer uma palestra aos teus colegas de profissão, da área dos fornecedores de peças para automóveis, que tinham o belo costume de se reunir-se mensalmente, desejando estreitar laços de amizade. Fui ao encontro de vocês, e lhes expus o tema que me tinham proposto: O que se entende por Ética, e por Ética Cristã em particular.
Fiquei impressionado com o respeito e a atenção de vocês. Após o evento, vocês me serviram um carreteiro, proporcionando-me uma excelente ocasião para conhecer melhor cada um de vocês.
Eis que agora, numa tarde de sexta-feira, és assaltado à saída de um banco, carregando uma quantia modesta, destinada a saldar obrigações assumidas, e também para atender às necessidades de tua família, mãe e irmã, da qual és o sustentáculo.
Uma dobradinha de motoqueiros, desses que agem com a cumplicidade (por falar nisso: de quem? Não acredito que um bancário possa estar acumpliciado com tão vulgares delinqüentes, cheios de ganância, os quais, mediante seus celulares, combinam assaltos do interior das sedes bancárias! Quem os favorece? Quem lhes permite, como eu próprio vi, ficarem por aí, zanzando, dentro dos bancos, como se estivessem numa praça, a observarem as andorinhas? Uma dessas dobradinhas te esperou na frente de um Banco, e quando foste abordado pelo motoqueiro, deves ter sofrido uma perturbação mental, pois, ao invés de lhe entregares teu dinheiro, resolveste virar-lhe as costas, e voltar para a sede bancária. Neste momento, o motoqueiro atingiu tua coluna vertebral com um projétil e – se é verdade que não conseguiu matar-te – te deixou paralítico das duas pernas...
Querido Marcelo: aos 35 anos!
Que te direi?
Humanamente falando, não tenho nada a dizer!
Nada?
Só que não podemos deixar de falar!
Não podemos deixar de gemer, sussurrar, murmurar!
É nossa maneira de urrar, de uivar, de berrar – caso fôssemos tigres, lobos, touros!Somos seres humanos, e algo mais do que isso: somos cristãos, filhos adotivos de Deus.
Não te disse, no início desta mensagem, que éramos os Dois Discípulos de Emaús?
Sim, estamos a caminho de Emaús, e vamos... desanimados! Se quiseres, podes chamar-te Cleofas, um dos dois discípulos, justamente o que interpelou Jesus:
- És tu o único peregrino em Jerusalém que não sabe o que lá aconteceu nestes dias?
Pois aí está Ele,Jesus, que prometeu estar conosco até à consumação dos séculos.
Agora estamos nós, diante Dele, perguntando:
- Por que tal crime?
Não encontramos resposta. A única que nos vem aos lábios é a de todo o mundo: fatalidade.
Indago: quem pode consolar uma mãe pela perda de um filho atropelado por um motorista machista?
Quem pode consolar um irmão por um amigo imobilizado por uma bala. desferida por outro indivíduo, cuja vida foi pervertida por uma família desagregada, e um ambiente de vício e drogas?
Quem pode consolar-nos, a nós, se a sociedade martela que o importante neste mundo é subir na vida, isto é, ganhar dinheiro, dinheiro, dinheiro?
Jesus perguntou a Cleofas:
- Que foi?”, O que é que aconteceu?
Nós explicamos a Jesus o seu próprio drama. Descrevemos-Lhe o que Ele tinha experimentado no seu próprio corpo: a crucifixão, e a lançada no peito.
Que te direi, então, Marcelo?
Direi o que Jesus disse àqueles dois discípulos, e o que Ele diz a nós (que,entramos no hospital com lágrimas nos olhos, e saímos do mesmo jeito), a nós, obrigados, pelas exigências da vida (pensa num recém-nascido, por exemplo, em meu neto Eduardo, filho da Melissa, que tem 9 meses), e pelas exigências do Evangelho – a reagir, e a não desconfiar de que, mesmo o pior mal, não foge ao poder de Deus, que dele extrai um bem incompreensível.
Não me perguntes, pois, como é que isso acontece!
Ouçamos Jesus:
- Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os Profetas falaram! Não era necessário que o Cristo sofresse tais coisas para entrar na sua glória? E começando por Moisés, e passando por todos os Profetas, lhes e[AT1] xplicou em todas as escrituras as passagens que se referiam a ele.
Ah, Marcelo, Ele está conosco também agora, mais conosco agora. É possível que Ele volte a nos dizer aquelas palavras severas, que sempre me impressionaram:
- Ó gente sem inteligência...
Repliquemos:
- Senhor, é a pura verdade! Mas o que podeis esperar de nós? Não conseguimos ter inteligência para entender crimes como esse...
Que nos resta, então?
Resta-nos a Fé.
A solidariedade, e o carinho dos amigos.
O ímpeto da vida, que é maior do que nossos projetos e prazeres, do que nossas ambições e sonhos!
Resta-nos dizer: associamo-nos-me a Vós, Senhor, que sofrestes sendo a própria Inocência!
Resta-nos olhar para a humanidade que é massacrada, e dizer: ”Ajudai-nos, Senhor!”
Na Ressurreição prometida, não haverá mais delitos, não haverá mais paralisia das pernas, não haverá mais dificuldade de locomoção.
Não haverá, principalmente, falta de amor, o câncer da alma!”

Somos, Marcelo, os Discípulos de Emaús, e não entendemos Jesus!
Só cremos Nele.
É tudo o que podem dizer-te os amigos.
É tudo o que pode dizer-te o próprio Jesus, que disse: Eu venci o mundo!
Se venceu, venceu tudo o que existe neste mundo, que às vezes nos fascina com seus encantos. Mas a realidade é que ninguém ficará para sempre aqui.
Quem fala, agora, não sou eu: é a Fé, maior do que nós, e que se manifesta quando cessamos de falar, e ajoelhados oramos:
Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, Vós aí estais!
Abraça-te o pai da Melissa.

 [AT1]Ou em todas as

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