segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sobre o livro: Ler por Dentro

Uma leitora pede-me que fale um pouco sobre meu mais recente livro.
Trata-se de uma coletânea de ensaios, publicada por uma editora não muito conhecida: a Pradense.
O editor convidou-me a reunir alguns ensaios dos últimos tempos.
Na primeira parte enfeixei uma série de análises sobre a poesia de Mario Quintana. Na segunda, agrupei três ensaios: o primeiro sobre a dimensão humana de Erico Veríssimo; o segundo, sobre o poema erótico que considero o mais belo da literatura brasileira; e o terceiro sobre Fernando Pessoa (sugerindo, se possível, uma nova maneira de o ler) Na terceira parte, coligi meus estudos sobre a questão da leitura na época da mídia e da informática. São conferências que fiz no México, na Venezuela, e na Itália.
Prefiro discorrer sobre essa última parte.
Meu interesse pela questão da leitura principiou com a minha eleição para Patrono da Feira do Livro de Porto Alegre, em 2001.
De repente, comecei a indagar-me, a mim próprio, por que me tinham eleito como Patrono.
Algum leitor pensará que estou blefando, fazendo de conta que nunca fui autor, que não publiquei uma trintena de livros.
O meu problema é outro.
O meu problema sempre foi o de ser simplesmente poeta: o que significa ser lido por pouquíssimos leitores. E também, o de ser ensaísta: o que significa ser lido por poucos leitores (notem a eliminação do superlativo).
Poucos?
É claro: não estou dando chutes na lua, como diz um sujeito informado em linguagem popular. Estou pensando, apenas, em ter certo número de leitores, que não faça os editores perderem os já poucos fios de cabelos que lhes disfarçam o crânio.
No Brasil, a alfabetização funcionou até certo ponto. O Mobral foi uma grande iniciativa. Paulo Freire contribuiu para que saíssemos de uma sorte de barbárie inocente. Mas não nos iludamos: a alfabetização significou, apenas, para a maioria das pessoas, migalhinhas de cultura. Não chegou a elevar ninguém à noosfera, muito menos à esfera de seio-generoso da Cultura.
Sejamos sinceros: a alfabetização, no Brasil, deu a muita gente a incrível possibilidade de assinar um cheque, poupando-lhes a humilhação da entintação do polegar,atualmente substituído pela leitura eletrônica.Não permitiu – a quase ninguém passar da assinatura pessoal à alfabetização não-estatística.
Continuamos, ainda, com um índice surpreendente de analfabetos de meio corpo. Os analfabetos, que continuam a existir no Brasil, são, via de regra,  analfabetos só de mãe.
A mãe deles é a televisão.
Apresso-me a explicar que não culpo a televisão.
A televisão, em si, é um prodígio,uma espécie de milagre que, com o tempo, se avacalhou, visto que, nos séculos XIII e XIV, ver alguém de longe, um indivíduo que não estivesse espacialmente diante dos olhos, era milagre. Foi por isso que a Igreja declarou Santa Clara, a santa mais pura e cativante que talvez tenha existido depois da Virgem Maria, Padroeira da Televisão. É que Santa Clara teve uma certa visão à distância, no mesmo instante em que o episódio que ela viu se concretizava.Em outras palavras: Santa Clara viu como nós vemos hoje, mediante a televisão, uma cena longínqua, digamos, uma partida entre o Internacional e o Flamengo.
De quem, então, a culpa, ou melhor, a responsabilidade?
Dos indivíduos que, mediante a televisão, patrocinam seus produtos de consumo. A televisão está mais interessada num chute de Ronaldo Cristiano do que numa descoberta de uma vacina contra a AIDS.
Por que?
Porque, durante o jogo em que atua Ronaldo Cristiano se vendem cervejas,refrigerantes, eletrodomésticos, tênis de grifes, e também televisores, ao passo que a vacina contra a AIDS, pesquisada pelos cientistas, interessa só a estes. Passará a interessar todo o mundo quando uma empresa farmacêutica a lançar no mercado, a um preço x. Neste preciso momento, a televisão começará a interessar-se pela vacina, porque ela se tornará objeto de mercado.
Alguém objetará:
- Que visão mesquinha! Como se a vida das pessoas não fosse mais importante que os chutes de Ronaldo Cristiano...
Perfeito! Estou de acordo!
Mas...por que essa conexão entre analfabetismo e televisão?
A conexão é casual. Porque a televisão não nasceu em berço de ouro. Ela não é filha de Bill Gates. Ela precisa de dinheiro para ser televisão.Precisa de publicidade. Precisando de publicidade, ela só pode fazer o que a publicidade deseja.
É claro que há clareiras de alfabetização na televisão.
Quando um  Oscar Niemeyer aparece na telinha, podem saber que ele está tentando alfabetizar alguém. Ou seja: está tentando que o motor, que foi instalado num determinado chassis, isto é, uma pessoa, funcione, desde que as rodas do chassis estejam ligadas ao motor por um eixo cardam, ou de outro jeito qualquer, que, afinal de contas não sou engenheiro.
O problema da alfabetização em massa no Brasil é saber o que fazer com a alfabetização.
 Alfabetizar para poder vender e comprar mais - ou alfabetizar para que as pessoas sejam mais livres, e podem ser mais...Ia dizer “felizes”, mas a felicidade desprestigiou-se tanto, que nem me atrevo a pronunciar seu nome!
Em vez de “felicidade”, digamos:- para que a pessoa possa ser mais livre, mais ela mesma, menos bicho.
Enquanto a alfabetização não passar de uma condecoração nacional, não progrediremos. A alfabetização deverá ser uma responsabilidade, e – se for possível - uma forma de obter um atestado de cidadania.
Pois bem, quando me elegeram patrono da Feira de Porto Alegre, comecei a pensar no imenso privilégio que me fora concedido de saber ler, e de ter o que ler. De poder ler os grandes autores da história da humanidade, de Homero, que não li muito, a Machado de Assis, que leio quase todos os dias.Mas também: Aristóteles, Platão, Epicuro, Demócrito,Cícero, Boécio, Anselmo de Canterbury, Tomás de Aquino, Descartes, Henri Bergson, e milhares de outros, alguns gênios, alguns apenas telentosos, alguns geniais e negativos como Nietzsche, outros problemáticos e fecundos, como Kafka e Freud, outros explosivos e capazes de neuronizar-nos beneficamente como Marx, outros maravilhosos como Cecília Meireles e Sophia de Mello Breyner, outros requintadíssimos (mas com caras de pateta) como Mario Quintana. Outros geniais, talentosos e benéficos como Erico Veríssimo, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, ou Blaise Pascal, talvez o autor que eu mais tenha lido depois da Bíblia.
Na ocasião em que fui Patrono da Feira, o país estrangeiro homenageado era o México.
Ora bem: vieram a Porto Alegre, na ocasião, a embaixadora do México no Brasil, e outras personalidades mexicanas. Essa gente me convidou a representar nossa Feira do Livro na II Feira Internacional do Livro da Ciudad de México.
Lá fui, à terra dos astecas e dos maias,  e também de Cortez, Bartolomé de Las Casas, e de Nossa Senhora de Guadalupe.
Convidaram-me a fazer uma conferência durante a Feira – no Zócalo, isto é, a praça em frente da Catedral, ao lado do Palácio do Governo.
 Pensei – ou antes, matutei (porque também sou matuto, como todo o mundo, um matuto – eis a diferença – alfabetizado, e não absorvido de todo pela Sociedade de Consumo): preciso estudar melhor a questão da leitura.
Naquele entonces, só dispunha de apontamentos para uma conferência. Resolvi que seria mais útil apresentar-me sem uma perna, a ter duas, e não saber dizer nada de útil aos mexicanos, falando-lhes, por exemplo, sobre Clarice Lispector, ou sobre minha modestíssima poesia (como me haviam sugerido).
Falei sobre o declínio da leitura, e suas eventuais causas.
Ainda me lembro daqueles rostos de bronze, à minha frente, poucos intelectuais entre eles, se é que os havia, afora os funcionários da Feira , e muitos populares, indivíduos com jeito e tipo de descendentes de indígenas.
 Prestaram-me uma atenção que me comoveu!
Ou fui eu que me comovi perante rostos tão imóveis, com grandes olhos escancarados, numa atitude extática, que me evocava a das melhores esculturas da Arqueologia Mexicana?
No fim da conferência, que foi num portunhol horrível, de dar caimbras às orelhas de meus gentilíssimos indígenas, crivaram-me de perguntas. Quase me arrependi de ter metido a mão em favos alheios. Havia mel no que eu lhes dizia, mas era mel de favos alheios, que eu não assimilara ainda, de todo.
Respondi como pude, e depois fui tomar um café na companhia deles.
Retornei ao Brasil com uma preocupação; aprimorar meus apontamentos.
Na segunda vez que fui ao México, falei a universitários e intelectuais. Apresentei-lhes o que hoje considero um dos meus melhores ensaios: Existirão clássicos no Século XXI?.
A conferência despertou tanto interesse que, no fim, por um triz não tive de pedir desculpas aos ouvintes por tê-los interessado em algo que não era ouro de minha mina,mas ouro que eu recolhera de muitas minas,desativadas, e sem dono.
Algum tempo depois, fui convidado para um Simpósio na Itália, em Rocca di Papa, na proximidade de Castel Gandolfo. Lá falei a umas quatrocentas pessoas de todas as profissões ligadas à literatura e às Artes.
Se os leitores desejarem realmente entender o que expus nessas ocasiões, leiam meu livrinho, à venda nas principais livrarias de Porto Alegre.
Saltem, se lhes agradar, a primeira e a segunda parte. Vão direto à última parte.
Sobre o valor, ou não, de tais ensaios, deixo isso à responsabilidade do leitor.
Quem quiser me criticar de verdade, no sentido do contra, tem toda aliberdade. Procure fazer algo melhor do que eu fiz. Isto é: chamar a atenção das pessoas para um problema seriíssimo: o que devemos ler? Por que ler? Como ler?
E, principalmente:
- Ainda existe algo clássico para se ler?
Ouso pedir aos meus críticos um favor: se decidirem que já não existem clássicos, fiquem quietos.
Não o digam a ninguém, nem a si mesmos!
É melhor ler um falso clássico, do que desconfiar de que ainda existem clássicos.
Pelos menos: desconfiar de que não existam clássicos não lidos.
Reflitam no que Mario Quintana me disse, um dia, e que eu reproduzo aqui:
- Para quem nunca leu Shakespeare, ele é o último best-seller!

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Dois Assassinatos fizeram-me Descobrir o Pecado Original

      Sempre tive, como cristão, dificuldade em “entender” dois mistérios: o Mistério da Santíssima Trindade e o Mistério do Pecado Original.
O Catecismo ensinava-me que Deus era um só. Se nós, crianças, bem entendíamos, existia um único Deus! Mas a catequista nos explicava que Ele era Três Pessoas.
Como assim: primeiramente Um, depois Três?
Oh ignorância!
Lembro-me de ter lido que quando Graciliano Ramos queria ironizar alguma coisa como absurda, dizia: É como a Santíssima Trindade!
Pobre Graciliano! Ele era, sem dúvida, um escritor genial. Entendia de retirantes, sabia como ninguém o que o que era o Nordeste, melhor do também o genial (sob certo sentido), o sociólogo Gilberto Freyre.
Contudo, no Brasil como na Europa,é conveniente que cada macaco fique no seu galho, principalmente em se tratando de Teologia, e de Teologia altíssima.
Percebo, hoje – apenas percebo, é verdade, – uma realidade: se Deus não fosse Trindade, seria talvez um insuportável Celibatário, sem coração, incapaz de manifestar ternura para com suas criaturas. O fato de Deus ter um Filho é algo, não para se comparar com a paternidade humana, em particular nos tempos atuais de míseras paternidades, mas para condená-la, por ser tão pouco semelhante à divina.
Quando Jesus teve de explicar aos seus ouvintes Quem era o Pai Celeste, contou-lhes a Parábola do Filho Pródigo, que talvez devesse ser renomeada: Parábola de Como Deus É Pai.
O Credo Cristão (católico e protestante) principia com estas assombrosas palavras: Creio em Deus Pai!
Notem: tanto os católicos como os protestantes não confessam apenas Deus. Confessam, também, que Ele é Pai! E que Jesus, seu Filho Unigênito se fez Homem. E que o Espírito Santo é o vínculo de Amor Pessoal que une o Pai ao Filho, e o Filho ao Pai. Embora não se possam atribuir qualidades sexuais a Deus, deve-se considerar o sexo como uma criação de amor, que se revela na sua fecundidade (a criança que procede do homem e da mulher), e na relação entre marido e mulher, que tem como objetivo, não unicamente o deleite da mútua companhia, mas, de modo singular, a reciprocidade na dor e na alegria. O masculino e o feminino, à luz da concepção cristã, só têm sentido neste mundo, cuja figura passa, uma vez que, no estado final de felicidade, o sexo existirá apenas como souvenir comovido de uma relação, não como fator de felicidade.
Minha outra descoberta foi a do Pecado Original. Descobrir é tirar um pano, um véu, algo que cobre alguma coisa, revelar o que estava escondido. Colombo descobriu a América, e Pedro Álvares Cabral, o Brasil. Mas tanto a América como o Brasil existiam há muito tempo! O que os descobridores fizeram foi achar um continente que já estava aí. Só faltava ser achado!
Cada vez que, no Catecismo, me falavam do Pecado Original, eu pensava numa maçã, e numa Serpente super-esperta que havia logrado Adão e Eva, metendo-lhes na cabeça que na fruta estava um segredo maluco: ser como Deus!
Pobre de mim!
Nunca teria imaginado que em ser como Deus é que estava o segredo! Só com os dois assassinatos das duas últimas semanas cheguei, definitivamente a compreender o mistério que a Bíblia ocultava. Descobri o segredo com que a espertíssima cobra tornara infelizes nossos primeiros pais!
Na realidade, a Serpente não pensava numa maçã, dessas que a gente compra nas feiras e nos mercados-públicos, dessas que vêm embaladas em saquinhos plásticos. Nada disso. A Serpente visava mais alto: ela queria que Adão e Eva fossem como Deus!
Ora, para eles serem como Deus, só havia um jeito: assassinar a Deus!
Foi o que eles fizeram mentalmente, quando comeram a fruta. Comeram, é modo de dizer! Na realidade, Adão e Eva cometeram um assassinato de intenção: se dependesse deles, eles teriam liquidado Deus, para ocuparem seu lugar, e depois, naturalmente, tentarem matar um ao outro, para que sobrasse um único Deus!
Jamais os pobres coitados, que saíram com tangas do Paraíso, imaginaram que Deus era Três Pessoas, e que, se tivessem de matá-lo, teriam de matar Três Pessoas!
É verdade que os Filhos de Adão e Eva, isto é, nós todos, fomos dignos deles. Tentamos matar – e o matamos – o Filho de Deus, Jesus!
Até agora, os homens só não tentaram assassinar o Espírito Santo!
Perdoem-me essa linguagem teológica torpe, quase de gíria.
Mas , se alguém meditar os textos da Bíblia e do Novo testamento, chegará a mencionada arqui-assombrosa conclusão a que eu cheguei.
Se um leitor da Bíblia for além da criação de Adão e Eva, prosseguir lendo, deparar-se-á com o primeiro pecado dos homens depois do de Adão e Eva: o de Caim.
Foi também um assassinato – um assassinato humano.
Sigam em frente: vocês toparão com outros pecados, sempre de assassinatos. Por exemplo, o de José do Egito. Os irmãos pensavam inicialmente em assassiná-lo.
Quanto à David, não mandou ele matar o marido de Urias, para ficar com Betsabé, sua mulher?
A maioria absoluta dos pecados bíblicos não são pecados contra a castidade, pecados de volúpia, mas pecados contra a vida. Pecados de assassinato. Se excetuarmos alguns pecados aqui e acolá, de adultério e sem-vergonhice debochada, os demais pecados voltam a ser pecados de ódio e vingança, de criminalidade baixa.
Resumamos – PECADOS CONTRA A VIDA.
A própria guerra do Faraó contra os judeus, que outra coisa foi senão uma cadeia-contínua de assassinatos contra o Povo de Iahweh?
Foram precisos, pois, dois assassinatos, dentro da minha intimidade pessoal, a eliminação de dois amigos queridos, um de verdade, outro só de intenção, para os meus olhos se abrirem!
A verdadeira natureza do Pecado original nada tem a ver com maçã, nem com pecados carnais, nem com outros desvios abjetos da conduta humana. Tem a ver com uma coisa: com assassinatos.
Leiamos São João, o Discípulo Confidente de Jesus.
Ele diz explicitamente no seu Evangelho.
Para que ninguém desconfie de mim, cito duas traduções, a de João Ferreira de Almeida (a mais usada pelos Protestantes) e a da Bíblia de Jerusalém, a mais reputada entre as versões católicas:
I.       Evangelho de São João de João Ferreira de Almeida, capítulo 8, versículo 44:
Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio, e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade.
II.     Evangelho de São João, capítulo 8, versículo 44 do Novo Testamento (da Bíblia de Jerusalém):
Vós sois do diabo, vosso pai, e quereis realizar os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não permaneceu na verdade, porque nela não há verdade...

Homicida?
O demônio é, antes de tudo, um assassino!
Quando Jesus quis caracterizar sua missão neste mundo declarou:
Evangelho de São João, capítulo 6, versículo 35:
Eu sou o pão da vida.

Quem de nós, que tenha ido a algum sepultamento, não ouviu o sacerdote dizer, ao lado do ataúde:
Evangelho de São João, capítulo 11, versículo 25:
Eu sou a ressurreição e a vida.

Concluo:
O verdadeiro pecado original, pai de todos os pecados, dos atuais e futuros, é o assassinato, o homicídio, o atentado contra a vida, e sobretudo, o atentado dos atentados, que é a Guerra, o assassinato indiscriminados de todos que possam ser atingidos!
Se a Igreja quiser ser fiel ao Evangelho de Cristo, só tem um caminho a seguir: o caminho Daquele que disse:
- Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. (Evangelho de São João, capítulo 14, versículo 6).

Carta a um Amigo Querido

      Marcelo:
nunca teria imaginado – oh nunca! -que tu e eu seríamos aqueles dois discípulos que, imediatamente após a morte de Jesus, sairam de Jerusalém, de regresso às suas casas, uma vez que não havia mais nada a fazer na Cidade Santa, onde Cristo fora crucificado.
Lembras-te do capítulo 24 do Evangelho de São Lucas?
Começa assim:
-Naquele mesmo dia, o primeiro da semana, dois dos discípulos iam para um povoado chamado Emaús, a uns dez quilômetros de Jerusalém. Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido. Enquanto conversavam, Jesus aproximou-se, e começou a caminhar com eles.
Lembro-me bem de quando, pela primeira vez, apareceste em nosso apto. Vocês formavam um grupo de estudantes, de que fazia parte Melissa, que se reuniam para meditar a Bíblia, e se divertirem aos domingos, como qualquer grupo de rapazes sãos de mente e de corpo.
Mais tarde, as obrigações profissionais dispersaram vocês. Alguns casaram, e tiveram filhos. O grupo nunca se desfez. Vocês continuavam a encontrar-se, e eram solidários uns com os outros, celebrando aniversários, auxiliando-se nas atividades profissionais, trocando idéias,
Um belo dia, tu apareceste em nosso apto, convidando-me a fazer uma palestra aos teus colegas de profissão, da área dos fornecedores de peças para automóveis, que tinham o belo costume de se reunir-se mensalmente, desejando estreitar laços de amizade. Fui ao encontro de vocês, e lhes expus o tema que me tinham proposto: O que se entende por Ética, e por Ética Cristã em particular.
Fiquei impressionado com o respeito e a atenção de vocês. Após o evento, vocês me serviram um carreteiro, proporcionando-me uma excelente ocasião para conhecer melhor cada um de vocês.
Eis que agora, numa tarde de sexta-feira, és assaltado à saída de um banco, carregando uma quantia modesta, destinada a saldar obrigações assumidas, e também para atender às necessidades de tua família, mãe e irmã, da qual és o sustentáculo.
Uma dobradinha de motoqueiros, desses que agem com a cumplicidade (por falar nisso: de quem? Não acredito que um bancário possa estar acumpliciado com tão vulgares delinqüentes, cheios de ganância, os quais, mediante seus celulares, combinam assaltos do interior das sedes bancárias! Quem os favorece? Quem lhes permite, como eu próprio vi, ficarem por aí, zanzando, dentro dos bancos, como se estivessem numa praça, a observarem as andorinhas? Uma dessas dobradinhas te esperou na frente de um Banco, e quando foste abordado pelo motoqueiro, deves ter sofrido uma perturbação mental, pois, ao invés de lhe entregares teu dinheiro, resolveste virar-lhe as costas, e voltar para a sede bancária. Neste momento, o motoqueiro atingiu tua coluna vertebral com um projétil e – se é verdade que não conseguiu matar-te – te deixou paralítico das duas pernas...
Querido Marcelo: aos 35 anos!
Que te direi?
Humanamente falando, não tenho nada a dizer!
Nada?
Só que não podemos deixar de falar!
Não podemos deixar de gemer, sussurrar, murmurar!
É nossa maneira de urrar, de uivar, de berrar – caso fôssemos tigres, lobos, touros!Somos seres humanos, e algo mais do que isso: somos cristãos, filhos adotivos de Deus.
Não te disse, no início desta mensagem, que éramos os Dois Discípulos de Emaús?
Sim, estamos a caminho de Emaús, e vamos... desanimados! Se quiseres, podes chamar-te Cleofas, um dos dois discípulos, justamente o que interpelou Jesus:
- És tu o único peregrino em Jerusalém que não sabe o que lá aconteceu nestes dias?
Pois aí está Ele,Jesus, que prometeu estar conosco até à consumação dos séculos.
Agora estamos nós, diante Dele, perguntando:
- Por que tal crime?
Não encontramos resposta. A única que nos vem aos lábios é a de todo o mundo: fatalidade.
Indago: quem pode consolar uma mãe pela perda de um filho atropelado por um motorista machista?
Quem pode consolar um irmão por um amigo imobilizado por uma bala. desferida por outro indivíduo, cuja vida foi pervertida por uma família desagregada, e um ambiente de vício e drogas?
Quem pode consolar-nos, a nós, se a sociedade martela que o importante neste mundo é subir na vida, isto é, ganhar dinheiro, dinheiro, dinheiro?
Jesus perguntou a Cleofas:
- Que foi?”, O que é que aconteceu?
Nós explicamos a Jesus o seu próprio drama. Descrevemos-Lhe o que Ele tinha experimentado no seu próprio corpo: a crucifixão, e a lançada no peito.
Que te direi, então, Marcelo?
Direi o que Jesus disse àqueles dois discípulos, e o que Ele diz a nós (que,entramos no hospital com lágrimas nos olhos, e saímos do mesmo jeito), a nós, obrigados, pelas exigências da vida (pensa num recém-nascido, por exemplo, em meu neto Eduardo, filho da Melissa, que tem 9 meses), e pelas exigências do Evangelho – a reagir, e a não desconfiar de que, mesmo o pior mal, não foge ao poder de Deus, que dele extrai um bem incompreensível.
Não me perguntes, pois, como é que isso acontece!
Ouçamos Jesus:
- Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os Profetas falaram! Não era necessário que o Cristo sofresse tais coisas para entrar na sua glória? E começando por Moisés, e passando por todos os Profetas, lhes e[AT1] xplicou em todas as escrituras as passagens que se referiam a ele.
Ah, Marcelo, Ele está conosco também agora, mais conosco agora. É possível que Ele volte a nos dizer aquelas palavras severas, que sempre me impressionaram:
- Ó gente sem inteligência...
Repliquemos:
- Senhor, é a pura verdade! Mas o que podeis esperar de nós? Não conseguimos ter inteligência para entender crimes como esse...
Que nos resta, então?
Resta-nos a Fé.
A solidariedade, e o carinho dos amigos.
O ímpeto da vida, que é maior do que nossos projetos e prazeres, do que nossas ambições e sonhos!
Resta-nos dizer: associamo-nos-me a Vós, Senhor, que sofrestes sendo a própria Inocência!
Resta-nos olhar para a humanidade que é massacrada, e dizer: ”Ajudai-nos, Senhor!”
Na Ressurreição prometida, não haverá mais delitos, não haverá mais paralisia das pernas, não haverá mais dificuldade de locomoção.
Não haverá, principalmente, falta de amor, o câncer da alma!”

Somos, Marcelo, os Discípulos de Emaús, e não entendemos Jesus!
Só cremos Nele.
É tudo o que podem dizer-te os amigos.
É tudo o que pode dizer-te o próprio Jesus, que disse: Eu venci o mundo!
Se venceu, venceu tudo o que existe neste mundo, que às vezes nos fascina com seus encantos. Mas a realidade é que ninguém ficará para sempre aqui.
Quem fala, agora, não sou eu: é a Fé, maior do que nós, e que se manifesta quando cessamos de falar, e ajoelhados oramos:
Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, Vós aí estais!
Abraça-te o pai da Melissa.

 [AT1]Ou em todas as

A Morte Inútil de Roberto Cidade, Escultor

Escultura de Roberto Cidade
      Estamos – todos! - sob as asas de alçapões malévolos, que aguardam uma ocasião propícia para desabarem sobre nossos corpos sem defesa.
Desta vez, o alçapão caiu sobre a cabeça de Roberto Cidade, artista, autor de peças monumentais, feitas, em geral de sucata, e autor, também, de outras peças menores, que para muitos parecem exóticas, fundidas em bronze.
Roberto diplomou-se na Faculdade de Artes da Universidade de Santa Maria.
Desde o início de sua trajetória, mostrou preferência pelo metal.
Transferindo-se para Porto Alegre, freqüentou durante algum tempo o atelier de Francisco Stockinger. Passou, a partir de então, a interessar-se elos resíduos imponentes de nossos sonhos e pesadelos automobilísticos.
Roberto sempre teve uma queda por motores, e era vidrado pela velocidade. Com o fluir do tempo, essa paixão pela velocidade se atenuou. Talvez tenha influído, em seu retorno à normalidade, uma relação feliz com uma mulher, que ele amou de verdade durante anos.
Com a separação, o artista que no fundo guardava lembranças gratificantes da companheira, começou a buscar o diferente, insólito. A aventura levou-o a percorrer - não estradas ao rés do chão - mas autopistas entre as nuvens e o vento.Comprou um helicóptero, e aprendeu a pilotá-lo.
Infelizmente, os helicópteros também têm seus momentos de mau humor, e acessos de loucura. O do Roberto, um belo dia, mergulhou nas águas do Guaíba. O piloto, e seu acompanhante, um vizinho, que devia ser homem de imensa confiança na perícia aeroespacial de Roberto, acabaram correndo risco de vida. O próprio Roberto referiu-me que já não esperava escapar dessa. Por uma razão em especial o seu acompanhante não sabia nadar! Teve, pois, de mantê-lo por alguns momentos sobre a superfície da água, e estava para desanimar, quando um barco de pescadores, os resgatou, quase náufragos.
Roberto era um homem generoso, amigo canino de seus amigos, excelente carácter, porém, dono de um temperamento impulsivo, violento, e volúvel em seus amores. Pode parecer elogio póstumo, mas nunca notei que suas ex-parceiras lhe tivessem rancor ou ódio. Aceitavam-no como era: um turista amoroso. É claro que esse aspecto de sua personalidade me causava embaraço. Dir-lhes-ei por quê. Sempre fui péssimo fisionomista. Ainda me lembro do sorriso compreensivo com que, num ocasião, me brindou (Oh dia fatídico!), em que me dirigi a uma de suas amadas, pensando tratar-se da última que eu conhecera. Vim a verificar que aquela beldade era a penúltima, e que a atual não se chamava – digamos – Helena – mas Shirley...
Eu o prezava muito, aliás, nós o prezávamos, minha mulher, e meus filhos. Recebia-nos com efusão emotiva. Ele próprio se encarregava de fazer os churrascos, e memoráveis carreteiros, ou outras iguarias.
Meus leitores me perdoarão! Primeiro, uma lágrima que, envergonhada, já voltou ao ninho donde saiu. Depois, esta explosão de raiva, à gaúcha, que peço a Simões Lopes Neto, o inventor de Blau, o vaqueano, seu alter-ego. A explosão encontra-se no conto O Boi Velho, que por ocasião da morte de Roberto, eu estava relendo:
-Cuê-pucha!... É bicho mau, o homem!
A expressão do contista retorna, no fim do conto, depois que um peão, percebendo a magreza do boi, e apoiado pelos companheiros, decide matar o animal. O animal que, outrora, na companhia de outro boi, levava o pessoal da estância a um arroio para o banho da família. O peão puxa da faca, e enterra-a até o cabo, no sangradouro do boi... Pois vancê creia! O boi velho dá uns passos, encosta o corpo ao comprido, no cabeçalho do carretão, e mete a cabeça, certinho, no lugar da canga, entre os dois canzis... e fica arrumado, esperando que o peão feche a brocha e lhe passe a regeira na orelha branca...
Grande Simões Lopes Neto! Era guri quando li, pela primeira vez, li esse conto! Não me pejo de confessar que chorei!
Como choro agora... pelo Roberto trucidado na presença do filho, de oito anos, que dormia no mesmo quarto! Foi este garoto quem descreveu à polícia a reação do pai à tentativa de roubo.
Admito: Roberto não era um boi manso! Era, antes, um touro bravio. Foi isso que o perdeu!
Mas... dois amigos, mortos do mesmo jeito, numa semana?

Senhor Governador, que podemos fazer?

É muita morte para Porto Alegre!
Henri Bergson, filósofo francês, dizia que, se tivesse de matar um inocente para salvar uma cidade, não o mataria...
Oh, sei que não somos inocentes assim!
Mas, a rigor, somos inocentes! A vida é dada por Deus unicamente às crianças.
Matar é que é o pecado maior.

Para mim, matar é simplesmente O PECADO.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O Continente de Erico Verissimo e a História do Rio Grande.


Érico Verissimo

(Conferência à Sociedade de Medicina de Santana do Livramento, no dia 04 de maio de 2011).

I. À Guisa de Introdução

Comecemos por afirmar o óbvio: Erico Verissimo é um dos gênios literários do Rio Grande do Sul. Os outros dois são Simões Lopes Neto e Mario Quintana.
Existem, possivelmente, outros gênios gaúchos, mas os que citei são os que gozam de unanimidade.  
Anos atrás, o romance O Continente figurou na lista das “Dez Mais Importantes Obras de Ficção do Brasil”, em enquete promovida pela revista Veja.
É legítimo, até, sustentar que o autor da trilogia O Tempo e o Vento, que inclui O Continente, o Retrato e o Arquipélago, se tornou um clássico já em vida.
Tal glória, em nossa opinião, desfavoreceu em parte a leitura de suas obras!
Houve, no passado, um autor malicioso que anotou: “Clássicos são os autores que todo o mundo pensa (ou afirma) ter lido, e que ninguém leu”...
Se isso é verdade, pode-se discutir. Em todo caso, penso que é hora de se revisitar a obra de Erico com a lucidez e o encantamento que a distância psíquica – em relação à personalidade biográfica do autor - no-lo permite atualmente.
Insiramos aqui um gancho (como se diz em linguagem publicitária) para solicitar, ainda mais, a atenção dos que me honram com sua presença nesta conferência.
Doc Comparato (Luis Felipe Loureiro Comparato (nascido no Rio de Janeiro em 1949), contista, cronista, teatrólogo, e conhecido roteirista cinematográfico, referiu que o Prêmio Nobel latino-americano, Gabriel Garcia Márquez, autor de Cem Anos de Solidão, confidenciou-lhe em Havana que, para escrever essa obra-prima se inspirara em três fontes: A Bíblia, As Mil e Uma Noites e O Continente de Erico Verissimo. (Cit. in Revista Cult. São Paulo, Ano VII, n. 86, novembro de 2004. p. 53).
Um dado é certo: as velhas gerações rio-grandenses costumavam ler O Tempo e o Vento, em especial, O Continente.
Liam-no - mesmo se imaginamos tais gerações pressionadas pelo espantoso sucesso editorial da trilogia.
Que diremos das novas gerações?
Sou um tanto cético em relação a elas.
As novas gerações são mais sofisticadas: aprenderam a admirar Erico sem saberem, ao certo, em que se baseiam seus méritos, principalmente sem se conscientizarem dos “milagres” que o escritor operou em termos de fabulação e expressão verbal, qualidades que são o suporte de sua genialidade.
Ficaríamos, obviamente, satisfeitos se esta conferência estimulasse leitores retardatários, sobretudo jovens estudantes, levando-os a se interessarem pelo prodigioso universo de Erico.
Erico, sem dúvida, suporta duas, três, e até quatro leituras.
Para dizer a verdade, quando li o romance pela primeira vez, não tive condições de avaliá-lo em sua verdadeira dimensão. Posteriormente, tornei a lê-lo; só então me dei conta de como essa obra-prima era imprescindível para se conhecer o Rio Grande do Sul e o Brasil.
Minha terceira re-leitura de O Continente – e a quarta, mais recente, - foram provocadas por fatores ocasionais. Fui convidado a coordenar um álbum de fotografias sobre o Continente e o Rio Grande, álbum publicado em 2004 sob o título: O Rio Grande de Erico Verissimo, com notáveis fotografias de Leonid Streliaev. E agora, neste ano de 2011, dispus-me a ler o romance por causa de minha neta Ingrid (16 anos), dado que a professora de literatura do Colégio Anchieta lhe deu como tarefa elaborar um texto sobre Ana Terra.  
Confesso-lhes que ainda não esqueci o deslumbramento de minha primeira leitura. Naquela ocasião me vi diante da impressionante recriação da História do Rio Grande, a começar pelas Missões, passando pelos primeiros colonizadores, vindos do centro do país, de Sorocaba e de outras cidades vizinhas, em seguida pela chegada dos casais açorianos, e ultimamente, pelo advento dos imigrantes vindos da Alemanha e da Itália.  
O painel histórico e para-histórico do romance, com sua cenografia de heróis semi-bárbaros, me tocou profundamente. Belos tempos, aqueles em que a imaginação entrava em erupção quando líamos páginas inflamadas pela própria imaginação!
Nossa imaginação, é verdade, não tinha ainda sido fascinada pelos efeitos especiais dos filmes contemporâneos, nem por estonteantes artifícios ópticos, que presentemente interferem em nosso imaginário.
Faço questão de esclarecer que não sou refratário aos encantos do cinema.
Em certos casos, como o do filme Cidadão Kane, minha imaginação – longe de ser afetada negativamente pela ficção visual - aprendeu a imaginar mais, a prolongar o alcance visionário, como se, aos olhos de minha fantasia, se acoplassem binóculos invisíveis, ou calidoscópios alucinantes.
A imaginação, que nasce da leitura, tende a engajar a memória do indivíduo, seus souvenirs; a imaginação, que nasce de filmes, e de outras experiências relacionadas com a fotografia, tende a adicionar à memória novos subsídios, forçando a atenção a deter-se em detalhes inobservados.
As duas imaginações, a nascida da memória verbal e a nascida da memória visual completam-se. A primeira é mais neuronal, a segunda, mais abrangente.
De qualquer modo, a obra-prima de Erico é tão avassaladora que, quando começamos a reler O Continente, tivemos a agradabilíssima impressão de nunca ter lido esse livro.
Tentarei, pois, transmitir-lhes minhas impressões recentes desse romance.
Fixemo-nos, por exemplo, no primeiro capítulo do romance.
A nova abordagem deu-nos, inicialmente, uma curiosa impressão de exotismo, visto que o autor nos confronta, de supetão, no umbral de sua obra, com um casarão sitiado, isto é, com uma situação de beligerância.
Foi apenas uma impressão inicial, dessas que relampejam na mente, e depois, como fogos-de-artifício, se desmancham num chuvisco de fagulhas.
Guardamos, não obstante, dessa reabordagem, a seguinte frase:

-Olhou melhor. Contra a parede lateral da igreja começou a distinguir o vulto dum homem, à altura de cujo rosto lucilava a brasa do cigarro. Liroca foi se erguendo lentamente, enquanto o outro ria baixinho um riso gutural e encatarroado. (Ficção Completa de Erico Verissimo. Volume III. O Tempo e o Vento. Primeira Parte da Trilogia. Rio de Janeiro, Companhia José Aguilar, 1967. p. 181. Todas as citações deste  ensaio reportam-se a essa edição).

Sentimos, na frase sabor à Eça de Queirós.
Prosseguimos na leitura, e esbarramos noutro texto emblemático:

- Eta mundo velho sem porteira! – murmurou Liroca, com a testa apoiada no parapeito e os olhos postos no quintal. Ficou alarmado: a voz que lhe saíra da boca não era sua. Era a voz de seu pai. Naquele momento Liroca era o próprio Maneco Lírio, tinha sessenta anos e não trinta. O velho sempre dizia aquela frase quando alguma coisa absurda ou triste acontecia. Era a sua maneira de protestar contra um mundo sem coerência, sem bondade, sem justiça e sem Deus. (Ibid. p. 185).

Nessa passagem já não sentimos a presença de Eça!  Sentimos a presença de outro grande vulto das letras: Simões Lopes Neto!
Existe nessa passagem o vigor agreste de um depoimento ao estilo de Blau, o vaqueano. Não importa que o estilo não remeta, automaticamente, ao do autor de Contos Gauchescos e Lendas do Sul.
Vamos adiante.
Vejamos a resposta de Maria Valéria a Licurgo Cambará, quando este lhe objeta que a água, trazida pelo velho Fandango, precisava ser dividida entre todos:  

- Não toca nada. A criança vai nascer esta madrugada e eu preciso de muita água quente.
(...)
- Chupem laranjas. (Ib. p. 192)

Quem não evocaria, aqui, o incomparável contista russo, Anton Tchecov? Não dizia ele:

- O reflexo do mundo num caco de vidro, a concisão, irmã do talento?

Depois disso, a frase memorável:

- Para sublinhar a pobreza de uma mendiga não é preciso falar de seu aspecto miserável, basta indicar, de relance, que ela levava um velho manto encardido... Um único pormenor basta... (Cit. por Sophie Lafitte: Tchekhov. Trad. de Hélio Pólvora. Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1993. p.78).

O leitor, que principia a ler O Continente, deve, necessariamente, deter-se no seu pórtico, ou seja, dedicar um momento de atenção ao seu Índice.
O romance está dividido em sete partes, todas com o mesmo título: - de Sobrado I a Sobrado VII:

I. A parte inicial tem por subtítulo: A Fonte.

As três partes, que lhe dão continuidade, desdobram-se em três jornadas:
I.       25 de junho de 1895: Madrugada;
III.   25 de junho de 1895: Tarde;
IV.   25 de junho de 1895: Noite.

Cada jornada é seguida de um Interlúdio.

As outras partes, também, desdobram-se em jornadas:

V.    26 de junho de 1895: Manhã. (Interlúdio).
VI.  26 de junho de 1895: Noite. (Interlúdio).

O romance finaliza com a terceira jornada:

VII.  27 de junho de 1895: Manhã.

O romance, portanto, é um políptico.
Reproduz, a seu modo, o esquema do Gênesis bíblico, dividido em sete dias, número que remete à totalidade da criação. No caso de Érico: remete à totalidade da origem e evolução histórico-mítica do Rio Grande do Sul. A palavra Gênesis poderia ser vertida por: história das origens.
Chamamos a atenção dos leitores para o conjunto do painel. É preciso  sempre ter presente o carácter épico da ficção: a) a recriação da História; b) e, através da História, a recriação das emoções da memória e da imaginação coletivas.
Os episódios não são descritos através de seu esqueleto factual, mas materializados em personagens, em seres vivos que sentem, sofrem, padecem, tornam-se objetos de injustiças, ou eles próprios as cometem.
O romancista produz protagonistas existenciais, não heróis distantes. Mostra-os poderosos, ou vulneráveis, em geral humildes e humilhados, sob as botas dos latifundiários e caudilhos. A tessitura enriquece-se com uma incrível diversidade de para-personagens, de semi-personagens, e até de mini-personagens. As molduras paisagísticas, em que desenvolvem as atividades desses personagens, ajudam o leitor a situar-se no Tempo e no Vento.
Repare-se, em especial, no cuidado que o autor tem de assinalar a passagem das estações.
O título geral da trilogia, escolhido pelo romancista, revela, claramente, sua intenção.
O Tempo e o Vento são entidades móveis, entidades voláteis, que se entrelaçam.
O Tempo tem a ver com a História, inexorável em sua fatalidade.
O Vento sugere a efemeridade das existências humanas, livres até certo ponto, mas varridas por sentimentos e paixões provisórias. É por isso que os mortos sempre estão associados ao tempo:

- Noite de vento, noite de mortos. (Ib. p. 244).

Para se compreender o épos da narrativa de Erico, convém levar em consideração o que diz um conhecido biblista, o dominicano Frei Luc H. Grolenberg, sobre o Gênesis da Bíblia:

- Devido à maneira de contar a História Sagrada nos últimos dois ou três séculos, dificilmente nos acostumamos ao pensamento de que a Bíblia pertence à literatura. Ninguém depois de ler o Doutor Jivago (de Pasternak), vai dizer: “Isso não passa de um romance”, assim como ninguém terá coragem de afirmar que Hamlet não passa de uma peça de teatro. Pois todo o mundo é unânime neste ponto: tais gêneros não fazem reportagens, não transmitem fatos nem notícias, mas transmitem uma vivência da realidade. Para os homens bíblicos essa realidade consistia na sua relação pessoal com o Deus vivo, infinitamente elevado e sempre próximo, um apelo contínuo ao seu coração. É esta a vivência que procuram expressar e transmitir. O carácter próprio da Bíblia consiste em ser literatura que somente pode ser saboreada por leitores cuja vivência da realidade se assemelhe à dos homens bíblicos. A Bíblia foi escrita por fiéis, para fiéis. (Luc H. Grollenberg. A Nova Imagem da Bíblia. Ensaio sobre Exegese Moderna. Trad. de Adriano Seelen e José Maria Martinelli. São Paulo, Editora Herder, 1970. p. 81).

Por outro lado, evitemos divagações eruditas sobre o que é ou não é epopéia.
Confiemos essa tarefa ao erudito Padre Augusto Magne, SJ.:

- Epopéia: do grego épos, “palavra”, e poiéo, “fazer” – é uma narração em que lenda e mito, heróis e deuses se unem em maravilhoso poético. Lenda: é uma narração de fundo histórico, embelezado pela tradição oral. Mito: é a personificação alegórica e dramática de forças naturais ou de fenômenos que as produzem. Heróis: são homens notáveis por seus feitos ou virtudes, de que a imaginação popular aumentou a força, os atos e os serviços prestados à humanidade, criando em volta deles uma verdadeira lenda. Maravilhoso: é a intervenção de agentes sobrenaturais na vida dos homens. (Princípios Elementares de Literatura. Volume Primeiro. Teoria Literária. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1935. p.182-183).

Consultemos, agora, duas análises literárias de historiadores da literatura, do gabarito de Alfredo Bosi e Luciana Stegagno-Picchio.

Escreve Alfredo Bosi:

- (...) o contraponto serve para apresentar o jogo das gerações (no “vasto painel diacrônico de O Tempo e o Vento): portugueses e castellhanos nos tempos coloniais; farrapos e imperiais durante as lutas separatistas, maragatos e florianistas sob a revolta da Armada em 1893. A história de duas famílias, os Terra Cambará e os Amaral, atravessando dois séculos de vida perigosa, é o fio romanesco que une os episódios do ciclo e embasa as manifestações de orgulho, de ódio, de amor e de fidelidade; paixões que assumem uma dimensão transindividual e fundem-se na história maior da comunidade. (História Concisa da Literatura Brasileira. 2 ed. 6 impressão. São Paulo, Editora Cultrix, 1976. p. 459-460).

Vejamos o que escreve a scholar italiana, Luciana Stegagno-Picchio:

- Numa perspectiva atual, a prosa (de Erico) até 1945 aparece (...) apenas como exercício preparatório da grande empreitada narrativa realizada com O Tempo e o Vento, história do homem e da paisagem num Rio Grande do Sul bem diferente daquele, saboroso de histórias e de linguagem gauchesca apresentado por Simões Lopes Neto. Aqui o tom narrativo é o do “vento levou”: uma primeira etapa que reconstrói a história do “continente rio-grandense” do fim do século XVIII até à revolução de 1893. Uma segunda e uma terceira etapas que trazem os filhos dos filhos até os nossos dias. A análise é, ao mesmo tempo, psicológica e social, desce para o indivíduo e estuda a coletividade com aquela simpatia “socialista” que confere um sabor ligeiramente oleográfico a essa prosa entre a epopéia e o conto. O tempo e o Vento desenrola-se segundo o metrônomo do tempo, que tira ,com sua inexorabilidade, o sentido da tragédia imediata e mergulha toda realidade no fluir nivelante dos acontecimentos. (História da Literatura Brasileira. Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1997. p. 537-538).

Perguntemo-nos:
alguém, ao ler tais observações críticas, fará uma idéia da genialidade do romance de Erico?
Os historiadores deveriam fiar-se mais de sua imaginação do que de sua cultura! Ao menos, quando analisam obras realizadas com imaginação! A advertência foi feita, um século atrás, por um pintor, o simbolista, Gustave Moreau. (Cit. por Georges Rouault. Sur l’Art et sur la Vie.Paris, Denoël-Gonthier, 1971. p. 24).

Discordamos da restrição irônica da grande historiadora Stegagno-Picchio, ao referir-se ao sabor ligeiramente oleográfico de Erico.
Nossa leitura não será, pois, uma leitura crítica. Será uma leitura de saboreio, uma leitura de degustação.
Noutras palavras: uma leitura segundo o espírito do “prazer do texto” de Roland Barthes.

Dividiremos nossa abordagem em duas grandes secções:

1.    Erico, autor de uma Maravilhosa Tapeçaria Histórico-Mítica.
2.    Erico, um Encantador Verbal.

II.
Erico, autor de uma Maravilhosa Tapeçaria Histórico-Mítica.

Numa conferência proferida em 1939, pouco divulgada, o romancista conta:

- Achava-me eu em princípio deste ano num hotel de veraneio a quase oitocentos metros acima do nível do mar e com firme tenção de começar a escrever um massudo romance cíclico que teria o nome de Caravana. Seria um trabalho repousado, lento e denso, a abranger duzentos anos de vida do Rio Grande. Começaria numa missão jesuítica em 1740 e terminaria em 1940. (...) Não sei que secreta intuição me dizia que não tinha chegado a hora de escrever Caravana. Eu procurava me enfurnar nos longos corredores do tempo em busca da época áurea das missões, meter-me na pele do Padre Alonso, uma das personagens, esquecer o avião, o rádio, todas essas engenhocas da civilização mecânica para me imbuir das imagens e idéias do século XVIII. (O Romance de um Romance. Conferência proferida no Salão Nobre da Associação Rio-Grandense de Imprensa em Porto Alegre. Coleção Mapa. Museu/Arquivo da Poesia Manuscrita. Diretores: Iaponam Soares e Vera Araújo. Florianópolis, 1999. p.8.)

O “romance massudo” foi efetivamente escrito, e acabou tendo por título – não Caravana – mas O Tempo e o Vento.  
A obra principia, efetivamente, descrevendo um episódio da Revolução de 1893. Passa, a seguir, a abordar “a madrugada de abril de 1745”, quando o Padre Alonso acorda angustiado, e seu espírito “reluta, por alguns segundos, emaranhado nas malhas do sonho como um peixe que se debate na rede, na ânsia de voltar a seu elemento natural”. (O Continente. p. 198).
Veremos, logo, que o romance preenche todas as condições requeridas pelos teóricos para a existência de uma epopéia.
A epopéia de Erico costeia, permanentemente, a História.
Sua preocupação, no entanto, pela cronologia não tem a ver com a contagem minuteira de um “metrônomo”. A cronologia de Erico destina-se a posicionar o leitor, a fim de que não se extravie mar adentro da fantasia. Porque – seja dito desde logo - o romancista é de uma precisão admirável. O que Erico faz é inserir, no bojo de uma gélida exposição factual, o calor do sangue que ferve nas veias.
Não tinha ele dito, na sua conferência, que pretendia abranger duzentos anos de vida do Rio Grande?
Sublinhemos um elemento: o ficcionista junta, às descrições topográficas e históricas, personagens vivos, produtos de sua imaginação. É assim que nasce Pedro Missioneiro, o indiozinho que se encanta com a doçura verbal de Rosa Mística, palavras da liturgia católica que o missionário pronuncia, e fascina-se por seu punhal de prata, trazido da Espanha. O romancista descreve, em especial, a morte de Sepé Tiaraju, um dos heróis da saga missioneira, posteriormente convertido em santo”: São Sepé, “cuja alma subiu ao céu e virou estrela”. (Ib. p. 234).
Padre Augusto Magne observa que o maravilhoso da epopéia implica “a intervenção de agentes sobrenaturais na vida dos homens”. No romance, tal maravilhoso deixa-se ver inicialmente nas visões da Virgem, que o pequeno índio afirmava ter. Mais tarde, ele é embutido nas aparições da defunta mulher de Maneco Terra, Dona Henriqueta, que retornava ao lar na calada da noite, para pedalar na roca em cima do estrado:

- Mãe.
- Está ouvindo?
- Ouvindo o quê?
- Um barulho. Escuta...
(...)
Sim, Ana agora ouvia o ruído da roca a rodar, ouviu as batidas do pedal, bem como nos tempos em que sua mãe ali ficava a fiar e a cantar. Não havia dúvida: era o som da roca. (Ibid. p. 284).
Os interlúdios fornecem ao autor uma oportunidade, como no primeiro deles, para o autor inserir na sua ficção elementos pontuais, por exemplo, o da chegada dos setenta casais açorianos, vindos da Ilha Terceira. A esses casais mesclam-se elementos do planalto de Curitiba, como Chico Nunes Rodrigues, chefe de um bando de arrieiros, e gente de Laguna e outros sítios. Esse Chico Rodrigues, aliás, é quem, olhando para uma árvore forte, à beira da estrada, dirá:
- De hoje em diante vou me chamar Chico Cambará. (Ib. p. 239).
Notabilíssima a capacidade de Erico de incluir, dentro de sua moldura, os elementos da existência humana mais comezinha:
“o desejo de um homem” em Ana Terra;
 a presença doméstica de um cachorro;
 a gravidez resultante do encontro carnal com o índio;
 o assassinato de Pedro Missioneiro;
 o nascimento do filho de Ana;
 a morte da mãe;
a experiência do trigal;
o enfrentamento dos bandidos castelhanos;
o trucidamento da família Terra;
o episódio – quase franciscano – do aparecimento da vaca Mimosa, a cujo pescoço se lança Ana, emocionada, após o massacre do pai e dos irmãos, obtendo forças para erguer a cabeça, e dizer à cunhada Eulália:

- Não há de ser nada, Eulália...
Parada junto de Pedro e Rosa, com um vaga-lume pousado a luciluzir entre os chifres, a vaca parecia velar o sono das duas crianças como um anjo da guarda.
- Que vai ser de nós agora? – choramingou Eulália.
- Vamos embora daqui.   
- Mas para onde?
- Pra qualquer lugar. O mundo é grande. (Ib. p. 295).

Nada se subtrai ao romancista. As guerras sucedem-se de permeio, e após uma delas, em 1804, Chico Amaral instala uma charqueada. O Rio Grande é elevado a Capitania. Um botânico francês visita a Província. João Caré se junta com uma china...” e começam a ter filhos”! (Ib. p. 320). O romancista aproveita a deixa para, um pouco mais adiante, relatar a chegada dos alemães a São Leopoldo.
Mas onde colocaria ele, a filhinha de Licurgo Cambará recém-morta?
Numa caixa de marmelada:

- Podia ter um caixãozinho branco com enfeites dourados. Mas está dentro daquela caixeta, como filha de pobre. Morta, fria, um pedaço de carne sem vida. E o estômago se lhe contrai numa náusea quando ele pensa, por associação, em carne de nonato. Se ao menos pudesse fumar! Os lábios lhe ardem. A falta de cigarro lhe dá a impressão de que sua língua cresceu, inchou. (Ib. p. 324-325).
Falamos numa tapeçaria histórico-mítica.
Em O Continente os fatos mais comuns se acotovelam com os fatos mais pomposos. Já era hora, portanto, de o ficcionista surpreender os gaúchos com uma réplica nativa de um Don Juan, até mesmo para lisonjear-lhes as raízes ibéricas.
Surge a figura do Capitão Rodrigo, um Cid dos pampas, que irrompe montado num belo alazão,vestido de bombachas, botas com chilenas de prata e botões de metal.  Dentro do seu dólmã militar azul, o lenço encarnado esvoaçando no ar, violão a tiracolo: o que esperar de um tipo assim? A mais bizarra, a mais fanfarrona das apresentações:

- Buenas, e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho! (Ib. p. 333).

Nascia o monarca das coxilhas!
Com seu machismo, e até com sua gulodice (pessegada com queijo!)!
Com sua rebeldia, com sua intrepidez, e também com seu charme invencível, que arrastará no seu turbilhão a potranquinha arisca da Bibiana, cujos seios pontudos, e cuja apalpação era o mesmo que apertar goiabas maduras. (Ib. p. 350).
Uma vez que nenhum Cambará macho morre na cama, o Capitão há de morrer fora dela, não sem passar, primeiramente, por um duelo com um dos Amarais, que violara as regras da honra, ferindo-o com um traiçoeiro tiro de pistola.
No romance de Erico não podia faltar o grande acontecimento da Revolução Farroupilha de 1835, com todos os seus lances de heroísmo, que obrigou Rodrigo a atacar o casarão do clã rival, em cujo ataque foi baleado, e em conseqüência do ferimento desse assalto, faleceu.
O épico de Erico não camufla sequer o grotesco das aventuras.
Exemplo magnífico dessa mescla de mito e realismo é o interlúdio em que o autor evoca a figura originalíssima de Dona Picucha Terra Fagundes, a filha de Horácio Terra, que perdeu o marido na Cisplatina, e entregou sua ninhada de sete machos pros Farrapos, bem como seus sete cavalos e suas sete vacas, retendo em casa apenas um gato e um pintassilgo:

- E Deus naturalmente.

Depois da Guerra dos Farrapos, D. Picucha não falou mais nas proezas de Carlos Magno e seus doze cavaleiros, esqueceu Rolando por Bento Gonçalves, Olivério por Antônio Neto, Reinaldo por Davi Canabarro e Florismaldo por Lima e Silva. (Ib. p. 464 ss.).
A tapeçaria de O Continente complementa-se com a vinda de um agiota de Pernambuco, Aguinaldo Silva, cuja neta Luzia, moça criada na Corte que tocava cítara, cativará (no sentido etimológico do vocábulo) o bravo Bolívar Cambará, que se sentirá culpado vida afora pelo enforcamento injusto de um negro, Severino, condenado devido a um depoimento seu, mal interpretado.
A tapeçaria enriquece-se com a figura do médico alemão, Dr. Carl Winter, violinista, ex-integrante de um quarteto amadorístico de Heidelberg, cuja correspondência com Carl Von Koseritz é um dos achados da obra.
O clímax dessa tapeçaria ocorre com a morte de Bolívar, a Guerra do Paraguai, e o surgimento de Licurgo Cambará, caudilho rural, que salvará o Sobrado, e que concederá alforria a todos os seus escravos.
As cenas que Erico descreve nos capítulos finais do romance: o casamento de Licurgo, a entrega dos títulos de manumissão, a descrição das Cavalhadas, isto é, o torneio entre Mouros e Cristãos, são de um ficcionista de porte internacional. Em particular, destacaríamos os capítulos VIII-XI da penúltima parte: Sobrado VI.: p. 749-776.
A secção Sobrado VII encerra-se com a libertação de Santa Fé, e a constatação comovida da morte do velho Florêncio Terra:

- (Fandango): Com um mau pressentimento aproxima-se do amigo e toca-lhe o ombro, primeiro de leve e depois, como o outro não se mexe, com mais força, e repetidamente. Vê então, num susto, que os olhos de Florêncio estão abertos e vidrados, fixamente fitos no teto fuliginoso da cozinha. Toma-lhe da mão: fria. Apalpa-lhe a testa: gelada. Encosta o ouvido no peito do amigo e não lhe ouve o pulsar do coração. Apanha um copo, aproxima-o dos lábios do outro e deixa-o ali por alguns instantes; depois ergue o copo no ar, contra o sol, para ver se está embaciado. Nada!
Fandango olha fixamente para o amigo morto. Pobre do velho! (...) Era homem de vergonha, não gostava de dar parte de fraco nem de incomodar o próximo... Não gemeu pra não acordar os outros. E morreu sozinho sem ter ninguém que botasse uma vela acesa na mão... É bem como dizia o falecido Maneco Lírio: Mundo velho sem porteira! (Ibid. p. 789).

Que força expressiva! Encanta-me, especialmente, aquela dobradinha vocabular, de uma pungência seca: Toma-lhe da mão: fria. Apalpa-lhe a testa: gelada, perfeitamente compatível com a rudeza gaúcha do personagem.
A conclusão do romance é de uma singeleza incomparável:

- O vento uiva, fazendo matraquear as vidraças. Bibiana Terra Cambará sorri, leva o indicador aos lábios, como a pedir silêncio, e estendendo a mão na direção da janela, sussurra: - Está ouvindo? (Ibid. p. 790).


II.          Erico, um Encantador Verbal.

Todo leitor medianamente informado sabe que um escritor genial é o resultado de um tríplice carisma: a) uma memória pessoal e coletiva que produz vigorosos mitos; b) uma imaginação capaz de inventar personagens paradigmáticos; c) um talento extraordinário para extrair da língua o que dentro dela dorme em possibilidades de propriedade, precisão e clareza.
Que se entende por propriedade?
É a escolha de termos que traduzem adequada e unicamente o respectivo conceito.
Que se entende por precisão?
É a nitidez da expressão dos elementos essenciais e a eliminação das superfluidades e redundâncias.
Que se entende por clareza?
É a manifestação fácil do pensamento, através de expressão luminosa e transparente. (Augusto Magne. Ibid. p. 53-65).
A essas qualidades, destacadas pelo teórico, acrescentaríamos duas outras, típicas do estilo de Erico: fluência oral, e musicalidade poética.
Outro teórico, o fenomenologista Roman Ingarden, definiu da seguinte maneira a obra literária:
- (ela é) um verdadeiro milagre. Existe e vive e atua sobre nós e enriquece extraordinariamente a nossa vida, oferece-nos momentos de deleite e de descida às profundezas abissais do ser e, apesar disso, é apenas uma formação ontologicamente heterônoma que, no sentido da autonomia de ser, corresponde a um nada. Se a quisermos apreender teoricamente, ela apresenta-se-nos com uma complexidade e uma polivalência que não podemos deixar de considerar; e por outro lado, têmo-la, perante nós, na vivência estética como uma unidade que só levemente deixa transparecer esta complicada estruturação. Tem um ser ontologicamente heterônomo que parece ser completamente passivo e que sofre inoperante todas as operações que sobre ela realizamos. E, no entanto, através das suas concretizações ela provoca profundas modificações na nossa vida, alarga esta vida e eleva-a acima das banalidades da existência quotidiana, dá-lhe um fulgor divino – um “nada” e, apesar disso um mundo maravilhoso em si mesma ainda que a sua criação e existência mais não sejam do que favores nossos. (A Obra de Arte Literária. 2 ed.  Tradução de Albin E. Beau, Maria da Conceição Puga e João F. Barrento. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1979. p. 409).
Entenda o leitor como puder as palavras do fenomenologista, não resta dúvida de que poucos romances nacionais merecem que se lhes atribua elogio tão alto!
Selecionamos, de cada parte de O Continente, trechos significativos, para que o leitor, por meio de tal amostragem, faça uma idéia do encantamento verbal que Erico nos proporciona ao longo de seu roman-fleuve.

1.   De o Sobrado I:
- Sozinha no seu quarto, sentada na sua cadeira de balanço, e enrolada no seu xale a velha Bibiana espera... O quarto está escuro, mas para ela nestes últimos anos sempre, sempre é noite, pois a catarata já lhe tomou conta de ambos os olhos. Ela mal e mal enxerga o vulto das pessoas, mas ouve tudo, sabe de tudo, conhece as gentes da casa pela voz, pelo andar e até pelo cheiro. Quando ouviu o primeiro tiroteio, ficou nesta mesma cadeira, esperando e escutando. Quando as balas partiam as vidraças ou se cravavam nas paredes, ela tinha a impressão de estar vendo – não! – de estar ouvindo uma pessoa de sua família ser fuzilada pelos inimigos. Medo não sentiu, isso não. Teve dó. E ódio. Estragarem o sobrado desse jeito! Mas guerra para ela não é novidade. Tudo isso já aconteceu antes, muitas, muitas vezes. Viu guerras e revoluções sem conta, e sempre ficou esperando. Primeiro, quando menina, esperou o pai; depois o marido. Criou o filho e um dia o filho também foi para a guerra. Viu o neto crescer e agora o Licurgo está também na guerra. Houve um tempo em que ela nem mais tirava o luto do corpo. Era morte de parente em cima de morte de parente, guerra sobre guerra, revolução sobre revolução. Como o tempo custa a passar quando a gente espera! Principalmente quando venta. Parece que o vento maneia o tempo. (Ibid. p. 195-196).

Comentário:
O texto de Erico não é prejudicado por nenhum coágulo verbal, por nenhuma palavra que lhe entrave o desenvolvimento da narrativa. O romancista passa - da descrição da cena - à sugestão dos estados psíquicos da personagem. A memória domina a narração, e tende a invadir o terreno mítico. A alusão mítica reside na vinculação do factual ao histórico: Como o tempo custa a passar quando a gente espera.

2. De O Sobrado II:

- Sempre que acontece alguma coisa importante está ventando – costumava dizer Ana Terra. Mas entre todos os dias ventosos de sua vida, um havia que lhe ficara para sempre na memória, pois o que sucedera nele tivera a força de mudar-lhe a sorte por completo. Mas em que dia da semana tinha aquilo acontecido: Em que mês? Em que ano? Bom, devia ter sido em 1777: ela se lembrava bem porque esse fora o ano da expulsão dos castelhanos do território do Continente. Mas na estância onde Ana vivia com os pais e dois irmãos, ninguém sabia ler, e mesmo naquele fim de mundo não existia calendário nem relógio. Eles guardavam de memória os dias da semana; viam as horas pela posição do Sol. E calculavam a passagem dos meses pelas fases da lua; e era o cheiro do ar, o aspecto das árvores e a temperatura que lhes diziam das estações do ano. Ana Terra era capaz de jurar que aquilo acontecera na primavera porque o vento andava bem doido, empurrando grandes nuvens brancas no céu, os pessegueiros estavam floridos e as árvores que o inverno despira se enchiam outra vez de brotos verdes. (...) Em certas noites Ana ficava acordada debaixo das cobertas, escutando o vento, eterno viajante que passava pela estância gemendo ou assobiando, mas nunca apeava de seu cavalo; o mais que podia fazer era gritar um – Ó de casa! – e continuar seu caminho campo em fora.

Comentário:
Erico situa, aqui, seus personagens no espaço mítico, um vez que, onde o tempo é circular, não passa – antes, volta a passar. Estamos, portanto, fora da história, dentro do mito. Daí a presença das estações, sublinhadas ao longo do romance: de certo modo, são a pontuação desse espaço onde nada acontece, e tudo se repete. O vento é comparado a um ginete (é o leit-motiv musical) que não apeia de sua montaria. Não tardará que um acontecimento trágico, isto é, o massacre do pai de Ana e de seus irmãos, jogará Ana nos braços da história.
No trecho acima, temos um belo exemplo do estilo de Erico: sua incrível fluência. A oralidade é transposta em literatura A expressão atinge uma intensidade excepcional quando o ficcionista salta - da descrição linear da monótona vida da povoação - ao plano sensorial e poético subjetivo. A transição ocorre em: e era o cheiro do ar, o aspecto das árvores e a temperatura que lhes diziam das estações do ano. O texto principia a carregar-se de poesia: o vento andava bem doido, empurrando grandes nuvens brancas no céu, os pessegueiros estavam floridos e as árvores que o inverno despira se enchiam outra vez de brotos. Até, parece linguagem bíblica! De repente, o autor avança ainda mais, embrenha-se no mundo interior do devaneio bachelardiano : Em certas noites Ana ficava acordada debaixo das cobertas, etc.
Desse devaneio Erico volta-se decididamente, para a concretude física da “fêmea” Ana:

- Ana estava inquieta. No fundo ela bem sabia o que era, mas envergonhava-se de seus sentimentos. Queria pensar noutra coisa, mas não conseguia. E o pior era que sentia os bicos dos seios (só o contato com o vestido dava-lhe arrepios) e o sexo como três focos ardentes. Sabia o que aquilo significava. Desde seus quinze anos a vida não tinha mais segredos para ela. Muitas noites quando perdia o sono, ficava pensando em como seria a sensação de ser abraçada, beijada, penetrada por um homem.(...) E agora ali no calor do meio-dia, ao som daquela música, voltava-lhe intenso como nunca o desejo de um homem. Pensava nas cadelas em cio e tinha nojo de si mesma. Lembrava-se das vezes em que vira touros cobrindo vacas e sentia um formigueiro de vergonha em todo o corpo. Mas esse formigueiro era ainda desejo. Decerto a soalheira era a culpada de tudo. A soalheira e a solidão. Pensou em ir tomar um banho no poço. Não: banho depois da comida faz mal, e mesmo ela não agüentaria a caminhada até à sanga, sob o fogo do sol. A sanga era para Ana uma espécie de território proibido: significava perigo. A sanga era Pedro. Para chegar até à água teria de passar pela barraca do índio, correria o risco de ser vista por ele.

Comentário:
A descrição é de um erotismo direto, sem disfarces. Lateja nesse erotismo a pujança do instinto, o frescor da animalidade. Mais uma vez, a perícia de Erico revela-se na mescla harmoniosa de realismo e psicologia feminina. Vejamos como Erico conclui a cena:

- A água do poço devia estar fresca. Ana imaginou-se mergulhada nela, sentiu os lambaris passarem-lhe por entre as pernas, roçarem-lhe os seios. E dentro da água agora deslizava a mão de Pedro a acariciar-lhe as coxas, mole e coleante como um peixe. Uma vergonha! O que ela queria era macho. E pensava em Pedro só porque, além do pai e dos irmãos, ele era o único homem que havia na estância. Só por isso. Porque na verdade odiava-o. Pensou nos beiços úmidos do índio colado à flauta de taquara. Os beiços de Pedro nos seus seios. Aquela música saía do corpo de Pedro e entrava no corpo dela... Oh! Mas ela odiava o índio. Tinha-lhe nojo. Pedro era sujo. Pedro era mau. Mas apesar de odiá-lo, não podia deixar de pensar no corpo dele, na cara dele, no cheiro dele – aquele cheiro que ela conhecia das camisas – não podia, não podia, não podia. (Ibid. p. 266).

Comentário:
Qualquer coisa de sutil e fino impregna esse erotismo que foi tão criticado em Erico. O escritor limita-se a expor a erupção do instinto, que se debate entre a possibilidade do incesto – que é absolutamente rejeitado – e a única saída, a da violação, que será a alternativa, logo adiante narrada pelo autor, quando Ana se deixa violar, numa espécie de estupro consentido:

- Ana então sentiu, mais que viu, que era Pedro. Quis gritar, mas não gritou. Pensou em erguer-se, mas não se ergueu. (...) Sentiu quando o corpo do índio desceu sobre o dela, soltou um gemido quando a mão dele lhe pousou num dos seios, e teve um arrepio quando essa mão lhe escorregou pelo ventre, entrou-lhe por debaixo da saia e subiu-lhe pelas coxas como uma grande aranha caranguejeira. Numa raiva Ana agarrou com fúria os cabelos de Pedro, como se os quisesse arrancar. (Ibid. p. 272).

Comentário:
Na época da publicação do romance, 1949, Erico foi tachado de imoral, como já antes, quando da publicação de Olhai os Lírios do Campo também o fora. Em nossa época, com internet à disposição dos adolescentes, a descrição de Erico não produz mais impacto. Tanto melhor. Pode-se apreciá-la com mais finura. É uma descrição, a rigor, destituída de qualquer intenção pornográfica.
Stefan Morawski, em seus Fundamentos de Estética (Barcelona, Ediciones Península, 1977) abordou o problema das relações entre pornografia e estética. Com notável lucidez, o grande teórico polonês apresentou sua definição de pornografia: “representação ou insinuação em palavras ou imagens, com a ajuda de objetos, temas, motivos ou situações, de todos os elementos que pertencem à vida sexual.” Aparentemente, essa definição implicaria numa crítica a Erico. Morawski, porém, apressa-se a conceitualizar com mais rigor sua definição: “Em minha opinião, uma obra de arte nunca pode ser um objeto obsceno. Ambas as coisas se excluem reciprocamente.(...) A finalidade primordial do artista (do escritor) não é provocar uma excitação sexual. Do ponto de vista estrutural, os elementos sexuais de uma obra de arte nunca podem ser exclusivos ou predominantes, nem tão destacados como os valores estéticos da obra.” (Ibid. p. 392). Morawski insiste em que se deve distinguir claramente entre erotismo e pornografia, ou obscenidade. (Ibid. p. 401). Noutras palavras, a obra literária incorpora a sexualidade e suas ramificações “numa moldura vital e rica em valores” (Ibid. p. 401). É o caso de Erico: se o autor estivesse interessado em pornografia, não teria inserido, na descrição da relação sexual de Ana com Pedro uma série de elementos extra-eróticos ou para-eróticos, como as alusões aos peixes, à flauta de taquara, à imagem da aranha caranguejeira. O escritor, na realidade, pretendia registrar um encontro dramático de dois seres que, a seguir, seriam definitivamente separados, pois Pedro seria assassinado pelo pai e seus dois irmãos...

3..      De O Sobrado III:
- Ao aproximar-se de sua casa (Rodrigo),viu um risco de luz por baixo da porta. Então, de repente, compreendeu a situação.(...) Parado ali na rua, recebendo na cara o vento gelado, ele pensava essas coisas e olhava para a porta de sua casa.(...) Depois aproximou-se dela e abriu-a devagarinho. A lamparina estava à beira da cama onde, deitada ao lado de Bolívar, que dormia, Bibiana chorava mansamente, enquanto D. Arminda lhe passava a mão pelos cabelos. Rodrigo aproximou-se do berço da filha e viu que Anita tinha a cabeça coberta por um lençol. Ia erguer o braço para descobrir o rosto da criança quando ouviu uma voz de homem:
- Faz mais de uma hora que a menina morreu.
Só então Rodrigo percebeu que havia outra pessoa na peça. Dum canto escuro avançou um vulto. Era o Padre Lara. (Ibid. p. 442).

Comentário:
Quantos ficcionistas no Brasil seriam capazes de descrever uma cena tão pungente como essa com tal economia de meios, com tão nítido desenho xilográfico? Erico era, de fato, um desenhista, e costumava fazer esboços de seus personagens. Existe, nesse trecho, qualquer coisa do realismo dos primeiros épicos, digamos, de Homero. Erico não se deixa extraviar em detalhes inúteis. Mas também não os omite, quando úteis ao seu painel. A referência inicial é maravilhosa: viu um risco de luz por baixo da porta. Que melhor prelúdio para uma cena tão triste e escura? O quadro completa-se justamente com: Dum canto escuro avançou um vulto.

4..  De O Sobrado IV:
- Estava agora completamente nu. Tinha um corpo muito esguio e ossudo, dum branco de marfim, pintalgado de sardas e recoberto duma penugem fina. Ficou a imaginar o que aconteceria se um dia saísse a andar assim despido pelas ruas do povoado. Certamente aqueles homens iriam caçá-lo a tiros e as mulheres que o vissem soltariam gritos de horror. Carl (Winter) ficou sacudido de riso. Baixou os olhos na contemplação do próprio corpo. Era magro e dessangrado com o Crucificado de Van der Weyden que ele vira em Viena. Apenas o Cristo da pintura não usava óculos.  Nem era ruivo. Nem formado em medicina. Nem... Ach!... Du bist ein Hanswurst, Carl!

Comentário:
Temos aqui um exemplo típico do humor de Erico. Um retrato quase à Egon Schiele! Um humor – seja dito de passagem – amargo! Um humor de homem culto, capaz de comparar o médico alemão, que fora dar em Santa Fé, com a imagem de um Cristo de pintor flamengo. Humor, também, em relação ao círculo de pessoas do médico: quem deles poderia compreender um homem que tocava violino e lia Heine? Erico passa do dramático – ou do trágico – ao humor, com tão límpida naturalidade?

5. De O Sobrado V:

- Foi naquele quente e abafado dezembro de 1869 que chegaram de volta a Santa Fé alguns voluntários que a guerra deixara inválidos. Entre eles estava Florêncio Terra, que recebera um balaço no joelho. Desceu da carroça apoiado em muletas. Estava tão barbudo tão magro e tão sujo que a própria mulher não o reconheceu no primeiro momento. Ficaram os dois frente a frente, parados, mudos, a olhar estupidamente um para o outro. De repente ela se atirou nos braços de seu homem e desatou o choro. (Ibid. p. 615-616).

Comentário:
A cena da chegada de Florêncio Terra a Santa Fé – que resumimos aqui – é um libelo contra todas as Guerras. Erico não alteia a voz, não se deixa levar pela ênfase. A cena é descrita com aparente frieza, causando um arrepio em quem a lê. As palavras de consolo, que o inválido dá à mulher que o esperava, são esfarrapadas, de cortar o coração:
- Não chore – disse ele, acariciando de leve os cabelos da mulher - Não é nada. Voltei vivo.    (Ibid. p. 616).
Nesses pormenores, Erico mostra quão genial ele é!

6.   De O Sobrado VI:                          
O Sobrado ali estava na luz indecisa da alvorada, pesado como uma fortaleza e ao mesmo tempo com o jeito dum grande animal adormecido. Fora recentemente caiado de novo, os caixilhos das janelas pintados dum azul de anil, os azulejos polidos; e nas grades do portão a tinta estava ainda fresca. Pombas que tinham fugido da torre da igreja, assustadas pelo badalar do sino, estavam agora pousadas no telhado do casarão dos Cambarás. Apesar de tudo, o monstro continuava a dormir. Num dado momento, porém, como uma pálpebra que se ergue, revelando o brilho de uma pupila, abriu-se o postigo duma das janelas do andar superior, deixando aberto na fachada um quadrilátero luminoso onde se recostou o vulto dum homem alto e espadaúdo, metido num camisolão. Licurgo Cambará fora despertado pelo bater do sino (...) (Ibid. p. 694).

Comentário:
A esse texto de Erico, só posso juntar uma anedota grega, atribuída a Aristóteles. Alguém perguntou ao filósofo por que as pessoas gostavam de coisas bonitas, de mulheres bonitas. O filósofo sorriu, complacente, e respondeu:
- Esta pergunta só pode ser feita por um cego!
Se um leitor não é sensível à beleza literária desse fragmento, desistimos de apresentar-lhe exemplos do estilo do grande romancista!

7.   De Sobrado VII :
Fandango pensa nas gargantas abertas desde que viu que a revolução começou. Curgo (Licurgo) vive dizendo que os maragatos são bandidos. Mas qual! Todo o mundo sabe que há gente boa e gente ruim dos dois lados. Ele se lembra do Boi Preto onde a Divisão do Norte pegou duzentos federalistas dormindo num acampamento e liquidou todos a arma branca. E o caso de Gumercindo Saraiva? Foi enterrado num dia pelos companheiros e desenterrado no outro pelos inimigos. Contam até que um chefe republicano gritou: “Quero as orelhas do bandido!” – e passou-lhes a faca. Uma sangueira braba, uma perda horrível de vidas, de dinheiro e de tempo! E no entanto o mundo tem tanta coisa gostosa! Mulher bonita, cavalo bom, baile, churrasco, mate amargo... Laranja madura, melancia fresca, uma guampa de leite gordo ainda quente dos úberes da vaca... Uma boa prosa perto do fogo... Uma pescaria, uma caçada, uma sesta debaixo dum umbu... Tanta coisa! (Ibid. p. 782).

Comentário:

Este foi o Erico com quem convivi!
A sua linguagem podia ser outra. A linguagem, que aqui se oferece, é a de Fandango, um velho gaúcho “a quem tocou o último quarto de vigília da noite”, e que tem “a impressão de que é o minuano vai apagando aos poucos com o seu sopro de gelo as últimas estrelas”... Mas os sentimentos eram os do próprio escritor, um humanista convicto, de uma sinceridade indiscutível. Um escritor capaz de expressar a pluralidade dos matizes da vida, todas as suas facetas, sempre usando estilo adequado a cada situação. A simplicidade estilística de Erico é inimitável. A sua fluência musical, e o colorido de suas imagens e metáforas, são as de um poeta.