terça-feira, 26 de abril de 2011

Três Obras de Arte sobre a Eucaristia.

           I.
           Divulguei, tempos atrás, neste blog uma série de ensaios sobre a Virgem Maria.
          Num deles fiz comentários sobre 25 pinturas famosas na História da Arte Ocidental, cuja temática girava em torno da Anunciação do Anjo à Virgem Maria. 
          Os interessados podem acessar o ensaio: Retrato Humano da Virgem Maria: I-II-III-IV.
          Noutro ensaio satisfiz a curiosidade de um leitor que desejava saber quais as 5 imagens artísticas da História da Arte que mais me comoviam, quer do ponto de vista devocional quer do ponto de vista artístico.
          Permita-nos o leitor, hoje, uma singela confidência.
          Na Quinta-Feira Santa do corrente ano assisti a uma missa comemorativa da instituição da Eucaristia, numa das tantas igrejas de Porto Alegre.
          Na ocasião senti-me transportado, imaginativamente, às páginas de um conhecido romance, o Quo Vadis  de Henryk Sinkievicz, autor polonês que obteve o Prêmio Nobel em 1905.
          Aprecio essas fugas imaginativas...
          De repente, eis-me fazendo parte de um grupo de cristãos dos primeiros tempos, que se reuniam em Roma em locais clandestinos, e tinham de tomar todas as precauções possíveis para não serem descobertos pelos esbirros de Nero, que andavam como cães ferozes ao encalço dos Apóstolos Pedro e Paulo. Sempre me enterneci com os episódios desse romance, cuja primeira versão cinematográfica se tornou famosa, e é possível de ser encontrada em locadoras da capital.
          Era a época em que um cristão se comunicava com seus coirmãos mediante signos extraídos da simbologia pagã, como o signo do Peixe, cujas iniciais em grego Ichthus  (Iesous Christos Theou Uios Sôter) significavam “Jesus Cristo, Deus, Filho, Salvador”.
          Eventualmente, quando dos encontros com pessoas desconhecidas, os cristãos riscavam no chão, sinais do Arcanum Fidei, que os pagãos interpretavam como garatujas de ociosos. Disciplina do Arcano era o segredo com que os batizados reservavam para si o segredo dos Mistérios Cristãos, à guisa de senhas, para que não fossem profanados pelos pagãos, ou para impedir que membros da comunidade fossem denunciados às autoridades
          Voltei da missa comemorativa com uma nova e serena impressão de assombro.
          Pensando bem: é um prodígio que o Cristo Ressuscitado esteja sob as aparências do pão e do vinho, numa igreja qualquer - e que um idoso sacerdote re-ofereça seu Sacrifício, em forma incruenta, num pequeno altar enfeitado com palmas e flores.
          Nós cristãos, que podemos replicar aos amigos, agnósticos ou ateus que nos abordam à saída da igreja.
          - Vocês admitem, de verdade, que Cristo desça até vocês?    
          Um cristão deve admitir que a melhor resposta é o silêncio, ou a confissão despretensiosa do mais humilde e humilhado dos membros da comunidade, em qualquer parte do mundo.
          - Nós cremos que, por meio do pão e do vinho, o Salvador realiza o memorial de sua Paixão e Ressurreição, e se dá como alimento espiritual aos crentes.
          Não há nada, infelizmente, que nos permita suavizar o pasmo de nossos amigos. Nem é oportuno para nós, por razões de polidez, sugerir-lhes que pensem nas palavras de Jesus: O que é impossível aos homens, não o é a Deus!
          Às vezes, assalta-me um impulso sincero: abraçar esses amigos, jurar-lhes que não fingimos, afirmar-lhes que nem sequer somos melhores do que eles, nem sentimos fenômeno algum excepcional em termos de sensorialidade e sensibilidade.
          Chega, porém, um momento em que o silêncio se impõe.
          Nessa hora, quem poderá ajudar-nos?
          Talvez a amizade - a face menor, a mais ignorada do amor.
          Onde há clima para isso, ela desabrocha num sorriso, e nos faz aterrissar neste planeta de loucuras, surpresas, alumbramentos, melancolias, renascimentos, mortes, tsunamis, atentados, descobertas, júbilos, massacres, enternecimentos, mães que amamentam pela primeira vez... bebês que ensaiam seus primeiros sorrisos!   

          II.

          Diante do Mistério da Eucaristia, a própria Arte experimenta uma sensação estranha de impotência.
          Muitos artistas tentaram sugerir esse Mistério. Em geral, os crentes não se emocionam perante tais representações.
          A Adoração do Cordeiro Místico (1432) de Jan van Eyck, no Museu de Gand, na Bélgica, e o grande afresco de Rafael, A Disputa do Santíssimo Sacramento (1509), na Stanza della Segnatura, no Vaticano, deixam-nos - não direi frios – mas somente emudecidos. São obras de arte, indubitavelmente. Sob o ponto de vista, porém, religioso, é raro que suscitem emoções religiosas. A tela de Van Eyck, na minha opinião, acerca-se mais à devoção, e pode – eventualmente – aquecer uma flor em botão.
          Não se desconhece a boa-vontade dos artistas. O problema é que, em se tratando de sensibilidade religiosa, o talento e a boa vontade não são suficientes para produzirem uma obra-prima.
          Contentemo-nos, portanto, com alusões felizes, com insinuações artísticas, capazes de despertar em nós sentimentos de respeito.
          Eu, pessoalmente, não me decepciono por não deparar, na História da Arte, muitos exemplos de grande arte visual sobre a Eucaristia.
          Quem foi capaz, até ao presente, de figurar o sol? É certo que Van Gogh deixou-nos uma imagem do sol, de imenso poder sugestivo. Mas é um sol fantástico, para ser contemplado em sonhos ou devaneios, não para ser compreendido na sua condição de luzeiro do planeta.

          III.

          Existem, entretanto, três obras de arte que nos satisfazem, por preencher as condições requeridas para uma obra-prima religiosa e estética.

          Uma delas é uma pintura.
         A segunda, uma composição musical.
         A terceira, um poema.

         1.
        A primeira obra-prima sobre a Eucaristia é um óleo de Francisco Goya y Lucientes, relativamente pouco conhecido: A Última Comunhão de São José de Calasanz (óleo sobre tela, 250x180 cm). Está no Museu do Prado, em Madrid. Essa tela foi encomendada pelos Padres Esculápios da Igreja de San Antonio Abade de la Florida, em Madrid. Nessa igreja, aliás, repousam os restos mortais do pintor.  
        Para que possamos entender por que Goya aceitou pintar tal tema religioso, é preciso esclarecer que ele foi aluno dos Padres Esculápios em Fuendetodos, sua aldeia natal, a 65 km de Saragoça, na Província de Aragão. O pintor continuou católico até ao fim de sua vida, nunca esquecendo, mesmo em idade madura, de traçar uma cruz no início de suas cartas, ao filho Francisco Javier ou ao seu grande amigo Martín Zapater, nem de invocar em suas necessidades a Virgem do Pilar, Padroeira de Saragoça.
          Em 1819, aos 73 anos, os Padres Esculápios procuraram-no, para encomendar-lhe a decoração da Igreja de San Antonio. O pintor aceitou a encomenda pelo preço de 16.000 reales, de cuja soma deu quitação para 8.200. Devolveu o restante aos Padres Esculápios, dizendo-lhes que era sua contribuição para a glorificação do Santo, seu compatriota. Pintou, pois, a tela supramencionada sobre o Santo, que viveu de 1557 a 1648, notabilizando-se por fundar uma ordem de religiosos, dedicada à criação de colégios para crianças pobres. Goya, não só devolveu parte do dinheiro, mas ofereceu aos Padres outra tela sobre a temática do Santo.
Detenhamo-nos um pouco sobre a Última Comunhão de São José de Calasanz.
Nesse óleo Goya – o implacável denunciador das hipocrisias da sociedade espanhola, e da crueldade da invasão francesa, especialmente com seus Fuzilamentos de Três de Maio, de 1808, a que se seguiram as séries de gravuras sobre os Desastres da Guerra (1810) e os Disparates e Provérbios (1816) – conseguiu o que raríssimos pintores do mundo conseguiram: despertar uma sensação de profunda intimidade religiosa. Vê-se no quadro um Sacerdote, em pé, levemente inclinado, com um cibório na mão esquerda, que estende a mão direita com a pequenina hóstia. O perfil do sacerdote aparece iluminado, bem como o braço que se dobra para aproximar o sacramento aos lábios trêmulos do ancião. O rosto de São José de Calasanz, que estava próximo dos noventa anos, é o mais iluminado de todos. Goya acentuou a velhice venerável do Santo por meio de um detalhe: as mãos postas que se curvam, revelando a debilidade do personagem. A atitude de recolhimento e a doçura da cena são algo que um católico jamais esquecerá. Alguma coisa poderá tocar-lhe o fundo da alma. Se o contemplador não se acercar ao limiar da prece, ao menos retirar-se-á meditativo, perguntando como foi possível a um artista, tão anti-clerical, atingir tal grau de ternura e pureza diante do Mistério! A tela de Goya é uma das poucas obras de arte pictórica que, com seu cromatismo calibrado, permite que todos os rostos presentes à cena recebam um reflexo da luz do rosto do Santo. Pode-se dizer que a única cor do quadro é o branco da luz. Além dessa cor, vê-se o verde-azulado, com uma franja dourada na casula do celebrante, e uma faixa vermelha que também serve para mostrar o barrete do Santo no chão enxadrezado, que repercute a cor verde e dourada da casula. Goya não se esqueceu de sugerir a Graça de Deus, por meio de um jato de luz que desce do alto, esgarçando-se à medida que se aproxima do rosto do Santo.

2.
Passemos a outra obra de arte: o maravilhoso motete Ave, Verum Corpus, de Wolfgang Amadeus Mozart.
Essa peça foi-lhe solicitada por um professor e mestre de coro em Baden, perto de Viena, o qual ajudou a esposa do compositor Constanze, que ali fazia tratamento de banhos termais, a achar acomodações para as suas estadias. Em agradecimento a esse favor, Mozart atendeu ao seu pedido para musicar o venerável texto latino da liturgia:

Ave, verum Corpus, natum de Maria Virgine:
vere passum, immolatum in cruce pro homine;
cujus latus perforatum unda fluxit et sanguine.
Esto nobis pregustatum in mortis examine.

Em tradução aproximada:

Eu te saúdo, Corpo verdadeiro, nascido da Virgem Maria,
que pelos homens padeceu, e foi imolado na cruz,
de cujo peito trespassado jorrou  água e sangue.
Oh, possamos prelibá-lo na hora de nossa morte!

No original latino, existem rimas: natum, immolatum, perforatum, pregustatum, a cada final de versos de sete sílabas, continuados por outros versos de cinco sílabas, cujas rimas ocorrem apenas no acento proparoxítono das palavras: Vírgine, hómine, sánguine, exámine (os dois últimos vocábulos oferecem rimas assonantes no sentido estrito).

Manuel Bandeira, no livro Itinerário de Pasárgada, conta que, certa vez, perguntou a seu tio Cláudio se vésper rimava com cadáver:  A resposta negativa do tio - diz o poeta – “me inutilizou um soneto. Hoje vejo que quem tinha razão era o meu ouvido. Rima é igualdade de som. Tanto se rima consoantemente como toantemente e de outras maneiras”.
(Poesia Completa e Prosa. 2 ed. Rio de Janeiro, Companhia José Aguilar Editora, 1967. p. 44).
Podemos considerar rimas, igualmente, as citadas acima.
Utilizando uma expressão de Mario de Andrade, diremos que Mozart genializou o texto litúrgico com sua melodia lenta, de uma solenidade prodigiosamente coloquial. Quem ouvirá tal música para coro e cordas, sem sentir um delicioso arrepio psíquico no mais íntimo de si? Tem-se a impressão de que o coro avança com a majestade de uma pequena onda que se espreguiça ao sol na praia...
Sabemos, como o sublinha Maurice Barthélemy, diretor da Biblioteca do Conservatório de Liège, que Mozart se manteve crente durante toda a vida: “sem qualquer hipocrisia. Considerou-se sempre um bom cristão e um católico fiel. Colocava-se de bom grado sob a proteção da Virgem. Sabemos também, com toda a certeza, que freqüentou regularmente as igrejas e cumpriu todas as suas obrigações de católico. Refugiava-se na oração em todas as circunstâncias importantes da sua vida”.
(Mozart. Tradução de Ana Maria Vaz. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1989. p. 15).
Roland de Candé, na sua Histoire Universelle de la Musique, qualifica essa composição de Mozart de sublime, e cita o grande teólogo protestante Karl Barth (1886-1968):
- Não estou seguro de que os anjos, quando estão glorificando Deus, tocam a música de Bach, mas estou certo de que, quando estão à vontade entre eles, tocam a música de Mozart, e que Deus se compraz particularmente em escutá-los.
(Cit. Ibid. Tome 1. Paris, Éditions du Seuil, 1978. p. 606).

3.
A terceira obra de arte sobre a Eucaristia é um poema de um monge brasileiro, Dom Marcos Barbosa, do Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro.
Dom Marcos venceu o concurso para o Hino do XXXVI Congresso Eucarístico Internacional do Rio de Janeiro, em 1955.
A letra desse hino é de um lirismo superior, feita de achados metafóricos ligados à simbologia sacramental, e de uma sutileza métrica e rítmica dignas dos velhos Cancioneiros Quinhentistas:

I.
Do Céu desceu a chuva,
A gota entrou no chão;
A vinha deu a uva,
A espiga deu o grão.

Estribilho:

De todo o canto, vinde, correi:
foi posta a mesa do nosso Rei!

 II.
O homem com carinho
Curvou a rude mão;
da uva faz o vinho,
do trigo faz o pão.

III.
Do Céu desceu a graça,
Maria a recebeu;
qual procissão que passa
no seio traz um Deus.

IV.
À mesa dos mortais
o Cristo se assentou;
os mais doces sinais
na sua mão tomou.

V.
É sangue o que era vinho
e corpo o que era pão;
a mim, a cruz, o espinho,
a ti, a refeição.

Raramente um texto poético, dedicado ao Santíssimo Sacramento, atingiu tais alturas.
O poema é de um linearismo de sabor clássico, no qual se alternam versos cintilantes de significação teológica, e uma expressividade musical tão encantadora, que, às vezes, evoca as cirandas com que as crianças se divertiam nas ruas e praças de aldeias provincianas.
Ninguém se deixe enganar pela epidérmica simpleza dos versos! São versos de uma tessitura formal apurada, com seus paralelismos, contrastes, rimas e assonâncias bem distribuídas.
A graça maior do poema reside na mescla de imagens bíblicas com imagens do cotidiano, que podem ser associadas, também, à vida dos homens de hoje, sem prejuízo de sua carga transcendente, dogmática e simbólica.

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