segunda-feira, 11 de abril de 2011

A Santíssima Trindade e as Mulheres Convertidas ao Islamismo na América.

Resolvi ler um livro de Donna Gehrke-White, jornalista que obteve dois prêmios Pulitzer em comunicação: O Rosto Atrás do Véu. O livro tem por subtítulo: As várias faces das mulheres muçulmanas (São Paulo, Arx, 2006).
Interessei-me em saber o que pensam essas mulheres americanas que se convertem à religião de Maomé, e passam a chamar-se muslimah. Como o glossário explica, tal é a denominação em árabe para as seguidoras do Islamismo.
São cidadãs americanas que usam vestimentas típicas, e frequentam mesquitas – quando as há – em suas cidades. Pertencem a várias classes sociais: médicas, advogadas, donas de casa. Entre elas inclui-se uma estilista, Micaela Corning, de Seattle, que faz sucesso com suas criações fashion para o mundo feminino.
O livro descreve situações vividas por membros desse grupo, que pode ser dividido em: 1) as neotradicionalistas, que não receiam vestir roupas típicas, inclusive o hijab, véu que cobre a cabeça; 2) as convertidas, um número surpreendente de americanas de todas as raças e grupos étnicos, que trocaram sua religião de nascença, eventualmente a católica, por uma adesão consciente ao Alcorão; 3) as perseguidas, em geral mulheres que chegam à América vindas de países como Afeganistão, Iraque, Somália, Bósnia e Índia, “fugindo de abusos, e pedindo asilo para não terem de voltar ao país onde podem ser mortas por um homem enfurecido”.
Podemos chamar a atenção para alguns pontos do livro:

1.  Muitas das convertidas confessam que o Islamismo lhes ensinou a orar. São fiéis que não abrem mão das cinco sessões de preces que o Alcorão prescreve para cada dia. Uma delas, contratada pela Companhia Boeing como engenheira de software, apresenta-se diariamente no seu setor de trabalho “com seus abundantes cabelos castanhos cobertos pelo hijab”. (Ib. p. 76-77).
2. Outras declaram que o Islamismo as ajudou a ter maior apego e afeição à vida familiar.
3. Outras, ainda, salientam que o Islamismo, não obstante ser poligâmico em tese, possibilitou-lhes um casamento feliz.
4. A autora explica: “O Islamismo tem sido parte de um retorno generalizado da América ao espiritual. O número de muçulmanos dobrou em uma década, fazendo dessa uma das religiões que mais rapidamente crescem nos Estados Unidos”. (Ib. p. 19). Existem atualmente três milhões de muçulmanas nos Estados Unidos. (Ib.p. 20).

De maneira especial, uma observação da jornalista convidou-nos a refletir:

- Muitas dessas convertidas dizem que se sentem aliviadas por finalmente encontrar uma doutrina coerente. Várias delas são ex-cristãs que tiveram problemas para aceitar a noção da Santíssima Trindade (Deus-Pai, Jesus, e o Espírito Santo). O Islamismo reconhece somente um Deus, mas aceita Jesus como profeta. (Ibid. p. 22).
Para nossa satisfação, um grande teólogo católico alemão, Joachim Gnilka, publicou recentemente (a edição do original alemão é de 2004) um livro esclarecedor: Bíblia e Alcorão. O que os une – o que os separa.(Tradução brasileira de Irineu J. Rabuske. Petrópolis, Editora Vozes, 2006).
Temos, pois, uma fonte confiável onde abeberar-nos.

I.  O teólogo alemão afirma: “A confissão da unicidade de Deus é a essência da pregação do Alcorão”. (Ob. cit. p. 84). Inúmeras passagens do Alcorão provam isso. “Alá é um só. Não há outro Deus além dele, o Vivo, o Imutável”. (Ib. p. 84-85).
O nome Alá deriva de uma raiz de língua semítica: El, que significa Deus – diz Gnilka. (...) A evolução deve ter ocorrido de forma que de al-ilah (o Deus, com artigo), por assimilação do “i”, tenha surgido Allah. A assimilação pode ser esclarecida pelo uso freqüente da palavra. Importante é que o nome divino bíblico El e Allah do Alcorão remontam à mesma raiz. O nome bíblico Iahweh não foi assumido pelo Alcorão. (Bíblia e o Alcorão. p.86).

I.       Maomé não admite mediadores entre Deus e as Criaturas. No Alcorão a idéia de “palavra” que alguns tentaram associar ao Logos ou Verbo (a Palavra) do capítulo primeiro do Evangelho de São João, possui outro significado. No Alcorão lê-se: “Foi Deus que criou os céus e o mesmo número de mundos enquanto o amr (a palavra) desceu entre eles”. Gnilka é taxativo: a idéia de mediação da criação é diferente da do Alcorão: “Para a fé cristã, Cristo é o mediador da criação, o Cristo preexistente junto de Deus antes de todos os tempos e antes do mundo, que depois se fez criatura humana.” (Ib. p. 112-113). O teólogo católico insiste em que o fato de Maomé ter inserido o nome de Jesus no Alcorão destina-se a pôr em relevo outro significado: o de precursor de Maomé na ordem dos profetas.
II.     Segundo Maomé, os cristãos falsificaram a figura de Jesus: “Na concepção de Maomé, esta é a trindade da fé cristã: Alá (Deus), Jesus e Maria.” (Ib. p. 122). O fato de Maomé citar onze vezes a Jesus no Alcorão, não significa que o reconheça como o Filho de Deus. Maomé considera-o apenas filho de Maria: “é só filho de Maria, não filho de Deus, pois o texto continua: “Não é adequado a Deus tomar um filho para si”. (Ibid. p. 126). Por isso,  no Alcorão Maria “é quase mais importante do que Jesus”. (Ib. p.129).

III.    Resumindo: O ponto decisivo de divergência entre o Alcorão e o Novo Testamento está no significado de Jesus

a. tanto em sentido pessoal.
b. Como no relevante sentido salvífico ou soteriológico.
O centro da fé cristã é a confissão de Jesus como Filho de Deus, no qual Deus se revelou a nós, e como Redentor da humanidade, e que em sua morte e ressurreição dos mortos Deus nos concedeu a salvação e a redenção.
Ambos os aspectos, FILIAÇÃO DIVINA e REDENÇÃO por ele operadas, são amplamente testemunhados pelas Escrituras do Novo Testamento. Ambos esses aspectos não são só negados no Alcorão, mas em parte também são combatidos com dura polêmica. (Bíblia e Alcorão. p. 133).

Maomé não se refere à Santíssima Trindade, como nós cristãos o entendemos: Pai, Filho e Espírito Santo. Em razão disso, o nome Trindade não consta no índice temático e remissivo do livro de Joachim Gnilka. (Cf. Ib. p. 237-238).

As muçulmanas americanas, que passaram do Catolicismo ao Islamismo, têm razão de se sentirem livres de um “peso”: a crença na Trindade.

Será isso uma vantagem?

Se todos os Mistério Cristãos pudessem ser processados por um liquidificador mental seria fácil aderir ao Cristianismo. Nunca se poderia ouvir nele o eco das palavras de Jesus aos Apóstolos: Quereis também retirar-vos?(Jo 6, 67), proferidas quando Ele falou na instituição da Eucaristia.
É claro que não julgamos fácil crer nessa verdade. É a verdade máxima do Cristianismo juntamente com a verdade que diz: O Verbo de Deus se fez homem e habitou entre nós. A prova disso está no Compêndio de Teologia de São Tomás de Aquino onde, no capítulo II: “Ordem das Questões sobre a Fé”, no segundo parágrafo, se lê:
- O Senhor ensinou que aquele conhecimento (que nos fará bem-aventurados no futuro) consiste em duas verdades:
A) na Divindade da Trindade;
B) e na Humanidade de Cristo.
(Compêndio de Teologia. Tradução e notas de Dom Odilão Moura. Rio de Janeiro, Presença Edições, 1977. p. 23).
Durante a leitura de O Rosto Atrás do Véu, meditei várias vezes nas palavras do humorista católico inglês, Gilbert K. Chesterton, que cito de memória:
- Se a gente pretende pôr o céu dentro da cabeça, ela estoura: melhor é tentar pôr a cabeça dentro do Céu!
O cristão é alguém que não renuncia ao uso da razão, mas sabe que a razão sozinha não chega à Tripessoalidade de Deus. Uma coisa é receber a Luz, outra produzi-la. O cristão sabe que não poderá abarcar a imensidão do relacionamento das Pessoas em Deus. Não poderá jamais, a partir do conhecimento natural de Deus, entender que a unidade de sua natureza seja compatível com a pluralidade das relações das Três Pessoas entre Si, de modo a que todas sejam um Só Deus, e nenhuma seja Deus excluindo as duas outras.

Recorramos a Tomás de Aquino:

- (...) Deus é uno e simples. Mas é também Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, embora esses Três não sejam três deuses, mas um só Deus. (Compêndio de |Teologia. p. 48).

Numa tentativa de reflexão sobre o Mistério, o grande Teólogo ajunta:

- Para que ninguém, ao ouvir os nomes de Pai e Filho, pense que se trata de geração carnal, quando nós, católicos, falamos de Pai e Filho, o Evangelista São João, a quem foram revelados os mistérios celestes, em lugar do nome Filho, pôs o nome Verbo, para que soubéssemos que se trata de uma geração realizada na inteligência.(Ib. p. 50-51).

O mesmo Doutor complementa, referindo-se à Terceira Pessoa, o Espírito Santo:

- Como o ser inteligente tem em si a coisa conhecida enquanto ela é objeto de intelecção, assim também a coisa amada está no amante, enquanto é amada. O Amante é de certo modo, movido pelo amado por algum impulso intrínseco. Como o movente deve estar em contato com a coisa que recebe o movimento, assim é necessário também que o amado esteja intrinsecamente no amante.
Como Deus se conhece a Si Mesmo, é necessário que também se ame a Si Mesmo, pois o bem conhecido pela inteligência é amável por Si Mesmo. Por conseguinte, Deus está em Si mesmo como o amado no amante. (Compêndio de Teologia. p. 54).

Ficamos, talvez, mais esclarecidos com essas observações sutilíssimas do grande Santo. Mas teremos avançado muito? Entender uma gota d’água não é entender o Oceano. Diríamos: já é entendê-lo na sua essência, mas não na sua sublimidade e na sua amplidão.
Ao fazermos o Sinal da Cruz, teremos de nos contentar com isso.
Por isso, ao invés de abandonarmos nossa Fé Cristã, para aderirmos ao Islamismo - como o fizeram diversas ex-cristãs da América do Norte – deveríamos ter a paciência de continuar a pensar:

- Deus é infinitamente maior do que nós! Não queiramos já neste mundo, através da natureza em que se insere a Graça sobrenatural, saber o que é Deus.

As considerações anteriores não nos devem afastar da reflexão iluminada pela Fé. O Mistério da Santíssima Trindade, a rigor, é inteligível, mas numa tal medida que não pode ser abrangido pela racionalidade. A dificuldade, para nossa faculdade de conhecimento consiste na sua super-inteligibilidade. É o que sustenta outro grande teólogo, M.J. Scheeben, em sua famosa obra: Os Mistérios do Cristianismo. (Les Mystères du Christianisme. 2 ed. Traduction de A. Kerkvoorde. Tournai, Desclée de Brouwer, 1947. p. 42 ).
Um dos maiores Doutores da Igreja, Agostinho de Hipona, que Harold Bloom incluiu entre os 100 autores mais criativos da História da Literatura, ou seja, entre os gênios (Gênio. Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2003), arriscou-se a escrever um tratado sobre a Trindade. Este tratado foi traduzido em português: é um volume de 736 páginas (incluindo as notas que os experts lhe adicionaram): A Trindade. (3 edição.Tradução do original latino e introdução de Frei Agostinho Belmonte. São Paulo, Editora Paulus, 2005).
Essa obra constitui um dos grandes monumentos de teologia cristã de todos os tempos.
Saímos de sua leitura não-saciados, mas com um apetite cada vez maior de compreensão, e com uma idéia da profundidade do Mistério. É possível que o livro de Santo Agostinho desperte em nossa alma um amor mais elevado a Deus, Pai amoroso, que se revela aos homens na medida em que estes lhe abrem o coração.
Para que os leitores formem uma idéia da capacidade de penetração de Santo Agostinho, reproduzimos dois fragmentos de A Trindade:
I.- Será que podemos amar pela fé a Trindade que não vemos e jamais vimos algo de semelhante, tal como amamos no Senhor Jesus Cristo a sua Ressurreição, embora nunca tenhamos visto alguém que tenha ressuscitado? Mas sabemos muito bem o que é morrer e o que é viver, porque nós também vivemos e já temos visto pessoas mortas ou moribundas, e disso temos experiência. Pois o que é ressuscitar, senão reviver, isto é, voltar da morte para a vida?
Entretanto, quando dizemos e cremos que existe a Trindade, sabemos o que significa uma trindade, já que conhecemos o número três. Mas não é esse o objeto de nosso amor. O número três, com efeito, é fácil de ser designado. Para não falarmos de outros meios, basta, por exemplo, levantar três dedos (...)
Acaso amamos qualquer trindade, ou somente a Trindade que é Deus? Eis o que amamos na Trindade: é ele ser Deus, porque ele é um só e único Deus, o qual ainda não vimos, mas a quem amamos pela fé. A questão, porém, reside em sabermos de que semelhança ou comparação com as coisas conhecidas havemos de lançar mão para crer e amar ao Deus ainda não conhecido. (Ibid. p. 271).

II.- (...) eu recordo, entendo e amo servindo-me de três faculdades. Eu que não sou memória, nem inteligência nem amor, mas que os possuo. Portanto, tudo isso pode ser dito de uma só pessoa – que ela possui as três faculdades, mas ela mesma não é essas três faculdades. Ao contrário, na simplicidade da suprema natureza que é Deus, embora haja um só Deus, são três as Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. (Ibid. p. 540).
Obviamente, Santo Agostinho, a despeito de sua excepcional inteligência, não consegue definir o Mistério! Ele avizinha-se, humildemente, da Luz, procurando não interpor – se possível - sua condição terrestre entre a Luz e a mente.
Aos leitores interessados em prosseguir no aprofundamento de sua fé, sugerimos a leitura completa desse tratado. Uma belíssima oração do Santo encerra suas considerações. Transcrevemos sua parte conclusiva:
- Senhor, único Deus, Deus Trindade, tudo o que disse de Ti nestes livros, reconheçam-no os teus; e se algo há de meu, perdoa-me, e perdoem-me os teus. Amém. (Ibid. p. 557).
     

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