quinta-feira, 21 de abril de 2011

Páscoa: Qual o Significado Cristão dessa Festa?


I.

      É um fato que os ovos de chocolate, cada vez maiores e mais sofisticados, são oferecidos pelo comércio em embalagens irresistíveis. Serão essas gostosíssimas criaturas responsáveis pela desatenção para com a maior festa do Cristianismo, desterrando-a de nossos apartamentos, de nossas casas, de nossas praças, de nossos aeroportos?
        Não se pode culpar a sociedade de consumo pela perda do sentido religioso da maior festa do Cristianismo! A sociedade de consumo está-se tornando um bode expiatório das negligências e auto-demissões, não só sociais e econômicas, mas religiosas da própria sociedade.
      Não bastasse isso: que é feito da Semana Santa?  Talvez a Semana continue Santa, mas semana é que já ela não é. São um punhado de dias que desabam sobre nós, com a violência de aguaceiros de verão.
      Antigamente a Semana Santa exibia imagens vestidas de roxo, altares despojados de flores e adornos, sinos cuidadosamente amordaçados. No seu lugar, matracas, que se assemelhavam a marrecas endoidecidas com seus qua-qua-quás de tempos a tempos, provocavam a curiosidade das pessoas, ou as irritavam. A mudança de cenografia religiosa incitava os fiéis, principalmente os das paróquias interioranas, a participarem do Ofício das Trevas, que consistia na leitura de trechos bíblicos, e cantos de Lamentações do Profeta Jeremias. Tais cerimônias eram realizadas no final das tardes dos primeiros dias da semana. 
      Veio a Reforma Litúrgica dos anos oitenta concebida para urbanizar a liturgia, para adaptá-la aos habitantes das cidades, principalmente das grandes cidades.
      A Igreja, em vista disso, diminuiu os textos recitados ou cantados, baniu o latim, impôs as línguas vernáculas para que todos os fiéis pudessem compreender os textos ditos pelos oficiantes e cantores.
      Não foram boas tais modificações? Foram ótimas!
      Com uma ressalva: talvez tais modificações pudessem ser menos radicais. Alguns textos latinos mereceriam ficar entremeados aos textos vernáculos, remetendo os ouvintes aos séculos passados. Os veneráveis hinos litúrgicos - ao menos os mais belos – poderiam ser encaixados no meio de composições atualizadas. Afinal, como traduzir determinados textos, que tinham sido polidos pelos séculos? Seria o mesmo que abolir o quimono japonês para as japonesas. O Japão mantém os quimonos, e não se importa que as japonesas vistam tailleurs ou jeans quando estão nos escritórios comerciais, nas agências bancárias. Os quimonos são reservados para a intimidade, ou para encontros e ritos sociais.
      Alguém objetará: “Não seria possível traduzir tais textos veneráveis?”
      O problema é exatamente esse. Traduzir não é fácil. A maioria das traduções em voga não conseguem reproduzir a aura desses textos de longa memória.  Sabemos que as auroras- boreais só podem ser contempladas onde elas se deixam ver. Os textos litúrgicos nasceram há muitos séculos. O próprio Dante inseriu alguns deles na sua Divina Comédia. Como traduzir, por exemplo, hinos como o Vexilla Regis Prodeunt, ou o Exultet? Era mais conveniente ter mantido o texto latino para esses momentos excepcionais, que teriam a vantagem adicional de evocarem momentos históricos incomparáveis. A inserção de tais textos nas cerimônias em linguagem de hoje criaria ilhas de saudades em relação aos cristãos desaparecidos, despertando em nós misteriosas ressonâncias subliminais.
      Preferiu-se um aggiornamento radical.
      É verdade que, ainda existem determinadas igrejas na Europa onde se oferece o culto católico em latim, em determinados horários.
      Não é isso o que desejamos sugerir. O que seria, talvez, recomendável seria a coexistência do latim com as línguas vernáculas, reservando-se ao latim intervalos privilegiados, que atualizassem a Tradição Cristã, inclusive as músicas do passado,como o Canto Gregoriano, e as composições polifônicas de gênios do nível de Palestrina e Bach.

      II.

      Esqueçamos tais exigências de natureza estética!
      O que causa pasmo e tristeza é constatar que o significado religioso da Páscoa está sendo esquecido. É possível, até, que uma boa parte da comunidade apenas veja na Páscoa oportunidade para lazer e turismo.
      Convém reagir a isso. A Páscoa é a maior festa cristã.
      O calendário litúrgico gira em torno dela. Em linguagem direta, pode-se dizer que a Fé Cristã baseia-se na sua mensagem. Ou, se quisermos ser mais precisos: há duas festas que se destacam no calendário litúrgico: a Festa de Natal, que celebra a encarnação do Verbo, isto é, da Segunda Pessoa da SSma. Trindade, e a Festa de Páscoa que celebra a realização final do sacrifício redentor de Jesus, com sua vitória sobre a morte, garantia da Ressurreição Final prometida a todos os homens.
      No Creio se diz:
A)    Em relação ao Natal: Foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria.
B)    Em relação à Páscoa: Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu à mansão dos mortos, ressuscitou ao terceiro dia.
São essas duas verdades, a Encarnação (que supõe o dogma da SSma Trindade) e a Redenção da Humanidade, com a promessa do Espírito Santo, a garantia Vida Eterna. Supõem a extinção da culpa e a vitória sobre a morte, o
essencial das promessas de Cristo.
Reflitamos sobre a Páscoa.
A ciência historiográfica pode dizer-nos apenas isto: os discípulos deram testemunho da ressurreição de Jesus. O fato da Ressurreição escapa a qualquer observação empírica. Portanto, escapa à historiografia científica. As aparições de Jesus depois de sua morte foram exclusivamente encontros de Jesus com amigos e discípulos. A História, portanto, não pode ir além dos testemunhos deles. Pode ponderar a credibilidade de tais testemunhos. O cristão é obrigado a fazer o mesmo. No entanto, o último passo que se exiger de um cristão é a Fé.
      Insistamos num pormenor: não há nenhum outro testemunho mais unânime no Novo Testamento. Desde os escritos mais antigos até os mais novos, todos trazem o mesmo testemunho: Deus... ressuscitou o seu Filho de entre os mortos (1 Tes 1,10); Os apóstolos viram o Senhor (Jo 20,25).
      Acabamos de citar, quase literalmente, um texto admirável do Catecismo Holandês, que precedeu o Novo Catecismo da Igreja Católica, elaborado sob a direção do saudoso Papa João Paulo II, que será declarado Beato da Igreja Católica no mês de maio pf.
      Vejamos o que diz esse Catecismo:
      A Ressurreição de Cristo é objeto de fé enquanto intervenção transcendente do próprio Deus na Criação e na História. (...) Jesus é definitivamente revelado Filho de Deus com poder por sua Ressurreição dos Mortos segundo o Espírito de Santidade. (...) Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa Fé (1 Cor 15,14).Todas as verdades, mesmo as mais inacessíveis ao espírito humano, encontram sua justificação se ao ressuscitar Cristo deu a prova definitiva, que havia prometido, da sua autoridade divina.
            Noutras palavras: Com isto cai a Fé, ou a Fé fica de pé – diz taxativamente o Catecismo Holandês, que utiliza uma linguagem menos teológica  
- e mais pedagógica - que o Catecismo do Papa João Paulo II.
Dito de outro modo:
            - Antes de se ocupar com um Cristo imaginário, o Apóstolo preferiria associar-se aos que, simultaneamente alegres e tristes, exclamavam: “Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos” (1 Cor 15,32).
      A Páscoa, portanto, deveria constituir, para qualquer cristão, uma oportunidade para reler as páginas dos Evangelhos que relatam os acontecimentos culminantes da vida de Jesus. Deveria ser uma reafirmação pessoal da verdade mais fundamental do Cristianismo: “O Senhor vive!”
      É verdade que cada evangelista narra a Ressurreição de Jesus à sua maneira. Todos narram os mesmos fatos, embora haja bastante variedade nos pormenores. Que importa? Todos concordam nos temas capitais: o sepulcro vazio, as aparições angélicas, e principalmente, sobre a presença viva de Jesus.    
       A respeito disso, os grandes pensadores cristãos chamam nossa atenção para um aspecto: Jesus aparece em forma simples, humana, “quase idílica” chega a dizer um autor. Maria Madalena julga-o um jardineiro. Jesus dá às mulheres simplesmente “Bom Dia”, isto é, Ave! Viaja na companhia de dois discípulos a caminho de Emaús. Come peixe e mel. Conversa com eles numa montanha. Toma refeição com Pedro e os companheiros à beira do lago de Genesaré.
      Seu modo de existir,no entanto, é diferente do anterior. Aparece e desaparece subitamente. As portas fechadas não o impedem de entrar.
      Há uma dimensão estranha nas aparições: Jesus apresenta-se aos discípulos “de fora”, à parte da realidade extrínseca. Por isso, os discípulos não o reconhecem imediatamente. Jesus inicia os discípulos numa nova forma de presença. Quer deixar claro que doravante sempre estará com eles. Numa palavra:
      - As aparições são tácitos indícios da sua presença permanente.
      (A Fé para Adultos. São Paulo, Editora Herder, 1972. P.217).
      Aqui, talvez, necessitamos do esclarecimento maior de um grande teólogo católico. Recorramos, pois, a Karl Adam, ao seu livro importantíssimo: O Cristo da , cuja primeira edição alemã é de 1954:
      - O fundamento e o conteúdo beatificante da Fé Pascal dos Apóstolos não foi, portanto, a Ressurreição considerada somente como fato histórico, mas o Cristo Ressuscitado presente. O fato mesmo da Ressurreição não teve nenhuma testemunha direta. Foi, pois, a presença divino-humana de Jesus que atraiu os discípulos a seu reino sobrenatural de luz e de poder, vinculando-os a Ele através de aparições visíveis, realizadas num contexto temporal-espacial.
O teólogo não se contenta com isso. Adverte os cristãos sobre outra realidade mais essencial:
      - Só os puros de espírito, só os que têm fome e sede de justiça podem ver o Cristo e crer no Ressuscitado. A Fé, pois, em seu fundo mais íntimo, é fé no Espírito Santo. Por isso mesmo, a Ressurreição de Cristo não é uma questão puramente histórica, nem um objeto de pura pesquisa científica. Nos seus refolhos mais íntimos, é um acontecimento operado sobrenaturalmente, visto que o espírito humano se encontra diante de um hiato que só pode ser preenchido por uma experiência de Fé. A mensagem pascal não se dirige apenas ao intelecto, que se agita diante dos problemas, mas ao homem todo, à sua consciência, sobretudo à disposição misteriosa da alma que aceita o mundo do absoluto e da santidade. Noutras palavras, a Ressurreição de Cristo não é uma questão puramente científica, mas um problema religioso, que põe em jogo nossas relações ético-ontológicas com o Absoluto, e que consequentemente empenha nossa existência toda. Se existe em outra parte o conhecimento existencial, deve ser posto à prova aqui, quando está em jogo o ser eterno de Cristo e do Cristianismo. (Trad. do Padre José de Assis Carvalho. São Paulo, Editora Herder, 1962. P407-408)..
      Poucas vezes a realidade última – decisiva – do Cristianismo foi tão ressaltada como nesse trecho do grande teólogo.
      Perante tal grandeza, o que são nossos ovos de chocolate, nossos festejos pascais?
Já nem nos lembramos que os próprios ovos de Páscoa originaram-se de um simbolismo religioso. Significavam inicialmente a vida: Omnis vita ex ovo – dizia-se no passado: toda vida procede de um ovo. Até a vida humana. Ela também procede de um óvulo fecundado.
Explica-nos um conhecido iconógrafo, Gerd Heinz-Mohr:
       - Ovo: símbolo da Ressurreição de Cristo, uma vez que Ele saiu do sepulcro, no dia de Páscoa, como o pintinho sai do ovo em que se encontra “sepulto”.
      Hein-Mohr nota que o ovo, para os pagãos, já continha um símbolo afim, pois era utilizado nas festas de início de primavera, quando a natureza vegetal e animal desperta. O próprio sinal de vida egípcio Ankh , que foi incorporado pela tradição cristã, recorda a imagem do ovo do mundo. Por isso, os pintores de ícones bizantinos, às vezes, em vez do óleo, empregavam o vermelho da gema nas suas pinturas, fazendo uma alusão à Páscoa e à Ressurreição de Jesus, que significavam sua vida transfigurada e imortal.
(Lessico di Iconografia Cristiana. 2 ed. Milano, Istituto di Propaganda Libraria, 1995. p.344).

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