terça-feira, 19 de abril de 2011

O Batismo de meu Segundo Neto

     Uma das páginas do Evangelho que mais nos encanta é a da visita noturna que Nicodemos fez a Jesus.
Nicodemos era membro da seita dos fariseus, uma espécie de intelectual da Jerusalém da época, como o qualifica o biblista católico, fundador da Escola Bíblica de Jerusalém, J.M. Lagrange. (1855-1938;  El Evangelio de Nuestro Señor Jesucristo. 2 edición. Traducción del R. P. Elías G. Fierro. Barcelona, Editorial Litúrgica Española, 1942. p.80). Estava habituado a examinar os prós e os contras de qualquer afirmação. Nicodemos foi falar com Jesus a fim de inteirar-se melhor de sua doutrina.
     Começou por uma captatio benevolentiae, ao saudar Jesus:
- Rabi, sabemos que és um mestre vindo de Deus. Ninguém pode fazer esses milagres que fazes se Deus não estiver com ele.
Jesus lhe replicou:
     - Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo, não poderá ver o reino de Deus.
     A resposta de Jesus ainda hoje é assombrosa. Deve ter assombrado muito mais o fariseu de então.
Sem se deixar intimidar, Nicodemos objetou a Jesus:
     - Como pode um homem renascer sendo velho? Acaso pode tornar a entrar no seio de sua mãe, e nascer pela segunda vez?
     A objeção de Nicodemos era típica do realismo judaico. O fariseu limita-se a contrapor a Jesus o que lhe parecia  um absurdo. Não lhe passava pela cabeça a idéia de que o Mestre estivesse blefando. Nascer de novo não poderia ser uma metáfora?
Nicodemos tinha visto Jesus realizar algum milagre. Em se tratando de Jesus, podia ser que o Rabi estivesse imaginando um novo milagre. Era preciso começar garantindo a realidade concreta de qualquer nascimento humano:
Como, pois, reentrar no seio materno, e tornar a nascer?
       Jesus acrescenta-lhe algo que exclui qualquer outra interpretação:
       - Em verdade, em verdade te digo, quem não renascer da água e do Espírito, não poderá  entrar no reino de Deus. O que nasce da carne é carne, o que nasce do Espírito é espírito.
Jesus apresenta-lhe uma comparação: a do vento:
       - O vento sopra onde quer: ouves-lhe o rumor, mas não sabes donde ele vem, nem para onde vai. Assim acontece com quem nasce do Espírito.
       Nicodemos, no entanto, fica inflexível. Quer obrigar Jesus à total objetividade:
       - Como se pode fazer isso?
       A resposta de Jesus  deve, sem dúvida, ter sido dada com um sorriso:
       - És Doutor em Israel, e desconheces tais coisas?
Como se dissesse a Nicodemos, antecipando Shakespeare:
       - És um intelectual! Deverias, ao menos, suspeitar de realidades que existem entre o céu e a terra... Não te ocorreu a possibilidade de um nascimento além do nascimento natural?
       A tal observação, Jesus ajuntou uma afirmação que deve ter deixado o fariseu ainda mais atônito:
- Em verdade, em verdade te digo, Nicodemos: nós dizemos o que sabemos, e damos testemunho do que vimos, mas não recebeis nosso testemunho. Se vos tenho falado de coisas terrenas, e não me acreditais, como acreditareis se eu vos falar de coisas celestiais? Ninguém subiu ao céu senão aquele que desceu do céu, o Filho do Homem que está no céu. Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim deve ser levantado o Filho do Homem, para que todo o homem que crer nele tenha a vida eterna. De tal modo Deus amou o mundo que lhe deu seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crer, não pereça, mas tenha a vida eterna. Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porque não crê no Filho Unigênito de Deus. Ora, este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz, pois as suas obras eram más. Porque aquele que faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, a fim de que suas obras não sejam reprovadas. Mas aquele que pratica a verdade, vem para a luz. Torna-se assim claro que as suas obras são feitas em Deus.
Meditei nessas palavras  na ocasião em que o sacerdote conferiu o batismo ao meu neto, que estava na companhia de outras cinco crianças. Algumas choraram quando o celebrante lhes verteu água na cabeça.
Recordei-me, também, de como Jesus se despediu dos discípulos antes de subir aos céus:
- “Ide por todo o mundo, e anunciai o Evangelho a toda gente. Quem crer e for batizado, será salvo, mas quem não crer, será condenado.” (Mc 16,15-16).
Dei-me conta, relativamente tarde, de que as afirmações de Jesus a Nicodemos, citadas no Evangelho de São João, deviam ser associadas à afirmação de Jesus aos discípulos na hora de sua partida deste mundo. A insistência na adesão à mensagem de Jesus e ao batismo com água encontra eco na afirmação, referida por Marcos, de que é preciso crer e, ao mesmo tempo, ser batizado, pois a rejeição de ambas implica numa condenação: a mesma que São João mencionou no diálogo com Nicodemos: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas...
Foi por essa razão que o sacerdote entregou aos padrinhos uma vela acesa! A luz da vela simbolizava a adesão à outra luz, à luz da Fé.
A cerimônia foi simples, o ritual nem precisava ser explicado se as palavras de Jesus a Nicodemos fossem conhecidas.
Na ocasião do Batismo de meu neto fiquei mais atônito do que Nicodemos na noite de sua visita a Jesus!
Em poucos minutos... a criança,  que quase morreu ao nascer, pois minha filha passou por momentos de gravíssimo risco, ele nascia outra vez, desta vez para Deus. Deus o tornava filho adotivo,  convertendo o primeiro nascimento corporal num nascimento espiritual, que um dia realizará na carne o que o Batismo realizou, sigilosamente, em sua alma.
Após a Ressurreição, Jesus não permitiu que Maria o tocasse, no jardim onde lhe apareceu.
Supondo que Jesus fosse o jardineiro, a irmã de Lázaro disse-lhe:
- Senhor, se tu o tiraste daqui, dize-me onde o puseste...
Respondeu-lhe Jesus:
- Maria!
Voltando-se, Maria exclamou:
- Rabboni! (que quer dizer: Mestre!)
Jesus advertiu-a:
-Não me toques! Ainda não subi a meu Pai, mas vai a meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus. (Jo 20,14-18).
Agradeço ao fariseu, que se entrevistou com Jesus, ter-se mostrado realista. Só assim, nós, homens do século XXI, não teremos razões para recusar a luz da Fé.
Entendi, também, porque o grande Orígenes (185-253), um dos primeiros sábios da Igreja, beijava o peito de seu filhinho recém-batizado.
Orígenes sabia que ali, naquele corpo frágil, não havia apenas um corpo humano, mas outro corpo também, o que futuramente será ressuscitado graças ao Batismo que lhe infundiu o sopro do Espírito Santo. Este novo sopro nas narinas permitir-lhe-á respirar para sempre.
Por isso, quando meus amigos agnósticos me dizem:
- É prodigioso acreditarem coisas tão fora do alcance da razão?
Respondo-lhes:
- Só se pode acreditar em tais prodígios fazendo-se criança...
O Mestre foi explícito ao impor aos seus seguidores o retorno à infância, uma sorte de suplemento ao nascimento pelo Batismo. O retorno, agora, deverá ser consciente.
As crianças, quando lhe contamos coisas maravilhosas, não nos objetam “realidades”.  Contentam-se em ouvi-las.
A Fé cristã, também se realiza ex auditu, isto é, mediante a audição. Obediência, aliás,  vem de ob-audire, isto é, estar atento ao que se ouve.
O cristão é alguém que se faz criança por saber que aquilo que é impossível aos homens, não o é a Deus. Nicodemos objetou a Jesus uma impossibilidade humana: nascer novamente de uma mulher. Jesus  contrapôs-lhe uma possibilidade divina: o Batismo, que preanuncia a ressurreição futura.
Dirá São Paulo na sua Primeira Carta aos Coríntios:
- Semeado em corrupção, o corpo ressuscita incorruptível, semeado no desprezo, ressuscita glorioso, semeado na fraqueza, ressuscita vigoroso, semeado corpo animal, ressuscita corpo espiritual. (15, 42-43).
Ao cumprir o doloroso dever de acompanhar amigos que vão a um crematório, onde o corpo de um ente querido é incinerado, lembro-me dessa afirmação . Choro como qualquer amigo que perde a esposa, um filho,  amigos. Jesus também chorou diante do sepulcro de Lázaro. Mostrou-se, em tudo, semelhante a nós, exceto no pecado.
Eis por que o Batismo de meu neto me deixou atônito, possivelmente mais do que Nicodemos na noite em que encontrou Jesus.
Afinal, ninguém assiste ao próprio batismo, a não ser os que se batizam adultos! Estes, se tiverem plena consciência do que ocorre com eles, devem ficar pasmados, como Nicodemos ficou na noite em que foi procurar Jesus.
Quando as objeções de meus amigos não crentes são muito insistentes, também me refugio na Noite da Fé, onde os que permanecem insones são encontrados pelo Senhor, que vem quando menos é esperado.
Para a insônia da Fé não existem soníferos de espécie alguma. O melhor sonífero da Fé ainda é uma Estrela no Céu, que nos acena como um amigo que vem de longe, cujo rosto ainda não vislumbramos.

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