terça-feira, 19 de abril de 2011

Itália: O Regresso dos Bárbaros.

(A Deterioração do Patrimônio Artístico Italiano).

Um dos poemas mais célebres do poeta grego contemporâneo, Konstantinos Kaváfis, intitula-se: À Espera dos Bárbaros.
Citemos alguns de seus versos:
O que esperamos na ágora reunidos?
É que os bárbaros chegam hoje.
(...)
Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápida as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?
(...)
Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! Eles eram uma solução.
(Poemas de Konstantinos Kaváfis. Tradução de José Paulo Paes. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1982. p. 106-107).
Se os italianos estavam à espera dos bárbaros, felicitêmo-los: eles chegaram! Chegaram com tanta autoconfiança que não tiveram dificuldade em se apoderarem da sede oficial do governo da Itália.
Todos estão de acordo num ponto: pareciam uma solução. No fim das contas, verificou-se que não eram sequer uma rima.
Nós, ítalo-brasileiros, em nossa condição de descendentes de italianos, consideramos a Itália nossa segunda pátria. Temos feito até notáveis esforços para aprender o idioma de Dante, e assim mergulharmos mais profundamente nos tesouros de sua literatura.
Estamos, por isso, chocados com a reportagem que o jornal El País acaba de publicar (16-04- 2011).
Nessa reportagem fica evidente o descaso do atual Governo Italiano em relação ao seu patrimônio artístico. O diário madrilenho faz  coincidir sua ampla reportagem com a divulgação, nas televisões da Itália, de um vídeo publicitário mandado rodar pelo Sr. Berlusconi:  Mágica Itália. De acordo com esse  vídeo, cinqüenta por cento do patrimônio da UNESCO se situaria em território italiano. O jornal retifica tal afirmação: não são cinqüenta por cento, mas cinco por cento.
Com efeito, os bens, tutelados pela UNESCO em todo o mundo abrangem 911 localidades, 100.000 igrejas, 40.000 edifícios históricos, 3.500 museus, 500 sítios arqueológicos, 1.000 teatros.
Contudo, a afirmação do Premier Berlusconi tem sua razão de ser: se nos restringirmos  ao âmbito europeu, a Itália detém realmente cerca de sessenta por cento dos monumentos históricos e artísticos. Em suas 2o províncias que, juntas, mal ultrapassam o território do Rio Grande do Sul (301.278 quilômetros quadrados contra 282.184 ), existem 20.000 castelos, 33.000 igrejas, 200 cidades de interesse artístico, 1.500 museus, e 51.000 bibliotecas. (Cf. Guia Itália, editado pela Papaiz em 1990).
El País esclarece que o atual Governo Italiano, desejando afastar de seus ombros a responsabilidade pela conservação do patrimônio cultural, deseja, na medida do possível, privatizá-lo. Informa que o Rei do Calçado, o Sr. Diego della Valle, da empresa Tods, assinou um contrato, válido por 15 anos, com a Superintendência dos Bens Culturais, segundo o qual a gestão do Coliseu, lhe é entregue com plenos direitos à comercialização de sua imagem, e à exploração de seus serviços turísticos. A contrapartida do magnata consistirá no compromisso, assumido por ele, de restaurar o grandioso monumento, cuja guarda, nos últimos tempos, era composta apenas por dez funcionários.
El País fornece outros detalhes: o Sr. Diego tratou o negócio com o Comissário da área arqueológica de Roma, arquiteto Roberto Cecchi, cujo superior é Mario Resca, ex-c0nselheiro delegado da McDonalds na Itália. O Coliseu recebe a visitação diária de 15.000 turistas, que pagam 12 euros por entrada. Um pormenor: todas as livrarias de museus e monumentos italianos pertencem à empresa Electa Mondadori, divisão artística do grupo da editorial, presidida pela filha do Sr. Berlusconi, Marina Berlusconi. A Electa Mondadori obteve a concessão de 43 livrarias de museus e monumentos do país. Em 2009, faturou 29 milhões de euros, e obteve 70 por cento do total de concessões estatais destinadas a empresas de serviços culturais. A Superintendência dos Bens Culturais lucrou cinco milhões de euros pela transação.
Outra informação: os políticos de Berlusconi podem utilizar aVia Ápia, conhecida mediante filmes  históricos como Ben Hur , que está interditada para o tráfego de carros e caminhões. Por ela, todavia,  os carros oficiais e as ambulâncias trafegam, quando se dirigem a Brindisi. Às quintas-feiras à tarde, ao cessarem as atividades parlamentares, os deputados, a caminho do aeroporto, preferem transitar por ela, já que assim evitam os tediosos engarrafamentos do trânsito romano.
Berlusconi, aliás,  não se abalou  com o pedido de demissão do seu Ministro dos Bens Culturais, Sandro Bondi. No lugar dele, nomeou Giancarlo Galan, anterior ministro da Agricultura, especialista em gado bovino.
         De lambujem, somos informados que as verbas para os Bens Culturais caíram 40 por cento em 2011, em relação às verbas de 2001; ou seja, passaram de 2.300 milhões de euros para 1.429 milhões de euros.
Rematemos esse Réquiem por um Patrimônio Cultural, adicionando-lhe a confissão desesperada do Superintendente da Pinacoteca de Bolonha, que declarou  contar apenas com 30 vigias para 40 salas de exposição, e não dispor de dinheiro para as despesas de eletricidade do Museu.
 Às devastações ecológicas, a que tem sido submetido nas últimas décadas o Mundo, junta-se-lhe, neste momento, uma devastação de igual miserabilidade, porém de outra natureza: a da Ecologia Psíquica, constituída pela memória estética da humanidade.

          

Nenhum comentário:

Postar um comentário