quarta-feira, 6 de abril de 2011

Como Morreu o Poeta Cabral de Melo Neto

      Tempos atrás, ao publicar neste blog uma lista de Prêmios Nobel Possíveis da Literatura Brasileira, coloquei, em primeiro lugar, o nome do poeta, João Cabral de Melo Neto (1920-1993).
Fique claro para os leitores que não me considero possuidor de bagagem cultural suficiente para conferir credibilidade a tal lista. Estabeleci, apenas, um indicador de gosto.
É melhor, que o leitor, conheça a persuasão íntima de alguém (que ama a literatura, e também a pratica) do que fiar-se em solenes afirmações, que não têm sustentação emotiva, nem intelectual, no coração das pessoas, onde o gosto, quando profundo e autêntico, se refugia como um cachorro assustado com os foguetes que espocam na cidade.
Torno a dizer: se me fosse possível atribuir um único Prêmio Nobel a um autor brasileiro, escolheria Cabral de melo Neto.
Por várias razões.
Primeiramente, porque sua obra forma um conjunto esplêndido, sem rachaduras. Sua temática é praticamente a mesma em todos os poemas.
Importará isso?
Faço minhas as palavras de Albert Camus:
- Há duas espécies de estilo: Madame de Lafayette e Balzac. O primeiro é perfeito no pormenor, o outro trabalha no conjunto e quatro capítulos mal chegam para dar idéia de seu fôlego. Balzac escreveu bem não apesar de mas com os seus erros de francês. (Cadernos II. Tradução e prefácio de António Quadros Lisboa, Livros do Brasil, sd., p. 24).
Cabral é grande – é genial – não apesar de ter escrito invariavelmente poemas nordestinos, mas justamente com isso, por se ter mantido fiel a uma temática regional, que ele universalizou. O caso de Cabral é parecido com o de Tchekov: ambos conseguiram atingir a transcendência estética passando de sua aldeia, no caso de Cabral de Melo Neto, do Rio Capibaribe ao imenso Oceano- Atlântico- e-Pacífico do Drama Humano.
Cada vez que um pedante me tranca o passo com aquela afirmação – talvez autêntica – mas humorística, atribuída ao próprio Poeta: “Morte e Vida Severina eu fiz para o povão, para ti, Vinícius, eu fiz Educação pela Pedra!”, limito-me a sorrir.
A poesia de Cabral de Melo Neto é seca, como são secas as vidas do Nordeste; pura como são puras as poucas águas do Polígono das Secas; sólida como são sólidos os esqueletos dos viventes daquela região; e é líquida, fluente, e voluptuosa, como o são as praias feiticeiras da sua região.
Enganam-se os que lêem Cabral de Melo Neto como se o que ele escreveu fosse minério, ou, em linguagem platônica, mineralidade.
Senhores leitores: leiam Cabral como se vocês encontrassem seus poemas numa sacola largada por acaso numa caatinga. Leiam-nos sem preconceitos, principalmente sem prevenções. Leiam-no como quem se arremessa às águas cor de esmeralda ou safira, das areias encoqueiradas do Nordeste.
Certa vez, comentei com um intelectual alemão a proeza do Poeta do Recife de “imortalizar” sua incurável enxaqueca, dedicando um poema ao medicamento que o ajudava a suportá-la. O alemão pensou que eu estava caçoando dele!
Leiam, por favor, o poema:

Num Monumento à Aspirina
 
Claramente: o mais prático dos sóis,
O sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de metereologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.

Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ele reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.

(Obra Completa. Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1994. p. 360-361).

Se eu tivesse de escolher um único poema brasileiro para figurar numa reduzidíssima Antologia da Poesia Universal, escolheria Morte e Vida Severina.
Se algum leitor brasileiro de poesia ainda não conhece tais versos, corra a conhecê-los!
Se você for ministro da república, banqueiro, bancário, empresário, executivo, ou simples proletário, enfim, se você falar a língua brasileira – o português do Brasil – sinta-se obrigado a conhecer e amar esse poema.
Não considere as palavras do poeta: Este livro de poemas que talvez funcionem em voz alta (para a meia-atenção ou quarta parte de atenção que, em geral, é quanto pode receber o poema que se ouve), contém um auto: Morte e Vida Severina...
Digo isso porque os poetas, a rigor, não devem falar sobre os próprios poemas, principalmente quando eles lhes fogem das mãos, como é o caso desse Auto de Cabral.
Guardem tudo que ali reluz, porque se trata de ouro puro!
Esse ouro, também, se encontra em poemas que não pertencem à Morte e Vida Severina. Por exemplo, em Generaciones y Semblanzas:

- Há gente para quem
tanto faz dentro e fora
e por isso procura
viver fora de portas.

E em contra existe gente,
mais rara, em boa hora,
que se mostra por dentro
e se esconde por fora
(...)

Há gente que se aquece
por dentro, e há em troca
pessoas que preferem
aquecer-se por fora.
(...)

Há gente que se gasta
de dentro para fora.
E há gente que prefere
gastar-se no que choca:

nesta pertence aquela
sempre vertiginosa
que parece habitar
num corpo sobre rodas;

gente que não consegue
parar nenhuma hora
e que assim se aproveita
de toda sua corda

para andar se atirando
contra as coisas em volta,
talvez com esperança
que uma seja pistola.
(...)
Há gente que se infiltra
dentro de outra, e aí mora,
vivendo do que filtra
sem voltar para fora.

É coisa complicada
dizer, pelas manobras,
o parasita simples
e o de alma insidiosa;
(...)
(Obra Completa. Ib. p. 307-311).


Reconheço que existem poetas profundos, aos quais é preciso lançar um balde até o coração do poço para podermos chegar à água. São como René Char ou Henri Michaux. Há outros, em que a água, embora esteja também no fundo do poço, ousa humildemente subir aos lábios dos sedentos.

É o caso de Cabral.

Vejam:

É tão belo como um sim
                  numa sala negativa

                - É tão belo como a soca
que o canavial multiplica.
- Belo porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.
- Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.

- Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
(...)
                é difícil defender
                Só com palavras, a vida,
                ainda mais quando ela é
                esta que vê, Severina;
                mas se responder, não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
(Obra Completa. p. 2pp-202).

Como se dizia há cem anos... isto é, no século XX: o resto é literatura!

Hoje, porém, não estou neste blog para exaltar a poesia de Cabral de Melo Neto.
Estou aqui para contar um episódio. O de sua morte. Aliás, uma morte que acabou se constituindo num belo poema existencial - se é que se pode falar da morte com expressões benévolas.
Tive o prazer de receber da Professora da USP, Maria Helena Nery Garcez, em primeira mão, a carta que a segunda esposa do poeta lhe enviou, a também excelente poeta Marly de Oliveira que, com a assistência de Cabral organizou sua Obra Completa, publicada pela Editora Nova Aguilar em 1994.

A carta é uma efusão quase ingênua, tão pura ela é:

- João morreu de mãos dadas comigo. Acabávamos de fazer uma oração. Mas nada ocorreu como foi dito na imprensa, que ele era um ateu que se teria convertido no último momento.
A grande verdade é que, tendo tido uma formação católica à antiga, nde o medo predominava em lugar do amor, com o tempo se acentuou nele o pavor, o pânico da morte.
Minha tentativa foi mostrar-lhe com leitura de textos bíblicos, literariamente maravilhosos, de depoimentos de cientistas, filósofos, teólogos, escritores, que era muito difícil  que toda a ordem do universo surgisse do acaso.(...)
Não era a idéia de um Deus que nos julgava, que nos punia: era a convicção de que se sobrevive, de que a morte poderia ser algo bom, que traria a liberdade, a paz.
Mas tudo isso de forma quase indireta, como se estivesse descobrindo a essência das coisas, a união com tudo o que existe.
(...)
E foi depois de uma gripe forte, quando já estava quase bem, que, tomado o café da manhã e já pelas onze horas e meia, após a oração, vi que inclinava um pouco a cabeça e lhe disse:
- Você está cochilando, João?
Nesse momento entrou Fátima, uma pessoa que trabalha comigo e tinha chegado de Resende onde mora e disse:
- Mas dona Marly, ele já não está respirando.
E foi então que senti uma espécie de iluminação por dentro, uma espécie de gratidão,  pois nunca tinha estado tão perto de uma pessoa num momento assim,  e foi de uma tal beleza, tal serenidade, que a vontade era de ir junto.
(Carta publicada na revista Orion, São Paulo, Ano II, N.2, dezembro de 1999. p. 8.).

               

Um comentário:

  1. Obrigado pelo prazer que tive ao ler este texto maravilhoso!
    Abraço forte

    ResponderExcluir