terça-feira, 26 de abril de 2011

Três Obras de Arte sobre a Eucaristia.

           I.
           Divulguei, tempos atrás, neste blog uma série de ensaios sobre a Virgem Maria.
          Num deles fiz comentários sobre 25 pinturas famosas na História da Arte Ocidental, cuja temática girava em torno da Anunciação do Anjo à Virgem Maria. 
          Os interessados podem acessar o ensaio: Retrato Humano da Virgem Maria: I-II-III-IV.
          Noutro ensaio satisfiz a curiosidade de um leitor que desejava saber quais as 5 imagens artísticas da História da Arte que mais me comoviam, quer do ponto de vista devocional quer do ponto de vista artístico.
          Permita-nos o leitor, hoje, uma singela confidência.
          Na Quinta-Feira Santa do corrente ano assisti a uma missa comemorativa da instituição da Eucaristia, numa das tantas igrejas de Porto Alegre.
          Na ocasião senti-me transportado, imaginativamente, às páginas de um conhecido romance, o Quo Vadis  de Henryk Sinkievicz, autor polonês que obteve o Prêmio Nobel em 1905.
          Aprecio essas fugas imaginativas...
          De repente, eis-me fazendo parte de um grupo de cristãos dos primeiros tempos, que se reuniam em Roma em locais clandestinos, e tinham de tomar todas as precauções possíveis para não serem descobertos pelos esbirros de Nero, que andavam como cães ferozes ao encalço dos Apóstolos Pedro e Paulo. Sempre me enterneci com os episódios desse romance, cuja primeira versão cinematográfica se tornou famosa, e é possível de ser encontrada em locadoras da capital.
          Era a época em que um cristão se comunicava com seus coirmãos mediante signos extraídos da simbologia pagã, como o signo do Peixe, cujas iniciais em grego Ichthus  (Iesous Christos Theou Uios Sôter) significavam “Jesus Cristo, Deus, Filho, Salvador”.
          Eventualmente, quando dos encontros com pessoas desconhecidas, os cristãos riscavam no chão, sinais do Arcanum Fidei, que os pagãos interpretavam como garatujas de ociosos. Disciplina do Arcano era o segredo com que os batizados reservavam para si o segredo dos Mistérios Cristãos, à guisa de senhas, para que não fossem profanados pelos pagãos, ou para impedir que membros da comunidade fossem denunciados às autoridades
          Voltei da missa comemorativa com uma nova e serena impressão de assombro.
          Pensando bem: é um prodígio que o Cristo Ressuscitado esteja sob as aparências do pão e do vinho, numa igreja qualquer - e que um idoso sacerdote re-ofereça seu Sacrifício, em forma incruenta, num pequeno altar enfeitado com palmas e flores.
          Nós cristãos, que podemos replicar aos amigos, agnósticos ou ateus que nos abordam à saída da igreja.
          - Vocês admitem, de verdade, que Cristo desça até vocês?    
          Um cristão deve admitir que a melhor resposta é o silêncio, ou a confissão despretensiosa do mais humilde e humilhado dos membros da comunidade, em qualquer parte do mundo.
          - Nós cremos que, por meio do pão e do vinho, o Salvador realiza o memorial de sua Paixão e Ressurreição, e se dá como alimento espiritual aos crentes.
          Não há nada, infelizmente, que nos permita suavizar o pasmo de nossos amigos. Nem é oportuno para nós, por razões de polidez, sugerir-lhes que pensem nas palavras de Jesus: O que é impossível aos homens, não o é a Deus!
          Às vezes, assalta-me um impulso sincero: abraçar esses amigos, jurar-lhes que não fingimos, afirmar-lhes que nem sequer somos melhores do que eles, nem sentimos fenômeno algum excepcional em termos de sensorialidade e sensibilidade.
          Chega, porém, um momento em que o silêncio se impõe.
          Nessa hora, quem poderá ajudar-nos?
          Talvez a amizade - a face menor, a mais ignorada do amor.
          Onde há clima para isso, ela desabrocha num sorriso, e nos faz aterrissar neste planeta de loucuras, surpresas, alumbramentos, melancolias, renascimentos, mortes, tsunamis, atentados, descobertas, júbilos, massacres, enternecimentos, mães que amamentam pela primeira vez... bebês que ensaiam seus primeiros sorrisos!   

          II.

          Diante do Mistério da Eucaristia, a própria Arte experimenta uma sensação estranha de impotência.
          Muitos artistas tentaram sugerir esse Mistério. Em geral, os crentes não se emocionam perante tais representações.
          A Adoração do Cordeiro Místico (1432) de Jan van Eyck, no Museu de Gand, na Bélgica, e o grande afresco de Rafael, A Disputa do Santíssimo Sacramento (1509), na Stanza della Segnatura, no Vaticano, deixam-nos - não direi frios – mas somente emudecidos. São obras de arte, indubitavelmente. Sob o ponto de vista, porém, religioso, é raro que suscitem emoções religiosas. A tela de Van Eyck, na minha opinião, acerca-se mais à devoção, e pode – eventualmente – aquecer uma flor em botão.
          Não se desconhece a boa-vontade dos artistas. O problema é que, em se tratando de sensibilidade religiosa, o talento e a boa vontade não são suficientes para produzirem uma obra-prima.
          Contentemo-nos, portanto, com alusões felizes, com insinuações artísticas, capazes de despertar em nós sentimentos de respeito.
          Eu, pessoalmente, não me decepciono por não deparar, na História da Arte, muitos exemplos de grande arte visual sobre a Eucaristia.
          Quem foi capaz, até ao presente, de figurar o sol? É certo que Van Gogh deixou-nos uma imagem do sol, de imenso poder sugestivo. Mas é um sol fantástico, para ser contemplado em sonhos ou devaneios, não para ser compreendido na sua condição de luzeiro do planeta.

          III.

          Existem, entretanto, três obras de arte que nos satisfazem, por preencher as condições requeridas para uma obra-prima religiosa e estética.

          Uma delas é uma pintura.
         A segunda, uma composição musical.
         A terceira, um poema.

         1.
        A primeira obra-prima sobre a Eucaristia é um óleo de Francisco Goya y Lucientes, relativamente pouco conhecido: A Última Comunhão de São José de Calasanz (óleo sobre tela, 250x180 cm). Está no Museu do Prado, em Madrid. Essa tela foi encomendada pelos Padres Esculápios da Igreja de San Antonio Abade de la Florida, em Madrid. Nessa igreja, aliás, repousam os restos mortais do pintor.  
        Para que possamos entender por que Goya aceitou pintar tal tema religioso, é preciso esclarecer que ele foi aluno dos Padres Esculápios em Fuendetodos, sua aldeia natal, a 65 km de Saragoça, na Província de Aragão. O pintor continuou católico até ao fim de sua vida, nunca esquecendo, mesmo em idade madura, de traçar uma cruz no início de suas cartas, ao filho Francisco Javier ou ao seu grande amigo Martín Zapater, nem de invocar em suas necessidades a Virgem do Pilar, Padroeira de Saragoça.
          Em 1819, aos 73 anos, os Padres Esculápios procuraram-no, para encomendar-lhe a decoração da Igreja de San Antonio. O pintor aceitou a encomenda pelo preço de 16.000 reales, de cuja soma deu quitação para 8.200. Devolveu o restante aos Padres Esculápios, dizendo-lhes que era sua contribuição para a glorificação do Santo, seu compatriota. Pintou, pois, a tela supramencionada sobre o Santo, que viveu de 1557 a 1648, notabilizando-se por fundar uma ordem de religiosos, dedicada à criação de colégios para crianças pobres. Goya, não só devolveu parte do dinheiro, mas ofereceu aos Padres outra tela sobre a temática do Santo.
Detenhamo-nos um pouco sobre a Última Comunhão de São José de Calasanz.
Nesse óleo Goya – o implacável denunciador das hipocrisias da sociedade espanhola, e da crueldade da invasão francesa, especialmente com seus Fuzilamentos de Três de Maio, de 1808, a que se seguiram as séries de gravuras sobre os Desastres da Guerra (1810) e os Disparates e Provérbios (1816) – conseguiu o que raríssimos pintores do mundo conseguiram: despertar uma sensação de profunda intimidade religiosa. Vê-se no quadro um Sacerdote, em pé, levemente inclinado, com um cibório na mão esquerda, que estende a mão direita com a pequenina hóstia. O perfil do sacerdote aparece iluminado, bem como o braço que se dobra para aproximar o sacramento aos lábios trêmulos do ancião. O rosto de São José de Calasanz, que estava próximo dos noventa anos, é o mais iluminado de todos. Goya acentuou a velhice venerável do Santo por meio de um detalhe: as mãos postas que se curvam, revelando a debilidade do personagem. A atitude de recolhimento e a doçura da cena são algo que um católico jamais esquecerá. Alguma coisa poderá tocar-lhe o fundo da alma. Se o contemplador não se acercar ao limiar da prece, ao menos retirar-se-á meditativo, perguntando como foi possível a um artista, tão anti-clerical, atingir tal grau de ternura e pureza diante do Mistério! A tela de Goya é uma das poucas obras de arte pictórica que, com seu cromatismo calibrado, permite que todos os rostos presentes à cena recebam um reflexo da luz do rosto do Santo. Pode-se dizer que a única cor do quadro é o branco da luz. Além dessa cor, vê-se o verde-azulado, com uma franja dourada na casula do celebrante, e uma faixa vermelha que também serve para mostrar o barrete do Santo no chão enxadrezado, que repercute a cor verde e dourada da casula. Goya não se esqueceu de sugerir a Graça de Deus, por meio de um jato de luz que desce do alto, esgarçando-se à medida que se aproxima do rosto do Santo.

2.
Passemos a outra obra de arte: o maravilhoso motete Ave, Verum Corpus, de Wolfgang Amadeus Mozart.
Essa peça foi-lhe solicitada por um professor e mestre de coro em Baden, perto de Viena, o qual ajudou a esposa do compositor Constanze, que ali fazia tratamento de banhos termais, a achar acomodações para as suas estadias. Em agradecimento a esse favor, Mozart atendeu ao seu pedido para musicar o venerável texto latino da liturgia:

Ave, verum Corpus, natum de Maria Virgine:
vere passum, immolatum in cruce pro homine;
cujus latus perforatum unda fluxit et sanguine.
Esto nobis pregustatum in mortis examine.

Em tradução aproximada:

Eu te saúdo, Corpo verdadeiro, nascido da Virgem Maria,
que pelos homens padeceu, e foi imolado na cruz,
de cujo peito trespassado jorrou  água e sangue.
Oh, possamos prelibá-lo na hora de nossa morte!

No original latino, existem rimas: natum, immolatum, perforatum, pregustatum, a cada final de versos de sete sílabas, continuados por outros versos de cinco sílabas, cujas rimas ocorrem apenas no acento proparoxítono das palavras: Vírgine, hómine, sánguine, exámine (os dois últimos vocábulos oferecem rimas assonantes no sentido estrito).

Manuel Bandeira, no livro Itinerário de Pasárgada, conta que, certa vez, perguntou a seu tio Cláudio se vésper rimava com cadáver:  A resposta negativa do tio - diz o poeta – “me inutilizou um soneto. Hoje vejo que quem tinha razão era o meu ouvido. Rima é igualdade de som. Tanto se rima consoantemente como toantemente e de outras maneiras”.
(Poesia Completa e Prosa. 2 ed. Rio de Janeiro, Companhia José Aguilar Editora, 1967. p. 44).
Podemos considerar rimas, igualmente, as citadas acima.
Utilizando uma expressão de Mario de Andrade, diremos que Mozart genializou o texto litúrgico com sua melodia lenta, de uma solenidade prodigiosamente coloquial. Quem ouvirá tal música para coro e cordas, sem sentir um delicioso arrepio psíquico no mais íntimo de si? Tem-se a impressão de que o coro avança com a majestade de uma pequena onda que se espreguiça ao sol na praia...
Sabemos, como o sublinha Maurice Barthélemy, diretor da Biblioteca do Conservatório de Liège, que Mozart se manteve crente durante toda a vida: “sem qualquer hipocrisia. Considerou-se sempre um bom cristão e um católico fiel. Colocava-se de bom grado sob a proteção da Virgem. Sabemos também, com toda a certeza, que freqüentou regularmente as igrejas e cumpriu todas as suas obrigações de católico. Refugiava-se na oração em todas as circunstâncias importantes da sua vida”.
(Mozart. Tradução de Ana Maria Vaz. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1989. p. 15).
Roland de Candé, na sua Histoire Universelle de la Musique, qualifica essa composição de Mozart de sublime, e cita o grande teólogo protestante Karl Barth (1886-1968):
- Não estou seguro de que os anjos, quando estão glorificando Deus, tocam a música de Bach, mas estou certo de que, quando estão à vontade entre eles, tocam a música de Mozart, e que Deus se compraz particularmente em escutá-los.
(Cit. Ibid. Tome 1. Paris, Éditions du Seuil, 1978. p. 606).

3.
A terceira obra de arte sobre a Eucaristia é um poema de um monge brasileiro, Dom Marcos Barbosa, do Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro.
Dom Marcos venceu o concurso para o Hino do XXXVI Congresso Eucarístico Internacional do Rio de Janeiro, em 1955.
A letra desse hino é de um lirismo superior, feita de achados metafóricos ligados à simbologia sacramental, e de uma sutileza métrica e rítmica dignas dos velhos Cancioneiros Quinhentistas:

I.
Do Céu desceu a chuva,
A gota entrou no chão;
A vinha deu a uva,
A espiga deu o grão.

Estribilho:

De todo o canto, vinde, correi:
foi posta a mesa do nosso Rei!

 II.
O homem com carinho
Curvou a rude mão;
da uva faz o vinho,
do trigo faz o pão.

III.
Do Céu desceu a graça,
Maria a recebeu;
qual procissão que passa
no seio traz um Deus.

IV.
À mesa dos mortais
o Cristo se assentou;
os mais doces sinais
na sua mão tomou.

V.
É sangue o que era vinho
e corpo o que era pão;
a mim, a cruz, o espinho,
a ti, a refeição.

Raramente um texto poético, dedicado ao Santíssimo Sacramento, atingiu tais alturas.
O poema é de um linearismo de sabor clássico, no qual se alternam versos cintilantes de significação teológica, e uma expressividade musical tão encantadora, que, às vezes, evoca as cirandas com que as crianças se divertiam nas ruas e praças de aldeias provincianas.
Ninguém se deixe enganar pela epidérmica simpleza dos versos! São versos de uma tessitura formal apurada, com seus paralelismos, contrastes, rimas e assonâncias bem distribuídas.
A graça maior do poema reside na mescla de imagens bíblicas com imagens do cotidiano, que podem ser associadas, também, à vida dos homens de hoje, sem prejuízo de sua carga transcendente, dogmática e simbólica.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Páscoa: Qual o Significado Cristão dessa Festa?


I.

      É um fato que os ovos de chocolate, cada vez maiores e mais sofisticados, são oferecidos pelo comércio em embalagens irresistíveis. Serão essas gostosíssimas criaturas responsáveis pela desatenção para com a maior festa do Cristianismo, desterrando-a de nossos apartamentos, de nossas casas, de nossas praças, de nossos aeroportos?
        Não se pode culpar a sociedade de consumo pela perda do sentido religioso da maior festa do Cristianismo! A sociedade de consumo está-se tornando um bode expiatório das negligências e auto-demissões, não só sociais e econômicas, mas religiosas da própria sociedade.
      Não bastasse isso: que é feito da Semana Santa?  Talvez a Semana continue Santa, mas semana é que já ela não é. São um punhado de dias que desabam sobre nós, com a violência de aguaceiros de verão.
      Antigamente a Semana Santa exibia imagens vestidas de roxo, altares despojados de flores e adornos, sinos cuidadosamente amordaçados. No seu lugar, matracas, que se assemelhavam a marrecas endoidecidas com seus qua-qua-quás de tempos a tempos, provocavam a curiosidade das pessoas, ou as irritavam. A mudança de cenografia religiosa incitava os fiéis, principalmente os das paróquias interioranas, a participarem do Ofício das Trevas, que consistia na leitura de trechos bíblicos, e cantos de Lamentações do Profeta Jeremias. Tais cerimônias eram realizadas no final das tardes dos primeiros dias da semana. 
      Veio a Reforma Litúrgica dos anos oitenta concebida para urbanizar a liturgia, para adaptá-la aos habitantes das cidades, principalmente das grandes cidades.
      A Igreja, em vista disso, diminuiu os textos recitados ou cantados, baniu o latim, impôs as línguas vernáculas para que todos os fiéis pudessem compreender os textos ditos pelos oficiantes e cantores.
      Não foram boas tais modificações? Foram ótimas!
      Com uma ressalva: talvez tais modificações pudessem ser menos radicais. Alguns textos latinos mereceriam ficar entremeados aos textos vernáculos, remetendo os ouvintes aos séculos passados. Os veneráveis hinos litúrgicos - ao menos os mais belos – poderiam ser encaixados no meio de composições atualizadas. Afinal, como traduzir determinados textos, que tinham sido polidos pelos séculos? Seria o mesmo que abolir o quimono japonês para as japonesas. O Japão mantém os quimonos, e não se importa que as japonesas vistam tailleurs ou jeans quando estão nos escritórios comerciais, nas agências bancárias. Os quimonos são reservados para a intimidade, ou para encontros e ritos sociais.
      Alguém objetará: “Não seria possível traduzir tais textos veneráveis?”
      O problema é exatamente esse. Traduzir não é fácil. A maioria das traduções em voga não conseguem reproduzir a aura desses textos de longa memória.  Sabemos que as auroras- boreais só podem ser contempladas onde elas se deixam ver. Os textos litúrgicos nasceram há muitos séculos. O próprio Dante inseriu alguns deles na sua Divina Comédia. Como traduzir, por exemplo, hinos como o Vexilla Regis Prodeunt, ou o Exultet? Era mais conveniente ter mantido o texto latino para esses momentos excepcionais, que teriam a vantagem adicional de evocarem momentos históricos incomparáveis. A inserção de tais textos nas cerimônias em linguagem de hoje criaria ilhas de saudades em relação aos cristãos desaparecidos, despertando em nós misteriosas ressonâncias subliminais.
      Preferiu-se um aggiornamento radical.
      É verdade que, ainda existem determinadas igrejas na Europa onde se oferece o culto católico em latim, em determinados horários.
      Não é isso o que desejamos sugerir. O que seria, talvez, recomendável seria a coexistência do latim com as línguas vernáculas, reservando-se ao latim intervalos privilegiados, que atualizassem a Tradição Cristã, inclusive as músicas do passado,como o Canto Gregoriano, e as composições polifônicas de gênios do nível de Palestrina e Bach.

      II.

      Esqueçamos tais exigências de natureza estética!
      O que causa pasmo e tristeza é constatar que o significado religioso da Páscoa está sendo esquecido. É possível, até, que uma boa parte da comunidade apenas veja na Páscoa oportunidade para lazer e turismo.
      Convém reagir a isso. A Páscoa é a maior festa cristã.
      O calendário litúrgico gira em torno dela. Em linguagem direta, pode-se dizer que a Fé Cristã baseia-se na sua mensagem. Ou, se quisermos ser mais precisos: há duas festas que se destacam no calendário litúrgico: a Festa de Natal, que celebra a encarnação do Verbo, isto é, da Segunda Pessoa da SSma. Trindade, e a Festa de Páscoa que celebra a realização final do sacrifício redentor de Jesus, com sua vitória sobre a morte, garantia da Ressurreição Final prometida a todos os homens.
      No Creio se diz:
A)    Em relação ao Natal: Foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria.
B)    Em relação à Páscoa: Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu à mansão dos mortos, ressuscitou ao terceiro dia.
São essas duas verdades, a Encarnação (que supõe o dogma da SSma Trindade) e a Redenção da Humanidade, com a promessa do Espírito Santo, a garantia Vida Eterna. Supõem a extinção da culpa e a vitória sobre a morte, o
essencial das promessas de Cristo.
Reflitamos sobre a Páscoa.
A ciência historiográfica pode dizer-nos apenas isto: os discípulos deram testemunho da ressurreição de Jesus. O fato da Ressurreição escapa a qualquer observação empírica. Portanto, escapa à historiografia científica. As aparições de Jesus depois de sua morte foram exclusivamente encontros de Jesus com amigos e discípulos. A História, portanto, não pode ir além dos testemunhos deles. Pode ponderar a credibilidade de tais testemunhos. O cristão é obrigado a fazer o mesmo. No entanto, o último passo que se exiger de um cristão é a Fé.
      Insistamos num pormenor: não há nenhum outro testemunho mais unânime no Novo Testamento. Desde os escritos mais antigos até os mais novos, todos trazem o mesmo testemunho: Deus... ressuscitou o seu Filho de entre os mortos (1 Tes 1,10); Os apóstolos viram o Senhor (Jo 20,25).
      Acabamos de citar, quase literalmente, um texto admirável do Catecismo Holandês, que precedeu o Novo Catecismo da Igreja Católica, elaborado sob a direção do saudoso Papa João Paulo II, que será declarado Beato da Igreja Católica no mês de maio pf.
      Vejamos o que diz esse Catecismo:
      A Ressurreição de Cristo é objeto de fé enquanto intervenção transcendente do próprio Deus na Criação e na História. (...) Jesus é definitivamente revelado Filho de Deus com poder por sua Ressurreição dos Mortos segundo o Espírito de Santidade. (...) Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa Fé (1 Cor 15,14).Todas as verdades, mesmo as mais inacessíveis ao espírito humano, encontram sua justificação se ao ressuscitar Cristo deu a prova definitiva, que havia prometido, da sua autoridade divina.
            Noutras palavras: Com isto cai a Fé, ou a Fé fica de pé – diz taxativamente o Catecismo Holandês, que utiliza uma linguagem menos teológica  
- e mais pedagógica - que o Catecismo do Papa João Paulo II.
Dito de outro modo:
            - Antes de se ocupar com um Cristo imaginário, o Apóstolo preferiria associar-se aos que, simultaneamente alegres e tristes, exclamavam: “Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos” (1 Cor 15,32).
      A Páscoa, portanto, deveria constituir, para qualquer cristão, uma oportunidade para reler as páginas dos Evangelhos que relatam os acontecimentos culminantes da vida de Jesus. Deveria ser uma reafirmação pessoal da verdade mais fundamental do Cristianismo: “O Senhor vive!”
      É verdade que cada evangelista narra a Ressurreição de Jesus à sua maneira. Todos narram os mesmos fatos, embora haja bastante variedade nos pormenores. Que importa? Todos concordam nos temas capitais: o sepulcro vazio, as aparições angélicas, e principalmente, sobre a presença viva de Jesus.    
       A respeito disso, os grandes pensadores cristãos chamam nossa atenção para um aspecto: Jesus aparece em forma simples, humana, “quase idílica” chega a dizer um autor. Maria Madalena julga-o um jardineiro. Jesus dá às mulheres simplesmente “Bom Dia”, isto é, Ave! Viaja na companhia de dois discípulos a caminho de Emaús. Come peixe e mel. Conversa com eles numa montanha. Toma refeição com Pedro e os companheiros à beira do lago de Genesaré.
      Seu modo de existir,no entanto, é diferente do anterior. Aparece e desaparece subitamente. As portas fechadas não o impedem de entrar.
      Há uma dimensão estranha nas aparições: Jesus apresenta-se aos discípulos “de fora”, à parte da realidade extrínseca. Por isso, os discípulos não o reconhecem imediatamente. Jesus inicia os discípulos numa nova forma de presença. Quer deixar claro que doravante sempre estará com eles. Numa palavra:
      - As aparições são tácitos indícios da sua presença permanente.
      (A Fé para Adultos. São Paulo, Editora Herder, 1972. P.217).
      Aqui, talvez, necessitamos do esclarecimento maior de um grande teólogo católico. Recorramos, pois, a Karl Adam, ao seu livro importantíssimo: O Cristo da , cuja primeira edição alemã é de 1954:
      - O fundamento e o conteúdo beatificante da Fé Pascal dos Apóstolos não foi, portanto, a Ressurreição considerada somente como fato histórico, mas o Cristo Ressuscitado presente. O fato mesmo da Ressurreição não teve nenhuma testemunha direta. Foi, pois, a presença divino-humana de Jesus que atraiu os discípulos a seu reino sobrenatural de luz e de poder, vinculando-os a Ele através de aparições visíveis, realizadas num contexto temporal-espacial.
O teólogo não se contenta com isso. Adverte os cristãos sobre outra realidade mais essencial:
      - Só os puros de espírito, só os que têm fome e sede de justiça podem ver o Cristo e crer no Ressuscitado. A Fé, pois, em seu fundo mais íntimo, é fé no Espírito Santo. Por isso mesmo, a Ressurreição de Cristo não é uma questão puramente histórica, nem um objeto de pura pesquisa científica. Nos seus refolhos mais íntimos, é um acontecimento operado sobrenaturalmente, visto que o espírito humano se encontra diante de um hiato que só pode ser preenchido por uma experiência de Fé. A mensagem pascal não se dirige apenas ao intelecto, que se agita diante dos problemas, mas ao homem todo, à sua consciência, sobretudo à disposição misteriosa da alma que aceita o mundo do absoluto e da santidade. Noutras palavras, a Ressurreição de Cristo não é uma questão puramente científica, mas um problema religioso, que põe em jogo nossas relações ético-ontológicas com o Absoluto, e que consequentemente empenha nossa existência toda. Se existe em outra parte o conhecimento existencial, deve ser posto à prova aqui, quando está em jogo o ser eterno de Cristo e do Cristianismo. (Trad. do Padre José de Assis Carvalho. São Paulo, Editora Herder, 1962. P407-408)..
      Poucas vezes a realidade última – decisiva – do Cristianismo foi tão ressaltada como nesse trecho do grande teólogo.
      Perante tal grandeza, o que são nossos ovos de chocolate, nossos festejos pascais?
Já nem nos lembramos que os próprios ovos de Páscoa originaram-se de um simbolismo religioso. Significavam inicialmente a vida: Omnis vita ex ovo – dizia-se no passado: toda vida procede de um ovo. Até a vida humana. Ela também procede de um óvulo fecundado.
Explica-nos um conhecido iconógrafo, Gerd Heinz-Mohr:
       - Ovo: símbolo da Ressurreição de Cristo, uma vez que Ele saiu do sepulcro, no dia de Páscoa, como o pintinho sai do ovo em que se encontra “sepulto”.
      Hein-Mohr nota que o ovo, para os pagãos, já continha um símbolo afim, pois era utilizado nas festas de início de primavera, quando a natureza vegetal e animal desperta. O próprio sinal de vida egípcio Ankh , que foi incorporado pela tradição cristã, recorda a imagem do ovo do mundo. Por isso, os pintores de ícones bizantinos, às vezes, em vez do óleo, empregavam o vermelho da gema nas suas pinturas, fazendo uma alusão à Páscoa e à Ressurreição de Jesus, que significavam sua vida transfigurada e imortal.
(Lessico di Iconografia Cristiana. 2 ed. Milano, Istituto di Propaganda Libraria, 1995. p.344).

terça-feira, 19 de abril de 2011

O Batismo de meu Segundo Neto

     Uma das páginas do Evangelho que mais nos encanta é a da visita noturna que Nicodemos fez a Jesus.
Nicodemos era membro da seita dos fariseus, uma espécie de intelectual da Jerusalém da época, como o qualifica o biblista católico, fundador da Escola Bíblica de Jerusalém, J.M. Lagrange. (1855-1938;  El Evangelio de Nuestro Señor Jesucristo. 2 edición. Traducción del R. P. Elías G. Fierro. Barcelona, Editorial Litúrgica Española, 1942. p.80). Estava habituado a examinar os prós e os contras de qualquer afirmação. Nicodemos foi falar com Jesus a fim de inteirar-se melhor de sua doutrina.
     Começou por uma captatio benevolentiae, ao saudar Jesus:
- Rabi, sabemos que és um mestre vindo de Deus. Ninguém pode fazer esses milagres que fazes se Deus não estiver com ele.
Jesus lhe replicou:
     - Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo, não poderá ver o reino de Deus.
     A resposta de Jesus ainda hoje é assombrosa. Deve ter assombrado muito mais o fariseu de então.
Sem se deixar intimidar, Nicodemos objetou a Jesus:
     - Como pode um homem renascer sendo velho? Acaso pode tornar a entrar no seio de sua mãe, e nascer pela segunda vez?
     A objeção de Nicodemos era típica do realismo judaico. O fariseu limita-se a contrapor a Jesus o que lhe parecia  um absurdo. Não lhe passava pela cabeça a idéia de que o Mestre estivesse blefando. Nascer de novo não poderia ser uma metáfora?
Nicodemos tinha visto Jesus realizar algum milagre. Em se tratando de Jesus, podia ser que o Rabi estivesse imaginando um novo milagre. Era preciso começar garantindo a realidade concreta de qualquer nascimento humano:
Como, pois, reentrar no seio materno, e tornar a nascer?
       Jesus acrescenta-lhe algo que exclui qualquer outra interpretação:
       - Em verdade, em verdade te digo, quem não renascer da água e do Espírito, não poderá  entrar no reino de Deus. O que nasce da carne é carne, o que nasce do Espírito é espírito.
Jesus apresenta-lhe uma comparação: a do vento:
       - O vento sopra onde quer: ouves-lhe o rumor, mas não sabes donde ele vem, nem para onde vai. Assim acontece com quem nasce do Espírito.
       Nicodemos, no entanto, fica inflexível. Quer obrigar Jesus à total objetividade:
       - Como se pode fazer isso?
       A resposta de Jesus  deve, sem dúvida, ter sido dada com um sorriso:
       - És Doutor em Israel, e desconheces tais coisas?
Como se dissesse a Nicodemos, antecipando Shakespeare:
       - És um intelectual! Deverias, ao menos, suspeitar de realidades que existem entre o céu e a terra... Não te ocorreu a possibilidade de um nascimento além do nascimento natural?
       A tal observação, Jesus ajuntou uma afirmação que deve ter deixado o fariseu ainda mais atônito:
- Em verdade, em verdade te digo, Nicodemos: nós dizemos o que sabemos, e damos testemunho do que vimos, mas não recebeis nosso testemunho. Se vos tenho falado de coisas terrenas, e não me acreditais, como acreditareis se eu vos falar de coisas celestiais? Ninguém subiu ao céu senão aquele que desceu do céu, o Filho do Homem que está no céu. Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim deve ser levantado o Filho do Homem, para que todo o homem que crer nele tenha a vida eterna. De tal modo Deus amou o mundo que lhe deu seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crer, não pereça, mas tenha a vida eterna. Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porque não crê no Filho Unigênito de Deus. Ora, este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz, pois as suas obras eram más. Porque aquele que faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, a fim de que suas obras não sejam reprovadas. Mas aquele que pratica a verdade, vem para a luz. Torna-se assim claro que as suas obras são feitas em Deus.
Meditei nessas palavras  na ocasião em que o sacerdote conferiu o batismo ao meu neto, que estava na companhia de outras cinco crianças. Algumas choraram quando o celebrante lhes verteu água na cabeça.
Recordei-me, também, de como Jesus se despediu dos discípulos antes de subir aos céus:
- “Ide por todo o mundo, e anunciai o Evangelho a toda gente. Quem crer e for batizado, será salvo, mas quem não crer, será condenado.” (Mc 16,15-16).
Dei-me conta, relativamente tarde, de que as afirmações de Jesus a Nicodemos, citadas no Evangelho de São João, deviam ser associadas à afirmação de Jesus aos discípulos na hora de sua partida deste mundo. A insistência na adesão à mensagem de Jesus e ao batismo com água encontra eco na afirmação, referida por Marcos, de que é preciso crer e, ao mesmo tempo, ser batizado, pois a rejeição de ambas implica numa condenação: a mesma que São João mencionou no diálogo com Nicodemos: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas...
Foi por essa razão que o sacerdote entregou aos padrinhos uma vela acesa! A luz da vela simbolizava a adesão à outra luz, à luz da Fé.
A cerimônia foi simples, o ritual nem precisava ser explicado se as palavras de Jesus a Nicodemos fossem conhecidas.
Na ocasião do Batismo de meu neto fiquei mais atônito do que Nicodemos na noite de sua visita a Jesus!
Em poucos minutos... a criança,  que quase morreu ao nascer, pois minha filha passou por momentos de gravíssimo risco, ele nascia outra vez, desta vez para Deus. Deus o tornava filho adotivo,  convertendo o primeiro nascimento corporal num nascimento espiritual, que um dia realizará na carne o que o Batismo realizou, sigilosamente, em sua alma.
Após a Ressurreição, Jesus não permitiu que Maria o tocasse, no jardim onde lhe apareceu.
Supondo que Jesus fosse o jardineiro, a irmã de Lázaro disse-lhe:
- Senhor, se tu o tiraste daqui, dize-me onde o puseste...
Respondeu-lhe Jesus:
- Maria!
Voltando-se, Maria exclamou:
- Rabboni! (que quer dizer: Mestre!)
Jesus advertiu-a:
-Não me toques! Ainda não subi a meu Pai, mas vai a meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus. (Jo 20,14-18).
Agradeço ao fariseu, que se entrevistou com Jesus, ter-se mostrado realista. Só assim, nós, homens do século XXI, não teremos razões para recusar a luz da Fé.
Entendi, também, porque o grande Orígenes (185-253), um dos primeiros sábios da Igreja, beijava o peito de seu filhinho recém-batizado.
Orígenes sabia que ali, naquele corpo frágil, não havia apenas um corpo humano, mas outro corpo também, o que futuramente será ressuscitado graças ao Batismo que lhe infundiu o sopro do Espírito Santo. Este novo sopro nas narinas permitir-lhe-á respirar para sempre.
Por isso, quando meus amigos agnósticos me dizem:
- É prodigioso acreditarem coisas tão fora do alcance da razão?
Respondo-lhes:
- Só se pode acreditar em tais prodígios fazendo-se criança...
O Mestre foi explícito ao impor aos seus seguidores o retorno à infância, uma sorte de suplemento ao nascimento pelo Batismo. O retorno, agora, deverá ser consciente.
As crianças, quando lhe contamos coisas maravilhosas, não nos objetam “realidades”.  Contentam-se em ouvi-las.
A Fé cristã, também se realiza ex auditu, isto é, mediante a audição. Obediência, aliás,  vem de ob-audire, isto é, estar atento ao que se ouve.
O cristão é alguém que se faz criança por saber que aquilo que é impossível aos homens, não o é a Deus. Nicodemos objetou a Jesus uma impossibilidade humana: nascer novamente de uma mulher. Jesus  contrapôs-lhe uma possibilidade divina: o Batismo, que preanuncia a ressurreição futura.
Dirá São Paulo na sua Primeira Carta aos Coríntios:
- Semeado em corrupção, o corpo ressuscita incorruptível, semeado no desprezo, ressuscita glorioso, semeado na fraqueza, ressuscita vigoroso, semeado corpo animal, ressuscita corpo espiritual. (15, 42-43).
Ao cumprir o doloroso dever de acompanhar amigos que vão a um crematório, onde o corpo de um ente querido é incinerado, lembro-me dessa afirmação . Choro como qualquer amigo que perde a esposa, um filho,  amigos. Jesus também chorou diante do sepulcro de Lázaro. Mostrou-se, em tudo, semelhante a nós, exceto no pecado.
Eis por que o Batismo de meu neto me deixou atônito, possivelmente mais do que Nicodemos na noite em que encontrou Jesus.
Afinal, ninguém assiste ao próprio batismo, a não ser os que se batizam adultos! Estes, se tiverem plena consciência do que ocorre com eles, devem ficar pasmados, como Nicodemos ficou na noite em que foi procurar Jesus.
Quando as objeções de meus amigos não crentes são muito insistentes, também me refugio na Noite da Fé, onde os que permanecem insones são encontrados pelo Senhor, que vem quando menos é esperado.
Para a insônia da Fé não existem soníferos de espécie alguma. O melhor sonífero da Fé ainda é uma Estrela no Céu, que nos acena como um amigo que vem de longe, cujo rosto ainda não vislumbramos.