sábado, 19 de março de 2011

Visita a uma Gruta Pré-Histórica: Font-de-Gaume.

          Em outubro de 2010, dentro da programação do tour da Biarritz Turismo: Pelos Caminhos do Pensamento e da Arte Medieval,  que incluía, como atrações-extras, o acesso a outros pontos de interesse além dos medievais, tivemos a oportunidade de visitar uma gruta pré-histórica: a de Font-de-Gaume, no sul da França, na região conhecida como Les Eyzies-de-Tayac.
É uma das poucas grutas atualmente franqueadas aos turistas. As demais, por razões de conservação, são reservadas aos especialistas.
A gruta situa-se à meia-altura de um penhasco, à razoável altura. Tivemos de percorrer quatrocentos metros até atingir a entrada do sítio arqueológico.
Sob a orientação de um guia, penetramos no refúgio, onde se reuniam nossos ancestrais, numa época não tão distanciados das dobras de sua animalidade.
À medida que o guia nos introduzia no bojo cavernoso, advertindo-nos, constantemente, que evitássemos bater com a cabeça numa das tantas reentrâncias da rocha, começamos a habituar-nos à iluminação interior, mantida por uma rede de lâmpadas instaladas em nichos dispostos para uma boa visão das pinturas, e também sob nossos pés, para que pudéssemos caminhar sabendo onde pisávamos.
Formávamos um grupo de 12 pessoas (número máximo permitido para cada grupo de visitantes). Estávamos ansiosos por ver os famosos bisontes, ursos, renas, mamutes, bovídeos, cervos, leões (existem cinco figuras desse animal), lobos, rinoceronte (uma única figura), gravados ou pintados nas paredes. Ao todo, 230 figuras.
Não foi fácil ver as pinturas – assim ditas – rupestres.
Elas não são contempladas como numa folha horizontal de papel, nem à maneira de figuras numa superfície vertical. Os animais aparecem silhuetados, com preenchimento de partes de sua anatomia mediante manchas de variadas colorações vermelhas, ocres, e pretas. Acompanham as ondulações da caverna, avançando em direção ao espectador, ou afastando-se dele, de acordo com as variações de superfície das rochas.
Ajudados pela lâmpada-laser do guia, começamos, com certa dificuldade, a vislumbrar os animais: lá estavam eles.
Há quanto tempo? Aproximadamente 15.000 mil anos de distância cronológica, em relação a nós!
O guia, um profissional de reconhecida competência, fornecia-nos dados e explicações. Quando nossos olhos demoravam a identificar o desenho dos animais, ele, com gentileza e paciência, voltava a dirigir seu jato-laser no ponto visado, mostrando onde principiavam, e onde terminavam.
Sabemos que as opiniões dos estudiosos nem sempre concordam entre si.
Seriam tais animais exemplos de magia negra? Nesse caso, representava-se o animal que se queria abater, crivando-o de flechas, ou mostrando-o diante de armadilhas.  
Seriam exemplos de magia branca, isto é: figurariam fêmeas grávidas, garantia da futura caça?
Ou teriam tais animais conotações míticas e sexuais, de modo que, de acordo com uma sintaxe complexa de localizações espaciais e combinações simbólicas, poderíamos adivinhar seus significados – como propõe um André Leroi-Gourhan?
Ou passariam, pelo cérebro desses caçadores, idéias diferentes das que lhes atribuímos? Lembremos que da palavra eidolon deriva ídolo, vocábulo grego que significava primordialmente imagem...
Quando terminou a visitação, ficamos silenciosos, como se tivéssemos sido introduzidos na alcova de um príncipe das Mil e Uma Noites.
Mil e uma noites tinham realmente ocorrido nessa gruta, e nós ali estávamos sem a chave final para o segredo que ocultavam no seu isolamento de muitos milhares de anos.
Formulemos, antes de mais nada, uma questão: tais pinturas podem ser consideradas obras de artes?
A resposta é:
- Sem dúvida!
Por uma razão, sobretudo: não se trata de meros riscos de principiantes, mas de esboços que revelam o talento de artistas refinados. Alguns deles chegaram a sugerir a perspectiva, ou seja, a representação do espaço tridimensional, no qual viviam tais animais.
Os desenhos não são nada primários. São vigorosos. Definem os animais de acordo com suas características morfológicas. Algumas representações, que mostram os olhos desses animais, provocam a admiração dos especialistas.Em geral, o volume é sugerido por concentrações cromáticas distribuídas nas figuras.
Só não existe uma coisa nessas representações: preocupação pelo conjunto.
Não existiu de fato, ou não chegamos a percebê-la? O fato é que os animais amontoam-se uns sobre os outros.
Outra singularidade: não se encontrou, em nenhuma gruta pré-histórica, paisagem alguma.
Não interessava aos pré-históricos figurar esse elemento, ou viviam eles de tal modo imersos no entorno, que não dispunham de distância psíquica suficiente para percebê-lo? Ou, com maior probabilidade: a luta pela sobrevivência não lhes deixava tempo para isso.
A visita à Gruta de Font de Gaume obrigou-nos a novas reflexões sobre a motivação do fazer artístico.
Permitimo-nos algumas considerações.
A primeira: os pré-históricos já estavam de posse das técnicas fundamentais necessárias à expressão artística. Existem desenhos nas grutas que se comparam aos de Rafael ou de Picasso. Na Gruta de Font-de-Gaume, em particular, mostra duas renas confrontando-se, numa espécie de dança ritual sexual que, por ser sugestiva e de inegável valor artístico, é reproduzida em quase todas as Histórias da Arte.
Em segundo lugar, convém destacar a acuidade visual dos pré-históricos.Eles viam os animais como câmeras japonesas de última geração! Apanhavam os traços mais sutis dos bichos. Mediante a memória e a imaginação, criavam imagens deles, até mesmo quando os tinham de figurar em posições desvantajosas. Algumas das imagens parecem ter sido desenhadas, estando o artista sobre os ombros de um membro da tribo. E na quase escuridão...
Lá dentro, podiam manter apenas o fogo vacilante de chamas alimentadas por graxa animal. Aliás, os historiadores chamam a atenção para um detalhe: deviam ser impressionantes as imagens vistas à luz de tais flamas móveis!
Nunca, provavelmente, decifraremos tal “sistema” iconográfico!
 As imagens, talvez, nasceram de uma dupla necessidade: a do pão – que nessa época ainda não existia, pois o homem era coletor e caçador, não agricultor – e a necessidade psíquica de uma explicação da vida.
Quem sabe, também, nascessem da necessidade coletiva de solidariedade, que levava tais trogloditas a criarem danças misteriosas, que os incentivavam a permanecer vivos, apesar dos pesares.
Ao se sentirem imersos em tais danças, nossos ancestrais poderiam – eventualmente – formar a idéia - a imagem - de que poderia haver uma luz no fim do túnel?
Talvez seja excessivo pensar nisso!
Se aconteceu tal coisa, teria nascido aí a esperança, que se recusa a abandonar qualquer ser humano, mesmo o mais infeliz.
A esperança, para orgulho do homem, só pode ser objeto de uma rejeição pessoal.

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