terça-feira, 22 de março de 2011

Senhores Professores: leiam Bertrand Russell!

        Tínhamos já lido essas páginas!
        Mas como o livro de Russell O Elogio ao Ócio foi relançado no Brasil (Terceira edição. Rio de Janeiro, Editora Sextante, 2002), resolvemos voltar às considerações que o autor desenvolve no primeiro capítulo:
         I.
        - No passado havia uma pequena classe ociosa e uma grande classe trabalhadora. A classe ociosa desfrutava vantagens que não tinham qualquer fundamento na justiça social, o que tornou essa classe inapelavelmente opressora, limitou seu sentido de solidariedade e levou-a a inventar teorias para justificar seus privilégios. Isso fez diminuir enormemente a sua excelência, mas não a impediu de ter contribuído para quase tudo o que chamamos de civilização. Ela cultivou as artes e descobriu as ciências, escreveu os livros, inventou as filosofias e aperfeiçoou as relações sociais.  Mesmo a libertação dos oprimidos foi geralmente iniciada a partir de cima. Sem a classe ociosa, a humanidade nunca teria emergido da barbárie.

        II.
         - Num mundo em que ninguém tenha de trabalhar mais do que quatro horas diárias, todas as pessoas poderão saciar a curiosidade científica que carregarem dentro de si e todo pintor poderá pintar seus quadros, sem passar por privações, independentemente da qualidade de sua arte. Jovens escritores não precisarão buscar a independência econômica indispensável às obras monumentais para as quais já terão perdido o gosto e a capacidade quando o momento chegar. (...) Os médicos terão tempo de estudar os progressos da medicina, e os professores não precisarão se desesperar por estarem repetindo com métodos rotineiros ensinamentos que aprenderam na juventude que, nesse meio tempo, podem já ter-se tornado comprovadamente falsos.

        Como “coda”, ajuntava o Prêmio Nobel:

        - Acima de tudo haverá felicidade e alegria de viver, em vez de nervos em frangalhos, fadiga e má digestão. O trabalho exigido será suficiente para tornar agradável o lazer, mas não levará ninguém à exaustão. E como não estarão cansadas nas horas de folga, as pessoas deixarão de buscar diversões exclusivamernte passivas e monótonas. (Ibid. p.. 34-35).

        É uma pena que o filósofo se tenha equivocado! (A primeira edição desse livro saiu em 1935).
Penso que boa parte dos leitores terão percebido, nesse búzio maravilhoso de Russell, os ecos das profecias de Karl Marx. Profecias, é verdade, que não se realizaram até à data presente, embora possam realizar-se no futuro.
        Quando?
        Os franceses ensaiaram uma experiência “russelliana” num de seus governos socialistas recentes: reduziram as horas de trabalho!
        Não deu certo. É verdade que o mesmo ocorreu com certas pistas que foram abandonadas pelos pesquisadores de medicina; com o passar dos tempos, voltaram a ser retomadas.
        Não acontecerá o mesmo com a visão utópica de Marx, e a visão hiper-utópica de Russell?
        O filósofo inglês não deixou seu pensamento pela metade: no mesmo capítulo revelou o que entendia por “diversões exclusivamente passivas e monótonas”:
        - Ver filmes, assistir a partidas de futebol, ouvir rádio e assim por diante. (Ibid. p. 33).
        Evitemos de considerar Russell um ingênuo: ele condicionava a nova era a uma reformulação da educação:
        - Uma condição fundamental de tal sistema social é que a educação ultrapasse as suas atuais fronteiras e adote como parte de seus objetivos o cultivo de aptidões que capacitem as pessoas a usar seu lazer de maneira inteligente. (Ibid. p. 33).
        A favor de Russell mencionemos um fato recente: multiplicaram-se as oficinas literárias, os cursos de artes pipocam, não faltam ateliês livres.
        O que o filósofo não podia saber é que a mentalidade “capitalista” contaminaria, também, tais cursos que, com muita freqüência, não são encarados como atividades expansivas de dotes pessoais latentes, mas como uma Escada-de-Jacó que conduz diretamente ao céu da mídia, ou à condição de ícone da sociedade. As pessoas não descobriram, ainda, que mais vale criar alguma coisa, mesmo que não possa ser seja badalada, do que não criá-la.
       O prazer específico da criação artística deveria ser recompensa suficiente para um criador – naturalmente, seguida de um mínimo de comunicação e partilha com alguém, nem que seja com a própria família, com o cachorro, ou com o gato que se delicia com o leite que lhe fornecemos...
        Não é esse o caso. A maioria das pessoas não se satisfaz com repercussões tão modestas! Sonha com ascensões ao pódio, telinhas da televisão, ou com outros locais onde o pequenino Eu possa rebrilhar.
Nem falemos sobre as diversões passivas e monótonas!
O problema é que nosso sistema educacional se mantém atrelado aos varais dos meios de comunicação. Dificilmente se tentam caminhos alternativos... ou mesmo, retroativos!
 Tomemos um exemplo: insistir em que um aluno leia Machado de Assis, Lima Barreto, ou Erico Verissimo?
Não é bom método. É melhor começar por autores que, amanhã ou depois, serão varridos pela vassoura implacável da História, mas que, neste momento, ocupam as manchetes dos jornais. Como escritor, nunca entendi a devota insistência dos professores na assim dita literatura infanto-juvenil. Que ela seja um dos meios a serem experimentados, concordo.. Que ela seja o meio mais adequado?
 Ah, meu Deus, gostaria de não ter tantas dúvidas!
A literatura infanto-juvenil, excluída a primeira fase, quando a criança não se desfez totalmente de sua aura imaginativa natural – ou dos resquícios de sua placenta intelectual – acaba por habituá-la a continuar mamando, quando já se lhe entumesceram as gengivas com os dentes.
Deixo a dica aos senhores professores!
Os professores fariam bem em escutar os autores, mesmo os reacionários!
Um dia, Mario Quintana me contou que havia aprendido inglês sem ter freqüentado nenhuma escola de línguas. Limitou-se a traduzir livros ingleses com a ajuda de dicionários.
Reconheço que aprender inglês desse jeito seria o mesmo que extrair dentes sem anestesia! Mas os Quintanas não estão sobrando, apesar de as anestesias serem comuns.
Encerro estas bizarras considerações, sugerindo – a quem de direito – que não se deixem levar por slogans baratos, nem por soluções mágicas. Os chapéus, dos quais outrora saiam flamantes coelhos, deixaram de existir com a extinção das chapelarias, e os efeitos especiais são copyright de Hollywood.  

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