quarta-feira, 9 de março de 2011

Retrato Humano da Virgem Maria (II)

Bonitas, Lindas ou Belas? A Questão da Beleza da Mãe de Deus?
Um leitor, que se intitula curioso, propôs-nos a seguinte questão:
- Dentro das habituais qualificações populares, a Virgem Maria deverá ser considerada:
a) Bonita?
b) Linda?
c) Bela?
Respondemos-lhe: é uma questão um tanto torcicolosa...- adjetivo com que Manuel Bandeira agraciou o estilo de Guimarães Rosa, um dos escritores que, nos últimos cem anos, tentaram não só escrever o que ninguém escrevera, senão que se atreveram a realizar  o impossível: criar um idioma próprio.
Bonito: é adjetivo que combina com diminutivos, rostinho, corpinho...Adjetivo que se normalmente se apoia num substantivo: boniteza, qualidade que indica “cousa agradável à vista”, opondo-se a um substantivo, que é, por assim dizer, simétrico a ele:  feiúra, ou fealdade. Até pouco tempo atrás, havia um ditado: “Quem o feio ama, bonito lhe parece”. Tal adjetivo, por vezes, assume um ar de gravidade, tornando-se respeitado, de modo que a qualquer beldade não lhe importa que lhe chamemos bonita.
Pensamos, porém, que não devemos constranger a Mãe de Deus com tal adjetivo!
Será linda?
Mas o que é lindeza?
Muito, para dizer a verdade. Além de ser uma palavra “mais culta” que bonita, indica “maior perfeição no objeto”, conotando “certo ar e graça” que o aproximam de belo e do formoso, segundo no-lo explicam os dicionaristas.
Nossa experiência pessoal - que pode não ser correta, mas que é corrente - de acordo com  a sutil observação de um aluno ao seu professor de português gramatical, é que, ao abrirmos uma janela num belo dia de primavera, costumamos exclamar: Que linda manhã! Tentemos pensar, também, no encantamento de nos vermos diante de um regalo, de um mimo: uma gargantilha que alguém oferece à esposa. Não é natural que ela diga: Que lindo presente?
Não obstante, pensamos que esse adjetivo, também, não está à altura dos predicados da Virgem Maria!
Resta-nos um único adjetivo: bela!
Os lexicólogos explicam-nos que a beleza – substantivo abstrato – aplica-se ao físico e ao moral. Citam o clássico de nossa língua, Padre Manuel Bernardes que, falando do menino Moisés, diz: “Livrou na sua beleza a sua vida”. Citam, também, o Padre Antônio Vieira, que timbrava em estabelecer uma distinção entre beleza e formosura. Falando de Absalão,Vieira dizia: “Era (...) tão galhardo mancebo, que do pé ao cabelo da cabeça,como fala a Escritura, nenhum pintou a natureza mais belo”. Por fim, os lexicólogos informam que Vieira aplicava a palavra formosura unicamente às mulheres. Com típico temor clerical, o grande orador notava: “É tão apetecida das mulheres a formosura que só pela glória de a contemplarem, deixarão a maior dignidade”. E ainda: “Sócrates chamou à formosura tirania, mas de breve tempo; Teofrasto chamou-lhe engano mudo, porque sem falar engana”.
Portanto, caro amigo curioso, resta-nos como atributo à Virgem Maria um único adjetivo: bela, aliás: belíssima!   
Gabriele M. Roschini, célebre teólogo mariano, em “La Vida de la Vírgen Maria” dedica um capítulo ao aspecto físico da Mãe de Deus.Após consultar a bibliografia dos Padres da Igreja, conclui que o físico de Maria devia ser de “singular beleza”, e ajunta que a tradição cristã, unanimemente, a proclama a mais bela criatura de quantas existiram no mundo.(Buenos Aires, Ediciones Paulinas, 1948. p..46).Em suas Instruções Marianas, o mesmo autor consagra um capítulo ao Corpo de Maria, e nele  realça “a origem nobilíssima” da Virgem, “sua compleição perfeitíssima”, suas “feições externas. (São Paulo, Edições Paulinas, 1960. p.197-206).
Teólogo de igual nomeada, Gregorio Alastruey, também dedica um capítulo inteiro de seu tratado sobre a Virgem Maria a esse tema:  De las Dotes y prerrogativas de la Bienaventurada Virgen Maria em cuanto al cuerpo y em cuanto al alma.(Tratado de la Vírgen Santisima.Tercera edición. Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 1952. p. 435 ss). Ao passo que Roschini parece experimentar certa satisfação em descrever a beleza de Maria, o teólogo espanhol dá a impressão de que o assunto o constrange por suas implicações – digamos à falta de outro termo – “corporais”. Tem pudor excessivo ao abordar esse aspecto. Conclui, porém, que  la hermosura de Maria é uma evidência.
Em nossa opinião, a hermosura, descrita pelo teólogo espanhol, assemelha-se a uma flor de botânica, que não tem cor, nem aroma. As categorias de belleza de Alastruey são do gênero “proporção ou consonância ordenada das partes”, e “esplendor da ordem”. As razões teológicas, que o grande erudito expõe, merecem nossa atenção, mas nos deixam insensibilizados.  
O melhor da argumentação de Alastruey enconyra-se na frase de São Tomás de Aquino, citada no final de seu capítulo. Essa frase merece o aplauso dos devotos da Virgem:
- São Tomás - dizAlastruey - sustentava que “a graça da santificação (de Maria) não só reprimia na Virgem os movimentos ilícitos, como também influía, eficazmente, na atitude dos circunstantes, no sentido de que sua formosura corporal não pudesse nunca ser desejada por ninguém”. (Ibid. p. 442).
Que conclusão se pode tirar de nossa digressão?
Um ponto é certo: Maria foi uma mulher belíssima, tanto no seu físico, como na sua constituição psíquica.
 O grande orador francês, Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704), Bispo de Meaux, argumentava (de acordo com a síntese que de sua argumentação faz Gabriele Roschini):
- Ao formar o corpo virginal de Maria, Deus tinha em mente Jesus.
Portanto, Deus na sua intenção “modelou o corpo da Virgem sobre o corpo de Jesus” justamente porque o corpo de Jesus, divinamente belo, devia ser modelado sobre o corpo da Virgem. (Instruções Marianas. Obr. cit. p. 203).
É o que se pode dizer sobre a beleza corporal de Maria.
Os autores católicos da atualidade sublinham que Maria era judia e que, por isso, sua beleza devia ser a de seu grupo étnico: morena, de cabelos pretos, etc.Numa palavra: uma beleza semita.
Conta-se que o pintor norte-americano Whistler (1834-1903), ao  mostrar a um amigo o seu “Retrato da Mãe do Artista” (1871; Museu do Louvre), ouviu dele grandes elogios a tão maravilhosa pintura. O pintor, então, comentou:
- Todos fazemos nossa mãe a mais bela possível!
(Cit. por Fulton J. Sheen. O Primeiro Amor do mundo. p. 15).
Comentando essa resposta de Whistler, escreveu o Bispo Fulton Sheen:
 - Não se espantem de que falemos de Maria como de um pensamento de Deus antes de o mundo ter sido criado.(Ib. p. 15).
Não podemos dar mais bela conclusão às nossas observações sobre a beleza da Virgem Maria do que  trazendo  a estas páginas um poema de Conventry Patmore (1823-1896):
- Suave donzela sem artifícios,
a mais forte das energias criadas por Deus;
cume radiante da Personalidade humana,
êxito supremo das aspirações deste triste mundo!
Ó Rosa de pudor, tu nos salvas
da vergonha de não termos vergonha.
És um aviso em nosso caminho,
a indicar aos loucos errantes a reta via;
fímbria do vestido de Deus,curas os que te tocam;
oh tu, de quem as multidões que te veneram,
recebem graça e recompensa,
ambas ignoradas pelos homens impuros,
que se esquecem de implorar o auxílio de  Deus.
)...)
(Cit. por Fulton Sheen.O Primeiro Amor do Mundo. p. 304).

Um Passeio Iconográfico e Estético Sobre o Tema: A “Anunciação à Maria”

Um dos privilégios, que o desenvolvimento prodigioso da técnica fotográfica proporcionou ao nosso tempo, consiste em viabilizar verdadeiros museus portáteis, micromuseus a domicílio, ao dispor de toda a gente.
Na última vez em que estivemos no Museu do Convento São Marcos, em Florença, adquirimos na loja de souvenirs, a publicação Annunciation, da Phaidon Press (Londres, 2000).
Para um devoto de Maria, a mencionada publicação, de superior qualidade gráfica, oferece uma rara oportunidade  de contemplação das imagens que os maiores artistas da História realizaram em homenagem à Mãe de Deus.
 São dezenas e dezenas de reproduções de mosaicos, pinturas em seda, relevos em marfim, iluminuras, ícones, afrescos, têmperas, óleos, terracotas, alabastros. As imagens estendem-se, de um mosaico da Basílica de Santa Maria Maggiore, dos anos 432-440 d.C., a uma serigrafia de Andy Warhol, datada de 1990!
O leitor sabe que um dos maiores desafios que os artistas cristãos enfrentaram, desde a implantação do Cristianismo fora da Judéia (visto que aos judeus estava proibida toda e qualquer figuração religiosa) foi saber a que ater-se na questão da aparência física de Maria. Nos Evangelhos não se  encontra nenhuma descrição verbal das feições de Maria.
Podemos, desde já, reter um dado: tudo que lhe diz respeito, em termos de representação, é produto da imaginação humana. Cada artista cristão foi obrigado a partir de zero.
Folheando as páginas desse museu portátil da Phaidon Press, damo-nos conta de como a mão do artista inicialmente vacilou, depois começou a fixar-se em alguns traços, e como, com muito cuidado, tanto o miniaturista como o pintor de ícones e afrescos, tiveram ânimo, à medida que o culto a Maria se consolidava na comunidade dos crentes, para sair em busca de uma temática específica, e de um estilo mais apropriado à expressão dos simbolismos propostos pelos teólogos.
Um fato é certo: na representação de Maria os artistas tendiamm a pôr entre parênteses a vida que levavam, suas idiossincrasias, seus delírios pessoais, suas deploráveis paixões, seus adultérios, seus desregramentos, enfim o lixo de suas subjetividades.  Concentravam-se, unicamente, no lado religioso das encomendas, fossem elas de reis, de cortesãos, de burgueses, de Papas, ou Bispos e Abades. Às vezes, tais artistas aproveitavam-se das encomendas para, mediante elas, realizarem uma sorte de purificação dos próprios vícios.
Como professor de História da Arte durante aproximadamente 30 anos na Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS), tivemos oportunidades, não só de estudar tais obras, como de comentá-las aos alunos mediante projeção de slides.
 Quantas coisas descobrimos, juntos, nessas aulas de História da Arte!
Resolvi, neste blog, privilegiar um único tema iconográfico mariano, o tema – a que já nos referimos, da Anunciação.
Solicitamos aos leitores que se reportem, no que diz respeito à narrativa  histórica ao Evangelho de Lucas, capítulo 1, versículos 26-38. 
Fixemo-nos, agora, no museu portátil da Phaidon Press.
Ao folhear as páginas dessa publicação, logo perceberemos que, nos primeiros séculos do Cristianismo, as imagens de Maria são as de uma matrona romana, rígida, envolta nos trajes típicos de uma patrícia, ou sentada num trono à maneira de uma soberana.
À medida que os séculos passam, a imagem da Virgem bizantiniza-se, isto é, torna-se mais aproximada às representações litúrgicas da Igreja Oriental, e até mesmo, dos personagens da Corte de Constantinopla, ou Bizâncio. Só muito tempo depois, os ícones vão-se afastando de uma figuração congelada pelo hieratismo.  em direção a uma representação mais próxima da realidade histórica. Suavizam-se as atitudes, exageradamente solenes da Virgem. Naturalmente, essa humanização teve a ver com a fundação de mosteiros afastados dos centros cosmopolitas, nos novos territórios de evangelização cristã, nas regiões dos Bálcãs.
Em algumas dessas imagens, a Virgem inclina a cabeça para a direita, perde o retesamento corporal, assume atitudes cada vez mais maternais.
Num mosaico da Igreja de Santa Maria in Trastevere (aprox. de 1291), atribuído a Pietro Cavallini, de inspiração bizantina, a Virgem, embora esteja num cenário arquitetônico da época,oferece uma expressão facial mais meiga.
Tal transição aparece melhor na Anunciação de Giotto, na Capela degli Scrovegni, em Pádua. Giotto confere à Mãe de Jesus uma aparência burguesa, embora lhe preserve dignidade e a piedade. Maria está ajoelhada – não sentada ou em pé, como anteriormente. Agora é o Anjo que se ajoelha.
Percorramos, brevemente, algumas das Anunciações reproduzidas no livro.
Observemos uma Anunciação de Bernardo Daddi (aprox. 1350), hoje no Museu do Louvre (p. 38-39). A atitude de Maria: mãos cruzadas sobre o peito, o livro sobre os joelhos – o Saltério, que se supunha que ela estivesse lendo. A gravidade da cena é temperada por um toque de interioridade.
II. Famosíssima é a Anunciação de Simone Martini (1333), no Museu degli Uffizi em Florença (p.41). Embora o gesto da Virgem pareça amaneirado, com sua mão direita em curva sobre o peito – uma forma de expressar a surpresa (ou a perturbação da Virgem), e o polegar da mão esquerda marcando a interrupção da leitura, o conjunto é de uma declidadeza incomum. Martini possui o dom de representar, mediante seus “arabescos lineares”(Jacques Dupont),  a graciosidade e o requinte dos gestos. As suntuosas vestes dos seus personagens preanunciam o Gótico Internacional.O dourado está presente em toda a parte.
III. Saltemos para o ano de 1419: estamos noutra sociedade, noutro mundo, o de Gentile da Fabriano (p.47). O pintor apresenta-nos um Anjo “intimidado” perante a tarefa que lhe incumbe: transmitir a mensagem de Deus à humilde moça de Nazaré. Por outro lado, a Virgem é apresentada com as mãos descaídas sobre o ventre,numa sorte de devaneio, ou antes - de sonho visionário – em presença do Mistério que lhe é proposto.

IV. Robert Campin, com sua Anunciação (p. 49) no Museu Metropolitano de New York, parece pretender outra coisa: o Anjo surge numa vestidura alva-azulada, cheia de belíssimas pregas, quase uma composição abstrata para os olhos. Semi-ajoelhado, ele faz um gesto discretíssimo, uma espécie de “psiu!” à Virgem ( que ostenta uma vestidura vermelha, de drapejamentos tão espetaculares como os do Anjo!). Ela dá a impressão de não o ter percebido, atenta à leitura de um livro, que segura nas mãos, com uma pequena toalha branca. A sala, onde está, oportuniza ao pintor exibir todas as suas qualidades de artista. Não lhe escapa um só dos pormenores de um ambiente burguês de alto nível. Se desejássemos sugerir humildade a um jovem pintor, dir-lhe-íamos que atentasse apenas nesses objetos de Campin, em especial os espalhados sobre a mesa redonda no centro da cena. Que soberba realização artesanal, a do vaso de faiança com flores! Campin era, evidentemente, mais pintor que homem religioso!


 
V. Masolino delicia-nos com uma refinada Anunciação (1425-1430), a da Nacional Gallery de Washington (p.53). O Anjo, de joelhos, olha para a Virgem com imenso respeito; a Virgem adota uma atitude de intensa concentração interior, mantendo os olhos cerrados. Os vermelhos do teto e dos motivos arquitetônicos, cuidadosamente orquestrados, rompem o quase excessivo silêncio visual da cena.

VI. Em nossa opinião, a grande arte une-se à mais sincera devoção na Anunciação do Beato Angélico, de 1432, um dos tesouros do Museu de Cortona, na Itália (p.57). Não há o que dizer diante de tão esplêndida realização artística, diante de tanta pureza simbólica: é ajoelhar-se, e – se somos religiosos – meditar profundamente no Magnificat, que Lucas reproduz no seu Evangelho: capítulo 1,46-55.

VII. Van Eyck é sempre genial. Mas a sua Anunciação (1434-1436: National Gallery of Art, Washington) não nos causa especial impressão como pintura religiosa (p.59). É grande pintura, sem dúvida. Mas é pintura para inebriar os olhos! Não diremos que Van Eyck não expresse sentimentos religiosos nesse óleo: a Virgem, por exemplo, envolta num manto de um azul-marinho incomparável, tem qualquer coisa de uma Serva do Senhor, que aceita sua vontade cheia de humildade!

VIII. Retornemos, no entanto, ao Beato Angélico: sua Anunciação no Convento de São Marcos, em Florença (1441-1443; p. 69) é insuperável, do ponto de vista da piedade católica! O Anjo é figurado em pé, numa atitude de indizível modéstia. A Virgem, ajoelhada, as mãos em cruz sobre o peito. Cores? Um pouco de vermelho-tijolo na veste do Anjo. No cenário, a sugestão da luz. Uma luz que se densifica no centro.As arcadas  do teto parecem hífens curvilíneos, a unirem a despojada cela monacal ao Céu, que se entremostra iluminado.

IX.Contemplemos a  Anunciação (1445), de Filippo Lippi, na Pinacoteca Antiga de Munique (p.79). O Anjo, de joelhos, parece desculpar-se de interromper a meditação da Virgem. Maria, que está de pé, com uma esbeltez e um donaire de Rainha. A sua formosura é das que provocam assombro e veneração, ao mesmo tempo.

X. A Anunciação de Leonardo da Vinci (1472), no Museu degli Uffizi (p.102-103) é um tanto enigmática. Ou melhor, de um simbolismo assas impenetrável. O gesto de surpresa de Virgem, que nos mostra duas mãos com articulações sofisticadas dos dedos, deixa-nos interrogativos. O cenário da tela, porém, ao polarizar nossa atenção no Anjo e em Maria, tende a suscitar em nós uma indefinível “curiosidade” espiritual. De qualquer modo, como pintura, a Anunciação de Leonardo é magistral,  impressionando pelo tom escuro da tela.

XI. Gerard David (1510, no Städelsches Kunstinstitut  de Frankfurt .p. 123), chama-nos a atenção, com sua Anunciação, para uma Virgem, vestida de preto, de mãos cruzadas sobre o peito, que dirige os olhos bem abertos para um ponto no espaço. Como se estivesse  alheia a tudo, ao próprio Anjo! Estupor? Estranheza?

XII.Chegamos  a El Greco: a Anunciação (1596-1600), no Museu do  Prado (p.161) é obra de uma alma religiosa. Não é só pintura, é expressão de vida interior. A tela é maneirista, ou melhor, de um barroquismo vertiginoso: por que essa dança de movimentos ascensionais e descensionais? Por que tantos personagens gesticulantes? A atitude da Virgem e de Gabriel são nobres. Insinuam pureza e sacralidade. A tela de El Greco não quer ser  “histórica”. É uma visão alucinatória. Que importa? El Greco deseja sugerir o início de um drama cósmico.

XIII. Quanto a Rubens: sua Anunciação (1609-1610), hoje no Museu Histórico de Viena (p. 163),nos obriga a outra atitude. Perdoemos-lhe tudo: os seus anjos rechonchudos no alto da tela, suas exuberâncias sedutoras. Perdoemos-lhe, inclusive, o Anjo ajoelhado, o mais sensual dos anjos que encontramos na série de Anunciações até aqui estudadas. Um anjo sensualíssimo, que, de repente, faz a Virgem Maria retroceder, aparentemente  atemorizada..Não é um Anjo pintado para substituir uma mulher atraente. É um Anjo de belo porte físico, que sente prazer em exibir sua indisfarçável sensualidade. Seus braços nus, o braço direito a esboçar um gesto de saudação, o esquerdo, apoiado sobre o joelho, de carnação aprazível, não se destinam a provocar o devoto, mas a conferir uma sorte de aggiornamento ao relato evangélico. Rubens quer pintar uma Anunciação à moda da casa, isto é, como viviam os burgueses de sua terra.

XIV. A Anunciação (1609) de Caravaggio (Museu de Belas Artes de Nancy; p.164), apesar de mostrar um vistoso Anjo iluminado lateralmente,(cujo semblante, porém, não se vê) nos impressiona! A Virgem não é figurada muito jovem, parece um tanto “envelhecida” para a narrativa de São Lucas! É vista ajoelhada, numa posição modesta.Creio que Caravaggio imaginou essa Virgem como uma camponesa. Aos seus pés, descobre-se uma cesta com trabalhos domésticos.

XV.Visitemos, agora, o atelier de Murillo: detenhamo-nos diante de sua Anunciação,que hoje pertence à Wallace Collection, em Londres (1665-1670; p. 189). A Virgem dessa tela talvez seja a mais adolescente de quantas vimos! Aparece ajoelhada, com as mãos entrecruzadas, o livro aberto sobre um banco... O Anjo saúda-o com um gesto afetado de cortesia, a apontar para o Espírito Santo em forma de Pomba.Na mão esquerda,o Anjo segura um lírio. Na parte superior da tela, os costumeiros anjos gorduchos.  O quadro tem qualquer coisa de um sonho – de um sonho que vai acontecer: o nascimento de um Salvador para a Humanidade. A atitude de Maria, nessa Anunciação, tem todos os encantos e os exageros do Barroco. Mas é evangélica.Talvez lhe falte uma pitada de lucidez para ser totalmente evangélica!
De 1665 a 1850: nenhuma Anunciação do catálogo da Phaidon Press nos impressionou!
Eis, porém, que, em 1850, esbarramos na Anunciação de Dante Gabriel Rossetti, um óleo na Tate Gallery (p.203).

 É uma pintura estranha, exótica, moderna.
Ou...teatral?
O Anjo aparece à esquerda, em pé; a Virgem...deitada. Sim deitada! Mas onde? Ao que tudo indica, num leito. Sua atitude?  A de uma jovem que despertou, e parece não saber onde se encontra...Os dois personagens, o Anjo com um lírio na mão, e  a Virgem, com uma expressão de perplexidade.A Virgem, porém, traz uma auréola na cabeça.
A Anunciação de James Tissot, de 1895, no Brooklin Museum of Art (p.215), é verdadeiramente inovadora. Uma espécie de Anunciação...islâmica? A Virgem ocupa um lugar de destaque no Alcorão. O pintor imaginou uma Virgem Maria sentada sobre uma alfombra oriental, perdida numa curiosa profusão de alvos drapejamentos. Sua face está velada – não a ponto de não lhe aparecerem os traços faciais; no lado esquerdo, onde poderia haver uma porta, o pintor colocou um Anjo bizantino de seis asas, cor azul-celeste.

Mencionemos, finalmente, uma artista, Beatrice Parson. Sua Anunciação de 1897-1899, no Museu de Arte Filadélfia (Coleção Privada; p. 219) apresenta um orientalismo mais acentuado. A originalidade desse óleo é a figuração do Anjo: uma estria branca à esquerda,ou se quiserem, uma espécie de fenda à altura do que poderia ser imaginado como o sexo de uma mulher... Essa tela foge a qualquer análise. Em que estaria pensando essa mulher sonhadora, no meio de seus tapetes?

Edward Reginal Frampton, com sua Anunciação de 1912 (Coleção privada; p. 223) evoca tapeçarias medievais, com a sugestão de flores ao pé da Virgem. O livro dos Salmos está sobre os joelhos, os braços abertos, a Virgem aparece nimbada.  O Anjo flutua no espaço, com um lírio na mão esquerda.Estariam os dois no interior de uma Catedral Gótica imaginária?

Quanto à Anunciação (1950) de René Magritte, óleo sobre tela, na Tate Gallery (p.229)... O catálogo da Phaidon Press não a apresenta como uma Anunciação! Magritte provavelmente não lhe deu título. A tela, em si, é magnífica... Mas existirá algo de religioso nessa pintura? Talvez um desejo indefinido, ou indefinível de espiritualidade? Uma estranhíssima simulação de “imagem”,em figurinhas poliédricas, sobrepõe-se a uma paisagem, que imita peças de xadrês ...Que significará  tudo isso? Que, do seio de nossos absurdos, poderá vir a desentranhar-se a Luz

Sobre a Anunciação surrealista de Paul Delvaux (1949), da Southampton Art Gallery (p.253), talvez se possa dizer dizer que é um soco no estômago do Catolicismo de hoje,incapaz de oferecer criações mais inventivas ao inconsciente de seus fiéis. Como pintura, o óleo de Delvaux é instigante, até pelas cores que o artista emprega: o verde e o azul, em modulações inusitadas, com dois núcleos em branco, os corpos humanos. Delvaux mostra-nos uma Virgem de cabelos louros, com um belo adereço  na cabeça, dois seios, um deles com um mamilo túrgido, dois gestos de mãos sensuais, e um Anjo, seminu, emergindo de uma faixa vegetal...

Concluamos:
o retrato humano da Virgem Maria não terminou de ser esboçado!
Necessita da colaboração de novos artistas, de umacolaboração criativa, de artistas capazes de redescobrirem a grandeza da Mulher, a quem Deus pediu um corpo para seu Filho Eterno.
Talvez sejamos obrigados a admitir que a imaginação católica.como tal, se sente um tanto perdida no tocante à Arte Cristã.
Tantas rupturas estilísticas, da metade em diante do Século XIX, e inícios do Século XX, que foram para a evolução estética o que a Revolução Francesa foi para as estruturas sociais da sua época, acabaram abalando a imaginação cristã, que se sente perplexa e sem “eros” espiritual.
É preciso sair à procura dessa Ovelha Perdida!

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