terça-feira, 8 de março de 2011

Retrato Humano da Virgem Maria (I)

A Serenidade da Virgem Maria    
     
          Iniciemos esta crônica com uma desolada exclamação:
- É difícil, quase impossível, dizer qualquer coisa de profundo - ou de poético - sobre a Mãe de Deus!
Desde criança, aprendi a amar essa Mulher, que me era apresentada por pessoas que estavam persuadidas de sua grandeza, mas que não possuíam fundamentação bíblica e teológica. Pessoas que tinham ouvido os párocos locais pregarem sobre ela, celebrando-lhe os milagres, festejando-lhe a amável condição de Auxiliadora dos Cristãos. Ninguém nunca me falou, durante minha meninice, sobre ela, isto é, sobre a mulher que tinha o nome hebraico de Míriam (nome latinizado e, mais tarde, aportuguesado para Maria).
Míriam era o nome da irmã de Moisés e Aarão. Devido, possivelmente, ao respeito que era tributado a essa importante figura feminina do Povo Escolhido, nenhuma outra mulher da Bíblia o tornou a receber até o tempo de Jesus. Sobre o seu significado disputam os autores: alguns afirmam que seria derivado de uma raiz egípcia, e significaria: a que é amada; outros que derivaria da palavra “minur”, estrela: “minur-iam”: estrela do mar; outros associam tal nome a um vocábulo sírio com o significado de senhora. Talvez devamos aceitar as interpretações mais documentadas de G.M. Roschini, reconhecido mariologista. Este autor, após referir-se a aproximadamente 70 etimologias, fixa-se em três como mais prováveis: Myriam (da palavra mara acrescida do sufixo am) cuja significação seria: abundante, e por extensão bela; Myriam  (da raiz do verbo marar) cuja significação é: amarga; e Myriam (donde procedem as variantes de língua grega:  Mariam, Mareia, Mariam, Mariame), composta de duas raízes, a egípcia: myr, e a hebraica, iam, significando: a amada de Deus. (La Vida de la Vírgen Maria. Versión de la tercera edición italiana por Manuel E. Ferreyra. Buenos Aires, Ediciones Paulinas, 1948. p.76-80; cd. Tb. Jaroslav Pelikan. Maria Através dos Séculos.Trad. de Vera Camargo Guarnieri. São Paulo, Companhia das Letras, 2000. p. 49-50).
Afinal, que poderiam dizer-me esses devotos, de uma sábia ignorância, esses incríveis católicos dos velhos tempos? Naquela época, em cada núcleo católico, existiam  cinco ou seis casais de protestantes, mais uma centena de membros da comunidade afro-brasileira, dos quais se dizia que realizavam ritos exóticos.
Quanto aos zelosos párocos! Sim, era assim que a população os denominava. Eram zelosos, na maioria dos casos, e alguns, eventualmente, santos à maneira antiga. Mas a maioria absoluta deles, também, não eram particularmente cultos. Esses homens de Deus, dos quais guardo uma afetuosa lembrança, consideravam o assunto Maria dos mais fáceis de serem pregados.
 Creio que pensavam: havia, por acaso, necessidade de se sofisticar um sermão sobre a Virgem Maria, a Nossa Senhora que o povo venerava? Era apanhar o favo, simplesmente saboreá-lo, despejando sobre olhos e corações adjetivos dulçorosos, ou – de acordo com o temperamento de cada um dos pregadores – emotivas reflexões. Algumas podiam até ser sentimentais, como chamar-lhe: “Nossa Mãezinha do Céu”...
 Os fiéis absorviam tais efusões do coração. Seria difícil, na época da minha infância, que alguém se atrevesse a formular uma única pergunta, do gênero: ”Como pôde a menina de Nazaré, adolescente de 14 ou 15 anos, enfrentar um Anjo? Como pôde dizer ao mensageiro celeste:
- Como se fará isso se e eu não conheço varão?
Em linguagem mais realista:
- Como poderei ser mãe, se não pretendo ter relações sexuais com ninguém?
Nossos párocos não punham em dúvida o voto de virgindade de Maria. Talvez alguns deles se formulassem a si mesmos a questão:
- Era realmente possível demonstrar-se a intenção dessa menina hebraica de consagrar sua  virgindade ao Senhor?
Um detalhe, porém, até hoje me comove nessas lembranças da infância: a devoção desses sacerdotes era sincera. Igualmente sincera, a devoção desses paroquianos, homens em  grande parte analfabetos, ou semi-alfabetizados.
Meus avós paternos e maternos dedicavam àVirgem uma devoção similar.
Meu pai, que só se tornou profundamente religioso já idoso, não pertencia ao número dos devotos entusiasmados. Contudo, mais tarde, ao recordar essa fase, confessava-me dedicar um afeto secreto à Mãe de Deus. Dizia-me recorrer a ela em todas as ocasiões críticas. Com adorável candura, desculpava-se de nunca ter conseguido habituar-se à recitação do rosário, nem quando jovem, nem quando ancião:
- Meu filho, repetia-me com um sorriso, acho que Nossa Senhora se cansaria de ficar me ouvindo dizer sempre a mesma coisa! Imagina se tu me dissesses, a cada momento:: “Pai, eu te quero bem! Pai, eu te quero bem!...Chegaria um momento em que eu te pediria que, por favor, desistisses de me dizer isso...
 Rememoro tais recuados tempos, indagando-me:
- Por que a devoção à Virgem Maria me comove tanto? Por que a considero essencial a qualquer cristão, ou – pelo menos – a qualquer católico?
A razão fundamental é que sempre me interessei em crer, e refletir sobre o objeto de minha fé. Santo Agostinho, no século IV d.C., foi o primeiro a falar sobre esse método teológico, que seria retomado no século XI por Santo Anselmo de Cantorbery.
Em vista disso, sempre li, atentamente, os escritos dos  Mariólogos, isto é,  teólogos especializados sobre a pessoa e a posição de Maria na Igreja.
Existem inúmeros livros sobre Mariologia, tanto de autores ocidentais, como de autores orientais.
A questão, porém, que sempre me fascinou, desde o início, é de natureza diversa: quantos desses livros atingem o leigo, quantos poderão sensibilizar um indivíduo, ao qual não apetece penetrar na floresta argumentativa desses grandes intérpretes?
Embora me considere um leitor precariamente informado sobre Mariologia, nunca sobrevalorizei os teólogos e mestres espirituais excessivamente abstratos. Não apreciei jamais os autores que discorrem sobre a Virgem Maria como se ela fosse uma espécie de teoria sem carne nem osso!
Também não consigo persuadir-me de que um teólogo possa escrever um Tratado de la Virgen Santisima de 978 páginas, embora seu autor seja reputado, como o espanhol Gregorio Alastruey, Ex-Reitor da Universidade de Salamanca. (Tercera edición. Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 1952). Malgrado isso, tenho-lhe respeito, e até admiração, pois é eruditíssimo – às vezes sutil. Entretanto, o que esse autor aduz sobre o voto de virgindade de Maria (Ibid. p. 474-485) não me parece mais histórico, nem mais próximo ao coração, do que as singelas páginas que F. M. Willam consagra ao mesmo tema em sua Vida de Maria, Mãe de Jesus (traduzida para o português. Petrópolis, Editora Vozes Ltda. 1940. p. 19-32).
Obviamente... a bibliografia sobre Maria é oceânica: em 2005, na Itália, adquiri uma obra preciosa: Maria. Testi Teologici e Spirituali dal I al XX Secolo. A cura della Comunità di Bose. (Milano, Arnoldo Mondadori, 2003). Uma coletânea de 1537 páginas. Diria: uma esplêndida Joalheria Mariana! Nesse livro, em papel-bíblia, encontra-se tudo o que de mais puro e elevado foi escrito a respeito da judia que disse:
 -Todas as gerações me chamarão bem-aventurada!
Ao chegar ao ponto final de tais escritos, olho em volta de mim, atônito, buscando o ponto de apoio que Arquimedes buscava para sua alavanca, com a finalidade de levantar o mundo.
Quem deparo à minha frente?
Quase sempre... um agradável, porém fantasmático rosto de mulher, uma espécie de fada, uma versão feminina superior à da Cenerentola de Rossini,na qual o benevolente Alidoro se dispõe a favorecer  a Gata Borralheira - no caso de minha versão em DVD, a brilhante mezzo-soprano Cecilia Bartoli... A Gata Borralheira termina casando com o Príncipe, mas...
Eu não procuro uma fada! Eu procuro a realíssima Mãe de Deus!
Tenho lido uma Li uma quantidade apreciável  de grandes autores.. São ótimos,  capazes de espevitar em nós a chamazinha da devoção.
Por exemplo: os clássicos: Atanásio, Cirilo de Alexandria, Cirilo de Jerusalém, Germano de Constantinopla, Efrém o Sírio; os medievais: Anselmo de Cantorbery, Bernardo de Claraval, Tomás de Aquino,  Boaventura, Duns Scotus; os modernos: Grignion de Montfort, Afonso Maria de Liguori, o Cardeal Newman,  Matias Scheeben.
Permita-me o leitor que vá mais adiante, e lhe mencione obras, cuja leitura efetivamente é substancioso alimento para a alma.  
Quer o leitor teologia pura?
 Leia, então, o breve livro de Santo Agostinho: A Virgem Maria (Sao Paulo, Editora Paulus, 1996). Se dominar a língua francesa, leia: Saint-Bernard et Notre-Dame. (Études d’âme, textes authentiques et traduction). Abbaye de Sept-Fons, Desclée de Brouwer, 1952); de Lutero: O Louvor de Maria.(O Magnificat). São Leopoldo, Editora Sinodal, 1999); de São Luís Grignion de Montfort: Obras. (Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 1984); de Santo Afonso Maria de Liguori: Glórias de Maria Santíssima.(4 ed. Petrtópolis, Editora Vozes, 1951); de John Henry Newman: Maria. Pagine Scelte. (Milano, Paoline Editoriale Libri, 1999;  de M.J. Scheeben: A Mãe do Senhor.(Lisboa, Editoral Aster, 1960); de Reginald Garrigou-Lagrange: La Madre del Salvador y Nuestra Vida Interior.(Buenos Aires, Ediciones Desclée de Brouwer, 1950; de Karl Rahner: Marie, Mère du Seigneur. (Paris, Éditions de l’Orante, 1960); de Jean Galot: Maria e o Evangelho (Lisboa, Editorial Aster, 1961); de  Rogatien Bernard. OP. :  Le Mystère de Marie.( 5 ed. Paris, Desclée de Brouwer, 1959); de E. Schillebeeckx: Maria, Mãe da Redenção.(Petrópolis, Editora Vozes, 1968); de Gianfranco Ravasi. Os Rostos de Maria na Bíblia.(Tradução de Maria Pereira. São Paulo, Paulus Editora, 2008).
Quer o leitor livros de espiritualidade mariana?
 Abebere-se em Gabriele M. Roschini: La Vida de La Vírgen Maria. (Buenos Aires, Ediciones Paulinas, 1948); em Jean Galot: O Coração de Maria. (São Paulo, Editora Flamboyant, 1962); em Fulton J. Sheen: O Primeiro Amor do Mundo.( Porto, Editora Educação Nacional, 1954); em Frederico Suárez: A Virgem Nossa Senhora.(Lisboa, Editorial Aster, sd.); em Vários Autores: O Culto a Maria, Hoje. (São Paulo, Edições Paulinas, 1980); em Antonio Orbe: Anunciación. (Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 1976); em VV. AA. Maria nas Igrejas. (Petrópolis, Editora Vozes. Revista Concilium/188 – 1983/8);  em Laureano Castan Lacoma: Las Bienaventuranzas de Maria. (Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 1985); em Isidro Gomà Civit: El Magnificat. Cãntico de Salvación. (Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 1982); em Candido Pozo: Maria em La Escritura y em La Fe de La Iglesia. (3 ed. Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 1985); na Ordem dos Servos de Maria: Fazei Tudo o que Ele vos Disser.(São Paulo, Edições Paulinas, 1985); em Jaroslav Pelikan: Maria Através dos Séculos. Seu Papel na História da Cultura. São Paulo, Companhia das Letras, 2000.
Sugeriria, ademais, a leitura de duas obras extraordinariamente documentadas: o livro de Hilda Graef: Maria. La Mariología y el Culto Mariano a través de la Historia (Barcelona, Editoral Herder, 1968), e o atualíssimo Dicionário de Mariologia (dirigido por Stefano de Flores e Salvatore Meo). São Paulo, Editora Paulus, 1995).
Gosto de buquinar, não somente livros, mas também idéias. Ando por isso sempre à cata de novos autores.  Quando encontro algum que valha a pena, ergo-lhe um brinde.
 Um dia desses re-descobri um pequeno livro, já lido em outros tempos, cuja capa meu cachorro mutilou miseravelmente: Meditações para um Retiro. Autor: Ronald Knox. (Lisboa, Editorial Aster, 1960).
 Knox obrigou-me a aprofundar minha meditação pessoal sobre a Virgem Maria. A principal realidade sobre a qual ele me chamou a atenção, foi a serenidade que sempre caracterizou o comportamento de Maria.
Vejamos:
O autor principia advertindo o leitor de que é melhor não se fixar na Virgem Maria como uma Rainha. Nenhum pintor, diz ele, lembrou-se de pintá-la com uma bilha de água ao ombro... Observa que Maria falava a língua de seu povo, mas provavelmente com sotaque galileu. Isso a teria tornado, sem dúvida, objeto de risos idiotas por parte de esnobes da sociedade judaica da época, ao estilo – se tal encontro tivesse surrealisticamente ocorrido – de uma Herodíades, a que se casou com seu tio Herodes Felipe, sendo repreendida por João Batista:
- Não te é permitido tomá-la por mulher! (Mt. 14,1-12).
 E de  Salomé, a filha de Herodíades, moça que dançou diante do Rei Herodes, no seu agradando-lhe tanto que o monarcas lhe deu num prato...a cabeça do Precursor!
Confesso que, ao reler os textos de Knox, fiquei desnorteado, à semelhança dos pedantes que, estando a almoçar com Cristóvão Colombo, o Descobridor da América, este, não lhes suportando mais  frioleiras, perguntou-lhes abruptamente:
- Seria algum de vocês capaz de pôr um ovo em pé?
Ninguém foi capaz de responder ao desafio do Descobridor. Então Colombo, com suave altivez, achatou uma das pontas do ovo, e o pôs em pé! É o famoso Ovo de Colombo, que toda gente usa como corretivo à ignorância dos pretensiosos.
Para mim, foi como se Ronald Knox me pusesse um ovo em pé!
Compreendi o que ele queria dizer com a serenidade de Maria!
Knox apresenta vários exemplos.
Primeiramente evoca a cena da Anunciação. Maria,no primeiro instante, fica perturbada. Logo recobra sua serenidade. Não dá nenhum sinal de empolgação com a aparição do Anjo.
 Fala a Gabriel:
 - Como se fará isso?”
Após ouvir a explicação do Anjo, consente, com admirável tranqüilidade:
-  Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.
Reparemos como Maria recebe, também serenamente, a promessa do Anjo e, quase imediatamente, ouve a sombria predição do Profeta Simeão.
O Anjo comunica-lhe que sua prima Santa Isabel está grávida. Isso quer dizer que ela deve ir vê-la, ficar um tempo com ela. Sem precipitação, a Virgem resolve visitá-la. Nesse momento, sim – sugere o evangelista – ela dá-se conta de que é preciso não perder tempo. Por isso, Lucas acrescenta:
- ela se dirigiu apressadamente  a uma cidade de Judá, onde Isabel morava.
Mas Isabel, mulher boa e santa, não era tão serena quanto Maria. Ao ver a prima, deu um grande grito, exclamando:
- Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me vem este privilégio de que a Mãe de meu Senhor me visite?
 Maria ouviu o que Isabel disse, mas não se alvoroçou. Decide aguardar o tempo adequado  - para expressar seus sentimentos, ou seja, a hora do Magnificat.
Knox recorda que o Cântico de Maria é inadequadamente comparado por muitos biblistas ao Cântico de Ana, a mãe de Samuel. Ora, adverte Knox, enquanto Ana “triunfa sobre uma rival voluvelmente, maliciosamente”, Maria empenha-se por não dar nas vistas, para que se veja melhor a glória de Deus, e os favores que Ele dispensa ao seu Povo.
Observemos, ainda, o que se passou na Gruta de Belém. Também, ali, Maria guarda total serenidade. Foi ela, sem dúvida, lembra Knox, quem forneceu a Lucas -“ávido repórter”-  os pormenores do nascimento de Jesus. Ora, a impressão que se tem, lendo a narrativa de Lucas é que tudo se desenrolou com perfeita serenidade. As hospedarias estavam ocupadas? Sim, mas havia, em Belém, num estábulo, uma manjedoura vazia à disposição: por que não aproveitá-la?
Knox  ajunta: Maria está “nos antípodas daquelas pessoas que se queixam a toda hora de que as coisas não correm como elas o desejam”...
Por ocasião da Festa da Páscoa, quando Jesus permaneceu em Jerusalém sem avisá-la, Maria preocupa-se com sua ausência. E devia preocupar-se! Ao encontrar, porém, Jesus entre os Doutores, não se porta como uma mãe histérica (diz Knox) mas limita-se a perguntar a Jesus o que tinha sucedido, sem dúvida – convenhamos - com uma ponta de tristeza:
- Meu filho, por que agiste assim conosco? Teu pai e eu andávamos à tua procura, cheios de aflição.
Maria não censura Jesus, quer apenas uma resposta que lhe dê a chave do Mistério. Obtida a chave, leva-a consigo a fim de “meditá-la em seu coração”.
Vem, a seguir, o episódio das Bodas de Caná. Teria Maria percebido por si mesma a situação de vexame iminente dos noivos? Ou algum dos criados lhe chamou a atenção para isso?
Fixemo-nos no comportamento de Maria. Ela dirige-se serenamente, a Jesus:
- Eles não têm mais vinho!
 Dito em outros termos: “O problema agora está nas mãos de quem pode resolvê-lo”.
Alerta Knox:
- O idioma aramaico é intraduzível, eis porque não podemos ver o sorriso que provavelmente acompanhou a resposta de Jesus à sua mãe.
Consoante o autor, poder-se-ia traduzir o sentido da frase de Jesus por:
 - A Sra. sempre me pede alguma coisa! Está bem...
Maria não se enerva. Volta-se para os criados, e recomenda-lhes:
 -  Fazei tudo o que Ele lhes disser!
A prova de que Jesus disse algo assim, está no fato de que não tardou a transformar em vinho a água das seis vasilhas, que os criados tinham enchido até às bordas...
Permitam-me os leitores que insira aqui uma das mais belas metáforas que encontrei nas minhas leituras poéticas: a metáfora de Richard Crashaw (1612-1649), poeta inglês, que assim se refere ao milagre da transformação da água em vinho:
- As águas inconscientes viram Deus, e coraram.
(Cit. por FultonJ. Sheen., in: O Primeiro Amor do Mundo. p. 144).
Ronald Knox lembra que São Lucas, que obteve de Maria tantos episódios para o seu Evangelho, cometeu nele um “deslize”: não cita Maria entre as mulheres que estavam presentes à Crucifixão de Jesus!
 São João, que estava lá, corrigiu esse aparente deslize, não só citando Maria entre as mulheres, como referindo a cena em que Jesus, preocupado pelo desamparo em que sua mãe ia ficar, lha confiou, pedindo-lhe que a levasse para sua casa.
Amigos leitores: Robert Knox, que foi primeiramente Professor na Universidade de Oxford e, posteriormente, para seguir sua vocação sacerdotal, afastou-se dela durante os estudos eclesiásticos, retornando, mais tarde, como capelão católico, deu-nos, nas páginas que acabamos de ler uma soberba lição de exegese bíblica, e uma lição de psicologia humana.
Prefiro esse tipo de abordagem existencial à abordagem abstrata de muitos mariólogos, que convertem a moça de Nazaré numa “deusa”camuflada. Eu não seria capaz de orar a uma mulher abstrata! A Virgem, que Knox apresenta é humana – como seu Filho Jesus, que tomou dela tudo o que os outros seres humanos tomam de seus pais. Maria deu a Jesus tudo o que de humano Ele necessitava, e isso é sua glória.
Uma de suas glórias, porque como já advertia Santo Agostinho, Maria foi mais Mãe de Deus por ter sido a primeira crente total, por ter acreditado na Palavra de Deus que o Anjo lhe anunciou, do que por ter proporcionado a natureza humana ao Verbo, o qual disse:
- Antes que Abrão existisse, eu sou. (João 8,58).

O Valor Efetivo das Aparições

Lembro-me bem: foi em 1970.
Por razões profissionais tive de passar uma temporada na Suíça, onde anteriormente obtivera meu doutorado em filosofia.
Nessa ocasião cometi a imperdoável tolice de interessar-me por uma engenhoca eletrônica - um relógio movido a pilha – que, por algum termpo, substituiu um velho Tissot.
Duas semanas após a aquisição do flamante relógio, este começou a dar sinais de uma originalidade suspeita: adiantava-se em relação aos cronômetros tradicionais. Como a distância temporal se acentuasse, resolvi aceitar a sugestão de um amigo suíço: entrar numa relojoaria que, recentemente, instalara uma aparelhagem para testes eletrônicos de precisão.  
Não esqueci, nem esquecerei jamais, a expressão de estupor do relojoeiro suíço!
Primeiramente, ele submeteu meu pseudo-relógio à aparelhagem. Baldados diversos testes, tirou – subitamente - os olhos do visor e exclamou, com um imenso suspiro de alívio profissional:
- Mais ça c’est de la bijouterie!
Quantas vezes tenho recordado esse incidente, que agora associo à evolução de algumas modalidades do culto à Maria.
Comecemos por uma dessas bijuterias: o excessivo interesse dos fiéis pelos aspectos sensíveis da devoção.
O último grande estilo católico,o Barroco, deixou o pendor para imagens naturalistas da Mãe de Deus. Os fiéis daquela época queriam que as imagens religiosas tivessem olhos de vidro, para darem maior impressão de vida, em última análise, para mimetizarem a presença física da Virgem. Apreciavam que vestissem roupas semelhante às usadas pelas mulheres aristocráticas.Pode-se contemplar tais vestes, ainda hoje, nas procissões na cidade de Sevilha, durante a Semana Santa.
Muitos devotos, porém, na atualidade não se contentam com isso: querem que a Virgem fale, que a Virgem apareça!
Para nossa surpresa, o conhecido mariologista, P.René Laurentin, calculou que, desde a década de 1930 até hoje, houve mais de 200 aparições.(Cit. por Jaroslav Pelikan. Maria Através dos Séculos.São Paulo, Companhia das Letras, 2000. p.17).
Em termos de fé católica, não há nada a objetar que a Virgem apareça aos seus devotos.
Os anais eclesiásticos do passado transbordam de fatos prodigioso dessa espécie. Um deles, que deu origem ao primeiro – e mais importante - santuário mariano do Ocidente, a Basílica de Santa Maria Maggiore, em Roma, resultou de uma aparição da Virgem ao Papa, Libério (352-366). De acordo com a tradição, a Mãe de Deus teria revelado ao pontífice o local onde desejaria que lhe fosse erguido um templo. Num dia de verão caiu neve nesse sítio indicado pela Virgem. Ali, inicialmente, se ergueu uma igreja; a atual Basílica foi erguida sob o Papa Sisto III (falecido em 440 d.C.)
 Conhecemos, também, os nomes de alguns Santuários Marianos famosos, construídos para comemorar aparições. Segundo um catálogo publicado em 1962, as dez principais aparições de Maria, reconhecidas pela Igreja como meritórias de crença piedosa, são as seguintes: 1531: Nossa Senhora de Guadalupe; 1830: Nossa Senhora da Medalha Milagrosa; 1846: Nossa Senhora de La Salette; 1858: Nossa Senhora de Lourdes; 1866: Aparição em Philippsdorf, na República Tcheca, a Madalena Kade;.1871: Aparição em Pontmain, na Bretanha; 1876: Nossa Senhora de Pompéia; 1917: Nossa Senhora da Fátima; 1932-1933:Aparição em Beauraing, Bélgica; 1933: 1933: Aparição em Banneux, Bélgica, a Mariette Beco.(Jaroslav Pelikan. Maria Através dos Séculos.p.240-241).
Não devemos considerar tais aparições fenômenos ilusórios, ou alucinações de gente simples. Os católicos, que tiverem convicção interior de que em tais locais a Virgem Maria realmente se manifestou, podem visitá-los piamente. Sou um desses católicos. Por isso, quando me é possível, faço peregrinações a Lourdes, a Fátima, ou ao Santuário da Medalha Milagrosa, em Paris, na Rua du Bac 140.
O escritor católico, Gustavo Corção deixou-nos um comovente depoimento,  no qual relata sua visita ao local das aparições a Catherine Labouré. Esse texto de Corção pode servir-nos de leit-motiv para reflexões:
- Num recanto de Paris, margem esquerda, quase escondida atrás do Bom Marché, onde trepida a variedade do efêmero, há uma rua estreita, um portão abrindo para um pátio que, no fundo, por uma porta à direita, também quase escondida, abre para uma sombria capela espaçosa onde, em todas as horas, encontramos um permanente contraste: a multidão e o recolhimento. Estamos na Capela das Irmãs de Caridade (...) permanentemente cheia e permanentemente imersa no mais profundo e silencioso recolhimento.(...) Mais precisamente, mais concretamente, o que vem fazer tanta gente nessa rua, nessa Capela, diante dessa cadeira de braços? Sim, tanta gente. Muito mais do que jamais imaginara. Na mesma página 23 do livro de Jean Guitton (que o escritor acabara de citar) lemos que em 1957 o número de visitantes do Louvre foi de 631.000 e do Panthéon 150.000. Ora, o número de visitantes da discreta e recolhida Capela foi de 900.000! E por que? Porque na noite de 18 de julho de 1830 a Irmã Catarina Labouré, noviça do seminário da Rue du Bac, depois de ouvir da mestra de noviças instruções sobre a devoção aos santos e em particular à Virgem Santíssima, “adormeceu com a idéia de que São Vicente obteria para ela a graça de ver a Virgem”. Ora, às onze e meia da noite, “ouvi que me chamavam por meu nome: “Irmã Catarina! Irmã Catarina!” e acordando puxei a cortina do lado da passagem e vi um menino vestido de branco, de 4 a 5 anos de idade, que me dizia: “Levanta-te depressa e vamos à Capela porque a Virgem Santíssima te espera” Logo me veio a idéia de que seria ouvida, mas o menino disse: “Fique tranqüila porque são onze e meia e todos dormem, vem!” Eu me apressei a vestir-me, e acompanhei o menino que me esperava, e que espalhava raios de luz por onde passava. As luzes estavam acesas por onde passávamos, o que me espantava muito, mas ainda mais surpresa fiquei à entrada da Capela cuja porta se abriu logo que o menino a tocou com o dedo. E minha admiração chegou ao cúmulo quando vi as luzes e os círios acesos como para a missa de meia-noite. Mas eu não via a Virgem. O menino me conduziu ao Santuário, até junto da cadeira de braços em que sentava o Sr. Diretor. Ajoelhei-me e o menino ficou todo o tempo de pé (...) Enfim a hora chegou e o menino me disse: “A Virgem está chegando, ela vem...” E eu ouvi um frufru de saia de seda (...) Eu ainda duvidava mas o menino disse: “Eis a Virgem Santíssima”.(...) Então dei um  salto para junto dela e fiquei de joelhos com as mãos apoiadas em seus joelhos. E aí passei um momento, o mais doce de toda a minha vida, É impossível dizer tudo o que eu sentia.  E a Virgem começou a falar-me...” Diante dessa singela narração é minha vez de dizer que é impossível transmitir o que eu também, pobre velho tão carregado de complicações, senti, não apenas a primeira vez mas cada dia mais, diante daquela cadeira onde várias vezes sentou-se a Rainha dos Céus e da Terra para falar e chorar na companhia de uma alma simples e santa. Creio que posso dar uma aproximação simples do que sentia se disser que, aos pés daquela cadeira, eu e minha mãe do céu estávamos sós, sem ninguém na Capela apinhada de gente. E eu podia encostar a cabeça no braço da cadeira, esquecido de tudo, de todos, e especialmente de mim mesmo. E imagino que deva ser a sede desse confronto que leva um milhão de pessoas por ano ao santuário da Rue du Bac. Mas então você não pediu a Nossa Senhora que te melhorasse um pouco o princípio de cegueira que te molesta tanto? Não pedi nada para mim nem para os outros. De longe quando via alguém chegar-se, ajoelhar-se, deixar no assento da cadeira um bilhetinho de súplica, eu me torcia de súplicas por aquela pessoa desconhecida ou conhecida; mas o fato é que quando eu mesmo me ajoelhava e beijava os bordos da cadeira esquecia-me de tudo para só querer aquela doce proximidade que Nossa Senhora já me dava no silêncio, no recolhimento, no isolamento criado naquele recanto de Paris, atrás do Bon Marché”.( Conversa em Sol menor. Rio de janeiro, Livraria Agir Editora, 1980. p. 324-326).
Façamos alguns comentários.
Primeiramente, inclinamo-nos diante da singeleza de Corção, tão grande, tão infantil – no sentido evangélico da palavra. Comove ver um homem da cultura e do prestígio de Corção adotar uma atitude tão despida de soberba. Corção adere aos fatos testemunhados pela jovem noviça. Esta, aliás, os descreveu com tal lisura e nobreza, que é impossível não lhe dar crédito: Catarina viu, sem dúvida, a Virgem.
Viu mesmo?”- dirá alguém, com uma ponta de desconfiança. Será que a Virgem apareceu à Catarina com a aparência de uma pessoa humano, como um indivíduo se apresenta a outro, em carne e osso?
 Pode ser que tenha sido assim, pode ser que não tenha sido assim.
- Como? tornará a inquirir o curioso.
Respondamos-lhe: os teólogos admitem que se poderia tratar de uma aparição mental, de uma espécie de “alucinação”, produzida – não evidentemente por um estado patológico, mas por uma graça de Deus.
Quando a Escritura diz que José, filho de Jacó, antes de tornar-se Vice-Rei do Egito, foi iluminado por Deus, mediante sonhos, sobre o significado dos sonhos do copeiro-mor e do padeiro-mor do Faraó (Gênesis,cap. 40), não terá sido esses sonhos uma sorte de aparições? E quando outro José, o esposo de Maria, foi advertido por um anjo do Senhor, também em sonhos, para que tomasse o Menino e sua mãe e fugisse para o Egito” (Mateus 3,13),tais sonhos não podem ser considerados aparições?
Catarina Labouré viu a Virgem, essa era a convicção de Corção.
Quando lá estivemos, na mesmíssima Rue du Bac 140, na mesmíssima Capela, não sentimos, porém, o que Corção sentiu. Fomos lá para venerar a Virgem Maria, para dizer-lhe que pretendíamosa contribuir para a difusão de seus desejos.
A rigor, não nos comovemos. Simplesmente fizemos um ato de fé no poder sobrenatural de Jesus, e na intercessão da Virgem Maria.
Que importam, afinal, nossas emoções diante da realidade da Encarnação do Filho de Deus?
As emoções são boas, as emoções são até ótimas, mas passam.
A  fé não passa.
 Porque a Fé, ao contrário das emoções, não depende das sinapses de nossos neurônios, nem da adrenalina de nossas emoções, e sim da força das palavras de Jesus:
- Passarão os Céus e a Terra, mas minhas palavras não passarão.
São essas as palavras que acham um apoio à pequenina alavanca de nossa fé, para ela poder levantar o mundo com a confissão que fazemos cada domingo, na hora da missa: Eu creio!
Fomos lá, também, minha mulher e eu, porque Jesus disse:
- Tomé, acreditaste porque viste! Felizes os que não viram e acreditaram”. (João 21,29)
A insistência excessiva nos aspectos sensíveis da Fé pode aos agnósticos e ateus uma idéia inferior da dignidade e da importância da Virgem Maria.
Opinamos que não se deve forçar a dimensão emotiva e estética do culto à Virgem, em especial para não privar Maria da glória de ter acreditado. Maria foi uma pessoa elevada por Deus ao mais alto grau do ser, à mais inconcebível densidade ontológica possível a uma criatura; ela, porém, permaneceu sempre nossa irmã, em tudo igual a nós.
Provavelmente, quando vivia na Palestina, não foi vista pelos em toda a sua grandeza.
Maria foi gradualmente descoberta, ao longo da evolução do Cristianismo, à medida que a Fé Cristã desabrochava, à maneira de uma flor que existe em botão, mas se torna flor completa quando sua corola se abre.
Notemos que, no seu cântico de ação de graças, o Magnificat, Maria empregou o futuro indicativo para reivindicar o louvor que Deus lhe iria dar:
- Todas as gerações me chamarão bem-aventurada.
Portanto, ela anunciou o que deveria acontecer no futuro.
Podemos endossar, jubilosamente, a reflexão proposta por André Frossard, um convertido do século XX:
- É perfeitamente legítimo sustentar que Maria é antes de mais nada, uma mulher como as outras, desde que se acrescente o que nenhuma outra jamais nos disse: “Eu sou a Imaculada Conceição”. (Deus em Questões. São Paulo, Editora Quadrante, 1991. p. 115).
À luz de tão oportuna advertência, podemos ler as vigorosas palavras de Lutero:
- Ela, a Senhora que está acima do céu e da terra, deve-se esquecer de todos os seus bens, ter um coração tão humilde que não lhe envergonhe lavar as roupas, preparar um banho para João Batista como qualquer doméstica no quarto de Isabel. Quanta humildade! Teria sido mais justo preparar uma carruagem puxada por 4.000 cavalos e rezar e cantar à frente de sua carruagem: “Eis que passa a mulher erguida acima de todas as mulheres, acima do gênero humano inteiro”. Mas não! Maria fez a pé o longo trajeto e ela é a mãe de Deus! Teria sido mais razoável que todas as colinas saltassem e dançassem, precedendo-a.
 (Cit. pelo Padre Jacques Loew, in: Na Escola da oração. 4 ed. São Paulo, Ed

Nenhum comentário:

Postar um comentário