quarta-feira, 9 de março de 2011

Retrato da Virgem Maria (IV)

Minhas Cinco Imagens Prediletas da Virgem Maria

Um leitor escreveu-nos, pedindo que lhe indicássemos as três imagens da Virgem Maria que mais nos impressionam do ponto de vista religioso e artístico.
Vou satisfazê-lo nesta crônica.
Minha única dificuldade será explicar-lhe - a ele, em primeiro lugar, e aos eventuais leitores - um dado essencial: meu gosto pessoal (de devoto da Virgem Maria) não coincide com meu gosto de estudioso da arte.
(Talvez seja oportuno informar, a quem nunca leu nada do que escrevi, que nos últimos 30 anos fui professor de História da Arte na Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre).
Desejo, porém,preliminarmente,insistir num ponto: uma coisa é ser devoto da Virgem Maria, outra ser estudioso de arte.
Na condição de devoto, sou obrigado a levar em consideração fatores de ordem religiosa, alheios à arte. Por exemplo: uma escultura, ou uma tela, podem ser apreciáveis do ponto de vista artístico, e não obstante serem destituídos de interesse para quem exige delas algo mais do que deleite estético. Noutras palavras: o devoto exige que as imagens sejam, também, estimulantes para a piedade e para a meditação religiosa.
Esclarecido esse ponto, selecionarei – não três imagens - mas cinco imagens. Julgo que assim dignificamos a produção iconográfica e artística católica de muitos séculos.
Os leitores já terão intuído que pretendo abordar o tema à maneira de um desafio, de certo modo, lúdico, destinado a excitar a curiosidade do público em relação a um patrimônio da humanidade, que contém incentivos espirituais valiosos.
Não obstante, sou obrigado a iniciar estas considerações com uma declaração antipática: a maioria das imagens da Virgem Maria, em voga entre os católicos, não me satisfazem. São imagens que não preenchem requisitos estéticos essenciais.
Deixo, porém, claro que não desejo nem provocar, nem me envolver numa polêmica estéril com os leitores.
 Se o leitor desejar saber o que entendo por Arte, indico-lhe meu livro: Como Apreciar a Arte (3 edição. Porto Alegre, Editora AGE, 2010).
Nos comentários deste blog, mencionarei, apenas, as linhas básicas do imaginário cristão, e farei observações de ordem pessoal.
Foi a partir de meados do século XX que especialistas católicos começaram a problematizar a questão das imagens católicas.
 Na década de sessenta, por exemplo, um expert alemão, Richard Egenter, publicou uma obra corajosa: O Mau Gosto e a Piedade Cristã (Lisboa, Editorial Aster, 1960). Quase simultaneamente, o frade dominicano, P.P.-R. Régamey, deu a lume o clássico: Arte Sacra Contemporânea ( São Paulo, Herder Editora, 1963). Anteriormente, Madeleine Ochsé lançara: Un Art Sacré pour Notre Temps (Paris, Librairie Arthème Fayard, 1959). A partir de 1958, a Editora du Cerf, de Paris, iniciou a divulgação dos textos teóricos do frade dominicano e pintor, Marie-Alain Couturier. O primeiro desses textos: Art et Liberté Spirituel (1958), foi completado pelo diário do mesmo autor: Se Garder Libre (1962) . Em 1965, a Editora du Cerf publicou: Dieu et l’Art dans une Vie, uma biografia construída sobre os escritos íntimos do P. Couturier.
Conviria acrescentar, às obras citadas, os escritos do maior pintor católico do século XX, George Rouault: Sur l’Art et sur la Vie. (Paris, Denoël-Gonthier, 1971).
 Aos leitores mais exigente, indicaria outras duas publicações: um livro de Étienne Gilson (embora ele aborde uma temática estética ampla, consagra páginas notabilíssimas à arte religiosa): Peinture et Réalité (Paris, Librairie Philosophique J. Vrin, 1958; especialmente: Peinture et Imagerie: p. 238-257; e as observações do autor sobre “l’Art Religieux”: p. 341-352); e a obra do jesuíta. Ex-Professor de História da Arte na Universidade Gregoriana, Heinrich Pfeiffer: Le Christ aux Mille Visages.(Paris, Nouvelle Cité, 1986).
Inciemos, portanto, a seleção das cinco imagens prediletas da Virgem Maria que o leitor me pediu.

I.  Primeira Imagem: o Ícone de Vladimir (1130 d.C.).

É um dos tesouros da Galeria  Tretiakov, em Moscou.
Esse ícone goza de minha preferência, primeiramente, porque é uma das mais antigas representações da Virgem Maria na qual transparece, não só sua condição de Mãe de Deus – a Virgem em Majestade da tradição cristã - mas também sua ternura feminina, aquilo que o povo futuramente associará à denominação popular de Nossa Senhora sob as mais variadas invocações.
As primeiras representações da Virgem Maria remontam ao século III d.C. Aproximadamente pelos anos 230-240 d.C., segundo a datação de especialistas, descobriu-se nas Catacumbas de Santa Priscila, na Via Salária em Roma, a primeira imagem da Virgem. Um espectador desprevenido dificilmente veria, nas figuras desse tosco afresco, mais do que esboços de uma mulher com o filho, e um Anjo que parece apontar para uma estrela. O gesto do Anjo, talvez, tivesse como objetivo evocar a profecia de Isaías: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; uma luz levantou-se para aqueles que viviam nas regiões sombrias da morte”. ( Isaías 9,1. Cf. Gianfranco Ravasi. Os Rostos de Maria na Bíblia. Tradução  de Maria Pereira. São Paulo, Editora Paulus, 2008. p.136-137). Não é preciso dizer que a mencionada imagem está longe de ser uma “obra de arte”. Trata-se, antes, de uma preciosidade iconográfica.
As imagens, que sucederam a essa primitiva figuração, nos séculos do século IV em diante, até o advento da Arte Românica, não revelam a pessoa de Maria, mas, preferencialmente, sua personalidade, isto é, sua função de Intercessora Principal da comunidade cristã, na sua condição de Mãe de Deus (Theotokos). Nos mosaicos, afrescos, marfins e iluminuras dos séculos seguintes, os artistas esforçam-se por ilustrar o papel da Virgem na economia da salvação. Ou dito mais claramente: desejam expressar a sua dignidade de Mãe de Deus, de Primeira Crente, de Nova Eva em substituição à antiga Eva.
Em 431 d.C., o Concílio de Éfeso proclamou a Maternidade Divina de Maria, condenando as interpretações de Ario (256-336 d.C.), sacerdote influente de Alexandria, e as do Patriarca de Constantinopla, Nestório (381-451 d.C.).
 Com sua habitual concisão, São Tomás de Aquino explica-nos o essencial de tais desvios doutrinários:
(...) Ario – diz São Tomás - embora sustentasse que Cristo existia antes da Virgem Maria e que a pessoa do Pai era uma, e a pessoa do Filho, outra, cometeu três erros em relação a Cristo. Primeiramente, considerou Cristo uma criatura; em segundo lugar, afirmou que Ele foi criado por Deus como a mais nobre das criaturas, não sendo, portanto, eterno; finalmente, pretendeu que Deus Filho não era uma única natureza com Deus Pai, e que, em consequência, não era verdadeiro Deus. (O Credo. 2 ed. Tradução, notas e introdução de Armindo Trevisan. Petrópolis, Editora Vozes, 2006. p .37-38).
O erro de Nestório foi sustentar que: a união do Filho de Deus com sua humanidade consistia em o Verbo habitar num homem.(...) Neste caso ele não seria homem, mas estaria num homem. O Apóstolo Paulo declara explicitamente que Cristo foi homem: “Vivendo como homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.” (Fl 12,7. Cf. O Credo.p. 47).
Em vista disso, os artistas da Igreja interessaram-se, durante o primeiro período da Arte Bizantina, em destacar esse aspecto da Virgem Maria. Eis porque as imagens orientais de Maria, que se estendem até o século XII, são efígies simbólicas da Mãe de Deus. Realçam mais sua dignidade e seu poder, que sua ternura em relação aos fiéis. Esse segundo aspecto da iconografia mariana só começa a aparecer – talvez sob influência da Arte Egípcia Cristã (Arte Copta), realizada por monges do deserto, que viviam longe das pompas palacianas – mais tarde. Foram os monges dos centros periféricos, especialmente dos Bálcãs, que acentuaram a dimensão emotiva de Maria Santíssima, produzindo extraordinárias representações marianas nos mosteiros das atuais Bulgária, Romênia e Sérvia. Essas imagens acabaram migrando para as regiões vizinhas, especialmente para a Itália, onde vão inspirar as Madonnas dos Primitivos Italianos, como Cimabue, Gioto , Duccio e Simone Martini.
Pessoalmente, admiro e amo – nessa imagem - a sugestiva combinação de Majestade e Ternura. A imagem reveste-se de uma gravidade e distinção imperiais. As mãos da Virgem são mãos de uma Soberana. O gesto de ternura para com o Menino é discreto. O rosto, se observado atentamente, parece um tanto sério. Observêmo-lo, porém, com mais atenção: logo percebemos nele uma verdadeira, ainda que velada, ternura. Sabemos que os rituais da Corte impunham às imperatrizes uma espécie de contenção. O que importa, porém, é que o monge ,que pintou esse ícone, conseguiu infundir na sua representação um toque de ternura à revelia do mais rígido protocolo. Os olhos e os lábios da imagem da Virgem são, sem dúvida, maternos.

II.  Segunda Imagem da Virgem: (Séc. XIV): Notre-Dame de Royaumont.

            Esse tesouro medieval encontra-se na Abadia Cisterciense homônima, fundada pelo Rei São Luís em 1228, e sede, atualmente, de um Centro Cultural Internacional.
Nessa escultura são visíveis as qualidades do estilo gótico: realismo (especialmente no Menino que mama), superação da rigidez (por assim dizer, xilográfica, do românico,) exclusão de detalhes ornamentais secundários, preocupação rítmica pelos volumes (o que pode ser visto, de modo especial, nos panejamentos ; por si só, eles constituem um dos encantos da imagem), gestos graciosos (repare-se nas mãos da Virgem!), a busca de uma expressão facial meditativa, que deixa emergir  a interioridade espiritual.
Que mais se pode pedir a um artista cristão?
A imagem da Virgem de Royaumont assinala um dos ápices da criação artística medieval.


III.  Terceira Imagem da Virgem Maria: Notre-Dame de la Belle Verrière (Séc. XII-XIII).


(“Nossa-Senhora-do Belo-Vitral”: 4,90 x 2,36m.Primeira janela da colateral do coro, lado sul).
Uma das jóias da Catedral de Chartres!
Iconograficamente, a imagem inspira-se nas Virgens em Majestade do Românico, que procedem de protótipos da Arte Bizantina. Tais imagens visavam a exaltar a dignidade de Maria como Mãe de Deus. Algumas dessas representações , para melhor acentuar o carácter de exceção de Maria, apresentavam-na numa posição hierática, segurando o Filho nos joelhos, quase como se segurasse um bloco inerte. Dificilmente se descobriria no rosto da Virgem o menor indício de um estado psicológico.
Segundo a mentalidade da época, a Virgem não podia, em tão altas funções, trair sua dignidade. Era uma Rainha – e uma Rainha Bizantina! - com uma consciência aguda de seu régio poder. O conhecido versículo litúrgico: - Feliz de ti, que contiveste em teu ventre/ Aquele que o Universo não pôde conter- pode ajudar-nos a compreender a transposição simbólica que os fiéis fizeram da majestade monárquica para a majestade espiritual
Anotemos uma singularidade: no vitral de Chartres não aparece, propriamente, semelhante altivez, nem tão imperial frieza. A Virgem ali se apresenta com uma expressão de serena grandeza. Tem consciência de que é a Mãe de seu Senhor, mas também tem consciência de que é a Serva de seu Senhor. Só o  Menino, em seus joelhos,afirma sua soberania. A cabeça erguida, o rosto em posição frontal, a mão direita abençoando o mundo. O rosto da Virgem está inclinado, como se quisesse afastar da mente e do coração dos fiéis qualquer temor.
Como não admirar e amar tal imagem? Ela – na verdade – não chega a induzir-nos a um amor carinhoso, mas nos induz, sem dúvida, a um amor reverencial. 

IV.  Quarta Imagem da Virgem: A da “Anunciação” do Beato Angélico, no Convento de São Marcos em Florença. (Após 1437).


Nessa imagem resplandecem duas coisas: a humildade da Mãe de Deus, e o excepcional talento do frade pintor que, ao invés de fascinar os olhos do espectador mediante cores, preferiu dar à sua representação – um afresco! - uma qualidade mais alta: a da presença da luz. Sabia o Beato Angélico que as aparições angélicas tinham, como uma de suas características, o resplendor. Uma vez, portanto, que o pintor estava figurando uma aparição, era necessário destacar esse resplendor. Por sua vez, por ter conhecimentos teológicos aprofundados, o Beato sabia que não seria adequado exibir excessiva luz perante Aquela que, em breve, daria justamente à luz uma Criança que proclamaria: “Eu sou a luz do mundo!” Em vista disso, com a lucidez de um teólogo e a habilidade de um mestre, inundou a cela onde o Anjo se apresenta com uma luz intensa, porém difusa, de modo a não comprometer a luminosidade que se desprende da própria Virgem, de sua fronte, de seus ombros curvados, e de suas vestes. O Anjo permanece de pé diante dela, por ser o mensageiro do Altíssimo. A Virgem, embora superior ao anjo, permanece ajoelhada para demonstrar que é Serva do Senhor, e talvez, tratando-se de uma pintura para uma cela de frades dominicanos, para ensinar aos religiosos o valor dessa virtude. Não conhecemos outra imagem de Maria onde a humildade mostre, com tanta evidência, esse ar de naturalidade que elaoferece nessa Anunciação! Até nas melhores imagens de outros pintores, onde tal virtude é destacada, não se vê tão fluente naturalidade, que aqui é – digamos assim – de uma nudez castíssima, e por isso mais resplendente. Tem-se a impressão de que o Anjo, ao invés de transmitir sua mensagem, ficou um instante emudecido antes de falar, por respeito à eleita do Senhor! A expressão do rosto de Maria é de uma candura juvenil, a da mulher consciente que não tardará a perguntar: Como se fará isso se eu não conheço varão?
Existe uma outra Anunciação do Beato Angélico (1452; reprodução em: Goafrancesco Ravasi. Os Rostos de Maria na Bíblia. São Paulo, Editora Paulus, 2008. P. p.57) - uma têmpera sobre madeira - no Museu de Cortona, que nunca pudemos visitar. Às vezes perguntamo-nos se não teríamos preferido essa pintura, mais colorida, á do Convento de São Marcos! Também em Cortona a Virgem do Beato Angelico , de mãos cruzadas sobre o peito, e o livro dos salmos colocado sobre o joelho direito, revela uma humildade comovedora. Mas o que mais chama a atenção, na Anunciação de Cortona, é a pressa do Anjo em transmitir a mensagem divina, o seu movimento em direção à Virgem, que se mantém calma, sem o menor sinal de temor no rosto,

V.  Quinta Imagem da Virgem: A Virgem  com o Menino e um Anjo” de Sandro Botticelli.1490. Imagem, também conhecida, como: “Nossa Senhora da Eucaristia”.  Museu de Belas Artes de Boston.

A imagem de Botticelli (Ver reprodução: Gianfranco Ravasi. Os Rostos de Maria na Bíblia. p.275) expressa, de uma forma exemplar, a beleza física de Maria. Vê-se no quadro um anjo a oferecer a Maria espigas e uvas, símbolos eucarísticos. Maria apanha, com a mão direita, uma espiga; e com a esquerda mantém o Menino Jesus sobre os joelhos. A paisagem, entrevista pela janela, é plácida: colinas com vegetação, e um lago. O que, especialmente, nos impressiona nessa pintura é a formosura do semblante da Virgem, de lineamentos delicadíssimos. Os olhos concentram-se na oferenda; o Menino dorme, alheio a tudo. Os lábios de Maria não são sensuais, nem finos demais. Tudo na sua figura provoca respeito, admiração, uma veneração exultante, porém silenciosa.  As cores – a túnica vermelha, tendente para a cor de rosa, o manto, de um azul alvacento, produzem a impressão de um mar que, de repente,se pusesse a sonhar...Sim, em Maria o impossível torna-se possível! Na sua presença a paz é tão maravilhosa,que nela não há lugar para um vestígio de maldade...
CONCLUSÃO :
É evidente que todas as imagens das Virgem Maria são deficitárias!
Todas não passam de aproximações da verdadeira corporeidade de Maria, a que ela teve neste mundo, e a que ela tem, ressurgida num corpo incorruptível, ou – segundo a expressão de São Paulo - num corpo espiritual” (I Cor 15, 42-43)  no Paraíso.
Suas imagens são sinais semafóricos para a nossa piedade. O objetivo dessas imagens é evocar-nos sua Presença Sobrenatural. A rigor, fiel algum se sentirá, jamais, satisfeito perante a mais pura e a mais artística das suas representações.
Não obstante, devemos aceitar tais limites. O católico que declarasse prescindir de todas as imagens da Virgem Maria, correria o risco de incidir numa falsa atitude espiritual. Dado que a Virgem foi um personagem histórico, que ela existiu como pessoa humana datada, geograficamente situada, impõe-se aos cristãos a humildade de imaginá-la provisoriamente, até chegar o dia em que poderemos conhecê-la como ela é.
Enquanto tal dia não chega, os artistas devem ajudar-nos a imaginá-la!       

Um comentário:

  1. Muito legal seu blog e otimo, e muito criativo, se depois vocês quiser olhar o meu blog e dar a sua opnião eu ficarei muito grato: http://derlandreflexivo.blogspot.com/

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