quinta-feira, 24 de março de 2011

A quem você daria o Prêmio Nobel?


João Cabral de Melo Neto

Um leitor sugeriu que saíssemos um pouco da “seriedade” de nosso blog.
Atendendo ao seu pedido, oferecemos-lhe uma espécie de devaneio, na esperança de diverti-lo entre duas elevações da Taxa Selic.
É opinião, geralmente aceita pelas pessoas lúcidas do país, que nós, a soi-disant inteligentzia nacional, e até mesmo a maioria dos cidadãos comuns da nação, nos levamos demasiadamente a sério. Alguns de nós são a própria seriedade em pele e osso. Outros vão muito além: chegam a ser a essência platônica da idéia de seriedade.
Na companhia de tais irmãos, São Francisco de Assis, possivelmente, não conseguiria cantar pelas estradas da Úmbria, e o Rei David não poderia dançar novamente diante da Arca da Aliança, levada em procissão numa autopista do Estado de Israel.
Felizmente sobra um número expressivo de doidos varridos, de santos-zen-ou-cristãos, até mesmo de santos-católicos, que cultivam, no coração sigiloso de seus jardins, as ervas aromáticas da humildade.
A esses convido a brincarem comigo de Prêmio Nobel, no Brasil.
Ou seja: dispomo-nos a fingir que o Comitê do Prêmio Nobel de Estocolmo nos incumbiu de atribuir o dito Prêmio a dez escritores nacionais.

Cecília Meireles

Vamos, pois, aos escritores, imunizados contra qualquer favoritismo, infensos a qualquer pressão exterior.
Nossa escolha obedece a padrões inteiramente subjetivos.
A importância da preferência é insinuada pela escala descendente.
(Nossa lista só abarca autores pós-Semana de 1922):

Erico Verissimo


Primeiro Prêmio: João Cabral de Melo Neto;
Segundo Prêmio: Graciliano Ramos;
Terceiro Prêmio: Erico Verissimo;
Quarto Prêmio: Manuel Bandeira;
Quinto Prêmio: Carlos Drummond de Andrade;
Sexto prêmio: José Lins do Rego;
Sétimo Prêmio: Jorge de Lima;
Oitavo prêmio: Cecília Meireles;
Nono prêmio: Ferreira Gullar;
Décimo Prêmio: Murilo Mendes.

Primeiro Prêmio Nobel de Consolação: Guimarães Rosa;
Segundo Prêmio Nobel de Consolação: Clarice Lispector.

Os Prêmios Nobel de Consolação, em nossa classificação, possuem o mesmo valor honorário, e pecuniário, que o Prêmio tradicional. Essa nova modalidade de atribuição é uma contribuição aos regulamentos oficiais do Nobel Sueco, na esperança de que Estocolmo se aperceba da necessidade de ampliar os critérios de avaliação vigentes, visando a incluir neles gênios lingüístico-literários que não se enquadram nas categorias habituais.
Justificando nossa escolha:
Cabral de Melo Neto não admite controvérsias. Sua obra é a Vale do Rio Doce da Literatura Nacional.
Graciliano Ramos é a nossa Petrobrás.
Erico Verissimo pode ser comparado, às nossas infinitas Reservas Ecológicas.
Manuel Bandeira remeteria à incrível beleza de nossas mulatas, e a todas as outras formosuras multiétnicas de nossa terra;
Carlos Drummond de Andrade: é a nossa Eletrobrás, podendo evocar também nossa riqueza hídrica;
José Lins do Rego: é a nossa Telebrás, a nossa Unicef, além de simbolizar nosso poderio graneleiro;
Jorge de Lima é a nossa Anatel, devendo ser associado ao buquê de maravilhas turísticas das praias nordestinas, às canções de Dorival Caymi, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, e outros;
Cecília Meireles é tudo o que o Brasil possui de riqueza florestal;
Ferreira Gullar: estando vivo, não o comparamos a nada. Talvez pudesse representar o Carnaval Carioca, as Artes Visuais da nação, a sua música erudita, e o seu patrimônio histórico e artístico;
Murilo Mendes: representaria a criatividade macunaímica de nosso inconsciente e de nosso subconsciente, bem como todas as fantasias presentes (ou ausentes) em nossas insônias e volúpias;
Guimarães Rosa e Clarice Lispector significariam o que no Brasil é insubstituível em termos de caracter, inteligência, e generosidade social.
O Brasil não possui perfis típicos de Prêmio Nobel. Nosso jeito de pensar e de sentir, de produzir literatura, é excessivamente informal aos olhos dos engravatados senhores de Estocolmo.
Cremos, porém, que nossa lista, se levada a sérios pelo Comitê de Seleção de Estocolmo, desbancaria uma grande parte dos Prêmios-Nobel já murchos, desde 1891 quando se concedeu o primeiro prêmio a Sully Prudhomme (1839-1907), autor principalmente de três coletâneas de poemas intituladas, respectivamente: Solitudes (1869), Destins (1872) e La Justice (Sonetos; 1878).
Sobre o poeta francês diz o conhecido Dictionnaire Universel dês Lettres:
- Existe delicadeza nas suas análises de sentimentos e uma sorte de probidade generosa no seu pensamento, embora sua expressão seja invencivelmente prosaica.(Publié sopus La direction de Pierre Clarac. Paris, Société d’Édition de Dictionnaires et Encyclopédies 1961.p.834)    
Às vezes, quando penso nesse poeta, sou assaltado por uma curiosíssima onda de ternura que não consigo explicar a mim mesmo! Tudo por causa de um único poema, traduzido magistralmente por Guilherme de Almeida, que li na minha juventude:

Vaso Partido

O vaso azul destas verbenas,
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe sutil, roçou-o apenas,
Pois nem um ruído o revelou.

Mas a ferida persistente,
Mordendo-o sempre e sem sinal,
Fez, firme e imperceptivelmente,
A volta toda do cristal.

A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia.
Não toquem, não, que se quebrou.

Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor;
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;

Embora intacto ao olhar do mundo;
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal fino e profundo.
Já se quebrou: não toquem, não.

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