quinta-feira, 17 de março de 2011

O Declínio das Artes Visuais (IV)

Qualquer universitário brasileiro já ouviu falar em Manuel Antônio de Almeida, o autor de Memórias de um Sargento de Milícias. Aproveito a deixa para citar  uma observação desse autor, apropriada ao tema que nos interessa.
Todo o mundo fala sobre arte. Quantos, porém, se perguntam seriamente: o que é arte?
Nosso autor escreve:
- O nome é hoje, e não sei se o deixou de ser em algum tempo, a primeira mentira de todas as coisas: é como um cunho de pecado original impresso sobre tudo o que existe.
(Obra Dispersa. Rio de Janeiro, Graphia Editorial, 1991. p. 24).
Talvez seja uma insolência estendermos a todos os nomes a observação do autor. Mas um dos nomes que, sem dúvida, merece a cáustica advertência de Manuel Antônio de Almeida é o da arte.
Arte é uma sorte de guarda-sol-de-praia, que se presta para sombrear todas as nudezes, inclusive as mentais!
Estando a arte associada a uma espécie de feijão-com-arroz da sensibilidade, não há quem não se sinta com autoridade para dar palpite sobre ela.
Se alguém, por acaso, objeta a um indivíduo:
- Por favor, donde lhe vem essa competência?
A pessoa responde:
- Sempre ouvi dizer que arte é uma questão de sensibilidade!
Todas as falácias têm em comum o fato de possuirem um dezena de tijolos na sua base.
A arte, convenhamos,é também questão de sensibilidade.
Mas não é só isso. Supõe – alem de sensibilidade – uma visão de mundo própria, consciente ou não consciente e, de modo especial, toda arte - até a arte de fazer pão caseiro ou a arte da medicina – pressupõem qualificação técnica, que implica conhecimento da matéria-prima utilizada, e domínio instrumental dos meios específicos de concretizar o projeto. No caso do pão caseiro: conhecimento da farinha, do fermento, da maneira adequada de sovar o pão, etc. No caso da medicina, conhecimento das patologias que afligem a humanidade, dos recursos necessparios à identificação das enfermidades, e se uma cirurgia se impõe, destreza no manejo do bisturi.
Nada disso ocorre com o comum dos mortais. A maioria dos palpiteiros nunca se interessou em conhecer qualquer coisa de tintas e pincéis. A maioria deles ignoram até a complexidade das tintas. No entanto, diante de uma tela – de Mondrian, ou de um borra-tintas – o indivíduo não se vexa de dar “sua opinião”.
Sejamos sinceros: o declínio das artes visuais relaciona-se, também, com essa promiscuidade  intelectual. Foi Confúcio, salvo engano, quem sustentou, por primeiro, que a reforma de uma sociedade principiava pela reforma de sua linguagem.
É imprescindível, portanto, que o bom senso e a modéstia voltem a imperar na avaliação dos objetos artísticos.
Lembrei-me disso ao reler, recentemente, os escritos de arte do pintor Georges Rouault, um dos maiores pintores franceses do século XX.
Num momento de desalento, o grande artista escreveu:
- Nossa arte (a da pintura) é talvez a mais fechada de todas as artes, ou, quiçá, a menos decifrada.Terra virgem ainda. Não falo daqueles que dizem que, em termos de pintura, não há mais o que dizer: Tudo resta a dizer mediante as nuances infinitas da sensibilidade, no domínio da forma e da cor.
Um pouco adiante, Rouault desabafa:
- Como são poucos os que amam a pintura! Como são poucos!
(Sur l’Art et sur la Vie. Paris, Denoël-Gonthier, 1971. p. 46; ibid. p.137).
Se desejarmos restabelecer um discurso válido sobre arte, precisamos desfazer tais brumas terminológicas. Precisamos reatar a conversa com os grandes mestres da História. Precisamos, noutras palavras, varrer um pouco nossa casa, e olharmos mais, com nossos olhos, os objetos artísticos. Precisamos adquirir uma espécie de nova infância para a sensibilidade. Precisamos aprender a admirar-nos do que sai das mãos desses privilegiados, que são Van Gogh ou Rotkho.
Admirar não é postar-nos diante dos objetos artísticos como vacas-de-presépio. É tornar-nos não só curiosos, mas investigativos. Não só capazes de exercício sensorial intenso, mas também capazes de imaginação solerte e generosa.
Não precisamos ter a rude sinceridade dos próprios artistas que, conscientes demais de suas limitações, vão ao extremo de se humilharem. Rouault menciona Ingres, que segundo ele, costumava dizer:
- Nós pintamos como porcos...
(Cit. ibid. p. 41).
Talvez a lição de Paul Cézane nos seja mais sugestiva:
- Julga-se, diz ele, que um açucareiro não tem fisionomia, não tem alma. Contudo, ele altera-se todos os dias. Temos que saber lidar com ele, temos que lisonjear esses senhores. Estes copos, estes pratos conversam uns com os outros, em confidências que nunca acabam. Das flores desisti. Murcham logo. Os frutos são mais fiéis. Gostam de ser pintados. Parece que querem pedir desculpa da sua cor, empalidecer. No seu aroma exala-se a sua idéia. Vêm até nós com seus cheiros, falam-nos dos campos que abandonaram, da chuva que os alimentou, das auroras que contemplaram. Quando se descreve com pinceladas a pele de um belo pêssego ou a melancolia de uma maçã velha, pressinto nos reflexos que trocam entre si a mesma sombra tépida de renúncia, o mesmo amor ao sol, a mesma recordação do orvalho (...)
(Cit. por Ernesto Grassi, in: Arte e Mito. Lisboa, Livros do Brasil, sd. p. 151-152; cf. Michael Doran. Sobre Cézanne. Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 1980. p. 208-209).
Como professor de História da Arte, não simpatizo com a pose e enfatuação de marchands e colecionadores de arte. Obviamente, é preciso ressalvar os marchands e os colecionadores que exercem seu ofício com honestidade e lucidez. E até com conhecimentos de História da Arte! Mas, do mesmo modo que a filosofia grega foi desvalorizada, no tempo dos Sofistas, que se concentraram exclusivamente num único segmento da filosofia, a Dialética, assim a apreciação da arte desprestigiou-se muito com a hipervalorização da crítica de arte, e a hegemonia dos marchands na mídia.
Necessitamos tornar a arte uma experiência existencial – se isso ainda for possível. Preferir a resposta quase inaudível da sensibilidade verdadeira à voz estentórea dos aristocratas e plutocratas da arte. Como dizia Kenneth Clark, a apreciação da arte começa com a apreciação de uma gravata, de um buquê de flores, ou com a escolha que uma mulher faz de sua maquiagem.
Mas atenção: apenas começa!
Eis por que criticávamos, anteriormente,os que se fiam apenas de sua sensibilidade! Repetimos: a sensibilidade por si só não basta.
Primeiramente, porque a sensibilidade pode ter sido distorcida na infância ou na adolescência mediante uma educação incorreta.
Em segundo lugar, porque a sensibilidade não é um bloco de granito, mas uma semente.
Em terceiro lugar, porque a sensibilidade é uma janela aberta, e há sempre a possibilidade de abri-la em diferentes horas do dia e da noite. Não se vê, através de uma janela, apenas o sol. As estrelas, vistas de uma janela, podem ser tão cativantes como o sol.
Por outro lado, a sensibilidade, que se associa à inteligência, à memória social, à imaginação dos verdadeiros artistas, e à sensibilidade e à inteligência dos melhores historiadores e críticos, pode progredir indefinidamente.
Remato estas considerações com um episódio,que me foi referido, na década de setenta, pelo artista plástico e poeta alemão, Christoph Meckel que, a convite do Instituto Goethe, visitava Porto Alegre:,
- Fiz uma exposição de minhas gravuras em Londres, contou-me Meckel. Durante a exposição, apareceu na galeria o famoso escultor Henry Moore, que teve a gentileza de me convidar a visitá-lo no seu atelier. Na data marcada, fui ao encontro de Moore. O escultor mostrou-me suas mais recentes obras, depois me convidou a conhecer sua coleção pessoal de arte. De repente anunciou-me que reservara para o final a mais bela obra de arte que possuía. Fez um pouco de mistério, e a seguir conduziu-me a uma espécie de “capela” de sua residência, em cuja parede existia somente uma tela: uma paisagem de Cézanne! “É meu maior tesouro!” exclamou Moore. Ficamos os dois em silêncio durante longo tempo, diante da pintura do Mestre de la Saincte-Victoire...
A arte não existe sem uma atitude tão humilde!

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