quinta-feira, 17 de março de 2011

O Declínio das Artes Visuais (III).

Num de seus textos em prosa, a poeta americana, Elizabeth Bishop, que viveu muitos anos no Brasil, conta sua experiência de jovem escritora numa oficina literária que dirigiu em 1934:
- Henry James afirmou uma vez que todo aquele que aspira tornar-se escritor deve escrever em sua flâmula uma única palavra: “Solidão”.. No caso de meus alunos, o que eles necessitavam não era excluir-se da sociedade, e sim entrar nela. O problema deles era que “Solidão” havia sido escrita em suas flâmulas sem que eles pedissem, e era por isso que queriam tornar-se escritores.(...) Escrever (para eles) era uma maneira de diminuir a solidão.(Esforços do Afeto.Trad. de Paulo Henriques Britto. São Paulo, Companhia das Letras, 1996. p.71).
Elizabeth Bishop não minimiza o fator subjetivo, mas parece não valorizá-lo especialmente. Nós o valorizamos.
Todo escritor, em certo sentido, escreve porque quer fugir à própria solidão, ou à solidão dos outros. Não há mal nisso. O mal estaria em alguém querer ser escritor para impor-se aos outros, para pavonear-se, para...
Qualquer outra razão, que não seja existencial é, em nossa opinião, suspeita.
O mesmo vale para a Arte em geral. Mil vezes um certo egoísmo, uma certa pressão psicológica interior, do que a pretensão de ser artista para brilhar!
 Os verdadeiros artistas sofrem por serem artistas. É verdade que também, segundo dizia Antonio Gaudí, Deus lhes impõe aos ombros pesados fardos para que não se enfatuem, pois a alegria de criar é tão grande, que seria uma injustiça, em relação aos demais homens, privilegiá-los sem exigir-lhes nada.
Uma das razões do declínio das artes visuais é a falta de convicção pessoal dos artistas. A mercantilização, a busca da fama, e não raro, a sofreguidão pelo dinheiro, tem impedido o surgimento de autênticas vocações plásticas.
Sempre nos impressionou descobrir, nas biografias de grandes artistas, a angústia que eles sofrem em relação à própria criação.
Talvez na Idade Média, quando a vocação artística não estava vinculada à expressão pessoal da sensibilidade e da Weltanschauung do artista, mas prioritariamente às necessidades litúrgicas ou de suntuosidade das classes altas, não tenham eles padecido tais angústias. A partir do Renascimento, a sensibilidade do artista ganhou cada vez mais possibilidades de expressão. Em nossa época, tal possibilidade chegou ao paroxismo. Hoje o artista sente orgulho em proclamar que pinta para si mesmo - e que se lixa para a opinião alheia.
Ledo e ivo engano! – como disse, certa vez, o Luís Fernando Verissimo.
Da mesma forma que ninguém vive para si (a Bíblia o disse), ninguém pinta ou esculpe para si. Seria o mesmo que dizer que a fala existe para que cada um fale consigo mesmo. Falar consigo é uma das razões da fala, mas não a principal. Falamos porque desejamos comunicar-nos, e também, porque desejamos expressar-nos. A comunicação tem a ver com a prosa. a expressão com a poesia. Nas Artes Visuais sucede o mesmo: usamos as imagens para comunicar-nos, e as artes visuais, para expressar-nos.
Deploravelmente, as rupturas, algumas absolutamente necessárias, outras puramente lúdicas (ou de uma gratuidade escandalosa), que se sucederam às primeiras “Revoluções Artísticas” do século XIX-XX, nos habituaram ao jogo e ao esnobismo. A artes visuais,
Inicialmente solicitadas pelas exigências de mercado da sociedade industrial, as artes visuais sentiram-se lisonjeadas com as mordomias oferecidas. Em breve, porém, outras formas de reprodução as substituíram: a fotografia, o cinema, etc. A tentativa de concorrer com estas, foi prejudicial às verdadeiras artes visuais. A pintura, que quer ser fotografia, ou pior ainda, que quer ser cinema, dá-se mal. O que houve foi um pular-a-cerca desabrido, que terminou num hibridismo sem graça. Uma coisa é aproveitar-se do que há de plástico nas novas invenções, outras querer competir com elas.
Se há declínio nas artes visuais, é porque os artistas querem ser pintores, escultores, gravuristas, xilógrafos, etc., renegando o que constitui a essência de tais artes. Estamos cercados de artistas que não sabemos o que são. O público tem, em geral, a impressão de que se trata de moedeiros falsos, de trapaceiros.
É hora de definirmos, com clareza, os diversos campos. A multidiversidade artística é tão interessante como uma genética que perdesse de vista seus objetivos, e resolvesse clonar o que lhe aparecesse por diante. Monstros já existem em número suficiente, sem que possamos impedi-los, já que um certo número de fatores ambientais, e de outra natureza, são incontroláveis.
Sejam bem-vindos, portanto, os artistas visuais que ousam assumir-se como tais, que definem seu território de atuação, e que – principalmente – desejam expressar sua própria sensibilidade, favorecida pela memória do passado, e pela imaginação criativa, que lhes permita ultrapassarem o passado, sem o esquecerem.
Estamos cansados de artistas sem sensibilidade, comandados por controles-remotos, responsáveis por obras destituídas de raízes culturais, sem ligações com o próprio povo, sem ressonâncias sociais verdadeiras. O público fatigou-se de ver o que tediosamente vê nas telinhas de televisão, metamorfoseado em obras pretensamente plásticas.
Mais vale uma pintura de uma flor - uma simples violeta – do que dezenas de penduricalhos e rabiscos incoerentes, que a imprensa badala como obras de arte.
 Neste momento, evoco, não sem emoção, o Pai da Pintura Moderna, Paul Cézanne:
- Quero assombrar Paris com uma maçã!
 (Palavras ditas ao crítico Gustave Geffroy. In: Michael Doran: Sobre Cézanne. Conversaciones y Testimonios. Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 1980. p..23).

Nenhum comentário:

Postar um comentário