quinta-feira, 17 de março de 2011

O Declínio das Artes Visuais (II)

Na Idade Média não existiam artistas. Aliás, existiam... e muitos!
Tais artistas não se chamavam a si mesmos de artistas. Os artistas medievais consideravam-se artesãos, ou - a partir do vocábulo latino artifex -  meros artífices.
Foram esses homens que criaram os vitrais de Chartres e Bourges, de Notre-Dame e Laon. Foram eles que lançaram, a uma altura de até 165 metros, as flechas das Catedrais, e produziram miniaturas, afrescos, polípticos, e tapeçarias de elevado nível artístico.
Atualmente, qualquer pessoa, sem passar por nenhum aprendizado específico, sem se inscrever em nenhum grêmio, às vezes sem produzir nada de valioso, manda imprimir um cartão de visita com a menção: artista plástico.
Não censuramos a afoiteza desses indivíduos! Exigimos-lhes apenas provas de talento.
Quem se dá ao trabalho de apresentá-las?
Não admira que os verdadeiros artistas se sintam defraudados.
Um Georges Rouault, por exemplo, refere que ouviu um pai, a visitar um museu, que explicava aos familiares que o acompanhavam, pensativo e respeitoso, uma peça de Rodin:
- Acho que é um tronco de árvore...
Por que não? Um objeto de arte é, primeiramente, aquilo do qual ele é feito. Se se trata de uma escultura em madeira, o objeto artístico é, primeiramente, um tronco de árvore.

Obviamente, o pintor estava se referindo a outra coisa: ao signo embutido na matéria. Do mesmo modo que uma letra impressa no papel é, antes de mais nada, uma mancha de tinta, não há dúvida de que a mancha pode ser, também um belo poema de Baudelaire.
A questão que se impõe, neste momento, é a da re-alfabetização estética.
Ninguém entenderá certas esculturas da Idade Média sem um mínimo de referências iconográficas e doutrinais. Como “ler” um painel mitológico, de Rembrandt ou de Géricault, sem levar em conta o episódio que nele está representado? Poderemos abranger a genialidade do ciclo sobre a Vida de São Francisco, de Giotto, na Basílica Superior de Assis, sem ter idéia dos fatos biográficos do Santo? Sejamos razoáveis: não podemos, sequer, entender nosso Pedro Weingärtner  sem um mínimo de conhecimentos mitológicos, ou das tradições gaúchas.
O advento da Arte Abstrata habituou-nos a uma espécie de leviandade em termos de interpretação estética. Qualquer sujeito, ciente de que a obra abstrata não possui um tema (não é uma paisagem, nem um nu, nem qualquer outra realidade identificável do mundo visível), planta-se diante dela como um ditador se planta diante de seus esbirros, e determina o que julga ver na pintura que tem diante dos olhos:

- É uma droga! Um borrão inclassificável...

ou, com igual empáfia:

- É um prodígio estético...

Talvez valha a pena meditar – meditar, eis a palavra! – este trecho de Gustavo Corção:

- Para muita gente que ouve música ou vê pinturas, o que vale é a escala convencional de valores. Não vêem, mas veneram a consagração, e até gostam de ver o que todo o mundo diz que é sublime para ter participação na festa da sublimidade, e poder dizer, em qualquer momento, que viu ou que ouviu. Ou então, os mais independentes, ou os menos socializados como hoje diríamos, vêem ou ouvem o agrado imediato, a evidência superficial da obra, partindo da falsíssima idéia de que, estando diante de um quadro estão diante de um quadro. Ora, pode perfeitamente acontecer que estejam fisicamente diante do quadro e esteticamente e, espiritualmente, a léguas de distância. A pintura, sob esse ponto de vista, foi a mais ultrajada das artes. Pelo fato de estar toda ela atualmente na tela, e instantaneamente oferecida, pareceu ao respeitável público que paga e mantém as instituições que ele tinha o direito de exigir uma evidência que lhe permitisse chegar ver e entender. Será preciso explicar-lhe que arte alguma é assim evidente como um esbarro físico, como um clarão ou uma queimadura. Ao contrário disso, o objeto de arte tem a obscuridade própria dos grandes segredos e exige leitura, aprofundamento, caminho andado para que a mente e o coração cheguem aonde já chegaram as pernas. (O Desconcerto do Mundo. Rio de Janeiro, Agir Editora, 1965. p. 229-230).
Por mais respeito que possamos dedicar a um político como ex-Presidente dos USA Clinton,  ou ao Primeiro-Ministro italiano atual, não conseguimos ir além de um confuso sentimento de pena, sempre que refletimos sobre o que dizem sobre Arte.
Tempos atrás, os repórteres reproduziram nos jornais as expressões de admiração de Clinton perante os afrescos de Miguel Ângelo na Capela Sistina: algo de um sensabor impressionante!
Quanto ao Sr. Berlusconi, todo o mundo sabe o que está acontecendo com o patrimônio artístico italiano. A frase: “Não há verbas...” serve para justificar atentados terroristas estéticos! Sobram verbas para tudo na Itália, principalmente para o esporte. Pagam-se noitadas para futebolistas, e viagens de lazer para “síndacos” de cidades peninsulares. O legado, porém, dos grandes criadores é desprezado, como se despreza a Natureza.
A tais extremos chegamos!
Numa de nossas crônicas, advertimos os leitores de que não nos admiraríamos se algum facínora de primeira grandeza jogasse uma – ou muitas bombas – sobre um templo como o Duomo de Firenze. Com tais bagagens culturais, ou antes, com tão pífias mochilas culturais, não temos a menor  garantia de preservação de nenhum tesouro tombado pela UNESCO!    
O mundo contemporâneo está necessitado de uma re-fontalização, não só espiritual, mas memorial.
O problema é de memória. Estamos ficando amnésicos, intoxicados por novidades que se acavalam sobre novidades, como se uma novidade, por si só,  fosse um valor. Poucos parecem perceber que, à medida que a memória se debilita, também a imaginação se debilita. Memória e imaginação são os dois braços da cultura. Uma cultura maneta está condenada à ineficiência, e ao ridículo.
O pior cego é o que não quer ver. A pior falta de cultura é a que presume de sua importância, sem ter a coragem de confrontar-se com o que fizeram os grandes homens da História.
A preservação dos bens culturais pressupõe a preservação da memória dos valores do passado. Se não os assumimos, porque os achamos obsoletos, tenhamos a lucidez de saber o que eles significavam para seres humanos, eventualmente melhores do que nós.

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