quinta-feira, 17 de março de 2011

O Declínio das Artes Visuais (I)

Fui professor de História da Arte na UFRGS durante quase 30 anos: eis por que sou interpelado por amigos que querem saber por que as pessoas deixaram de apreciar as artes visuais.
- Parece – dizem tais pessoas - que nossos olhos se tornaram glutões: só apreciam a mega-arte!
Admitamos um fato: houve, nas últimas décadas, um declínio no apreço às artes visuais.
É um declínio tão difícil de diagnosticar como o câncer: o tumor está diante de nossos olhos, uma simples ecografia basta para revelá-lo.
Por que se originou tal tumor?
Sabemos que o câncer é uma enfermidade que comporta variados elementos. Na realidade, o câncer não é uma doença: é várias. Não há câncer que não inclua um componente psíquico. Não há câncer que não apresente, também, componentes patogênicos específicos. Não há câncer que não deva qualquer coisa à alimentação, ao ar que respiramos,  e até – quem sabe? – às idéias que defendemos.
Lembro-me de que, nos primeiros tempos, a arrogância dos clínicos era tal que riam às gargalhadas quando alguém tentava associar um câncer a um estado depressivo. Hoje, eles mesmos têm medo dos próprios estados depressivos: sentem que podem estar acariciando um leão, cujos dentes nunca foram substituídos por próteses;
E... as Artes Visuais?
Sem dúvida, não são um câncer! Mas nossa inapetência em relação a elas tem a ver com fatores cancerígenos.
Ocorre que passamos de um tipo de sociedade a outro. De uma forma de vida a outra. Nossos olhos não conseguiram, ainda, imunizar-se contra as novas condições de vida. Alguém disse que um indivíduo do século XXI vê, num dia, o que um indivíduo do século XIII, um medieval, via num ano, ou até... em toda a vida.
Exagero?
Sob muitos pontos-de-vista, a afirmação não deixa de ser razoável.
No século XIII não existiam as técnicas de reprodução. Refiro-me, aqui, ao conhecido ensaio de Walter Benjamin: A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução. (Walter Benjamin, Max Horkheimer, Theodor W. Adorno, Jürgen Habermas. Textos Escolhidos. São Paulo, Editor Victor Civita, 1975. Col. Os Pensadores XLVIII. p. 9-34). Seria ótimo se os leitores pudessem refletir sobre páginas tão lúcidas.
Basicamente, o artigo de Benjamin desenvolve o seguinte ponto:
- As técnicas de reprodução são um fenômeno novo, que nasceu e se desenvolveu no curso da história mediante saltos sucessivos, separados por longos intervalos, mas num ritmo cada vez mais rápido. (Ibid. p. 11).
Para informação do leitor, lembremos algumas dessas técnicas: a fundição, a cunhagem, a cerâmica, a gravura em madeira (xilogravura), etc.
O que pretendemos evocar é a incrível, quase monstruosa, facilidade que temos de reproduzir. Ela tomou conta da humanidade nos últimos séculos. Nossos olhos passaram, das quadrigas do filme Ben-Hur , das carretas de bois, dos coches, de 10 a 20 quilômetros por hora, aos bólides que atingem 250 km. Os homens literalmente, não só imaginaram botas-de-sete-léguas, mas passaram a usá-las.
Como é que os olhos não reagiriam a isso? Como é que a memória das pessoas não reagiria a tais acúmulos de imagens? Como é que a imaginação, principalmente de nossos adolescentes, não reagiria a tão fascinantes efeitos especiais?
Não pretendemos discutir se isso foi bom ou não.
Aconteceu.
Se Mozart ou Beethoven viessem ao mundo contemporâneo, e se encontrassem , de repente, no centro de São Paulo, New York ou Paris, ou mesmo, em qualquer cidade acima de 100.000 habitantes, o que diriam?
Cremos que teríamos de obrigá-los, antes de mais nada, a imitarem a princesa, mencionada numa biografia sobre Napoleão Bonaparte. O terrível corso tentava convencê-la da necessidade de decisões a serem tomadas. Para dobrar a teimosia da princesa, Napoleão – é ele próprio quem o revela – convenceu-a a assentar-se...
Talvez fosse a primeira medida a aconselhar a Mozart ou a Beethoven! Assentar-se para deixar passar o pasmo, o estupor, talvez a indignação... Como ouvir música clássica no bojo de um ciclone decibélico?
Apressamo-nos a dar aos leitores uma observação de Henri Matisse, um dos artistas mais criativos da modernidade:
- Quando se passeia de carro, não se deve ir mais que a 5 km. por hora... Caso contrário, não se vêem as árvores. Para uma viagem mais longa, é melhor ir de trem do que de carro. Quando me instalo no trem, tenho todo o tempo para pensar, sonhar, ser eu mesmo, até chegar a Paris! (Entrevista a Léon Degand. Incluída em: Reflexiones sobre El Arte Textos y notas redactados por Dominique Fourcade. Traducción de  Susana Soba Rojo. Buenos Aires, Emecé Editores, 1977. p. 404).

Declínio das artes visuais?

Declínio delas, e de nossa atenção, declínio, igualmente, do respeito que se deve à uma figura, isto é, a uma ficção visual, declínio do amor às sombras fugidias que encantam nossos olhos, mas que se deixam ver apenas a olhos não apressados.  
Quando os chineses se referem, em atitude reverencial, a um simples retângulo de seda, ou de papel, onde pintaram um galo ou seus delicados bambus, eles sabem que a pequenez da criação artística vale mais que uma montanha de papel. Sabem, também, que a engenharia, em si mesma, não é arte, embora ela sirva para construir uma ponte, ou edificar um palácio. Engenharia faz-se sem sentimento.
Sem sentimento não se faz sequer um bolo de casamento!

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