sábado, 12 de março de 2011

Novas Lembranças de Manuel Bandeira


Em novembro de 1964,logo que cheguei ao Rio de Janeiro  para receber o Prêmio da Associação Brasileira de Escritores, telefonei  a Manuel Bandeira. Após identificar-me como o moço vencedor do Concurso de Poesia Gonçalves Dias, o Poeta  consentiu em receber-me.
Numa bela manhã carioca, por volta das 11 horas, fui até ao apartamento do Poeta.
 Aproveito a ocasião para referir que tinha tido, pouco antes, uma conversa com Carlos Drummond de Andrade. Tendo-lhe dito eu, que a minha geração o considerava o Poeta-Mor do Brasil, o Poeta sorriu, desconfiado, e em seguida me disse:
- O poeta que eu mais admiro é Manuel Bandeira. Gostaria de escrever como ele!
Terei guardado as palavras literais do Poeta? 
Guardei, sem dúvida, o sentido delas.
A primeira impressão que tive, ao entrar no apartamento de Bandeira, foi de falta de espaço. O Poeta morava num apartamento pequeno, abarrotado de livros, com quadros e esculturas em toda a parte. Recordo que, após a ofuscação do primeiro momento, procurei identificar a famosa estatuazinha de gesso daquele seu poema Gesso, do livro Ritmo Dissoluto, um dos poemas que mais aprecio, o qual principia assim:
-Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova
- O gesso muito branco, as linhas muito puras –
Mal sugeria imagem de vida
(Embora a figura chorasse).
Há muitos anos tenho-a comigo.
Vendo que eu me interessava pelos quadros, Bandeira forneceu-me detalhes sobre esta ou aquela tela. Depois, conversamos sobre coisas comuns: o que achava do Rio, em que cidade do Rio Grande eu nascera, etc. Por fim, Bandeira fez alguns comentários sobre A Surprêsa de Ser, meu livro premiado. Disse-me uma coisa que, mais tarde eu iria experimentar na própria pele:
- Cheguei a me cansar de ler tanta poesia! De repente, o Drummond me telefonou: “Lê aqueles originais...”
Aproveito a ocasião para contar que Drummond, anteriormente, me mostrara algumas das fichas que fizera, `a medida que ia lendo os poemas de cada concorrente. Ele anotava o título, o pseudônimo, etc. Em seguida, escrevia um breve comentário sobre os poemas lidos.
Não tenho muita coisa a referir sobre meu encontro com Bandeira, a não ser o seguinte: ofereceu-me um café que ele mesmo preparou na sua mini-cozinha. Deu-me um exemplar de seus poemas, e me desejou agradável estadia na cidade. Tudo isso com uma bondade paternal, com uma gentileza inexcedível. Guardei dele essa lembrança maravilhosa. E, também, a lembrança de seus dentes salientes.
Eu não sabia, naquele encontro, que Bandeira gostava de crianças, de animais, sobretudo de cachorros. Que não gostava de cáqui, nem de melancia. Que suas orações prediletas eram o Pai Nosso, e um verso de Verlaine: Seigneur, délivrez-moi de l’orgueil toujours bête! Que gostava de cinema falado, rádio, e de poetas de segunda ordem. Que não tinha religião, mas que a sua simpatia ia para a católica. Que seus compositores prediletos eram Bach, Haydn e Mozart. Que se gabava de fazer muito bem sorvete de café e doce de leite. Que não se casara porque perdera a vez. Que ria com muita facilidade porque era dentuço!
Como não afeiçoar-se a um Poeta com essa singeleza?
Foi o que aconteceu comigo.
Não imaginava, porém, que, com o passar dos anos, descobriria outra verdade, que o faro de Drummond já me apontara:
- Bandeira foi o poeta mais brasileiro que existiu! O mais simples, o mais musical, o que trouxe ao seu povo a poesia mais feliz e contagiosa!

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